miniaturadaimagem|490x490px|Sessão de fuji, com espíritos representados acima da névoa do incensário. Litografia do período Qing nas revistas ilustradas Dian shi zhai hua bao (1884–1889). Fuji (, literalmente "sustentar o ji", referindo-se a mais de um tipo de instrumento de adivinhação) é um método chinês de "escrita de prancheta" ou "escrita de espíritos", que geralmente usa uma peneira ou bandeja suspensa para guiar uma vara que escreve caracteres chineses na areia ou nas cinzas de incenso. Também é referida variavelmente como "descida da fênix" (jiangluan, 降鸞), dentre outros termos como jiangbi (降筆), fuluan (扶鸞), feiluan (飛鸞), zhaoxian (召仙), etc. A palavra "fuji" tornou-se proeminente do período Ming para frente, e é o termo mais abrangente. Há, no entanto, uma variedade de formas da escrita de espíritos chinesa, com registros de que era feita desde através de um médium com um lápis sobre papel, ou inclusive não exigindo nenhum médium, em escrita direta.
O método chamado fuji em sentido estrito comumente envolve uma prancheta com uma vareta, pincel ou "estilete" (jijia, 乩架), guiado por pontas laterais sobre uma superfície coberta por areia (shapan 沙盤). Há também relato de uso de cesta e pincel sobre cinzas ou papel. Dois discípulos conduzem uma extremidade de vareta de cada lado, e apenas um deles é considerado o médium principal possuído por uma entidade, sendo o outro assistente. Com o movimento, são escritos caracteres na superfície, os quais são interpretados e anotados por terceiros.許地山:《扶箕迷信底研究》(臺北:臺灣商務印書館,1994)。
As origens da prática remetem ao culto oracular da deusa Zigu, e seu início pode ser rastreado em textos e relatos a partir do século XI (dinastia Song). Difundiu-se entre literatos nas dinastias Song, Yuan e Ming, encontrando-se em todas as prefeituras e capitais de condados na China, desde altares privados em casa a templos. No período Ming (1368–1644), tornou-se popular pela questão de consultas para exames imperiais. Milhares de grupos de escrita de espíritos existiram a partir do século XII na China, em grande parte durante o período Qing (1644–1912). A escrita por prancheta chegou a ser proibida no Grande Código Legal Qing, e sofreu outras restrições e condenações ao longo da história, mas continuou a existir vicejante. Ela se difundiu também para o Japão, Coreia e Vietnã.
Foi um método de adivinhação, de comunicação com mortos ou deidades e de recebimento de instruções e textos amplamente empregado nas religiões populares chinesas e no taoismo (particularmente à escola Quanzhen), praticado desde por leigos até a sacerdotes, literatos e altos oficiais. Era especialidade dos fashi, especialistas ritualísticos do taoismo. Apesar de seu fundo majoritariamente taoista, não foi, porém, exclusivo de determinada vertente religiosa, e ocorreu em diversos sincretismos conforme a localidade e época, como com o budismo e confucionismo. A prática continuou vibrante até a modernidade e os dias atuais, havendo diversos altares, seitas e templos de escrita de espíritos.
Vocabulário e técnica miniaturadaimagem|Rainha Mãe do Ocidente com séquito e o pássaro luan ("fênix"). Ilustração da enciclopédia Gujin Tushu Jicheng (1726), na seção "Espíritos e o Sobrenatural".|esquerda "Escrita de espíritos" (em inglês: spirit-writing) é primariamente um termo ético ocidental para se referir a uma série de técnicas chinesas variadas, que podem ser comparáveis a práticas espiritualistas europeias como a escrita de prancheta ou o tabuleiro ouija. Vincent Goossaert reconhece valor no uso do termo e o define no contexto chinês como se aplicando a qualquer técnica em que espíritos (desde deidades até a seres humanos falecidos) são convidados, por meio de rituais, a se manifestarem em um instrumento de escrita ou em uma pessoa portadora de um instrumento, produzindo caracteres. Era uma prática frequentemente utilizada para se conseguir respostas e geralmente feita de forma coletiva, com testemunhas.
Tipicamente, a invocação envolvia mecanismos de controle pelo uso de encantamentos (zhou) e/ou talismãs (fu), apesar de alguns casos considerados incomuns que não os utilizavam. Desde suas origens, o rito era na maioria das vezes parte dos daofa, realizados com um especialista iniciado na doutrina taoista, os fashi (não necessariamente um sacerdote de profissão), e em grupo. No início, as técnicas eram codificadas e transmitidas, não sendo facilmente acessíveis. Casos solitários de escrita de espíritos, como o "registro de pincel" (bilu, 筆籙) usado por literatos do período imperial tardio, eram exceções.
A escrita de espíritos chinesa envolve algum vocabulário especializado. Uma lousa com cinzas (huitan, 灰壇) podia ser utilizada. Há relatos de escrita com caracteres feitos nas cinzas do século XIII, mas ela pode se derivar de práticas taoistas que a antecedem: são registradas técnicas de adivinhação anteriores, em que deuses eram invocados por um sacerdote para fazer traços diretamente nas cinzas, os quais porém não eram caracteres, e sim posteriormente decodificados em uma resposta. Também havia o uso de um cesto de joeirar ou crivo, segurado por duas pessoas sobre areia ou sobre papel. Uma das menções mais antigas é feita em uma história por Xu Xuan (916-991), que conta sobre a escrita com cesto se referindo a ela como "escrita em pó" (畫盤粉以卜), e o médium que a realizava foi referido como fujizhe (扶箕者).
Há também a técnica ritual chamada pijiang (批降; ou pibao, 批報; e pishi, 批示), que significa "obter uma resposta escrita por uma divindade em um documento enviado a ela", em que um sacerdote controla um médium (tongzi) e invoca um espírito general para descer sobre as mãos do médium e escrever. Relatos disso são frequentes desde a dinastia Song. Outro termo é fengbi (封臂; ou jiebi, 借臂; e fubi, 附臂), "consagrar" ou "possuir o braço" de um médium. Essas práticas são comumente mencionadas em textos taoistas a partir do século XII.
Outro ritual semelhante é jiangbi e yunbi (運筆, "mover o pincel"). Jiangbi era o termo mais comum para a escrita de espíritos até a era moderna, quando foi substituído por "fuji". Geralmente se refere à possessão de um médium, que sentia sua mão ficar quente e poderia então escrever sobre a influência de uma divindade do trovão. Yunbi (e também huabi, 化筆, "pincel transformado"; e shenbi, 神筆, "pincel divino") pode se referir também a escrever talismãs, e ambas as práticas podiam estar associadas.
Tsung-Hsun Hsieh afirma que feiluan se distingue de fuji como uma técnica de elite, integrada no culto do Imperador de Jade, em que os praticantes se viam como ministros da burocracia celestial. Vincent Goossaert considera que a distinção é importante, mas ambos os termos podiam ser também recombinados ou indistintos, e que divindades associadas ao Imperador de Jade produziam escritas espirituais sem utilizar a terminologia de "luan". Já Wang Chien-chuan critica Tsung-Hsung Hsieh e considera feiluan como se referindo principalmente à escrita direta de espíritos, sem que um médium segure o instrumento de escrita.
Luan () "um pássaro mítico parecido com a fênix" é usado em sinônimos como (, "suportar a fênix"), (, "fênix voadora") e (, "fênix descendente"). Esses últimos termos são utilizados atualmente especificamente sobre a atividade de receber adivinhação por fuji. O processo envolve participantes especializados. As duas pessoas (ou raramente uma) que seguram a peneira ou estilete são chamadas (, "mãos de prancheta"), apenas um dos quais é ostensivamente possuído por um shen (, "espírito; deus") ou xian (, "imortal; transcendente"). Seus assistentes podem incluir um pingsha (, "nivela areia") que suaviza o (, "mesa de areia"); um (, "leitor de prancheta") que interpreta os caracteres; e um (, "copista de prancheta") que os registra. Jiwen (, "escrita de prancheta") é uma referência geral a textos produzidos através da escrita de espíritos.
O pássaro luan (traduzido equivalentemente à fênix) é um pássaro mítico nas antigas lendas chinesas. É o mensageiro da Rainha Mãe do Ocidente e é responsável por trazer mensagens dos deuses. Portanto, "descida da fênix" tem o significado de transmitir um oráculo.
Começando por volta de 1500 na dinastia Ming, o método de fuji e os caracteres escritos mudaram de "apoiar a peneira" (escrita de espíritos utilizando uma peneira suspensa ou cesto de joeirar) para "sustentar a prancheta/estilete" (dirigir uma vara ou estilete, normalmente feito de um galho de salgueiro e pêssego em formato de Y ou T). "Fuji", escrito sob a forma 扶乩, é o melhor termo equivalente e o mais abrangente para a categoria de "escrita de espíritos" chinesa, tornando-se o mais comum. Porém ele não é normativo: outras técnicas de escrita, como com um pincel ou sem médium segurando um instrumento, continuam comuns até hoje.
Acredita-se que a vara é direcionada pelos seres espirituais sobre uma bandeja de areia, sendo nela esboçados os caracteres. Um leitor diz qual caractere é e o transcreve em papel. Sessões geralmente ocorrem em locais santos internos de um santuário, ante a imagem de uma divindade, e com um grupo de espectadores presentes, formado de devotos e membros do culto.miniaturadaimagem|240x240px|Um "pincel de adivinhação" com cabeça de dragão, chamado luan tai, luan bi ou ki. Exposto no Museu Lanyang.Em formas mais recentes, os médiuns de espíritos na prática do fuji são conhecidos como "principal discípulo da fênix" (zhengluan shen 正鸞生), além de jishou; um ou dois deles seguram uma vara de madeira em formato de Y (aproximando-se do formato da forquilha usada em radiestesia), composta de madeira de pessegueiro ou salgueiro, chamada ki ou ji (ou também chi em outra transliteração). Além dele, auxiliando a fênix deve haver também um fuluan (副鸞). Há registro de que também são acompanhados de dois anunciadores e dois registradores; coletivamente são referidos como os "seis" ("três talentos").
"Pincel que desce" (jiangbi 降筆) tornou-se então o termo literário do culto, em referência à revelação através do pincel que varre sobre a areia. Outros termos às vezes utilizados para se referir aos grupos que realizam a prática, principalmente na Taiwan contemporânea, é "religião de espíritos" ou "religião confuciana de espíritos"; esta última designação provavelmente a associa ao confucionismo devido à ligação desta religião com a escrita.
Muitos textos obtidos por escrita de espíritos necessitavam ser decodificados, pois vinham em escrita poética críptica, exigindo técnicas divinatórias (questionar com perguntas, invocar a divindade) para definir o oráculo.
Desenvolvimento A historiografia da escrita de espíritos na China costuma se dividir em três vertentes, com foco em três períodos: fases iniciais na dinastia Song; corpos de obras obtidas por escrita de espíritos e reunidas em cânones taoistas do início a meados do período Qing; e movimentos e textos sectários ou confucianistas do período Qing tardio e século XX.
Vincent Goossaert considera que houve quatro grandes pontos de virada para a prática: sua origem e codificação na dinastia Song; sua simplificação na dinastia Ming; sua adotação pelo Xiantiandao e pelas tradições sectárias subsequentes no século XIX; e sua marginalização desde a metade do século XX.
Goossaert define três características que são constantes entre muitos grupos ao longo dos diversos períodos: os membros são afiliados a uma deidade transcendente como discípulos (dizi 弟子), dela recebem um nome de ordenação e são inscritos nos registros celestiais; a deidade é apresentada como integrante da burocracia celestial, tutelar dos devotos e uma salvadora da humanidade; e há inspiração escatológica. A grande maioria dos relatos sobre a prática indica que elas eram realizadas com a presença de um especialista ritual, geralmente taoista, que não necessariamente era um sacerdote (daochi), mas que pelo menos passou por iniciação ou treinamento, exigindo uma certa seriedade e técnica na performance.