Abedal MalequeVOLP, verbetes Abedal e Maleque Almuzafar (; Córdova, 975 – Córdova, ), também conhecido pelo nome castelhanizado Abdelmélic el Muzáffar ou simplesmente Almuzafar, foi o filho predileto e sucessor de Almançor como hájibe do califa omíada . A sua mãe era uma das várias esposas do pai, a influente Adalfa (), "a Chata". Quando o pai morreu, em 1002, sucedeu-lhe como hájibe, comandante do exército, valido do Califado de Córdova, e governante supremo de facto do Estado, com Hixame como mera figura simbólica.
O período em que esteve à frente da política cordovesa caracterizou-se pela continuidade dos métodos iniciados pelo pai: atenções formais ao califa, boas relações com os jurisconsultos, manutenção dos vários estados clientes do califado e duma corte literária, além de contínuas campanhas militares apelidadas de jiade para justificar o seu domínio da política estatal. Porém, faltava-lhe o brilho intelectual de Almançor. Valoroso em combate e piedoso, foi um governante popular e o Estado gozou de estabilidade durante os seus sete anos de governo, terminados abrutamente pela sua morte prematura, apesar de ter havido vários sinais premonitórios da futura crise que acabaria com o califado. Nos seus últimos anos foi alvo vários atentados e conjuras.
Primeiros anos Abedal Maleque nasceu em 975 e apesar de ser seis anos mais novo do que Abedalá, o primogénito de Almançor, Abedal Maleque tornou-se o filho predileto do pai, entre outras razões, por mostrar desde cedo grandes habilidades militares, à semelhança do seu meio-irmão Abderramão Sanchuelo.
O favoritismo demonstrado a Abedal Maleque pelo pai terá sido uma das causas para Abedalá participar numa conspiração contra Almançor em 988/989, juntamente com o caide de Toledo, , conhecido como "Abedalá Pedra Seca", e o caíde de Saragoça, o seu parente tujíbida . A conjura foi apoiada por numerosos notáveis cordoveses, militares que se opunham às reformas do ditador, funcionários do governo e pelas tropas de Saragoça. Os conjurados planearam matar Almançor e os seus colaboradores mais próximos e tomar o poder, que seria repartido entre Almutarrife, que ficaria a comandara os exércitos das fronteiras setentrionais, e Abedalá, que ficaria o o controlo da capital. Almançor começou por recusar-se a acreditar nos rumores sobre a conspiração do seu próprio filho, mas quando se confirmou que a conspiração existia, destitui Almaruani e Almutarrife. Para evitar confrontos com os tujíbidas nomeou um membro desse clã como novo caide de Saragoça em meados de 989.
Abedalá refugiou-se junto do conde de Castela Garcia Fernandes, mas este acabou por ver-se obrigado a entregá-lo sob a promessa de que não seria morto, após a dura campanha de represálias lançada por Almançor. Este enviou uma pequena escolta para recolher o seu filho; de regresso à capital, em 8 de setembro de 990, quando o grupo cruzou o rio Douro, Abedalá foi decapitado; tinha apenas 23 anos. A cabeça foi enviada ao pai. O ditador aumentou a vigilância da guarda palaciana sobre a sua própria família e o favoritismo de que gozava Abedal Maleque aos olhos do seu pai aumentou.
Em 991 Abedal Maleque recebeu o título de hájibe, caide supremo dos exércitos e outros títulos honoríficos; o seu pai começava a preparar a sua sucessão, numa altura em que se intitulava saíde ("senhor") e almáleque alcarime (; "nobre rei"). Almançor chegou a ponderar proclamar-se califa, mas desistiu de fazê-lo por insistência dos seus jurisconsultos, considerando que era preferível que no trono continuasse formalmente um omíada, a dinastia legítima aos olhos do povo, apesar do poder de facto fosse dos amiridas (a dinastia de Abu Amir, o nome original de Almançor).
Dois anos mais tarde, o jovem começou a desempenhar cargos de significativa influência na corte cordovesa. Na crise de disputa pelo poder entre o pai e Subh, a influente mãe do califa , ocorrida na primavera de 996, encarregou-se da transladação do tesouro califal para a Medina Alzahira, a cidade palaciana amirida, devido a Almançor estar doente. Esta operação tinha como objetivo privar de fundos a mãe do califa, impedindo-a de financiar rebeliões contra o ditador. A (rutura) entre Almançor e Subh, aliados durante muitos anos, deveu-se ao receio desta última que o seu filho perdesse o trono. Almançor tinha sido o principal apoiante da manutenção de Hixame no trono, chegando a haver rumores de que era amante de Subh, mas o poder adquirido pelo hájibe era visto como uma ameaça cada vez maior para o califa.
Em 997, o califado ainda estava mergulhado na crise devida ao enfrentamento entre Almançor e Subh e o Magrebe estava sublevado contra o primeiro. Pouco depois, em 997 ou 998, Abedal Maleque participou num grande desfile em que ele foi à frente do seu pai e do califa, que cavalgaram juntos no centro do cortejo, no qual também esteve presente a vencida Subh. Esse ato solene foi uma hábil manobra idealizada para passar a imagem de reconciliação após a , restabelecer o poder do hájibe em nome do califa e legitimar Abedal Maleque como sucessor do seu pai. No mesmo ano, Abedal participou com o seu pai e o seu meio-irmão na grande campanha contra Santiago de Compostela.
Em agosto de 998 foi para o Magrebe à frente das tropas enviadas para as operações militares contra Ziri ibne Atia, o emir de Fez que se tinha rebelado. Abedal juntou-se no comando dessas operações a Wadih, o governador da , que já tinha infligido uma pesada derrota a ibne Atia em julho. Após o líder rebelde ter sido derrotado em meados de outubro, Abedal Maleque entrou triunfalmente em Fez e o seu pai outorgou-lhe temporariamente o governo da parte do Magrebe sob soberania cordovesa. Porém, na primavera de 999 Almançor chamou-o de volta à Península e o governo dos territórios norte-africanos passou para Wadih. Pouco depois o pai premiou-o com o título Ceife Adaulá (; "Espada da Dinastia"); o seu meio-irmão Sanchuelo recebeu o título Nácer Adaulá (; "Defensor da Dinastia"). Em 1000, Abedal destacou-se na difícil vitória do seu pai na Batalha de Cervera.
O estado de saúde de Almançor, já doente há vários anos, agravou-se durante aquela que foi a sua última campanha militar, em 1002, contra o Reino de Pamplona. Devido ao estado do ditador, a campanha foi terminada prematuramente e quando estavam em Medinaceli, Almançor, já moribundo, ordenou ao filho que fosse para a capital o mais rapidamente possível para assegurar a sucessão na posse dos seus cargos quando morresse, o que aconteceu poucos dias depois, em 9 de agosto. Abedal chegou à capital em finais de julho e conseguiu que o califa Hixame lhe desse o cargo de hájibe desempenhado pelo seu pai. Seguidamente mandou para o exílio os seus opositores, que revelaram ser incapazes de se opor à sua tomada do poder em Ceuta.
Atuação como hájibe Abedal Maleque, que contava com a experiência adquirida ao lado do seu pai nos últimos anos deste, deu continuidade à política de Almançor. As aceifas (campanhas militares) contra os cristãos foram intensificadas; tendo levado a cabo oito, que acompanhou ostensivamente. Manteve a superioridade militar em relação aos estados cristãos do norte, debilitados por lutas internas, mas embora fosse militarmente mais ambicioso do que o seu pai, revelou-se pior estratega. Foi principalmente um soldado, tanto por formação como por vocação, que era mais feliz entre os seus oficiais (principalmente cristãos e berberes) do que na corte.
Problemas internos Devido à sua inclinação para o ócio, Abedal deixou o exercício do poder nas mãos dos seus favoritos, que tinham sido próximos do seu pai, que em duas ocasiões puseram em perigo a sua posição. Os secretários adquiriram um grande poder e puseram em causa o do hájibe. Em 1004 foi alvo duma conjura fracassada, que incluía o seu assassinato e a substituição pelo seu jovem filho Maomé; os cabecilhas da conspiração — o fatá-mor Tarafa e o poeta — foram executados. Em dezembro de 1006 o vizir mais poderoso, (também conhecido como ibne Alcata, ) tentou eliminá-lo, com o apoio de importantes famílias árabes da capital, para colocar no trono outro omíada, , que tal como , era neto do califa . O plano era que o novo califa nomeasse o vizir como hájibe, mas a conspiração fracassou e o vizir foi morto por esbirros de Abedal Maleque na sua presença a 4 de dezembro; três dias mais tarde o pretendente ao trono foi preso e acabou por morrer na prisão. Após essa tentativa falhada de golpe de estado, Almuzafar voltou a tomar diretamente nas suas mãos as rédeas do governo, como o seu pai sempre tinha feito.
Atuação no Magrebe No noroeste de África nomeou pessoas da região para os postos mais importantes, que até então tinham sido ocupados por andalusinos. Manteve boas relações com os zenetas magrauas e aparentemente aumentou os contingentes destes e de sanajas na Península Ibérica. A um deles, Almuiz ibne Ziri, filho de Ziri ibne Atia, adversário de Almançor, Abedal entregou o governo das praças-fortes magrebinas fiéis aos omíadas, à exceção de Segelmeça, que foi entregue a outros vassalos do califado.
Campanhas militares contra os estados cristãos Aceifas de Almuzafar Ano Local 1002–1003 Leão e Coimbra 1003 Catalunha 1004 Castela 1005 Zamora 1006 Ribagorça e 1007 Clúnia 1007 San Martín de Rubiales 1008 Castela Na sequência da morte de Almançor, os estados cristãos ibéricos renunciaram aos compromissos que tinham assumido o hájibe cordovês, o que obrigou Almuzafar a atuar rapidamente para restabelecer a supremacia cordovesa. Logo após o seu pai morrer, Abedal Maleque, desejoso de poder atacar o Reino de Leão antes da primavera de 1003 para acabar com as esperanças dos cristãos de se livrarem do jugo cordovês, tentou ganhar o favor das suas tropas fornecendo cinco mil adargas e igual número de elmos e almofares às tropas couraçadas, fabricados pelos ("armeiros do estado"); entre os mercenários africanos distribuiu 15 mil dinares de ouro, que foram repartidos segundo os seus postos.
Para demonstrar a sua força, poucos meses depois da morte de Almançor, no inverno de 1002–1003, levou a cabo uma aceifa com duas linhas de penetração no reino leonês — uma das colunas avançou para a cidade de Leão e outra para Coimbra. O avanço desta última destinava-se a ameaçar a Galiza e acabar com as veleidades do tutor do rei (então com oito anos), o conde portucalense Mendo Gonçalves. Esta campanha levou os leoneses a entabular negociações que conduziram a acordar tréguas para o ano seguinte. Para o acordo ter sido alcançado contribuiu muito o facto da dureza do inverno ter imposto o fim dos combates. O acordo entre as duas partes deve também ter incluído o regresso da princesa leonesa Teresa, viúva de Almançor, ao seu reino de origem, onde morreu no de Oviedo em 1039.
Posteriormente dirigiu a sua atenção para a Catalunha. O conde de Barcelona Raimundo Borel, que tinha acordado uma trégua com Almançor, tinha-a denunciado depois da morte daquele. Em fevereiro de 1003 os catalães atacaram Lérida sem sucesso e foram derrotados na , a norte de Lérida, no dia 25 de fevereiro. O bispo de Elne morreu na batalha e os cordoveses capturaram Armengol, conde de Urgel e irmão de Raimundo Borel.
Almuzafar preparou meticulosamente a campanha contra os catalães. Convocou as suas hostes, constituídas por tropas regulares e voluntários do Alandalus e do Magrebe, que se reuniram em Toledo, de onde saíram em 14 de junho de 1003 pela porta ("Porta da Vitória") em direção a Medinaceli. Nesta cidade juntaram-se-lhe tropas castelhanas, leonesas e galegas. No âmbito dos acordos que tinham sido alcançados na sua campanha anterior, o novo hájibe de Córdova tinha exigido aos leoneses castelhanos que enviassem um contingente para ajudar a expedição, o que foi cumprido como sinal de submissão. Era a primeira vez desde 981 que os castelhanos colaboravam com os mouros. A última vez que isso tinha ocorrido foi na , na qual os castelhanos combateram ao lado de Galibe contra Almançor.