O programa japonês de armas nucleares foi realizado durante a Segunda Guerra Mundial. Assim como o projeto de energia nuclear alemão, sofreu uma série de problemas e acabou sendo incapaz de progredir além do estágio de laboratório, antes dos bombardeamentos atômicos de Hiroshima e Nagasaki e da rendição do Japão em agosto de 1945.
Hoje, a infraestrutura de energia nuclear no Japão torna-o capaz de construir armas nucleares à vontade. A desmilitarização do Japão e o "guarda-chuva nuclear" dos Estados Unidos levaram a uma forte política de não armamento da tecnologia nuclear (ver: Movimento antinuclear), mas diante dos testes de armas nucleares da Coreia do Norte, alguns políticos e ex-oficiais militares no Japão estão pedindo uma reversão desta política.
Antecedentes
thumb|O Instituto de Pesquisa Física e Química (RIKEN) no período Taisho estabelecido no Período Taishō.
Em 1934 foi lançada a "teoria da física atômica", do professor da Universidade de Tohoku, Hikosaka Tadayoshi. Hikosaka apontou a enorme energia contida nos núcleos atômicos e as possibilidades de, tanto a geração de energia nuclear, quanto para a criação de armas."World War II: Japanese Nuclear Weapons/Genshi Bakudan Program" Consultado em 2 de junho de 2022. Em Dezembro de 1938, os químicos alemães Otto Hahn e Fritz Straßmann enviaram um manuscrito para a revista The Science of Nature (Naturwissenschaften) relatando que haviam detectado o elemento bário após bombardear urânio com nêutrons;Hahn and F. Strassmann. Über den Nachweis und das Verhalten der bei der Bestrahlung des Urans mittels Neutronen entstehenden Erdalkalimetalle ("Sobre a detecção e características dos metais alcalino-terrosos formados pela irradiação de urânio com nêutrons"), Naturwissenschaften, Volume 27, Nº 1, 11–15 (1939). Os autores foram identificados como estando no Instituto Kaiser Wilhelm de Físico-Química e Eletroquímica, Berlin-Dahlem. Recebido em 22 de dezembro de 1938. Consultado em 2 de junho de 2022 simultaneamente, comunicaram esses resultados a Lise Meitner. Meitner e seu sobrinho Otto Frisch interpretaram corretamente esses resultados como sendo fissão nuclear e Frisch confirmou isso experimentalmente em 13 de Janeiro de 1939. Físicos de todo o mundo perceberam imediatamente que reações nucleares em cadeia poderiam ser produzidas e notificaram seus governos sobre a possibilidade de desenvolver armas nucleares.
II Guerra Mundial
A figura principal no programa atômico japonês foi o Dr. Yoshio Nishina, um colaborador próximo de Niels Bohr e contemporâneo de Albert Einstein. Nishina foi co-autor da fórmula Klein-Nishina. Nishina estabelecera seu próprio Laboratório de Pesquisa Nuclear para estudar física de alta energia em 1931 no Instituto de Pesquisa Física e Química (RIKEN), estabelecido em 1917 em Tóquio para promover a pesquisa básica. Nishina construiu seu primeiro ciclotron de 26 polegadas (660 mm) em 1936, e outro ciclotron de 60 polegadas (1 500 mm) de 220 toneladas em 1937. Em 1938, o Japão também comprou um ciclotron da Universidade da Califórnia em Berkeley.
Devido à aliança germano-japonesa resultante do Plano de 4 anos da Alemanha, o Japão e seus militares já vinham buscando a ciência nuclear para alcançar o Ocidente em tecnologia nuclear. Isso permitiu que Nishina introduzisse a mecânica quântica no Japão.
Em 1939, Nishina reconheceu o potencial militar da fissão nuclear e estava preocupado que os americanos estivessem trabalhando em uma arma nuclear que pudesse ser usada contra o Japão.
Em Agosto de 1939, os físicos húngaros Leó Szilárd e Eugene Wigner redigiram a carta Einstein–Szilárd, que alertou para o potencial desenvolvimento de "bombas extremamente poderosas de um novo tipo".Copiado do artigo da Wikipedia "Projeto Manhattan". Veja esse artigo para referências. Consultado em 2 de junho de 2022 Os Estados Unidos iniciaram as investigações sobre armas de fissão, que eventualmente evoluíram para o enorme Projeto Manhattan, com o laboratório do qual o Japão comprou um ciclotron tornou-se um dos principais locais de pesquisa de armas.
No início do verão de 1940, Nishina conheceu o tenente-general Takeo Yasuda num trem. Yasuda era na época diretor do Instituto de Pesquisa Técnica do Departamento Aeronáutico do Exército. Nishina disse a Yasuda sobre a possibilidade de construir armas nucleares.Maas, Ad; James Hogg (2008). Scientific Research In World War II. Taylor & Francis. pág. 195. ISBN 9780710313409 Consultado em 2 de junho de 2022 No entanto, o projeto de fissão japonês não começou formalmente até Abril de 1941, quando Yasuda agiu por ordem do Ministro do Exército Hideki Tōjō para investigar as possibilidades de armas nucleares. Yasuda passou a ordem na cadeia de comando para o visconde Masatoshi Ōkōchi, diretor do Instituto RIKEN, que por sua vez a passou para Nishina, cujo Laboratório de Pesquisa Nuclear em 1941 tinha mais de 100 pesquisadores.Dahl, Per F. (1999). Heavy water and the wartime race for nuclear energy. CRC Press. págs. 279–285. ISBN 9780750306331 Consultado em 2 de junho de 2022
x210pxx210pxx210px O terceiro diretor do RIKEN, Masatoshi Ōkōchi, apresentou um relatório sobre a "Possibilidade de fabricação de bombas de urânio" em Maio de 1941. O segundo ciclotron RIKEN, concluído em 1943. Yoshio Nishina, que comandou o esforço de desenvolvimento da bomba atômica do Japão.
Pesquisa-B
Enquanto isso, o Instituto de Pesquisa Tecnológica da Marinha Imperial Japonesa vinha realizando suas próprias pesquisas independentes e havia contratado professores da Universidade Imperial de Tóquio para aconselhamento sobre armas nucleares. Antes do ataque a Pearl Harbor em 1941, o capitão Yoji Ito, da Instituição de Pesquisa Técnica Naval do Japão, iniciou um estudo que permitiria que a Marinha japonesa usasse a fissão nuclear. Após consultar o professor Sagane na Universidade Imperial de Tóquio, sua pesquisa mostrou que a fissão nuclear seria uma fonte de energia potencial para a Marinha.
Isso resultou na formação do Comitê de Pesquisa na Aplicação da Física Nuclear, presidido por Nishina, que se reuniu dez vezes entre julho de 1942 e março de 1943. Após a derrota japonesa em Midway, o capitão Ito propôs um novo tipo de desenvolvimento de armas nucleares designado como "Pesquisa-B" no final de Junho de 1942. Em Dezembro, no interior do projeto, tornou-se evidente que "os cientistas japoneses até acreditavam que mesmo os Estados Unidos não seriam capazes de explorar a energia atômica a tempo de influenciar o resultado da guerra."
Além disso, concluiu em um relatório que, embora uma bomba atômica fosse, em princípio, viável, "provavelmente seria difícil até mesmo para os Estados Unidos realizar a aplicação da energia atômica durante a guerra". Isso fez com que a Marinha perdesse o interesse e se concentrasse em pesquisas sobre radares.
Projeto Ni-Go
O Exército não desanimou e, logo após o Comitê emitir seu relatório, montou um projeto experimental no RIKEN, o Projeto Ni-Go. Seu objetivo era separar o urânio-235 por difusão térmica, ignorando métodos alternativos como separação eletromagnética, difusão gasosa e centrífuga de gás.
Na primavera de 1944, o Projeto Nishina quase não fez nenhum progresso devido à necessidade de quantidade suficiente de hexafluoreto de urânio para o tubo de Clusius. O urânio já fornecido dentro do tubo de cobre foi corroído e qualquer progresso para separar os isótopos de urânio provou estar além de suas capacidades.
thumb|x150px|direita|submarino alemão U-234 rendendo-se ao contratorpedeiro estadounidense USS Sutton em 14 de Maio de 1945.
Em Fevereiro de 1945, um pequeno grupo de cientistas conseguiu produzir uma pequena quantidade de material em um separador rudimentar no complexo RIKEN – material que o ciclotron de RIKEN indicou não ser urânio-235. O projeto do separador chegou ao fim, quando o prédio que o abrigava foi destruído por um incêndio causado pelo bombardeamento de Tóquio de 10 de Março de 1945. Nenhuma tentativa foi feita para construir um reator nuclear; água pesada não era disponível, mas Takeuchi Masa, que estava encarregado do separador de Nishina, calculou que a água leve seria suficiente se o urânio pudesse ser enriquecido em 5-10% de urânio-235.
Enquanto esses experimentos estavam em andamento, o Exército e a Marinha realizavam buscas por minério de urânio, em locais que iam da prefeitura de Fukushima à Coreia, China e Birmânia. Os japoneses também solicitaram materiais de seus aliados alemães e 560 kg (1 230 lb) de óxido de urânio não processado foram despachados para o Japão em Abril de 1945 a bordo do submarino alemão U-234, que no entanto se rendeu às forças dos EUA no Atlântico após a rendição da Alemanha. Para evitar a captura, os dois oficiais japoneses a bordo, Hideo Tomonaga e Genzo Shoji, cometeram suicídio. O óxido de urânio teria sido rotulado como "U-235", o que pode ter sido uma confusão de rotulagem por causa nome do submarino e suas características exatas permanecem desconhecidas; algumas fontes acreditam que não era material para armas e se destinava a ser usado como catalisador na produção de metanol sintético para ser usado como combustível para aviação.Boyd, Carl; Akihiko Yoshida (2002). The Japanese Submarine Force and World War II. Naval Institute Press. pág. 164. ISBN 9781557500151 Consultado em 2 de junho de 2022Scalia, Joseph M. (2000). Germany's Last Mission to Japan: The Failed Voyage of U-234. Naval Institute Press. ISBN 9781557508119 Consultado em 2 de junho de 2022
O ataque também destruiu efetivamente o tubo de Clusius e quaisquer chances de os japoneses produzirem uma bomba atômica dentro de um tempo razoável para influenciar a guerra a seu favor e rivalizar com o Ocidente em armamento nuclear.
De acordo com o historiador Williams, "A mesma falta de urânio de alta qualidade suficiente que impediu o projeto atômico alemão também, como se viu, obstruiu as tentativas japonesas de fazer uma bomba". Esta foi a conclusão do Grupo de Inteligência do Projeto Manhattan, que também relatou que os físicos nucleares do Japão eram tão capazes quanto os de outras nações.Williams, Susan (2016). Spies in the Congo. New York: Publicaffaris. pág. 231. ISBN 9781610396547 Consultado em 2 de junho de 2022
Projeto F-Go
thumb|x227px|direita|Bunsaku Arakatsu, diretor do projeto F-Go.
Em 1943, um comando naval japonês diferente iniciou um programa de pesquisa nuclear, o Projeto F-Go, sob direção de Bunsaku Arakatsu na Universidade Imperial de Kyoto. Arakatsu passou alguns anos estudando no exterior, inclusive no Laboratório Cavendish em Cambridge com Ernest Rutherford e na Universidade de Berlim com Albert Einstein. Ao lado de Nishina, Arakatsu foi o físico nuclear mais notável do Japão.Zeman, Zbynek; Rainer Karlsch (2008). Uranium Matters: Central European Uranium in International Politics, 1900-1960. Central European University Press. pág. 15. ISBN 9789639776005 Consultado em 2 de junho de 2022 Sua equipe incluía Hideki Yukawa, que se tornaria em 1949 o primeiro físico japonês a receber um Prêmio Nobel.
No início da guerra, o comandante Kitagawa, chefe da Seção Química do Instituto de Pesquisa da Marinha, havia solicitado a Arakatsu para realizar o trabalho de separação do urânio-235. O trabalho foi lento, mas pouco antes do fim da guerra ele projetou uma ultracentrifugadora (para girar a 60 000 rpm) que ele esperava alcançar os resultados necessários. Apenas o projeto do maquinário foi concluído antes da rendição do Japão.Dees, Bowen C. (1997). The Allied Occupation and Japan's Economic Miracle: Building the Foundations of Japanese Science and Technology 1945–52. Routledge. pág. 96. ISBN 9781873410677 Consultado em 2 de junho de 2022