e/ou é uma expressão corriqueira mas polêmica Do Not Use “and/or” in Legal Writing - Ted Tjaden - SLAW - Canadas's Online Ligal Magazine - Disponível em:https://www.slaw.ca/2011/07/27/grammar-legal-writing/ usada para indicar que um, mais ou mesmo todos os casos que ela conecta podem ocorrer. A alternância de conjunções expressada pela barra visa a simplificar construções como Monnerat, Rosane Santos Mauro (2001). "A expressão da contra (dis) junção no texto publicitário Implicações semântico-discursivas". Revista Linguagem & Ensino, 4 (2), p. 123-142.:

"Ele fala ou inglês ou francês, ou fala as duas línguas (ele fala inglês e/ou francês)"

A conjunção ‘‘e/ou’’ encontra-se difundida na língua escrita e é encontrada até mesmo em dicionários, junto às descrições de verbetes outremDicionário Priberam | https://dicionario.priberam.org/Dicionário Aurélio, "e/ou" | https://www.dicio.com.br/pesquisa.php?q=e%2Fou ou artigos específicos Uso do e/ou - Flávia Neves - Dicio - Dicionário Online - Disponível em: https://www.dicio.com.br/uso-de-eou/ . Encontra-se também em outras línguas, como a inglesa (and/or), sob mesma demandaThe Union of Conjunction and Disjunction: The Case of and/or - Brent Woo - Linguistic Society of America - 2,37:1-9. Disponível em: https://journals.linguisticsociety.org/proceedings/index.php/PLSA/article/view/4093 .

“e/ou” é controversa em áreas onde a norma culta da línguaVOLP - Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa | https://www.academia.org.br/nossa-lingua/busca-no-vocabulario ou a formalidade da Lógica mostrem-se requeridas, como na área jurídica CABRAL, Guilherme Castro . Teoria do "e/ou":: solidariedade x subsidiariedade. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 12 , n. 1287, 9 jan. 2007 . Disponível em: https://jus.com.br/artigos/9373. Acesso em: 7 ago. 2022. , sendo seu uso desencorajado nos guias de estilo dessas áreas e em outras.

A expressão não encontra-se no VOLP e também não se encontra como verbete distinto nos principais dicionários de português , tampouco em gramáticas que lidam com o assunto .

Embora encontrada na língua escrita, "e/ou" não é corrente na língua falada. Pronuncia-se, corretamente, apenas o "ou" no caso.

O "e/ou", na língua falada e na língua escrita, é plenamente equivalente a um simples "ou", a disjunção inclusiva segundo a norma Apostila PC/RS - Inspetor e Escrivão - Raciocínio Lógico-Matemático - Daniela Arboite - Disponível em: https://cpcconcursos.com.br/uploads/cpcconcursos.com.br/courses/material/2022/08/aula-01-parte-01-proposicoes-e-operacoes.pdf ; que difere da disjunção exclusiva, obtida pela repetição do termo ou: "ou... ou", em Português Revista Processus Multidisciplinar - Ano II - Vol. II - nº 3 - Jan. - Jul. 2021 Disponível em: https://periodicos.processus.com.br/index.php/multi/article/download/638/686/1427 .

Críticas Críticos afirmam que, além de esteticamente feia, a expressão "e/ou" é ambígua em sua construção, pois decorre de compreensão em senso comum da conjunção “ou” como ora excludente ora inclusiva, sendo que pela Língua Portuguesa e pela Lógica, “ou” é por definição apenas inclusivoNovíssima gramática da língua portuguesa -Domingos Paschoal CegallaNova Gramática do Português Contemporâneo - Celso Cunha.

A introdução do e/ou no rol de conjunções significaria não apenas uma introdução de um sinônimo desnecessário e desencorajado pelas normas gramaticais, como também uma introdução obrigatória de uma estrutura dúbia para outra conjunção, a saber a "ou", a fim de justificar sua existência; dubiedade que não existe na lógica formal em ausência do e/ou..

Ademais, em vista a função sintática da barra na língua, alega-se que a alternância entre “e” e “ou” promovida pela barra mostra-se mais confusa do que elucidativa, devendo-se segundo a norma escolher se ou vale o “e” ou vale o “ou” na expressão.

Lógica e Semântica Culta A Língua Portuguesa define alguns conectivos lógicos, como “e”, “ou”, “ou … ou ...”, “nem … nem …”, “se … então”, “se e somente se” e outros que visam a expressar as portasBedregal, Benjamín René Callejas; Acióly, Benedito Melo (2002), Lógica para a Ciência da Computação,Versão Preliminar, Natal, RN. e raciocínios lógicos inerentes a um ramo estudado na matemática conhecido como lógica Em particular a álgebra de Boole: Álgebra de Boole e Simplificação de Circuitos Lógicos - Universidade de São Paulo (USP)| https://dcm.ffclrp.usp.br/~augusto/teaching/aba/AB-Algebra-Boole-Simplificacao-Circuitos.pdf .

Na lógica combinacional atribuem-se valores lógicos às sentenças (ou verdadeiro ou falso) e um valor lógico à sentença formada pela justaposição destas sentenças mediadas por uma ou mais conectivos, cada qual com sentido predefinido.

A relação entre os valores lógicos das sentenças de entrada e o valor lógico da sentença formada com o uso de um conectivo (sentença de saída) é declarada na assim chamada tabela verdade da porta lógica utilizada .

Seguem as tabelas verdades oficiais da porta “e”, da porta “ou” e da porta "ou ... ou ..." para fins de análise Eletrônica digital básica, páginas 28 e 29 e 35| https://repositorio.ufba.br/bitstream/ri/13988/1/_Eletronica.pdf

Tabela verdade da porta "e":

+ a b a e b V V V V F F F V F F F F

Tabela verdade da porta "ou":

+ a b a ou b V V V V F V F V V F F F

Tabela verdade do "ou exclusivo" ( "ou... ou ...")

+ a b ou a ou b V V F V F V F V V F F F

A ideia por trás da expressão "e/ou" é suprimir, derivado de uma compreensão em senso comum , o entendimento do "ou" como "ou exclusivo" . Ocorre que no Português o "ou exclusivo" é gerado indubitavelmente na pronúncia e na escrita mediante a repetição do termo "ou" Construções Correlatas Aditivas e Disjuntivas - Odisséia - Ivo da Costa do Rosário - pag. 117 e 118 - Disponível em https://periodicos.ufrn.br/odisseia/article/download/12903/9020/0: "ou isto ou aquilo", o que é diferente de "isto ou aquilo".

A presença de duas expressões diferentes: "ou" e "ou... ou" na língua portuguesa obviamente deve ter uma função. Em sua obra Construções Correlatas Aditivas e Disjuntivas, Ivo da Costa do Rosário, sobre o assunto, afirma:

"Mais uma vez evocamos o princípio da não sinonímia da forma gramatical. Se a língua apresenta duas formas diferentes de dizer algo, é porque uma forma apresenta algum traço semântico ou pragmático distinto das demais. Em outras palavras, em tese, não há duas formas com dois sentidos exatamente iguais. De fato, a constatação de uma diferença no plano morfossintático (presença de correlatores, ou seja, conectivos descontínuos) e uma diferença no plano semântico-pragmático (a ideia sempre presente de disjunção exclusiva) reforçam a hipótese de que correlação disjuntiva cumpre um papel distinto da coordenação alternativa em língua portuguesa"

Assim, a expressão "isto ou aquilo" já abarca em si o caso onde isto é verdadeiro e aquilo é verdadeiro (conforme visto na primeira linha da tabela verdade da porta "ou"). O uso de "e/ou" para esta finalidade é plenamente redundante e não oficializado nos estudos de lógica ou linguística, sendo desnecessário e desencorajado, por lógica ao lido.

Exemplo explicativo

Consideremos as três proposições que se seguem:

"Marcos vai ao cinema e João vai ao teatro."

"Marcos vai ao cinema ou João vai ao teatro."

"Ou Marcos vai ao cinema ou João vai ao teatro."

Pela consulta imediata às tabelas verdades vemos que as três sentenças acima exprimem cada qual um conjunto de situações diferente.

A sentença:

"Marcos vai ao cinema e/ou João vai ao teatro",

por comparação mostrar-se-ia plenamente equivalente à segunda das três sentenças antes apresentadas.

O uso de "e/ou" deve ser suprimido na língua culta em favor do uso de um "ou" simples.

Importância A importância da definição de "ou" como inclusivo, ou seja, plenamente equivalente ao famigerado "e/ou", deriva do fato que implicações lógicas relevantes decorrem da definição correta e elas seriam invalidadas caso se interpretasse o "ou" simples como exclusivo. Tem-se por exemplo os teoremas de De Morgan, que ensinam a fazer, entre outros, as negações corretas de frases que envolvem os conectivos lógicos ou "e" ou "ou".

Segundo os teoremas de De Morgan, para negar corretamente um sentença que contenha o conectivo "e", devem-se negar cada uma das partes da sentença individualmente e trocar-se o conectivo "e" pelo conectivo "ou". Algo similar ocorre na negação de uma sentença envolvendo o conectivo "ou": devem-se negar cada uma das partes da sentença e trocar-se o conectivo "ou" pelo conectivo "e" Teoremas de De Morgan - Disponível em:https://www.ezuim.com/pdf/teor_demorgan.pdf Rildo Afonso de Almeida - Circuitos Lógicos - Universidade Federal de Minas Gerais - Disponível em: https://raa.pro.br/wp-content/uploads/2022/10/Circuitos-Logicos_Aula_10.pdf .

A negação correta da sentença: "Marcos vai ao cinema E João vai ao teatro." é "Marcos não vai ao cinema OU João não vai ao teatro."

De forma similar, a negação correta da sentença: "Marcos vai ao cinema OU João vai ao teatro." é "Marcos não vai ao cinema E João não vai ao teatro."

Vale ressaltar que as regras acima são teoremas: podem ser demonstradas via tabelas verdade. Mas só são válidas com o sentido de "ou" em sua acepção correta, inclusivo (ou seja, plenamente equivalente a "e/ou"). Assim justifica-se a redundância declarada, conforme pretendido.

A negação correta da sentença envolvendo "ou ... ou ..." (ou seja, o ou exclusivo) fica como exercício, a cargo do leitor (Solução na referência ) .

Sobre o "ou" em senso comum

Dissemos que, em senso comum, "ou" é interpretado como ora uma conjunção inclusiva ora uma conjunção exclusiva, cabendo ao leitor discernir entre ambas. Analisemos a razão de ser dessa interpretação popular.

Comecemos com o "ou", inclusivo, e o "ou... ou" exclusivo utilizados de forma correta... Um exemplo claro é fornecido por Raposo et al (2013, p. 1778)

"Quanto a aparente exceção a este princípio da conjunção correlativa ou...ou, consideramos aqui que ou simples é uma conjunção distinta de ou...ou correlativo, não resultando, pois, de uma simplificação desta por omissão do primeiro elemento. A corroborar esta análise note-se que ou...ou tem preferencialmente uma leitura de disjunção exclusiva, ao passo que ou simples pode ser exclusivo ou inclusivo: assim, a interpretação mais natural da frase (exprimindo uma ordem) "ou ouves música ou lês" leva à inferência pelo ouvinte de que apenas umas das possibilidades são permitidas, algo que não acontece em "ouves música ou lês", que pode ser seguido por "faz o que te apetecer"." RAPOSO, Eduardo Bozaglo Paiva et al. (Orgs.). Gramática do Português. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 2013. vol. I e II

Nela, de forma elegante, notoriamente temos um exemplo com a interpretação do "ou" como inclusivo e de "ou... ou" como exclusivo. Agora, o que dizer da passagem "... ao passo que ou simples pode ser exclusivo ou inclusivo ..." no próprio texto?

Por lógica booliana, "exclusivo ou inclusivo", no excerto, iguala-se a um simples "inclusivo", se dermos a correta interpretação ao termo "ou" (a defendida no exemplo) Basta fazermos um "ou" (inclusivo) com as saídas das tabelas verdades da porta "ou exclusiva" e da porta "ou", inclusiva, para cada uma das combinações de entrada. O resultado é a tabela verdade da porta inclusiva, apenas. ... Mas popularmente essa passagem tende a ser interpretada como "ou exclusivo ou inclusivo", visto a antagonicidade aparente dos termos conectados... E eis a questão.

Há elementos da realidade e mesmos abstratos que são antagônicos, e não podem ocorrer juntos ou ao mesmo tempo em uma situação, pela definição desses elementos ou da situação (e não das conjunções a serem utilizadas). E há elementos que não são antagônicos e podem ocorrer juntos ou simultaneamente. Como conectá-los corretamente usando as conjunções?