A historiografia da África, refere-se a escrita da história sobre o continente africano. Inicialmente dominada por visões eurocêntricas, passou por renovação no século XX com a valorização de perspectivas africanas e novas fontes históricas.

Os primeiros trabalhos sobre a história da África são tão antigos quanto o início da história escrita. Os historiadores do velho mundo mediterrânico e os da civilização islâmica medieval tomaram como quadro de referência o conjunto do mundo conhecido, que compreendia uma considerável porção da África. A África ao norte do Saara era parte integrante dessas duas civilizações e seu passado constituía um dos centros de interesse dos historiadores, do mesmo modo que o passado da Europa meridional ou o do Oriente Próximo. A história do norte da África continuou a ser parte essencial dos estudos históricos até a expansão do Império Otomano, no século XVI.

Após a expedição de Napoleão Bonaparte ao Egito em 1798, o norte da África tornou -se novamente um campo de estudos que os historiadores não podiam negligenciar. Com a expansão do poder colonial europeu nessa parte da África – após a conquista de Argel pelos franceses em 1830 e a ocupação do Egito pelos britânicos em 1882 – um ponto de vista europeu colonialista passou a dominar os trabalhos sobre a história da porção norte da África. No entanto, a partir de 1930, o movimento modernizador no Islã, o desenvolvimento da instrução de estilo europeu nas colônias da África do Norte e o nascimento dos movimentos nacionalistas norte-africanos começaram a combinar-se para dar origem a escolas autóctones de história que produziam obras não apenas em árabe, mas também em francês e inglês, restabelecendo assim o equilíbrio nos estudos históricos dessa região do continente.

A historiografia da África passou por importantes transformações ao longo do século XX, especialmente após os processos de independência dos países africanos. Nesse contexto, historiadores africanos passaram a questionar interpretações eurocêntricas e a valorizar novas abordagens e fontes históricas.2. KI-ZERBO, Joseph. História da África Negra. Lisboa: Europa-América, 2009.

História da historiografia africana As primeiras formas de registro sobre a história africana remontam à Antiguidade, com fontes produzidas por egípcios, gregos e romanos, além de relatos de viajantes e cronistas árabes durante a Idade Média. Essas fontes apresentavam, em geral, visões externas sobre o continente.<ref>3. FAGE, J. D. História da África. Lisboa: Edições 70, 2010.

Durante o período colonial, entre os séculos XIX e XX, predominou uma historiografia europeia que interpretava a África a partir de uma perspectiva eurocêntrica, muitas vezes desconsiderando as dinâmicas internas das sociedades africanas.

A consolidação do campo da história da África ocorreu sobretudo após a Segunda Guerra Mundial, associada a dois processos principais: a renovação crítica das Ciências Sociais especialmente com a influência da Escola dos Annales e a reavaliação de paradigmas europeus diante das transformações políticas e intelectuais do período. Esse dado faz com que muitos dos avanços conquistados possam ser vistos como pertencentes a uma renovação historiográfica maior, da primeira metade do século XX.10. BARBOSA, Muryatan Santana. “Eurocentrismo, História e História da África.” Sankofa. Revista de História da África e de Estudos da Diáspora Africana Nº 1 jun./2008 p. 50.

Inicialmente desenvolvido em centros europeus, como na França e Inglaterra, com revistas especializadas sendo consideradas as primeiras publicações sobre a história da África ou seja, o campo nasce ainda sob influência europeia, mas já em processo de transformação crítica.

As primeiras escritas por intelectuais africanos só vão acontecer entre 1950 e 1960, geralmente com interpretações próprias, valorizando suas experiências históricas e questionando os modelos coloniais.

Principais autores Entre os principais historiadores africanos do período destaca-se o senegalês Cheikh Anta Diop, associado ao desenvolvimento de perspectivas afrocentradas. Em obras como Nações negras e cultura (1955) e Anterioridade das civilizações africanas (1967), o autor propôs interpretações sobre o papel do Egito antigo na formação das civilizações africanas e do mundo mediterrânico.11. BARBOSA, Muryatan Santana. “Eurocentrismo, História e História da África.” Sankofa. Revista de História da África e de Estudos da Diáspora Africana Nº 1 jun./2008 p. 51.

Outros autores relevantes incluem Abdoulaye Ly, que analisou a inserção da África na formação do capitalismo, e Djibril Tamsir Niane, que se destacou pelo uso da tradição oral como fonte histórica. Esse conjunto de produções é frequentemente interpretado como parte de um movimento de valorização das sociedades africanas como sujeitos históricos.12. BARBOSA, Muryatan Santana. “Eurocentrismo, História e História da África.” Sankofa. Revista de História da África e de Estudos da Diáspora Africana Nº 1 jun./2008 p. 51-52. 

Metodologias e fontes A construção da História da África implicou a ampliação dos métodos e das fontes utilizadas na pesquisa histórica. Entre os principais elementos, destacam-se o uso da tradição oral, fundamental em contextos com menor disponibilidade de fontes escritas, e a valorização dos tradicionalistas como detentores de memória histórica.

Além disso, a interdisciplinaridade desempenha um papel relevante, com contribuições da arqueologia, da linguística, da antropologia e das ciências naturais.  

As limitações iniciais do campo historiográfico africano, especialmente nas décadas de 1950 e 1960, incluíam a dependência de instituições acadêmicas estrangeiras e a permanência de influências teórico-metodológicas europeias, o que condicionava parte da produção historiográfica.

Crítica ao eurocentrismo Um dos principais debates da historiografia africana contemporânea é a crítica ao eurocentrismo. Durante muito tempo, difundiu-se a ideia de que a África não possuía história, especialmente devido à valorização exclusiva de fontes escritas nos moldes europeus.7. VANSINA, Jan. A tradição oral como história. Lisboa: Edições 70, 2010.

A Segunda Guerra Mundial contribui bastante para a crítica ao eurocentrismo, fazendo com que autores contemporâneos como Vansina e Lovejoy, questionassem pensamentos da primeira geração da historiografia africana, que tinha uma visão mais eurocêntrica, esses e outros autores questionaram os afrocentristas, por exemplo, não desmistificarem a questão da singularidade grega em relação ao mundo, contribuindo para desfazer visões a-históricas atribuídas aos africanos por pensadores eurocêntricos e por consequência, racistas.9. BARBOSA, Muryatan Santana. “Eurocentrismo, História e História da África.” Sankofa. Revista de História da África e de Estudos da Diáspora Africana Nº 1 jun./2008

Consolidação do campo Entre os anos de 1960 e 1970, consolidaram-se dois tipos de estudos sobre a África. Uns preocupados em reconstruir a história africana desde uma perspectiva estrutural de longo prazo. Em uma lista discutível, pode-se citar, por exemplo, neste caso, os estudos de Joseph Ki-Zerbo, História da África Negra (1979); Basil Davidson, A África na História (1975) e A velha África redescoberta (1977); Daniel McCall, A África em perspectiva temporal (1964); Endre Sík, A História da África Negra (1976).13. BARBOSA, Muryatan Santana. “Eurocentrismo, História e História da África.” Sankofa. Revista de História da África e de Estudos da Diáspora Africana Nº 1 jun./2008 p. 54-56

A outra forma tem como objetivo estudar o tráfico escravista, colonialismo e descolonização, como os ensaios do próprio Basil Davidson, por exemplo, A libertação da Guiné: aspectos de uma revolução africana (1975); Terence Ranger, Revoltas na Rodésia do Sul: um estudo da resistência africana (1967); Walter Rodney, Como a Europa subdesenvolveu a África (1972) e A História da Costa da Guiné (1970); Boubacar Barry, O Reino do Wallo (1970); Philip Curtin, O tráfico escravista no Atlântico (1970) e Trocas comerciais na África pré-colonial (1975); Henri Brunschwig, Partilha da África negra (1971); Samir Amin, O desenvolvimento desigual: ensaio sobre as formações sociais do capitalismo periférico (1975); e muitos outros autores e textos.

Em 1980, a UNESCO iniciou a publicação da História Geral da África, com participação de intelectuais africanos e estrangeiros, planejada desde 1966, a partir de um pedido formal dos países africanos recém-libertados. Os oito volumes da História Geral da África tornar-se-iam fonte obrigatória sobre o assunto, em que os maiores especialistas da área puderam, democraticamente, expor seus pontos de vista sobre o passado e o presente africano.8. UNESCO. General History of Africa. Paris: UNESCO, 1981-2010.

A partir dos anos 1980 e 1990, com a ampliação deste campo de estudo, percebe-se uma multiplicação de estudiosos, temas e métodos de trabalho, o que torna o estudo da História da África uma área disciplinar consolidada e internacionalmente reconhecida.        Com isso, o foco torna-se cada vez mais regionalizado, tratando de regiões específicas da África: Austral, Ocidental, Saheliana etc. Trata-se de um avanço tanto intelectual quanto institucional, como a formação de novas áreas de estudos historiográficos africanos dentro e fora deste continente. Surgem também novos especialistas sobre a história da África, tanto fora do continente africano, como por exemplo Jan Vansina, P. Lovejoy, Y. Kopytoff, quanto dentro da África, como Valentin-Yves Mundimbe, Toyn Falola, Isaac. A. Akinjogbin, dentre outros.

Apesar dos esforços e do pensamento otimista em relação a história da África a partir dos africanos, ainda é difícil pensar que a historiografia feita por africanos supere a historiografia africana com uma visão eurocêntrica, pois os desenvolvimentos teórico-metodológico da História não acarretam, essencialmente, avanços exemplares, visto que, para isso, a questão acadêmica deveria se aliar a disposição política e científica, voltando-se para um saber multicultural.

Notas

Categoria:Historiografia Categoria:História da África