miniatura|upright=1.5|direita|Índice de Preços de Alimentos com 5 grandes grupos de commodities – 2014–2024 miniatura|upright=1.5|direita|Preços da soja, trigo e milho – 2000–2024 Durante 2022 e 2023, ocorreram crises alimentares em várias regiões, conforme indicado pelo aumento dos preços dos alimentos. Em 2022, o mundo experimentou uma inflação significativa nos preços dos alimentos, juntamente com grande escassez de alimentos em várias regiões. A África Subsaariana, o Irã, o Sri Lanka, o Sudão e o Iraque foram os mais afetados. Os preços do trigo, milho, sementes oleaginosas, pão, massas, farinha, óleo de cozinha, açúcar, ovos, grão de bico e carne aumentaram. Muitos fatores têm contribuído para a contínua crise global de alimentos. Estes incluem interrupções na cadeia de suprimentos devido à pandemia de COVID-19, a crise energética global (2021–2023), a invasão russa na Ucrânia, além de inundações e ondas de calor durante 2021 (que destruíram safras importantes americanas e europeias). As secas também foram um fator; no início de 2022, algumas áreas da Espanha e de Portugal perderam de 60 a 80% de suas safras devido à seca generalizada.

Mesmo antes da invasão russa na Ucrânia, os preços dos alimentos já estavam em um nível recorde. 82 milhões de pessoas na África Oriental e 42 milhões na África Ocidental enfrentaram insegurança alimentar aguda em 2021. Até o final de 2022, mais de 8 milhões de somalis precisavam de assistência alimentar. Em fevereiro de 2022, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) relatou um aumento de 20% nos preços dos alimentos desde fevereiro de 2021. A guerra impulsionou ainda mais esse aumento para 40% em março de 2022, mas foi reduzido para 18% até janeiro de 2023. Mas a FAO alerta que a inflação dos preços dos alimentos continuará em muitos países.

O aumento dos preços dos combustíveis e do transporte tornou a distribuição de alimentos pior e mais complexa. Antes da invasão russa, a Ucrânia era a quarta maior exportadora de milho e trigo. Desde então, a invasão russa paralisou os suprimentos. Isso resultou em inflação e escassez dessas commodities em países dependentes. As reservas globais de alimentos também diminuíram devido aos efeitos das mudanças climáticas na agricultura.

Isso causou revoltas por alimentos e fome em diferentes países. Além disso, a China adquiriu 51% do suprimento mundial de trigo, 60% do arroz e 69% dos estoques de milho no primeiro semestre de 2022. Os Estados Unidos aumentaram sua produção agrícola até abril de 2022, contribuindo também com US$ 215 milhões em assistência ao desenvolvimento, além de US$ 320 milhões para o Chifre da África. Um acordo de grãos foi assinado pela Rússia, Ucrânia, Turquia e as Nações Unidas para abrir os portos ucranianos. Isso resultou no embarque de grãos por 27 navios da Ucrânia entre junho e agosto de 2022, que estagnou em outubro e foi retomado em novembro de 2022. Adicionalmente, o Banco Mundial anunciou um novo fundo de US$ 12 bilhões para lidar com as crises alimentares.

O Relatório de Riscos Globais de 2023 do Fórum Econômico Mundial descreveu as crises no fornecimento de alimentos como um risco global contínuo. A invasão russa na Ucrânia e as perdas de safras devido às mudanças climáticas agravaram a fome e a desnutrição em todo o mundo. Mesmo os países do Norte Global conhecidos por suprimentos estáveis de alimentos foram impactados. Analistas descreveram essa inflação de alimentos como a pior desde a crise global de preços de alimentos de 2007–2008. No entanto, no início de 2024, a FAO relatou um retorno a preços de mercado de commodities mais moderados. Além disso, o Relatório de Riscos Globais de 2024 do Fórum Econômico Mundial mostrou significativamente menos preocupação por parte dos especialistas, mas o relatório ainda destaca um risco da guerra em Gaza e do retorno do El Niño. Ambos esses eventos poderiam interromper as cadeias de suprimentos novamente.

Contexto A pandemia de COVID-19 desestabilizou significativamente a cadeia global de produtos alimentares, causando interrupções nos canais de distribuição da indústria alimentar. Um aumento nos preços dos combustíveis e transporte intensificaram ainda mais a complexidade da distribuição na medida que os alimentos competiam com outros produtos.

Ao mesmo tempo, inundações significantes e ondas de calor em 2021 destruíram culturas chave nas Américas e na Europa.

Aumentos de preços por região miniatura|Protestos no Peru em 2022 devido ao aumento dos preços de alimentos e combustíveis miniatura|Protestos no Equador em 2022 contra as políticas econômicas do presidente equatoriano Guillermo Lasso, desencadeados pelo aumento dos preços de combustíveis e alimentos

Os aumentos nos preços dos alimentos afetaram partes da Ásia, África e América Latina. Protestos e revoltas por comida ocorreram em países mais severamente afetados, como o Irã, Sri Lanka, Sudão e Iraque. Também houve distúrbios e outras formas de agitação devido ao aumento dos preços dos alimentos na Albânia, Quênia, Indonésia, Peru, Equador, Panamá, Argentina, Tunísia e Líbano.

África e MENA

A expectativa era de que os aumentos de preços de certos produtos básicos, como o trigo, afetassem mais severamente países como o Egito, a Turquia e a Somália na região do MENA (Oriente Médio e Norte da África) e na África Oriental, que dependem fortemente de importações de trigo da Ucrânia e da Rússia. Esperava-se que isso prejudicasse ainda mais os preços nos mercados de alimentos regionais, como a Etiópia, o Quênia, a Somália e o Sudão do Sul.

As mudanças no mercado de alimentos causadas pela invasão da Ucrânia exacerbaram ainda mais os problemas de seca existentes no já vulnerável Chifre da África. Em fevereiro, o Programa Alimentar Mundial (PAM) e a UNICEF já haviam projetado lacunas de nutrição e fome para treze milhões de pessoas na África Oriental. Em março, a ONU havia expandido esse número para 20 milhões de pessoas.

Síria

As Nações Unidas relataram que 90% da população do país vive na pobreza, e que mais da metade sofre de insegurança alimentar.

África Ocidental

A Oxfam, a ALIMA e a Save the Children alertaram que as crises alimentares na África Ocidental poderiam afetar 27 milhões de pessoas, especialmente em Burkina Faso, Níger, Chade, Mali e Nigéria.

Durante uma visita à Nigéria em maio de 2022, o Secretário-geral das Nações Unidas disse que a guerra na Ucrânia piorou as crises alimentar, energética e econômica na África como um todo.

Em 2 de junho de 2022, o Chade declarou emergência alimentar nacional.

Quênia O norte do Quênia sofreu a pior seca em 40 anos, deixando 4,4 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar aguda, com 1,2 milhão enfrentando níveis de fome emergenciais. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento disse que o aumento dos preços de alimentos e energia causado pela COVID-19 e pela guerra russa na Ucrânia atingiu a África Subsaariana com mais força. Os fabricantes quenianos de chapati estão diminuindo o tamanho de suas bolas de massa para conseguir sobreviver.

Iêmen

A principal causa da fome no Iêmen é a atual Guerra Civil Iemenita. A ajuda humanitária muitas vezes não consegue chegar efetivamente à população devido ao bloqueio do Iêmen pela Arábia Saudita, que começou em 2015. Há 17,4 milhões de pessoas sem comida suficiente e os níveis de desnutrição no Iêmen estão entre os mais altos do mundo.

Tunísia Até maio de 2022, os preços do trigo na Tunísia haviam subido para mais de US$ 430 por tonelada, mais que o dobro do custo de 2021, devido a interrupções no fornecimento causadas pela pandemia de COVID-19 e pela invasão da Ucrânia pela Rússia. A Tunísia importa mais de 95% do trigo mole usado em seu pão, o que aumentou suas compras em US$ 250 milhões em 2022.

Ásia

Bangladesh O Fundo Monetário Internacional (FMI) previu que o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) em Bangladesh subiria para 5,9% até o ano de 2022. O preço do óleo de cozinha, açúcar, ovos e grão de bico aumentou drasticamente, o que contribuiu em grande parte para a inflação. De acordo com a Agência de Estatísticas de Bangladesh, a inflação geral subiu para 6,17% em fevereiro de 2022. Funcionários do governo vincularam os preços locais à situação do mercado global e a medidas necessárias tomadas para estabilizar as altas de preços devidas a essas condições. Porém, alguns especialistas apontam as falhas do governo como uma causa para as altas de preços, além da invasão russa na Ucrânia. Antes da invasão da Ucrânia, 95% do óleo de cozinha em Bangladesh era importado do exterior. O preço do óleo de cozinha por barril era de US$ 700 na época, e subiu para US$ 1.940 antes da invasão. O preço do gás liquefeito de petróleo (GLP) também aumentou 12% em março. A exploração generalizada nos preços dos alimentos resultou em protestos em larga escala no país.

Afeganistão

Após a tomada de poder pelo Talibã em 2021, os países ocidentais cortaram grande parte de sua ajuda humanitária ao Afeganistão. Isso levou à falta de acesso a comida, água, abrigo e cuidados de saúde para a maior parte da população afegã. O governo Biden congelou cerca de US$ 9 bilhões dos ativos do banco central afegão, bloqueando o acesso do Talibã a fundos mantidos em contas bancárias nos EUA. Em outubro de 2021, a ONU declarou que mais da metade dos 39 milhões de habitantes do Afeganistão enfrentavam uma aguda escassez de alimentos.

Os aumentos de preços associados à invasão da Ucrânia pela Rússia podem piorar as crises econômicas no Afeganistão que se seguiram após a retirada dos EUA. Segundo a ONU, são necessários US$ 4,4 bilhões para custear o aumento dos alimentos, com especialistas em direitos humanos conclamando os EUA a desbloquearem os ativos do banco central afegão para aliviar a crise humanitária.

Índia

Seis em cada dez indianos dependem de alimentos subsidiados fornecidos pelo Estado. Embora as reportagens e a política do governo no início do aumento dos preços após a guerra na Ucrânia tenham sugerido que a Índia estava bem posicionada para exportar mais trigo, no final de abril, uma onda de calor que deveria diminuir as colheitas — aumentando os preços locais — e o aumento dos preços dos fertilizantes projetaram um déficit em vez de um mercado favorável à exportação. A diminuição nas colheitas foi impulsionada em grande parte pela onda de calor de 2022 na Índia, que reduziu severamente a colheita de trigo, matando as plantas durante as semanas finais de cultivo.

Em 13 de maio de 2022, a Índia, o segundo maior produtor de trigo do mundo, proibiu a exportação de trigo. A chefe do FMI, Kristalina Georgieva, instou a Índia a reconsiderar sua proibição às exportações do grão.

Em 20 de julho de 2023, o governo indiano anunciou que pararia de exportar o arroz branco não basmati, amplamente consumido. Em 25 de agosto de 2023, a Índia impôs uma taxa de 20 por cento sobre a exportação de arroz parboilizado.

Paquistão Os campos agrícolas do Paquistão foram devastados pelas inundações no Paquistão de 2022. As causas imediatas das enchentes foram as chuvas de monção mais pesadas do que o normal e o derretimento das geleiras que se seguiu a uma severa onda de calor, ambas as causas ligadas às mudanças climáticas.

Indonésia Aumentos extremos no preço do óleo de cozinha provocaram protestos de estudantes e outras agitações civis. O governo nacional da Indonésia proibiu a exportação de óleo de palma. Como a Indonésia é a maior produtora de óleo de palma, e com um declínio na colheita da Malásia (segunda maior produtora), a proibição causou graves interrupções na cadeia de suprimentos global e exacerbou ainda mais os aumentos de preços causados pela perda das exportações de óleo da Rússia e da Ucrânia e por quebras nas safras de soja na América do Sul. Após protestos de agricultores de dendê, a proibição foi suspensa no final de maio, depois de vigorar por cerca de três semanas.

Sri Lanka