Bilua, também chamado de Mbilua ou Vella Lavella, era conhecido pelos nativos no passado como vekalo pesio. A língua é falada nas ilhas de Vella Lavella e Ghizo, com aproximadamente 9.000 falantes distribuídos entre essas regiões. Segundo uma lenda, falantes do bilua chegaram à vila de Saeragi, em Ghizo, devido a uma migração da região de Bilua.

A ilha de Vella Lavella, localizada nas Ilhas Salomão, abriga cerca de 85 línguas indígenas, a maioria pertencente à famíliaaustronésia. No entanto, apenas quatro delas, incluindo o bilua, são classificadas como línguas papuas. Há debates sobre essa classificação, pois a família papua não é uma categoria linguística comprovada, mas sim um agrupamento de línguas que não pertencem à família austronésia (não-austronésias). O bilua já foi também classificado como uma língua Indo-Pacífica, mas não há evidências suficientes para sustentar essa hipótese. Atualmente, alguns linguistas o consideram uma língua isolada. Segundo o estudo do linguista Kazuko Obata,o bilua pertence à subfamília Yele-Salomônica, dentro do ramo Salomônica Central da família papua.

Embora o bilua ainda seja uma língua ativa e não esteja em risco imediato de extinção, enfrenta a crescente influência do pijin. Essa língua é ensinada nas escolas e amplamente utilizada nas igrejas, que desempenham um papel central na vida dos habitantes de Vella Lavella.

O bilua utiliza o alfabeto latino e apresenta diversos fenômenos linguísticos, como a reduplicação de verbos, substantivos, adjetivos e numerais. Há a distinção de gênero na terceira pessoa em formas pronominais. Seu sistema de escrita inclui 16 consoantes e 5 vogais, seguindo uma estrutura silábica do tipo consoante-vogal (CV). A única exceção é a primeira sílaba, que pode ser apenas vocálica. Dessa forma, não ocorrem vogais seguidas na mesma sílaba, exceto na palavra ee, que corresponde a 'sim' em português.

Etimologia

Originalmente, a língua era chamada de vekalo pesio. O termo pesio significa 'palavra' ou 'língua', enquanto vekalo não possui uma tradução conhecida. Dessa forma, 'língua bilua' era expressa como vekalo pesio.

Acredita-se que o nome bilua tenha surgido por influência da língua falada em Choiseul, onde bilua era usado para designar uma colina em formato de cone. Posteriormente, os europeus adotaram o termo para se referir a uma faixa costeira inteira. Com a chegada dos missionários metodistas, a palavra passou a ser utilizada para nomear tanto a região de Vella Lavella quanto seus habitantes.

Devido à forte presença desses missionários, os próprios moradores começaram a chamar sua língua de bilua, com uma variação na grafia. Para refletir a pronúncia local, acrescentaram um 'm' no início da palavra, resultando em mbilua. No entanto, não há consenso sobre as origens exatas do termo bilua e sua relação com o a língua falada em Choiseul.

Distribuição Localizada na Oceânia, a Província Ocidental das Ilhas Salomão é a única região onde há falantes do bilua. A língua, com cerca de 9.000 falantes, é restrita a poucas áreas, sendo falada na ilha de Vella Lavella e em Ghizo. Em Vella Lavella, sua presença se concentra principalmente na região de Bilua, enquanto sua diáspora se estendeu apenas até a vila de Saeragi, em Ghizo.

A geografia da região também dificulta a comunicação e a disseminação da língua para além da ilha. Vella Lavella é montanhosa, coberta por uma floresta densa e de difícil travessia, o que pode contribuir para o seu isolamento linguístico. Embora ainda exerça influência local, o bilua é considerado vulnerável devido à crescente expansão do pijin.

Dialetos e línguas relacionadas Na mesma região, encontra-se o dialeto do bilua: ndovele. +Comparação entre o ndovele e biluaNdoveleBiluaPortuguêsmaⁿdeuɔmaⁿdeuumarikuarikuquatroⁿdaraⁿdarasanguevuamauamacérebrokolakɔlafígadosalosalosiⁿdikimoscarakamoⁿdosaperafornovaituvairutuhojesarorosarosarorofriosiusiusitesitemolhado

Nas Ilhas Salomão, há quatro línguas pertencentes à família papua: savosavo, touo (também conhecida como mbaniata), lavukaleve e bilua. Acredita-se que essas quatro línguas estão relacionadas. Aqui está uma das relações filogenéticas das línguas papua:

+Comparação entre as quatro línguas papuaSavosavoTouoLavukaleveBiluaPortuguêsela/patʰufi/aroŋodom/tetelomɔmaⁿdeuumaɤava  āvonunarikuquatrokineɤemasikanimɔluamacérebrokalakalana ōehākɔlafígadokuriɤiⁿdiurususɔusiⁿdikimoscaeɤuē/ēorōlēmoⁿdosaperafornoaziɤaneikɔsɔravairutuhojekakasumbeutaveversarosarorofriosusususu-naɔfususupeitokuⁿdokorokako/ombukokorokokɔkɔrakɔgalinhavoñuɤonuŋgɔnuvɔñutartarugasisihavorovivisasisusisuflorŋai toneⁿdarekakalkakairmão mais velhonunurivenaununuterremoto Apesar de algumas semelhanças, como nas palavras 'tartaruga', 'peito' e 'galinha', não é possível afirmar uma relação entre as línguas. Uma comparação entre os pronomes dessas línguas permite identificar semelhanças mais significativas. +Comparação de alguns pronomes das quatro línguas papua das Ilhas SalomãoProto-SavosavoProto-TouoProto-LavukaleveProto-Bilua1a pessoa singulara-ɲie̤iŋaiani/aŋai2a pessoa singularnonoeŋ0ŋoInclusiva/2a pessoa não singularmemememe1a pessoa exclusivaa-e̤-ee- História

História da língua A língua bilua não era originalmente igual à versão falada nos dias atuais. Ela foi introduzida na região pelo povo Bava, forasteiros que dizimaram a população original.

Ao longo do tempo, o bilua incorporou empréstimos linguísticos de outras línguas de ilhas próximas, influenciado, em parte, pelo casamento entre tribos. Além disso, o pijin, ensinado nas escola da região de Bilua, também exerce influência sobre a língua, resultando em alternância entre ambas durante a fala. Línguas de Choiseul e outras línguas oceânicas também deixaram marcas no bilua. Atualmente, o bilua enfrenta desafios na sua transmissão, pois não é usado diariamente em muitos contextos.

No século XIX, o povo bilua se enfraqueceu devido às guerras internas, permitindo a chegada das missões metodistas. A desestabilização política permitiu ainda que os missionários assumissem um importante papel sociopolítico na sociedade. As pessoas então abdicaram do seu direito de administrar suas próprias políticas e deixaram tudo nas mãos dos metodistas, que agora eram o centro da vida social.

A primeira missão metodista em Vella Lavella foi estabelecida em 1906. Houve alguns conflitos, principalmente com Sito, um líder local acusado de matar alguns europeus. Nicholson, missionário metodista, apoiou os bilua. O conflito de Sito fez com que os europeus colocassem os bilua culpados de todos os eventos indesejáveis que ocorressem na região. Nicholson, ganhou a confiança dos bilua, pois não acreditava em sua culpa. Aos poucos, com estabelecimento dos metodistas, ocorreu a transição para o catolicismo, levanto o povo bilua a aceitar a nova autoridade.

Proto-bilua A construção do proto-bilua vem da comparação entre esta língua e outras três: savosavo, touo e lavukaleve. A intenção era achar semelhanças suficientes entre as quatro para comprovar a existência de uma família linguística Salomônica Central. Devido ao alto contato com outras línguas e a perda durante o tempo, apenas alguns pronomes e numerais do proto-bilua se mantiveram no bilua atual. A reconstrução do proto-bilua entretanto, é puramente especulatória, com o objetivo de encontrar a família Salomônica Central. Por isso, não pode ser levada como definitiva. Estudos complementares a respeito ainda precisam ser feitos.

História da documentação

A documentação da língua bilua ainda é limitada. A primeira gramática completa foi publicada por Kazuko Obata em 2003, embora estudos anteriores, como os de Tryon e Hackman, já existissem.

O primeiro registro escrito conhecido é uma tradução da Bíblia para o bilua, feita em 1919. Essa iniciativa fez parte do trabalho das missões metodista que tiveram grande influência na sociedade local. Em 1920, um filme de 63 minutos foi produzido para divulgar suas atividades em Vella Lavella. Atualmente, há registros orais da língua, incluindo ensinamentos religiosos traduzidos para o bilua preservados em gravações.

História do ensino Antes da chegada dos europeus, a educação do povo bilua era baseada no exemplo. Os mais velhos ensinavam por meio da prática, transmitindo conhecimentos sobre pesca, agricultura e cultura. A língua era passada de geração em geração através da tradição oral, com foco na harmonia, na prevenção de conflitos e na cooperação. Os papéis de homens e mulheres eram bem definidos.

Os primeiros registros do bilua surgiram com a chegada dos europeus. As missões metodistas fundaram escolas para catequizar a população, ensinando alfabetização, técnicas industriais e religião. Os convertidos frequentemente trabalhavam para os missionários como carpinteiros, agricultores e construtores de barcos.

O contato com estrangeiros também influenciou a língua. Palavras em inglês começaram a ser incorporadas ao bilua através do comércio, e a presença de soldados americanos aumentou a demanda pelo ensino da língua. Inicialmente, as escolas ensinavam apenas bilua e roviana, mas os mais velhos pressionaram pela inclusão do inglês, acreditando que traria melhores oportunidades para as gerações futuras.

Fonologia

Consoantes O bilua possui 16 fonemas consonantais. +Inventário consonantal do biluaBilabialAlveolarPalatalVelarPlosivaDesvozeadaVozeadaFricativaDesvozeadaVozeadaAfricadaDesvozeadaNasalLateralRótica/Vibrante

As plosivas vozeadas e a africada possuem alofones: elas são pré-nasalizadas entre vogais. A pré-nasalização não ocorre em posições iniciais de palavras.

/b/,/d/,/g/,/dʒ/ → [mb/ⁿd/ŋg/ⁿdʒ] entre vogais

[b/d/g/dʒ] em início de palavras

Exemplo:

paɪⁿdaɛko → 'terminar' As plosivas desvozeadas e as fricativas desvozeadas são pronunciadas como consoantes longas quando ocorrem na segunda sílaba antes de um ditongo.

Exemplo:

kap̠p̠iaβole → 'rápido' A fricativa bilabial vozeada /β/ possui dois alofones: [β] e [w]. Em algumas variações /β/ é, às vezes, realizado como aproximante [w], especialmente na frente de vogal aberta /a/.

Exemplo:

βaito → retornar

Pode ser pronunciado como: [βaɪto] e [waɪto] A africada vozeada possui dois alofones: [ⁿdʒ] e [tʃ] em algumas variações.

Exemplo:

βaremudʒa → seis

Pode ser pronunciado como: /βaremuⁿdʒa/ e /βaremutʃa/

Vogais Há cinco vogais na língua bilua: +Inventário vocálico do biluaAnteriorCentralPosteriorFechadaMédiaAberta Todos os tipos de combinações entre vogais podem ocorrer e quando elas pertencem a mesma palavra fonológica são ditongos. Quando ocorrem sozinhas, vogais não apresentam alofones. Entretanto, em ditongos, as vogais anteriores e posteriores são realizadas como semi-vogais: [ɪ], [ɛ], [ɔ] e [ʊ]. Quando elas são o segundo elemento: [iɛ], [iɔ], [iʊ], [eɪ], [eɔ], [eʊ], [aɪ], [aɛ], [aɔ], [oɪ], [oɛ], [oʊ], [iʊ], [uɛ], [uɔ]. Isso mostra que a primeira vogal do ditongo tende a ser o núcleo. A única exceção de vogais seguidas, onde nenhuma é semi-vogal, ocorre em um fenômeno chamado de reduplicação, mas as vogais são separadas e não fazem parte da mesma sílaba. Ou seja, não formam um ditongo.

Tons O bilua não é uma língua tonal, mas a entonação varia conforme o tipo de frase.  

Frases declarativas geralmente têm uma entonação decrescente, enquanto sentenças coordenadas apresentam entonação crescente em todas as partes, exceto na última, que é decrescente e seguida de uma pequena pausa.   Frases interrogativas sempre possuem entonação crescente, independentemente do tipo de pergunta.   Frases imperativas mantêm uma entonação estável, sem variações.

Transformações fonológicas