miniaturadaimagem|Alinhamento das guarnições gaúchas durante o golpe O III Exército Revolucionário foi o comando unificado das forças do Exército Brasileiro que aderiram ao golpe de Estado no Brasil em 1964 no sul do país. Surgiu em 2 de abril pela autoproclamação do general Mário Poppe de Figueiredo, responsável pela 3ª Divisão de Infantaria em Santa Maria, como comandante do III Exército. Revolução era a autodenominação do golpe de Estado. O III Exército era sediado em Porto Alegre e comandado pelo general Ladário Pereira Teles, leal ao governo de João Goulart e contrário ao golpe. Com a saída de Goulart de Porto Alegre e o triunfo do golpe sobre seu governo, em 3 de abril Ladário abriu mão de seu comando e Poppe de Figueiredo assumiu o III Exército em Porto Alegre, pondo fim à dualidade de comando.
Em 1961 o III Exército garantiu a posse de Goulart como presidente ao participar da Campanha da Legalidade. Em 1964 o presidente novamente contou com o III Exército, conseguindo Ladário no comando em 1º de abril e desembarcando em Porto Alegre no dia seguinte. Porém, a maioria das guarnições do sul estavam contra ele, invertendo a situação de 1961. Militares oposicionistas, especialmente da média oficialidade, haviam conspirado contra o presidente e conseguiram durante o golpe a adesão de seus companheiros, mesmo os até então leais ao governo. Os governadores do Rio Grande do Sul, Ildo Meneghetti, e do Paraná, Ney Braga, participaram do golpe. A pressão dos governistas em Porto Alegre obrigou Meneghetti a transferir sua capital através da Operação Farroupilha. Enquanto isso, houve mobilização entre as baixas patentes em favor de Goulart. Surgiu a perspectiva de luta entre a maioria das unidades leal a Poppe de Figueiredo e a minoria leal a Ladário, mas Goulart não aceitou o combate e deixou Porto Alegre.
As divisões eram seis, a 5ª Região Militar/Divisão de Infantaria (5ª RM/DI) no Paraná e Santa Catarina e as demais no Rio Grande do Sul. Na 5ª RM/DI o comandante legalista, o general Silvino Castor da Nóbrega, foi impedido de desembarcar, assumindo em seu lugar o general Dário Coelho. A unidade aderiu ao golpe e foi provisoriamente incorporada ao II Exército, de São Paulo. Na 3ª DI e 2ª e 3ª DCs, houve adesão com importante pressão dos oficiais sobre seus comandantes — Poppe de Figueiredo, Joaquim de Mello Camarinha e Hugo Garrastazu. Na 1ª DC e 6ª DI a situação era complexa. O comandante da 1ª DC, João de Deus Nunes Saraiva, permaneceu legalista mas seguiu a Porto Alegre, enquanto partes de sua divisão aderiam ao golpe. O comandante da 6ª DI, Adalberto Pereira dos Santos, era conspirador mas teve que deixar sua sede em Porto Alegre e comandar a partir de um de seus regimentos em Cruz Alta, enquanto na sede o comando foi assumido pelo coronel Jarbas Ferreira de Souza e as unidades estavam em tese legalistas. Em todas as divisões havia dissensão entre oficiais favoráveis e contrários ao golpe. Entre as unidades menores não subordinadas às divisões, o posicionamento legalista notório foi do 3º Batalhão Rodoviário, em Vacaria.
Contexto
Na década de 1960 o Exército Brasileiro tinha suas forças concentradas no Rio de Janeiro e no sul, isto é, no I e III Exércitos. O III Exército tinha duas Regiões Militares (3ª e 5ª), três divisões de infantaria (3ª, 5ª e 6ª) e três de cavalaria (1ª, 2ª e 3ª). À exceção da 5ª RM e DI, no Paraná e Santa Catarina, todas estavam no Rio Grande do Sul. As Regiões Militares tinham funções administrativas e territoriais, e a 5ª tinha comando fundido com o da 5ª DI. O território da 5ª RM/DI abrigava uma força terrestre muito menor do que a presente no Rio Grande do Sul. As Divisões de Infantaria tinham ao redor de 5.500 praças cada, organizados em três regimentos de infantaria. As Divisões de Cavalaria, com números semelhantes, tinham (no Rio Grande do Sul) quatro regimentos de cavalaria, um regimento de cavalaria motorizada e um de reconhecimento mecanizado.
Em 1961 o III Exército garantiu a posse de João Goulart na Presidência quando seu comandante, o general José Machado Lopes, participou com suas forças na Campanha da Legalidade em aliança com o governador do Rio Grande do Sul Leonel Brizola. Machado Lopes deixou o comando em outubro de 1961. O III Exército foi novamente um fator em favor de Goulart na antecipação do plebiscito do parlamentarismo, em setembro de 1962. Seu comandante à época, o general Jair Dantas Ribeiro, era o ministro da Guerra em 1964. O comando do III Exército estava desde agosto de 1963 com o general Benjamim Rodrigues Galhardo.
A importância do III Exército em 1961 e o fato do Rio Grande do Sul ser o estado natal de Goulart tornavam-no um refúgio natural para a reação do presidente a um novo golpe de Estado. Assim, a região era prioridade para a alocação de oficiais confiáveis do dispositivo militar do governo. Em 1964, os governistas aparentavam predominar no sul. Porém, no golpe de Estado deflagrado naquele ano o III Exército teve comportamento contrário ao que teve em 1961, participando da deposição de Goulart. Os governistas controlavam o Quartel General e anunciavam ter controle sobre todo o Rio Grande do Sul, mas isso não correspondia à realidade, com a adesão de unidades no interior ao golpe. O controle do governo sobre Porto Alegre foi a exceção.
A mudança refletia a tendência do Exército em todo o país e teve como antecedentes a atividade conspiratória contra Goulart conduzida pelo Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais e, paralelamente, pelo general Olímpio Mourão Filho. Mourão comandou a 3ª DI de 1961 a 1963 e articulou-se com a 6ª DI e a 2ª e 3ª DCs. Mas na conspiração predominava a oficialidade média sob a liderança de alguns coronéis. A conspiração alcançava o comandante da 6ª DI, Adalberto Pereira dos Santos, o governador eleito em 1962, Ildo Meneghetti, e mesmo o QG do general Galhardo, embora ele não fizesse parte. Tanto o governo quanto os conspiradores não tinham confiança em Galhardo. No momento do golpe mesmo as unidades do interior tinham comandantes de confiança do governo, mas muitos, percebendo a derrota do governo, mudaram de posição na última hora para salvar suas carreiras. A pressão dos Estados-Maiores sobre os comandantes foi importante na adesão ao golpe. Um fator adicional foi a ausência de vários oficiais de confiança por estarem de férias.
Um dos efeitos da Campanha da Legalidade foi o fortalecimento do movimento das baixas patentes. Os sargentos atuaram em defesa da posse de Goulart, destacando-se, no caso do Exército, o movimento no 18º Regimento de Infantaria em 1961. Em 1964, os sargentos no Rio Grande do Sul tiveram novamente atuação relevante a favor de Goulart. Brizola discursou conclamando os sargentos a ocupar os quartéis, mas as ações foram isoladas. No Exército como um todo, a lealdade dos sargentos à cadeia de comando foi maior do que na Força Aérea e Marinha.
Comando em Porto Alegre miniaturadaimagem|Ladário Pereira Teles|esquerda
Em 31 de março chegaram as notícias do início do golpe em Minas Gerais. Às 16:30 o general Galhardo pôs o III Exército de prontidão, e às 20:30, informou ao general Adalberto da vinda do general Ladário Pereira Teles. Pelo esquema do governo, Galhardo seguiria ao comando do Estado-Maior do Exército, no Rio de Janeiro, e Ladário à 6ª DI. Como general mais antigo no III Exército, ocuparia interinamente seu comando após a saída de Galhardo. Galhardo quis prender Ladário assim que chegasse a Porto Alegre, mas falhou por falta de apoio de seus oficiais. Às 02:50 de 1º de abril, entregou o comando.
A posse de Ladário contrariou as expectativas de uma vitória fácil do golpe no Rio Grande do Sul. Ele apoiou a tentativa de Leonel Brizola (agora apenas um deputado) e do prefeito Sereno Chaise, cujos correligionários ocuparam a cidade, de repetir a Campanha da Legalidade. Sob pressão, o governo estadual foi transferido a Passo Fundo através da Operação Farroupilha. Apesar do revés, ele conseguiu manter o controle da Brigada Militar, derrotando a tentativa de requisição pelo III Exército.
Ladário recebeu o apoio da Aeronáutica (5ª Zona Aérea) e a inimizade da Marinha (5ª Zona Naval). Dentro do III Exército, o Estado Maior não era de sua confiança, embora seu chefe, o general Otomar Soares de Lima, fosse inimigo dos golpistas. Conforme o coronel José Codeceira Lopes, os elementos pró-golpe no Estado-Maior tinham contatos nos QGs da 3ª RM e 6ª DI e na 6ª Companhia de Polícia do Exército e 1ª Companhia de Guarda; porém, sabiam que uma reação pela força era impossível, pois as tropas estavam leais ao governo. A 3ª RM era comandada pelo general Floriano da Lima Machado, de confiança do dispositivo militar. Em Porto Alegre os comandantes das unidades e os sargentos do Exército, Polícia Militar e, pelo menos em parte, da Aeronáutica eram governistas.
Situação nas divisões 5ª Divisão de Infantaria Situação no Paraná
A 5ª RM/DI era politicamente dividida, com apoiadores e opositores do governo federal. Em reunião em 29 de março, o consenso dos coronéis de Curitiba foi de “assegurar a disciplina em qualquer circunstância, manter a hierarquia e combater o comunismo”. Os governistas eram mais numerosos entre os sargentos. No momento do golpe a região era comandada pelo general Silvino Castor da Nóbrega, que “se não pregava abertamente, de maneira velada defendia as posições do Presidente”. Alguns dos subordinados de Silvino consideravam-no próximo demais da esquerda, mas outros admiravam-no como profissional, disciplinado e legalista. O comandante da Infantaria Divisionária (ID/5), Chrysantho de Miranda Figueiredo, abertamente defendia as reformas propostas pelo presidente.
Silvino e Chrysantho estavam em férias no Rio de Janeiro. O general Dário Coelho, da Artilharia Divisionária (AD/5), comandava interinamente a região. Os coronéis Rubens Barra e Reynaldo de Mello Almeida ficaram responsáveis pela ID/5 e AD/5. Isto era desvantagem para o governo: Dário simpatizava com os conspiradores. O general Carlos Luís Guedes, importante conspirador em Minas Gerais, estava em 30 de março otimista ao saber da presença de Dário no comando em Curitiba. Guedes e Magalhães Pinto, governador mineiro, estavam em contato com Ney Braga, governador do Paraná e participante da conspiração. Porém, ele também incluía alguns esquerdistas dentro de seu governo e chegou a ter indecisão preocupante aos conspiradores. Quando enfim tomou posição a favor do golpe, teve importância decisiva. Muitos paranaenses compartilhavam desse apoio, e os governistas praticamente não montaram resistência.
Embora alguns militares tivessem noção da rebelião iminente, não sabiam de sua data e o golpe foi surpresa. A adesão do general Dário à conspiração só ocorreu à véspera, quando o governador entregou-lhe uma carta de Guedes. As notícias da liderança de Magalhães Pinto e dos governadores Ademar de Barros, de São Paulo, e Carlos Lacerda, da Guanabara, geraram receio, pois os oficiais não gostavam desses políticos.
Rompimento com o comandante miniaturadaimagem|Operações da 5ª RM/DI Em 31 de março, os oficiais em Curitiba combinaram com o general Silvino o envio de um emissário ao Rio para trocar informações. O designado às 14:00 foi o coronel Reynaldo, bem ligado ao General, com uma missão adicional — trazer Silvino ao lado golpista ou convencê-lo a não voltar. Para Chrysantho, de posição mais conhecida, não seria necessário. Com o atraso no vôo, Reynaldo só chegou às 22:00. Já era tarde: às 21:00 a RM foi informada que Silvino e Chrysantho, acompanhados de Ladário, em meia hora embarcariam para assumir seus comandos. O avião decolou às 21:55, rumo a Porto Alegre com uma parada na capital paranaense. Quando sobrevoou Curitiba, às 23:45, não pôde aterrissar, conforme o relato de Ladário, pelo nevoeiro.