A Gruta do Limoeiro é uma caverna localizada no município de Castelo.
Esta é uma das mais importantes cavernas turísticas do Brasil e recebe em seu Centro de Visitantes muitos turistas que percorrem seus escuros ambientes com capacetes e lanternas, guiadas por uma associação de guias locais do próprio distrito de Limoeiro, localizado às margens da rodovia ES-166 que liga as cidades de Castelo e Venda Nova do Imigrante, no coração do Espírito Santo.
Além de ser um grande ponto ecoturístico do interior do estado, a gruta é referenciada por diversos tratados históricos que foram relatados por viajantes, cientistas, políticos e até mesmo poetas.
miniaturadaimagem|Figura 1: Entrada da Gruta do Limoeiro, Castelo - ES
Histórico Não é possível precisar a data de descoberta desta Gruta, no entanto, a região onde a gruta do Limoeiro está inserida é conhecida há muito mais tempo. Logo após as primeiras civilizações terem espalhado na costa atlântica do ES, principalmente pelas iniciativas de padres jesuítas (como José de Anchieta), aos poucos e, provavelmente contando com a ajuda dos nativos, os colonizadores adentravam pelas serras a oeste no intuito de descobrir riquezas e aumentar suas áreas de plantio. Dessa forma se deu uma das primeiras habitações no interior do estado, na cidade atualmente denominada Castelo, cujo nome parece ter sido inspirado nas imensas elevações graníticas da serra do Forno Alto, região quase central do ES. Alguns relatos apontam que teriam sido os jesuítas os primeiros explorar o ouro nas redondezas da gruta, fato refutado por historiadores.
Essa região centro-sul do estado concentra corpos carbonáticos metamorfizados, e que foram também, no passado, locais de mineração de ouro. No livro “História do Espírito Santo”, escrito por Misael Ferreira Penna,Misael Ferreira Penna, 1878 o autor descreve que em 1752 “afluía grande numero de habitantes para as mattas do Castello, onde se descobrira ricas minas de ouro, despertando a avidez de muitos”. A partir deste momento as “Minas-do-Castello” passam a atrair a atenção para a região:
Deve a sua origem a alguns colonos que, tendo assentado vivenda na cabeceira do rio Itapé-Mirim, erigirão naquelle lugar uma capella que dedicarão a N. S. da Conceição, a qual foi erecta matriz, em 1754 por se acharem os freguezes mui arredados da igreja parochial de Guarapari.SAINT-ADOLPHE, 1845a
Contudo, uma tensão constante entre colonizadores e indígenas faziam necessários os encargos de militares que também auxiliariam a coroa na cobrança dos encargos e impostos. Tais tensões aumentaram com a expulsão dos jesuítas dos territórios portugueses em 1759 e, de acordo com Manuel B. Furtado:
As hordas selvagens catechisadas e aldeadas por esses padres, não tendo mais um amigo para os guiar e aconselhar, voltaram ao seu estado primitivo de ferocidade, e, embrenhadas nos bosques e serras inaccessiveis, só de lá sahiam para talar e incendiar as povoações, os campos cultivados e as fazendas, cujos habitantes, aterrados por essas incessantes correrias, abandonavam os seus lares e refugiavam-se nas cidades e villas do litoral.Manuel B. Furtado, 1875
A resistência indígena aos avanços colonialistas no ES resistiu algumas décadas até a chegada de novas tropas que dizimaram os índios e resgataram a mineração de ouro a partir de 1823 e consequente divisão de pequenas porções de terra para quem quisesse se empregar nas lavras de minas.SAINT-ADOLPHE, 1845b Após certo período de paz, as regiões de mineração passam a ser mais exploradas até a descoberta da gruta do Limoeiro.
Em seu livro de 1879, “Provincia do Espirito Santo – sua descoberta, história...”, Bazilio C. Daemon (1834-1893) descreve que a “peleja” entre índios e colonizadores se deu de frente para o local da gruta em 1771, e que os mineiros teriam protegido a fuga de mulheres e crianças em direção ao litoral. Na retirada, deixaram o trabalho de anos de construção de um canal em rocha para trás, montes de areia e demais vestígios da exploração local de ouro, conforme lhe informara uma antiga moradora da região. Daemon ainda visita a “espécie de gruta de Carnac” (sem precisar a data, mas, com certeza, antes de 1879), guiado por Francisco de Almeida Ramos. Munidos de velas de espermacete, os visitantes acessaram salões com estalactites, estalagmites, ‘sinos’ e “restos de ossadas indígenas, mas já em estado de calcinação, parecendo-nos ser aquella gruta o cemitério ou catacumba d’aquelles aborígenes”.DAEMON, 1879
A visita de um Poeta Uma das primeiras e mais pormenorizadas descrições da gruta do Limoeiro, ou “gruta do Castello”, é de autoria de João Zeferino Rangel de Sampaio (1838-1900). Sampaio se consagrou por ser poeta, professor, jornalista e funcionário público, cargo que exerceu em Itapemirim, durante a época de sua visita à gruta em 1865. Com tom poético e ufanista, Sampaio narra sua visita à gruta em tom descritivo na forma de carta dirigida a amigos distantes, afirmando ante a gruta que:
... nunca vi coisa mais imponente. Creio que a famigerada gruta que existe na famigerada península Quiberon (Carnac) com seus obeliscos, com suas alamedas, etc., não tem a menor superioridade a esta, tendo até alguma afinidade encarada como monumento histórico pois estas preservam.VASCONCELLOS, 1868
Vale a pena apontar aqui a coincidência do apelido ‘gruta de Carnac’, comum entre Daemon e Sampaio, o que pode apontar que talvez tivessem visitado juntos a gruta. De certo, como aponta a biografia Bazílio Daemon, os dois eram “íntimos amigos”.DAEMON, 2010 Podemos ainda entender que como ‘gruta de Carnac’ e “seus obeliscos”, o autor devia se referir a dolmens – monumentos megalíticos tumulares presentes na Inglaterra e península da Bretanha, na França – cujos acessos subterrâneos assemelham-se a cavidades naturais.
Sampaio sustenta sua referência a Carnac ao apontar os conflitos que se deram entre a resistência Celta à dominação dos Romanos na península da Bretanha francesa e, mais adiante em seu texto, compara os esforços dos índios Puris em resistir ao avanço dos colonizadores europeus no ES.
O poeta afirma que, em visita à fazenda de José Vieira Machado, manifestou o desejo de visitar a caverna. O nome José Vieira (bem como João Vieira Machado) consta da ‘Carta Corográfica da Província do Espírito Santo’ MARTINIÈRE, 1861 nas cabeceiras do Rio Castelo (Figura 2). Ainda com tom poético ele descreve a um amigo, Fernandes, a:
montanha ... que contem em seu cerebro a cavidade de que vos quero fallar... vedes aquella aberta, aquelle fundo entalhado na pedra, coroado de columnas corinthias aglomeradas?.
miniaturadaimagem|Figura 2: Mapa Histórico do ES
Após descrever a sua chegada ao afloramento carbonático na montanha e suas ‘colunas’ de árvores, Sampaio aponta que a entrada da gruta é não é acanhada e que o teto e paredes são sustentadas por uma coluna em forma de duas pirâmides unidas pelas pontas. Alguns buracos lhe chamam atenção, assim como os nomes à direita da entrada que “gravados toscamente” eram vestígios de visitantes anteriores.
A coluna e as pichações ainda podem ser vistas na entrada da gruta e tais inscrições são curiosas e uma delas apresenta o nome “Dr. Moniz Freire”, datado de 1860. Neste período, achamos por meio de jornais da época, contratado pela Província do ES, o engenheiro (Dr.) Manoel Feliciano Moniz Freire (?-1872). Freire foi responsável por fazer medições e plantas de áreas no território capixaba.ASSEMBLEIA, 1865 Ele também ocupou cargos políticos foi pai de José de Melo Carvalho Moniz Freire (1861-1918), governador do ES por duas oportunidades (hoje com grafia Muniz Freire, com “u”, denomina uma cidade próxima a Castelo).
Ainda sobre inscrições na entrada da gruta, chamam atenção outros dois nomes: Barão de Itapemirim e Barão de Guapy. Não se descarta a possibilidade de se tratar de um embuste para enganar visitantes, mas o certo é que muito pouco se divulga e pouco se conhece sobre Joaquim José Ferraz de Oliveira (ca. 1830-1893) – primeiro e único Barão de Guapy que tinha suas propriedades e título no estado do Rio de Janeiro e era proprietário de cafezais no ES;ALMANAK, 1865 ou ainda que a antiga grafia, “Moniz” e não “Muniz”, fosse de conhecimento de leigos que escreveram nas paredes da gruta. Ou seja, é muito provável que estes personagens de relevância histórica tenham sim visitado esta cavidade.
Retornando à descrição de Rangel de Sampaio, o autor indica que o corredor curvo da gruta se afunila, mas apresenta aberturas laterais. Após acenderem archotes (tochas), passam a perceber sinos que, ao toque, emitem sons. Uma abertura à direita do corredor é uma passagem para o interior da gruta e “o arroubo, o pavor, a alegria, a tristeza, o respeito, como que se misturão para dar um modo de ser novo ao eu!”. Ainda descrevendo sua visita a seu interlocutor, Fernandes, o poeta indica que ao entrar à direita do corredor tem acesso à ‘sala do Docel’, ou seja, um local onde pendem do teto formações que se assemelham à cobertura das antigas camas ou poltronas. Passando por esta parte, vão agora ao encontro da sala das Virgens, nome devido ao formato de algumas estalactites que pendem do teto, até finalmente chegar a mais um estreito e baixo corredor cuja penetração exige o engatinhar. As tochas neste local têm que ser cuidadosamente manejadas devido ao grande número de morcegos que voam sobre os visitantes. O espaço seguinte é denominado “Sala do sellim de banda” que recebe este nome devido a:
Um perfeito sellim de banda, cheio de custosos lavrados, e n’uma altura de 2,5 metros pouco mais ou menos. Esse simulacro de artefacto humano é tão perfeito que causa admiração! Nada lhe falta; até o gancho para descanso da perna esquerda.
“Sellim de banda” é uma antiga sela de montaria para mulheres, anterior ao século XX.
O belo texto de Rangel de Sampaio faz menção ainda a demais estalactites e brilhos na parede como “estrelas cadentes”, mas o que mais chama atenção dos visitantes é a câmara mortuária que estão agora visitando. A origem incerta de uma certa quantidade de ossos encontrada no local durante a descoberta da gruta (ocorrida anos antes de sua visita) é apontada como sendo dos antigos indígenas ou mesmo dos antigos moradores “christãos”. Sampaio não dá mais detalhes do local pois afirma ter visto apenas um único osso, semelhante a um fêmur. De lá os exploradores saem pela “sala chamada dos Espinhos”, nome devido às formações de espeleotemas pelo chão e teto. Este corredor parece ter dado acesso à entrada da caverna e o poeta termina seu texto se lamentando por não ter levado ninguém consigo que pudesse comparar aquele lugar com locais e prédios da Europa.
A descrição da caverna como ossuário também está de acordo com o descrito pelo engenheiro Hermillo Candido da Costa Alves (1842-1906), chefe da comissão de estudos da implantação da Estrada de Ferro “da Victória para Minas” e aponta em seu relatório que: No valle do rio Castello existe uma notavel gruta em terreno calcareo, onde, segundo affirmam, se encontraram depósitos de ossos humanos... ainda não houve quem penetrasse até suas últimas camadas (ALVES, 1876).
A visita de um Cientista A rota que Rangel de Sampaio realiza na gruta parece ser a opção de visita à gruta, ao menos pelo que se percebe no texto disponível na próxima referência, de autoria de Manoel Basílio Furtado (1826-1909), um médico de Minas Gerais, formado na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Furtado foi correspondente do Museu Nacional e trocou inúmeras correspondências com Charles F. Hart e Emílio Goeldi a respeito de geologia, arqueologia e zoologia.