O Observatório Astronômico da Universidade Federal do Rio Grande do Sul é uma instituição científica, um museu e uma unidade de ensino da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Está localizado na cidade brasileira de Porto Alegre.
Fundado em 1906 e inaugurado em 1908, tinha como objetivo inicial marcar a hora certa da cidade e fornecer a previsão do tempo. Desde o seu surgimento, foi um órgão de atuação destacada por suas pesquisas e serviços de astronomia e meteorologia. Com equipamentos avançados para a época, o Observatório foi um marco na história da ciência no estado. Mantém até hoje em seu prédio parte significativa dos instrumentos e funcionalidade originais, mas com a transferência das atividades astronômicas principais para um observatório moderno no Morro Santana, as instalações originais foram convertidas em museu de ciências e centro de divulgação científica.
Seu prédio histórico é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, e faz parte do conjunto arquitetônico do Campus Central da UFRGS, declarado Patrimônio Cultural pelo Governo do Estado e incluído pela Prefeitura no Inventário dos Bens Imóveis de Valor Histórico e Cultural e de Expressiva Tradição.
Histórico O surgimento do Observatório se incluiu em um movimento de modernização da sociedade organizado pela elite política e intelectual do Rio Grande do Sul na passagem do século XIX para o século XX. Fortes defensores do positivismo, acreditavam que a industrialização era o passaporte para a modernidade. Assim, estabelecido um padrão horário e uma forma de prever o tempo, a sociedade poderia seguir seu caminho em rumo ao progresso.Araújo, Cesar Augusto Papini. A trajetória do Observatório Astronômico do Rio Grande do Sul : 1907 a 1933 : tecendo relações entre História, Ciência e Patrimônio. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2013, pp. 18-38
O Governo assumiu um papel protagonista e começou a desenvolver o projeto em 1899, mobilizando a Escola de Engenharia para executá-lo. Com o objetivo de dar preparação técnica para os engenheiros nos conceitos de Geodésia e Astronomia, e também de prestar serviços de utilidade pública como a Hora Certa e a previsão do tempo, o Observatório se tornaria um marco na história da ciência local. Sandra Pesavento, ao analisar as transformações urbanas ocorridas na cidade de Porto Alegre no início do século XX, situou a Escola de Engenharia juntamente e as outras instituições de ensino superior ou profissionalizantes a ela ligadas, "[...] como parte do processo de transformações econômico-sociais na qual a cidade impunha-se o aprimoramento de suas elites e a sua profissionalização da mão-de-obra".Apud Araujo, p. 18 O conjunto tinha um caráter de Escola Politécnica, conforme declarou o engenheiro-chefe do IAM em relatório de 1913: "...vereis que nosso instituto progride e em breve estará em condições de poder ombrear com os institutos irmãos de modo a formar um conjunto homogêneo. A Escola de Engenharia, centro de ensino politécnico sólido, base da grandeza de um país." thumb|left|Engenheiro Manoel Itaqui com sua equipe na Sala Meridiana em 1909
Em 1906, o Governo concedeu um terreno e verbas para a construção do Observatório e compra dos instrumentos necessários. Para administrá-lo, em 18 de setembro deste ano foi fundado, como um departamento da Escola de Engenharia, o Instituto Astronômico e Meteorológico (IAM). Projetado pelo engenheiro Manoel Itaqui, o prédio do IAM teve sua pedra fundamental colocada pelo presidente do estado, Borges de Medeiros. Finalmente foi inaugurado em 24 de janeiro de 1908, tendo Itaqui como o primeiro diretor. Entre os instrumentos adquiridos estavam um telescópio Gautier de 190 mm, uma luneta de passagem meridiana Gautier de 75 mm, um pêndulo de precisão Joseph, um cronógrafo Gautier e dois cronômetros de marinha Leroy. Não havia no estado técnicos capazes de instalar e operar os equipamentos. Enquanto o Observatório não entrava em funcionamento, em 1909 o Governo encarregou o IAM de criar 26 estações meteorológicas e 8 estações pluviométricas pelo interior do estado para a previsão do tempo.Vasconcellos, César A. Zen; Bernasiuk, Chistoph & Bica, Eduardo L. Damiani. Observatório Astronômico da Universidade Federal do Rio Grande do Sul: 100 anos. Editora da UFRGS, 2008, p. 14 thumb|Manoel Itaqui observando na Luneta Equatorial Gautier em 1910
Finalmente, em 1911 foi contratado o jovem astrônomo alemão Friedrich Wilhelm Rahnenführer, que logo passou ao trabalho pondo o instrumental para funcionar, fazendo a primeira determinação da Hora Certa em 23 de setembro de 1912, com uma precisão de 2 a 5 centésimos de segundo.Vasconcellos, Bernasiuk & Bica, p. 21 Considerando insuficientes os equipamentos já comprados, encomendou mais um lote a fabricantes suíços e alemães, que chegou entre 1913 e 1914, incluindo uma luneta meridiana Repsold, um cronógrafo Favarger e três pêndulos de precisão, aumentando a exatidão das medições. Foi ainda necessário criar novos espaços anexos ao prédio para as observações. Segundo César Augusto Araújo, "Rahnenführer ampliou consideravelmente a quantidade de equipamentos que hoje compõem a atual coleção. Ele foi quem melhor compreendeu e utilizou os aparelhos; além de observações e cálculos de hora realizou interessantes experimentos para a determinação do magnetismo terrestre e sismologia". Além das atividades técnicas, que desempenhou até sua morte precoce em 1919, Rahnenführer manteve intercâmbios com observatórios estrangeiros, iniciou uma série de publicações, e criou uma nova geração de astrônomos, capacitando engenheiros sem formação prévia na área a dar continuidade às funções do Observatório após sua partida.Araujo, pp. 28-33
Nos seus primeiros anos, os engenheiros foram treinados para fazer previsões de eclipses, observações de duplas, manter o serviço da Hora Certa, elaborar efemérides, coletar dados de sismografia e magnetismo, e coletar os boletins meteorológicos produzidos pelas estações do interior para fazer a previsão do tempo, remetendo-os depois para o Observatório Nacional no Rio de Janeiro, entre outras tarefas. A Hora Certa era obtida pela observação da posição das estrelas e comunicada para a população todos os dias às 19 horas e 55 minutos, quando acendia uma lâmpada vermelha instalada na torre do Instituto Ginasial Júlio de Castilhos, um prédio próximo, e apagada às 20 horas. Através de sinal elétrico a hora era transmitida para a Intendência Municipal, e era possível fazer consultas por telefone à secretaria do Observatório. Anos mais tarde, outros locais altos receberam lâmpadas.
Com a expansão das atividades, o espaço físico se tornou pequeno, e assim em 1921 a seção de Meteorologia foi transferida para outro prédio nas proximidades, onde atualmente funciona a Rádio da Universidade. Em 1922 iniciavam as transmissões de rádio no Brasil, e na década de 1930 o Observatório Nacional passou a transmitir a Hora Certa para todo o país via rádio. Isso tornou obsoleta a produção local de Hora Certa. A partir de 1958, o sinal horário era comunicado através da Rádio da Universidade. O sinal deixou de ser transmitido em 1990 e o serviço da Hora Certa foi desativado, encerrando-se assim um ciclo de relevantes serviços prestados à sociedade.Araújo, pp. 39-40
O Observatório também publicava diariamente o boletim do tempo nos principais jornais da época como A Federação, Correio do Povo e A Manhã, e divulgava as efemérides astronômicas no Céu do Mês, seção que perdurou no Correio do Povo até os anos 1980 com outras denominações. Os fenômenos notáveis como eclipses e cometas recebiam artigos especiais. Segundo Cláudio Bevilacqua, o Observatório "foi uma instituição técnica e científica muito demandada pela sociedade sul-rio-grandense, perante a qual gozava de muito prestígio. A Hora Certa era solicitada por telefone e eram atendidos centenas de pedidos anuais, chegando a 2.090 em 1927 e 4.725 em 1932. A previsão do tempo também era demandada de modo semelhante. Considerando-se as condições da época, estes números assumem grande relevância".Bevilacqua, Cláudio Miguel. "O Observatório da UFRGS: patrimônio histórico nacional". In: Matsuura, Oscar T. (org.). História da Astronomia no Brasil, vol. I. Museu de Astronomia e Ciências Afins do Rio de Janeiro, 2013, pp. 651-652
Em 1934 a Escola de Engenharia e o Observatório foram incorporados à recém-criada Universidade de Porto Alegre (UPA). Em 1947, com a transformação da UPA na Universidade do Rio Grande do Sul (URGS), o Observatório passou a se chamar Instituto de Astronomia, e em 1950 a URGS foi federalizada, dando origem à atual UFRGS. Na Reforma Universitária implementada em 1969/70, a área de Astronomia foi agrupada com a área de Física, e o Observatório passou a ser um órgão auxiliar do Instituto de Física da UFRGS com a denominação que permanece até o dia de hoje: Observatório Astronômico da UFRGS.Levorci Neto, Antonio. Gestão do conhecimento como instrumento de gestão em uma IFES : diagnóstico e proposições para o Observatório Astronômico da UFRGS. Universidade do Vale do Rio dos Sinos, 2017, pp. 72-73
Segundo Bevilacqua, a finalidade principal do Observatório ao ser fundado foi a de prestar serviços como a Hora Certa e a previsão do tempo, que eram de interesse vital para a economia, e não fazer pesquisa, mas esta não foi inteiramente negligenciada. Ao longo dos anos o Observatório realizou pesquisas relevantes, incluindo a medição da variação do polo celeste, cálculos e observações de eclipses do Sol, ocultações de estrelas e trânsitos de planetas, determinação da órbita de cometas, observação de estrelas duplas, além de colaborar na criação da primeira carta isogônica brasileira (mapa da declinação magnética).
Contudo, com a criação do Departamento de Astronomia da UFRGS e a inauguração do Observatório do Morro Santana, no começo da década de 1970, as pesquisas científicas ficaram a cargo deste Departamento e as observações para as pesquisas passaram a ser feitas no Observatório novo.Bevilacqua, pp. 648-649 Ainda assim, o Observatório continuou promovendo a ciência popularmente, e muitas das suas atividades nesta nova fase tiveram significativo engajamento popular, como a observação do cometa Hale-Bopp em 1996, com várias lunetas montadas na Usina do Gasômetro; da máxima aproximação de Marte em 2003, e do cometa McNaught em 2007. No Ano Internacional da Astronomia em 2009 foi montada uma exposição e foram oferecidas observações do céu para o público.Bevilacqua, pp. 651-653 Em 28 de julho de 2009 foi criado o Museu do Observatório.
Administração e atividades thumb|left|Luneta Equatorial Gautier
O Observatório Astronômico se define como "órgão auxiliar do Instituto de Física, tem por objetivo fomentar o desenvolvimento, a educação e a inclusão social por meio da Astronomia e ciências afins, utilizando a pesquisa, o ensino formal e não formal e atividades de extensão, além de resgatar e preservar a memória da Astronomia do Rio Grande do Sul"."Sobre". Observatório Astronômico, 2024
Atualmente o Observatório desenvolve atividades voltadas à comunidade, tais como visita guiada, oficinas, palestras, exposições e observação do céu e efemérides, além de continuar sendo uma unidade de ensino como um local de formação de professores do ensino básico, de transmissão de conhecimento para o público em geral sobre aspectos da Astronomia, e como laboratório prático para os estudantes dos cursos superiores da UFRGS nas áreas da Física, Astrofísica, Engenharia Elétrica, Engenharia Civil, Engenharia de Energia e Geografia.
Em 2015 foi introduzido o agendamento virtual das visitas, possibilitando obter dados sobre o perfil do público atendido. Neste ano o Observatório recebeu 2.287 visitantes, incluindo turmas de 32 escolas, que representavam cerca de 40% do público total. 63% do público escolar e 40% do público não escolar provinham de outras cidades. 5% dos visitantes eram estrangeiros.Levorci, pp. 86-90