miniaturadaimagem|Olímpio Mourão Filho, deflagrador do golpe de Estado O início do golpe de Estado no Brasil em 1964 foi em 31 de março sob a iniciativa do general Olímpio Mourão Filho, comandante da 4ª Região Militar/Divisão de Infantaria (4ª RM/DI) do Exército Brasileiro. A data foi precipitada a partir de Minas Gerais, anulando os planos no Rio de Janeiro para um início posterior em 2 de abril. O golpe teve sucesso em derrubar o governo do presidente da República João Goulart, com a resistência legalista terminando em 2 de abril.

Conspiradores civis e militares pretendiam a deposição de Goulart, e em março de 1964 encontraram apoio na maioria indecisa dos militares após a repercussão de eventos como o Comício da Central, Revolta dos Marinheiros e a Reunião no Automóvel Clube, mas ainda assim havia incerteza sobre a participação dos principais comandantes em um golpe. A possibilidade do golpe de Estado aparecia nos discursos dos apoiadores do presidente. Grande parte dos autores considera 2 de abril como a data para o golpe definida no final de março em São Paulo e na Guanabara, onde estavam conspiradores como os generais Castelo Branco e Costa e Silva. O governo dos Estados Unidos estava ciente da iminência. Entretanto, em Minas Gerais os conspiradores — o governador Magalhães Pinto e os generais Mourão Filho e Carlos Luís Guedes — decidiram antecipar o início e reuniram-se no aeroporto de Juiz de Fora em 28 de março para defini-lo. Os relatos sobre os dias seguintes são contraditórios. Em 30 de março Magalhães publicou um manifesto e Guedes iniciou sua insubordinação ao governo, que, porém, não considerou Minas Gerais como em rebelião. Às 5h de 31 de março Mourão fez telefonemas ao país anunciando o início da revolta.

O primeiro deslocamento militar de Minas Gerais ao Rio de Janeiro foi somente às 10h, e o manifesto pedindo a deposição do presidente saiu às 17h. Até lá, os revoltosos mineiros desmentiam ao governo e imprensa fora do estado a existência de uma revolta. De manhã Castelo Branco, considerando a partida fadada à derrota, tentou sem sucesso revertê-la. As notícias de Minas Gerais espalhavam-se como rumores, e no máximo no início da tarde o governo federal se dava conta do que acontecia. A revolta alastrou-se e o governo foi rapidamente deposto, mas os conspiradores mineiros não conseguiram tirar proveito disso e foram escanteados pelos cariocas e paulistas.

A precipitação do início tem várias interpretações entre militares e historiadores, havendo discordância se prejudicou ou não as chances de sucesso do golpe. Ela é frequentemente considerada uma ação impetuosa de Mourão Filho, mas sabe-se que não foi despreparada. Ela foi possível pela descentralização da conspiração e existem várias ideias sobre seus motivos. Ela envolveu disputas por protagonismo entre os conspiradores mineiros e os dos demais estados e entre Magalhães Pinto, Mourão Filho e Carlos Luís Guedes.

Situação do país 180px|miniaturadaimagem|esquerda|Jango no Comício da Central A profunda crise política no Brasil durante o governo de João Goulart (Jango) chegava a novos patamares em março de 1964. O comício da Central do Brasil, no dia 13, representava sua estratégia de pressionar o Congresso Nacional através dos sindicatos e movimentos sociais de esquerda para aprovar as reformas de base. Os discursos da esquerda denunciavam a conspiração civil e militar contra o mandato do presidente, que explicitamente mencionou possibilidade de ser alvo de um golpe de Estado em seu discurso em 30 de março.

Conspiradores planejavam a deposição do presidente, mas até o estágio final do seu mandato não tinham o apoio da maioria indecisa das Forças Armadas. Os eventos nesse estágio final ofenderam o oficialato e levaram os indecisos à oposição, abrindo caminho para que os conspiradores iniciassem o golpe. Com a ofensiva política do presidente após o Comício da Central, a oposição acusava-o de planejar um golpe e expressou sua força na Marcha da Família com Deus pela Liberdade, no dia 19. Goulart foi visto como leniente com a indisciplina nas baixas patentes ao anistiar os responsáveis pela Revolta dos Marinheiros, nos dias 25-27, e discursar no Automóvel Clube aos mesmos subalternos militares no dia 30. A imprensa questionava a capacidade de Goulart no cargo, os oficiais favoráveis a ele estavam preocupados e os oficiais afastados da política passaram a dar razão à minoria de conspiradores.

Situação dos líderes militares miniaturadaimagem|Amaury Kruel O governo federal tinha como política de nomeações e promoções nas Forças Armadas o isolamento dos conspiradores militares e promoção de oficiais leais, o dispositivo militar. Porém, em março o general Jair Dantas Ribeiro, ministro da Guerra, empregou os feriados para uma cirurgia no Hospital dos Servidores do Estado. Goulart sugeriu que a adiasse, dada a crise política, mas recusou; pode ter sido forma de não bater nem com o presidente e nem com os demais militares. Ele era respeitado entre oficiais centristas e sua ausência tornava o Exército acéfalo. Com sua hospitalização, o posto poderia ter sido ocupado por Armando de Moraes Âncora, comandante do I Exército, ou Anísio Botelho, ministro da Aeronáutica, mas nenhum substituto foi nomeado. Respondia o chefe de gabinete, mas os quatro Exércitos ficaram sem articulação, deixando confusa a reação do governo na hora do golpe.

O I Exército, sediado na Guanabara, abrigava numerosos oficiais legalistas e conspiradores, mas à exceção da 4ª RM/DI, em Minas Gerais, os comandos de tropa estavam com os legalistas. Entre os conspiradores estavam os generais Castelo Branco e Costa e Silva. Costa e Silva teve adesão tardia à conspiração. Castelo, chefe do Estado-Maior do Exército (EME), tinha atuação discreta, mas a partir de 20 de março conferiu legitimidade hierárquica à conspiração ao publicar dois documentos, uma circular oficial do EME distribuída às unidades do Exército e um documento sigiloso e mais subversivo, o Leex (Lealdade ao Exército). Em nome da defesa da Constituição, nas entrelinhas Castelo justificava a desobediência ao presidente. Reunido com sua cúpula militar no dia 24, Jango decidiu exonerar Castelo Branco, mas a medida não foi aplicada imediatamente.

Em 30 de março o general Emílio Garrastazu Médici, da Academia Militar das Agulhas Negras, divulgou uma nota sobre a intranquilidade nacional e a necessidade do respeito à hierarquia. Seus termos eram vagos e poderiam justificar tanto a participação em um golpe quanto a lealdade ao governo.

Em Minas Gerais, ainda na área do I Exército, a conspiração englobava a mais alta autoridade política, o governador Magalhães Pinto, e a militar, o general Mourão Filho, com seu quartel-general em Juiz de Fora, tendo como terceira figura importante seu subordinado Carlos Luís Guedes, comandante da Infantaria Divisionária da 4ª DI sediada em Belo Horizonte. A presença do Exército era pequena e Mourão e Guedes eram generais em final de carreira. Mourão cairia na cota compulsória em maio, sendo aposentado pelo limite de idade de um general-de-divisão. Guedes estava para ser substituído em abril pelo general Nairo Vilanova Madeira, que servia em Manaus.

O II Exército, em São Paulo, era considerado “fiel da balança” por legalistas e conspiradores. Seu comandante, o general Amaury Kruel, tinha prestígio na oficialidade. Para Castelo Branco, sem sua adesão o golpe seria uma aventura inadmissível. Entre a cúpula militar do governo já havia a expectativa de uma adesão de Kruel ao golpe. Semanas antes, exercícios militares simularam uma ação do I Exército contra São Paulo. As tropas legalistas viriam de Minas Gerais; o golpe era esperado a partir do território paulista, não mineiro. Por sua vez, os conspiradores também não tinham garantida a adesão de Kruel. No dia 28 os jornais anunciaram sua iminente transferência do II Exército. A 42 oficiais, ele anunciou que se recusaria a entregar o cargo. A alguns que sugeriam iniciar ali mesmo um levante, respondeu que “A hora tem que ser exata”. Somente no dia 29 ele deu seu “OK” a Castelo Branco. A recusa em entregar o comando é corroborada por um relatório do adido militar americano Vernon Walters em 30 de março, cuja fonte era o general Ulhoa Cintra. Cintra acrescenta que Kruel sentia-se desobrigado de obedecer a Goulart.

O general Benjamim Rodrigues Galhardo, do III Exército, no Sul, também estava sob suspeita do governo, que planejava transferi-lo ao EME no lugar de Castelo Branco. A conspiração gaúcha alcançava até mesmo o QG de Galhardo, mas ele não fazia parte pessoalmente. O governador do Rio Grande do Sul Ildo Meneghetti e o general Adalberto Pereira dos Santos, da 6ª DI, incitavam-no a aderir, mas os governistas aparentavam prevalecer na região. Alguns generais legalistas estavam de férias em 31 de março, como Silvino Castor da Nóbrega, comandante da 5ª Região Militar/Divisão de Infantaria, do Paraná e Santa Catarina. Na sua ausência, em 29 de março os coronéis concordaram em “assegurar a disciplina em qualquer circunstância, manter a hierarquia e combater o comunismo”, mas não falaram em golpe e foram pegos de surpresa quando ele ocorreu. Pela sua desimportância ou a descentralização dos conspiradores, a elite militar na 5ª RM/DI tinha apenas uma noção vaga do que aconteceria, sem data ou detalhes.

O general Joaquim Justino Alves Bastos, do IV Exército, no Nordeste, comprometeu-se com Castelo Branco a participar do golpe e a maioria de seus subordinados estavam descontentes com o governo. Assessores de Goulart questionavam a permanência de Justino no cargo, mas também os conspiradores tinham dúvidas sobre sua adesão, pois ele era considerado oportunista, oscilante e indefinido.

Os conspiradores brasileiros mantinham contato e recebiam apoio do governo dos Estados Unidos. Em 20 de março o presidente americano Lyndon B. Johnson autorizou uma força-tarefa naval para uma possível intervenção na crise brasileira.

No final de março, Castelo Branco acreditava que a sublevação do IV Exército e do III no interior seria fácil, mas a resistência seria encontrada em Porto Alegre e no Rio de Janeiro. A grande questão seria a adesão do II Exército. No dia 28, o marechal Odílio Denys considerava garantidos o Paraná, São Paulo, interior do Rio Grande do Sul, o Nordeste e grande parte da oficialidade do Rio de Janeiro. Mas na realidade havia muita indefinição. Kruel, Costa e Silva, Justino, Galhardo e mesmo Castelo Branco poderiam ou não aderir ao golpe dependendo da correlação de forças.

Definição da data miniaturadaimagem|Castelo Branco|180px|esquerda Conforme o historiador Thomas Skidmore e o jornalista Carlos Castelo Branco, no domingo (29 de março) ou sexta-feira (27), o golpe foi marcado para 2 de abril ou para a madrugada de 3 de abril, aproveitando-se de uma passeata no Rio de Janeiro equivalente à Marcha da Família em São Paulo. Carlos Castelo Branco narra uma definição conjunta por Castelo Branco e Costa e Silva, enquanto Skidmore atribui essa data apenas ao grupo de Castelo Branco. Em 30 de março o Comando Geral dos Trabalhadores denunciou um golpe marcado para 2 de abril. Hélio Silva e outros autores também registram a data de 2 de abril esperada por Castelo Branco.

Thomas Skidmore afirma que antes da Revolta dos Marinheiros Castelo Branco já havia definido a demissão do Ministro da Marinha como sinal para a ação, o que ocorreu de fato com a Revolta. Alguns depoimentos afirmam que o início seria após a exoneração de Castelo — ele se recusaria a entregar o cargo e seria preso, o que serviria de senha para a ação. Conforme o relatório de Vernon Walters em 30 de março (segunda-feira), naquela semana Castelo seria exonerado, publicaria um manifesto e seguiria de helicóptero para São Paulo. A deflagração viria após um sinal a ser definido com antecedência.