José Leandro Andrade (Salto, 1 de outubro de 1901 — Montevidéu, 5 de outubro de 1957) foi um futebolista uruguaio que jogava como lateral-direito. É considerado a primeira estrela negra a nível mundial da história do esporte, sendo apelidado em Paris de Le Merveille Noire ("A Maravilha Negra"),GEHRINGER, Max (set. 2005). Os campeões. Placar Especial "A Saga da Jules Rimet fascículo 1 - 1930 Uruguai". São Paulo: Editora Abril, p. 43 fez parte da chamada Celeste Olímpica, conquistando, entre outros títulos, o bicampeonato olímpico em 1924 e 1928, assim como a Copa do Mundo FIFA em 1930. Por conta disso, ele é um dos 11 futebolistas Campeões Olímpicos e também da Copa do Mundo.olympstats.com/ Olympic Footballers – Gold Medalists and World Cup Championstheguardian.com/ Has any player ever won the Euro, World Cup and Olympics treble?
Andrade chegou a ganhar de alguns historiadores o apelido de "O Pelé dos anos 20", pelo tamanho da idolatria que despertou, parte dela atribuída à fascinação que a cidade de Paris na década de 1920, onde o jogador brilhou, vinha sentido na época pela cultura africana, mesmo que estereotipada - sendo um negro em campo, algo quase inédito no futebol europeu, Andrade despertava uma atenção especial, em viés considerado como "racismo condescendente" do qual soubera tirar proveito.
Quem pesquisa relatos de época de seu estilo, posicionamento e desempenho também o compara ao francês Zinédine Zidane. Teve, porém, uma trajetória na qual é difícil a separação entre realidade e lendas; sua participação em campo era clara: recuperar a bola e entrega-la aos atacantes, sem quase pisar na área rival, mas armando jogo sem descuidar-se do aspecto defensivo, com determinado especialista no futebol uruguaio reconhecendo que a semelhança com Pelé limita-se à cor da pele, esclarecendo que "Andrade jogava como lateral-direito. Poderíamos compará-lo a Marcelo ou a Daniel Alves em seu melhor momento", não sendo na época exatamente o jogador melhor avaliado tecnicamente pelos próprios uruguaios.
Dono de um físico privilegiado (media 1,80 m e pesava 79 kg) era esguio e veloz. Ficaram famosos os seus carrinhos na bola, um recurso chamado de tijera (tesoura), interceptando jogadas com muita desenvoltura. Reunia elegância, inteligência, elasticidade e tenacidade, sendo para os que o viram a conformação do futebolista ideal. Andrade foi eleito o 20º melhor jogador sul-americano e o 29º melhor jogador do mundo em eleições promovidas em 2000 pela Federação Internacional de História e Estatísticas do Futebol, alusivas ao século XX. Também já ocupou o sexto lugar de uma lista de melhores da história promovida pela revista France Football. Sua figura estampa o Hall da Fama da FIFA.
Carreira em clubes Inícios De origem humilde, Andrade começou a se notabilizar no Bella Vista, onde chegou do Reformers em 1923 devido à sua amizade com José Nasazzi, capitão da Seleção Uruguaia. Naquele mesmo ano, Andrade estreou pela seleção, participando da Copa América de 1923.
Desde 1922, o futebol uruguaio passava por um cisma, a durar até 1925, separando os dois principais clubes do país: o Nacional permanecia na liga reconhecida pela FIFA e o Peñarol, em outra, privando os jogadores aurinegros de integrarem a seleção uruguaia.MELOS PRIETO, Juan José (2012). 1921 - El Cisma. El Padre de la Gloria. Montevidéu: Ediciones El Galeón, pp. 42-43 Sem o Peñarol, o Bella Vista de Nasazzi e Andrade tornou-se o principal concorrente do Nacional no campeonato de 1924,MELOS PRIETO, Juan José (2012). 1924. El Padre de la Gloria. Montevidéu: Ediciones El Galeón, pp. 48-49 bem como foi o segundo clube mais representado entre os uruguaios titulares na final da Copa do Mundo FIFA de 1930. Em 1924, Nasazzi e Andrade também integraram como titulares a seleção campeã olímpica.
Ídolo internacional no Nacional thumb|right|350px|O Nacional antes de derrotar por 3-0 o Genoa, na época o maior campeão italiano.
Andrade passou a defender o Nacional inicialmente para diferentes séries de amistosos: em 1925, foram 27 partidas, todas amistosas, em que ele jogou pelos tricolores. Elas incluíram um Superclásico com o Peñarol, e, sobretudo, a vitoriosa excursão do Bolso à Europa. No ano seguinte ao primeiro ouro olímpico do futebol uruguaio e sul-americano, a viagem confirmou o valor do futebol uruguaio. 700 mil pessoas viram a equipe ao longo de 38 partidas. Nasazzi também participou, emprestado. Foram 130 gols marcados, somente 30 sofridos, com 26 vitórias e somente cinco derrotas.MELOS PRIETO, Juan José (2012). 1925 - La Gira de las Giras. El Padre de la Gloria. Montevidéu: Ediciones El Galeón, pp. 50-53 Andrade esteve em doze desses compromissos, sendo derrotado em somente dois deles.
Dentre as equipes que Andrade venceu na excursão estava o Genoa, dono de dois títulos italianos nas três temporadas anteriores e maior campeão do calcio naquela época,BERTOZZI, Leonardo (jan. 2009). O berço do calcio. Trivela n. 35. São Paulo: Trivela Comunicações, pp. 52-55 mas que perdeu por 3-0 em Gênova, e a seleção neerlandesa (derrotada em Roterdã por 7-0). Com Andradade, o Nacional também empatou em 2-2 co o Barcelona em Les Corts, após estar perdendo por 2-0. Esse resultado foi determinante para primeira contratação que o Barcelona fez, no ano seguinte, de um jogador que atuava em um clube sul-americano - foi Héctor Scarone.BASSORELLI, Gerardo (2012). El mejor jugador del mundo. Héroes de Nacional. Montevidéu: Editorial Fin de Siglo, pp. 91-99
thumb|right|350px|A mesma foto acima reproduzida sob a anúncio "o famoso time uruguaio de futebol" nos EUA em 1927. Andrade é o único jogador a merecer uma descrição na escalação: "o maior jogador de cor no mundo, cujas jogadas vêm sendo uma sensação por vários anos".
Não houve campeonato uruguaio naquele ano, com as ligas cismadas reunificando-se em 1926. O Nacional, porém, só voltaria a ser campeão em 1933, nem sempre por falta de méritos: não houve campeonato também em 1930, em função da primeira Copa do Mundo, realizada no Uruguai e para a qual o clube foi base da seleção, com quatro titulares na decisão, incluindo Andrade, e nove convocados,MELOS PRIETO, Juan José (2012). 1930 Montevideo. El Padre de la Gloria. Montevidéu: Ediciones El Galeón, pp. 64-65 que seriam respectivamente cinco e dez se o goleiro Andrés Mazali não fosse previamente afastado uma semana antes da estreia, por indisciplina ao abandonar a concentração de oito semanas.GEHRINGER, Max (set. 2005). Indisciplinado. Placar Especial "A Saga da Jules Rimet fascículo 1 - 1930 Uruguai". São Paulo: Editora Abril, p. 37
Assim, entre 1924 e 1933 as maiores glórias do Nacional se deram no exterior. Andrade novamente defendeu em 1926 o clube somente em amistosos (nove). Em 1927, o time promoveu nova excursão, dessa vez nas Américas Central e do Norte, com vitórias sobre as seleções mexicana e espanhola.MELOS PRIETO, Juan José (2012). 1927 - La Gira por Estados Unidos y Centroamérica. El Padre de la Gloria. Montevidéu: Ediciones El Galeón, pp. 58-59 Andrade participou em dezoito amistosos dessa gira, incluindo-se o triunfo sobre o México e por diversas seleções municipais dos Estados Unidos. Nessa excursão, inclusive, Andrade teria impressionado o jovem jazzista Louis Armstrong, que chegou a procura-lo ao visitar Montevidéu em 1957 e ficar consternado ao saber que o jogador, naquele mesmo ano, havia recentemente falecido.
Embora já viesse defendendo regularmente o Nacional em amistosos desde 1925, em função das constantes temporadas em que houvesse campeonato é que, curiosamente, apenas em 18 de dezembro de 1927 (em empate sem gols com o Rampla Juniors) é que Andrade realizasse sua primeira partida pelo clube válida pela liga uruguaia. Nesse meio-tempo, seguia defendendo regularmente a Seleção, vencendo a Copa América de 1926 e as Olimpíadas de 1928, ano em que também venceu pelo Nacional por 3-0 um amistoso com o Barcelona. Em 1930, então, foi titular na Copa do Mundo FIFA de 1930 ainda como jogador tricolor.
Andrade fez em 2 de novembro de 1930 sua última partida pelo Nacional, em empate em 1-1 com o Montevideo Wanderers pelo "Campeonato Ingeniero José Serrato".
Fim da carreira
Em 1931, Andrade voltou a jogar pelo Bella Vista, como a grande estrela de excursão que a equipe fez pelas três Américas. Ainda naquele ano, apareceu no Peñarol, onde já não fez sucesso. Defendeu os aurinegros inicialmente em quatro amistosos em 1931, entre julho e setembro. Tornou a jogar como carbonero já em março de 1932, mas somente em 17 de setembro daquele ano é que fez sua única partida aurinegra válida pelo campeonato uruguaio, vencendo na ocasião o Racing de Montevideú pelo placar mínimo. Foi também a última das oito partidas que ele realizou como peñarolense. Pôde ser considerado campeão uruguaio daquela temporada, justamente na única vez que Andrade venceu o torneio, ainda que na reserva de Luis Mainardi.ANTÚÑEZ, Marcos Silveira (2011). 1932. Club Atlético Peñarol 120. Montevidéu: Ediciones El Galeón, pp. 60-61
Decadente, passou rapidamente por clubes menores. Em 1933, defendeu no campeonato argentino o Atlanta por uma única partida, ainda pela 4ª rodada, derrotado dentro de casa por 3-1 pelo Vélez Sarsfield. No mesmo ano, voltou ao Uruguai para ser a midiática aquisição do Montevideo Wanderers, mas não chegou a atuar dez partidas pela equipe.
Em 1934, ele então reapareceu no futebol argentino como reforço do Talleres de Remedios de Escalada, que jogava seus últimos anos na primeira divisão argentina. Porém, atuou somente nas duas rodadas iniciais: derrotas de 4-3 para o Racing e de 4-2 para o Ferro Carril Oeste. Foi em temporada atípica, na qual o Talleres foi forçado pela liga a competir em equipe unificada à do rival Lanús. Treinada pelo iniciante técnico Manuel Fleitas Solich, a chamada "Unión Talleres-Lanús" era curiosamente repleta de futuros membros do Flamengo, a exemplo do próprio Solich. Em suas partidas, Andrade compôs setor defensivo com Luis Villa e Sabino Coletta, ambos futuros jogadores flamenguistas, e dividiu plantel também com Agustín Valido e Alfredo González, igualmente rubro-negros no futuro.
O final da carreira de Andrade é obscuro. Atribui-se a ele também uma passagem pelo Argentinos Juniors, em 1936, mas não há registros de partidas suas por este clube na temporada daquele ano no campeonato argentino, tampouco na anterior.
Seleção thumb|right|350px|Seleção Uruguaia que foi campeã olímpica de 1924. Único negro, Andrade é o quinto jogador em pé.
thumb|right|350px|Seleção Uruguaia que foi campeã olímpica de 1928. Um dos dois negros (o outro é o sorridente Juan Píriz), Andrade é o último jogador em pé.
thumb|right|350px|Seleção uruguaia antes da final da primeira Copa do Mundo. Único negro, Andrade é a antepenúltima pessoa em pé.
Estreou pela Seleção Uruguaia de Futebol em 1923, totalizando 34 jogos oficias e um gol. Sua estreia deu-se em 24 de junho, data em que o Uruguai empatou em 0-0 com a Argentina pela Copa Lipton, em Buenos Aires. A Celeste foi a primeira seleção de um país predominantemente branco a usar frequentemente jogadores negros, o que ocorria pelo menos desde a década de 1910, de modo que Andrade não foi o primeiro. Foi, porém, o primeiro a se destacar a nível mundial.
Em 1923, ainda jogava no Bella Vista e naquele mesmo ano, integrou, já como titular, a campanha uruguaia vitoriosa na Copa América de 1923. No ano seguinte, foi titular também na conquista das Olimpíadas de Paris. Lá, foi apelidado de "A Maravilha Negra" pelos franceses. A grande exibição veio em um 7-0 na Iugoslávia, que sentia confiança na vitória após relatórios de espiões que haviam visto o treino dos uruguaios - sem saber que haviam sido descobertos, com os sul-americanos passando a errar propositalmente no treinamento. Os uruguaios inicialmente atraíam vinte mil pessoas; 51 mil viriam a assistir um 5-1 na anfitriã França.