Vipasca, igualmente conhecida como Metal Vispacense () ou Vispasca, foi uma povoação romana, situada nas imediações da moderna vila de Aljustrel, na região do Alentejo, em Portugal. Consistia numa povoação mineira, cuja existência estava ligada à exploração dos ricos jazigos na área de Algares. Com efeito, as minas romanas de Aljustrel eram de grande importância, sendo consideradas como uma das principais produtoras de cobre durante o período da antiguidade. Além das zonas residenciais e industriais, a população romana também incluía uma grande necrópole e um complexo termal. Um dos achados arqueológicos mais significativos na zona de Aljustrel foram as chamadas Tábuas de Bronze, duas folhas metálicas onde estavam escritas várias regras sobre exploração mineira e várias actividades do quotidiano, constituindo um importante testemunho sobre a legislação romana.
Descrição thumb|left|Mapa da Faixa Piritosa Ibérica em Portugal, demonstrando as principais minas. As de Aljustrel e Neves-Corvo ainda funcionam, enquanto que as da Caveira, Lousal e São Domingos já foram encerradas Composição e localização A povoação de Vipasca era de grandes dimensões, e estava situada principalmente na moderna área de Vale da Oca, nas imediações do jazigo de Algares. A povoação em si estaria localizada muito perto do Bairro de Valdoca ou de Santa Bárbara, tendo a maior parte dos seus vestígios sido destruídos. Naquela zona também foram descobertos outros núcleos de estruturas romanas, incluindo um edifício residencial conhecido como Casa do Procurador, que fazia parte de um conjunto maior de estruturas ligadas à produção mineira, e que se prolongavam até aos terrenos onde a Companhia Transtagana construiu posteriormente as suas infraestruturas para a transformação do minério, principalmente três chaminés para a queima das pirites. Devido às dimensões dos edifícios e à elevada qualidade dos materiais empregues, poderia ter sido a sede dos administradores das minas. Neste local foram encontrados os vestígios de vinte unidades estratigráficas construtivas, ocupadas em duas fases diferentes de ocupação, uma vez que sob os pavimentos dos edifícios foram encontradas as ruínas de uma estrutura mais antiga. Os espaços e edifícios correspondentes à segunda fase incluem um pátio aberto, que tinha em seu redor uma divisão em pórtico com colunas de ladrilhos, e um muro baixo, ladeando o pátio em três faces. Também foram encontrados os vestígios de um canal que era utilizado para escoar a água do pátio central. O pórtico era por seu turno rodeado por várias divisões, das quais pelo menos duas foram identificadas como quartos de dormir (cubículo). A entrada do edifício era feita pelo pátio, e as várias divisões estavam organizadas em níveis ligeiramente diferentes, acompanhando o declive do terreno, estando ligadas por escadas.MACIAS et al, 2007:423-424
Destaca-se igualmente a presença de várias estruturas na área do Azinhal, nas margens do Barranco de Feitais, que correspondem a um edifício de grandes dimensões. Este local foi ocupado em três fases, primeiro por um edifício de funções indeterminadas, depois por um complexo para armazenamento de cobre e a queima de minério, com fornos circulares, e finalmente como depósito de escórias. Estava dividido em duas zonas e um pátio, com oito compartimentos, alguns dos quais utilizados na queima de sulfuretos, sendo os residuos depois transportados para outro local dentro do edifício, onde eram sujeitos a tratamento mecânico. Junto aos locais da queima encontravam-se pequenas divisões onde eram escolhidos os núcleos de minério queimado, e um armazém para acolher o concentrado de cobre, que tinha de ser protegido da água devido à sua grande solvabilidade. No interior também existiam espaços para armazenamento de escórias de redução. As paredes são em alvenaria, contendo xistos e rochas vulcânicas regionais misturadas com argamassa de barro. O edifício da segunda fase pode ser interpretado como uma officina aenaria, local onde o minério era transformado em concentrado de cobre, levantando questões interessantes sobre a natureza das operações mineiras em Aljustrel durante a época romana, uma vez que a queima do minério permitia aproveitar os minérios com um teor mais baixo. Este género de estruturas foi construído principalmente entre os séculos XVI a XIX, quando se tentava reaproveitar as minas de baixo teor, tendo sido igualmente empregue em Aljustrel nos finais do e princípios do XX. Porém, julgava-se que os romanos não necessitavam de queimar o minério, uma vez que as suas explorações incidiam principalmente sobre os jazigos mais ricos, além que este método exige conhecimentos avançados sobre física e química, demonstrando que os técnicos romanos alcançaram um nível tecnológico superior ao inicialmente previsto.MACIAS et al, 2007:425-426
Segundo Estácio da Veiga, a cidade romana mais próxima das minas seria Arandis, que era habitada pelos povos aranditanos, tendo avançado a teoria de que estes poderiam ter sido os principais responsáveis pela mineração em Aljustrel.VEIGA, 1889:55 Vipasca era servida por uma rede de estradas, que a ligavam a vários pontos importantes da região. Uma destas estradas terminava em Pax Júlia (Beja), passando perto da aldeia de Santa Vitória, enquanto que outra ia até Mírtilis (Mértola), que nessa época era o principal centro de escoamento dos metais produzidos na região. Esta importante via era controlada por duas fortificações romanas, uma situada no mesmo local onde se ergue a Capela de Nossa Senhora de Aracelis, e outra no Castelo de Montel, ambos situados no concelho de Castro Verde. Em Vipasca também terminava um ramal da estrada entre Pax Júlia e Salácia (Alcácer do Sal), e que era igualmente defendido por um forte romano, situado nas imediações da aldeia de Odivelas, no concelho de Ferreira do Alentejo. Segundo o Itinerário de Antonino, elaborado nos princípios do , esta via continuava depois por Messejana, Garvão, São Bartolomeu de Messines, Portimão e Lagos, terminando em Ossónoba (Faro).LOBATO, 1983:20
O concelho de Aljustrel encontra-se numa área de grandes potencialidades mineiras, conhecida como Faixa Piritosa Ibérica, que se estende ao longo do Alentejo e da Andaluzia. Os romanos aproveitaram extensamente os recursos naturais da faixa piritosa, tendo Vipasca sido um de vários centros mineiros na região, estando os outros situados em Castro Verde, Neves-Corvo e Mértola. A mina de Aljustrel não foi a única explorada pelos romanos na área do moderno concelho de Aljustrel, tendo sido descobertos indícios de mineração daquele período numa jazida de cobre na Herdade do Montinho, nas imediações da aldeia de Rio de Moinhos.
Minas
Em relação às minas em si, os romanos exploraram principalmente a área de Algares, tendo sido descobertos vários vestígios de mineração romana no chapéu de ferro. Na obra A Tabula de Bronze de Aljustrel em 1889, o arqueólogo Estácio da Veiga referiu que existem provas de trabalhos romanos nos jazigos de São João do Deserto,VEIGA, 1889:35 embora estes tenham provavelmente sido feitos com um grau de desenvolvimento muito inferior em relação a Algares. A presença de vestígios de trabalhos romanos em São João também é referida numa reportagem que o jornalista Eduardo Coelho escreveu em 1876 para o Diário de Notícias. Embora existam outros depósitos na área de Aljustrel, apenas estes dois é que tinham afloramentos à superfície, motivo pelo qual foram os únicos a serem explorados até ao .MACIAS et al, 2007:420 Era principalmente produzido cobre, e em menor quantidade a prata.
Necrópole e termas
Junto ao povoado foi identificada uma área sepulcral, conhecida como Necrópole da Valdoca. Era formada por 496 sepulturas, umas de inumação e outras de icineração, de planta rectangular e escavadas no substrato rochoso, contando originalmente com tampas em pedra, de dimensões diversas.
A povoação romana também contou com um complexo de banhos públicos (termas), que é referido numa das duas Tábuas de Bronze de Aljustrel, e que segundo Estácio da Veiga poderia ter estado localizado no mesmo local do que as Termas de São João do Deserto, que ao longo de vários séculos foram utilizadas para curar várias doenças de pele.VEIGA, 1889:36-37 o arqueólogo avançou a teoria de que a Ermida de São João do Deserto poderia ter sido construída em cima dos alicerces do edifício romano, podendo a fonte no seu interior sido um dos vestígios da antiga estrutura.VEIGA, 1889:40 Porém, a ermida foi demolida na segunda metade do , devido a trabalhos de mineração. De acordo com as regras de funcionamento escritas na Tábua de Aljustrel, as termas romanas dispunham de banheiras para água quente, que era aquecida com recurso a lenha, e poderia ser utilizada tanto por homens como por mulheres.
thumb|Mapa das zonas onde foram encontrados vestígios romanos. Estão indicados a localização provável do povoado, a necrópole de Valdoca, o conjunto de edifícios residenciais conhecido como "Casa do Procurador", o conjunto de tanques do Azinhal em Feitais, e o chapéu de ferro, um grupo de rochas muito oxidadas, que constituem a parte à superfície de um jazigo mineral, que foi explorado pelos romanos
Espólio Um dos principais indícios da intensidade que a produção mineira atingiu durante o período romano foi a grande quantidade de escórias que foram descobertas na área de Aljustrel, com concentrações em Vale de Oca, Malpique e Feitais. Num artigo publicado em 1931, o investigador Aboim Inglêz calculou o volume das escórias em mais de 120.000 m³, o que poderia corresponder a mais de meio milhão de toneladas de minério. Uma parte considerável dos depósitos de escórias já desapareceu devido ao seu reaproveitamento, que se iniciou ainda durante a fase romana, como pode ser constatado pela presença de escórias nas paredes de um conjunto de tanques. Estes materiais continuaram depois a ser reutilizados em épocas posteriores, por exemplo no empedramento das estradas e para encher depressões no terreno. Uma parte considerável destas escórias apresentavam ainda um grande teor de cobre, motivo pelo qual foram trabalhadas pela operadora belga que era responsável pelas minas de Aljustrel, tendo conseguido produzir alguns milhares de toneladas de cobre metálico. Aboim Inglêz avançou a teoria que durante o período romano a exploração era centrada principalmente na produção de prata, motivo pelo qual teriam ficado por aproveitar estas escórias ricas em cobre.