Os eventos que aconteceram no primeiro semestre de 2023 foram uma consequência direta de importantes desdobramentos na segunda metade de 2022, no contexto da cronologia da invasão da Ucrânia pela Rússia. Esse período foi caracterizado inicialmente pela continuidade das ofensivas Rússia, capturando as cidades de Soledar e Bakhmut. Contudo, perto do final do primeiro semestre de 2023, a Ucrânia tomou a iniciativa e lançou uma grande contraofensiva no sul (especialmente na área de Zaporíjia) e no leste (especialmente na área de Donetsk).

Eventos

Janeiro miniaturadaimagem|A situação militar na Ucrânia no começo de janeiro de 2023. O inverno foi caracterizado por ofensivas pontuais russas em Soledar e Bakhmut, no Oblast de Donetsk, e impasse geral na maioria das outras frentes de batalha. 1–16 de janeiro Os militares ucranianos afirmaram ter matado 400 soldados russos com outros 300 feridos durante um ataque com mísseis em Makeevka, localizada na Donetsk ocupada pelos russos. Daniil Bezsonov, um funcionário de alto escalão apoiado pela Rússia, culpou o "HIMARS americano" pelo ataque, alegando que cerca de 25 foguetes foram disparados na região. O Ministério da Defesa da Rússia confirmou que um total de 89 soldados russos morreram no ataque depois que 6 foguetes foram disparados. O quartel foi baseado próximo a um depósito de munição, de acordo com blogs de guerras russos, o que pode explicar a grande explosão. Bezsonov pediu que os militares responsáveis ​​sejam "punidos". O Estado-Maior da Ucrânia reivindicou 10 veículos destruídos. O Ministério de Defesa Russo deu um número atualizado de 89 mortos.

As Forças Armadas da Ucrânia afirmaram ter derrubado 45 drones kamikaze Shahed 136. O ataque russo ocorreu várias horas depois do ataque ucraniano a Makeevka. De acordo com o prefeito de Kiev, um homem foi ferido por destroços. O governador russo Alexander Bogomaz afirmou que a Ucrânia lançou um ataque de drone a uma instalação elétrica no distrito de Klimovsky. Em 2 de janeiro, de acordo com a agência de notícias russa TASS, as forças russas derrubaram um drone ucraniano perto da cidade de Voronej. Vladimir Putin ordenou a exibição de "documentários" que retratam a glória do ataque à Ucrânia e a luta contra sua ideologia "neonazista". miniaturadaimagem|esquerda|Militares ucranianos em Bakhmut, em um blindado 9K35 Strela-10. A França anunciou que enviaria veículos blindados AMX-10 RC e ACMAT Bastion para a Ucrânia. O Patriarca Primaz da Igreja Ortodoxa Russa, pediu um cessar-fogo de Natal para que as pessoas pudessem assistir aos serviços de Natal ortodoxos nos dias 6 e 7 de janeiro. O presidente turco, Recep Tayyip Erdoğan, também pediu um "cessar-fogo unilateral"; depois, o presidente Putin ordenou que as forças armadas russas realizassem um cessar-fogo de 36 horas para o Natal ortodoxo russo, no qual a Ucrânia rejeitou a proposta de cessar-fogo da Rússia. O primeiro grupo de 24 prisioneiros recrutados pelo Grupo Wagner, lutando na Ucrânia, terminou seus contratos de seis meses e foi libertado com anistia total por seus crimes passados. Em uma declaração conjunta, Joe Biden e Olaf Scholz anunciaram que o governo alemão decidiu fornecer à Ucrânia um sistema de mísseis MIM-104 Patriot junto ao Marder (veículo de combate de infantaria), enquanto o governo americano forneceria cerca de 50 veículos de combate M-2 Bradley.

Em 8 de janeiro, o ministério da defesa russo afirmou que mais de 600 soldados ucranianos foram mortos durante o ataque a quartéis em Kramatorsk. Oleksandr Honcharenko, o prefeito da cidade, afirmou que o ataque danificou apenas dois edifícios e não havia evidências de vítimas. Um finlandês e mais de um jornalista da Reuters visitaram o local e descobriram que um míssil disparado de um S-300 havia atingido um prédio escolar vazio, sem sinais de fatalidades.

Em 9 de janeiro, a Rússia e a Ucrânia realizaram sua 36ª troca de prisioneiros no conflito, com cada lado trocando 50 prisioneiros de guerra um com ou o outro.

A promotoria regional da Ucrânia alegou que um S-300 disparado do Oblast de Belgorod atingiu a cidade de Shevchenkove, no Oblast de Kharkiv, matando duas mulheres, ferindo uma criança e danificando um shopping center.

Com o aumento da atividade nos frontes de batalha, com mísseis russos caindo em várias localidades da Ucrânia, pedidos internacionais para que o Ocidente aumentasse seu apoio militar e financeiro aos ucranianos. O presidente ucraniano Zelensky, em particular, insistia por blindados, como o tanque de guerra Leopard 2. A Alemanha, contudo, fabricante do veículo negou que tinha intenções de enviar tal tanque para os ucranianos naquele momento.

Em 10 de janeiro, foi anunciado que a produção de aço ucraniana foi reduzida em cerca de 70% em 2022 como resultado do conflito. No geral a economia ucraniana (assim como a da Rússia) entrou em declínio por causa da guerra, mas um pouco menos do que o esperado. miniaturadaimagem|Destruição em Soledar, um dos palcos mais violentos da guerra no começo de janeiro de 2023. Foi reportado ainda que, no começo de janeiro de 2023, a Rússia havia reduzido sua campanha de artilharia. Autoridades dos Estados Unidos e da Ucrânia afirmaram que o fogo de artilharia russa havia, de fato, diminuído quase 75% em alguns lugares, indo de uma média diária de 20 000 projéteis para em torno de 5 000 munições por dia. A queda nos estoques e a destruição de depósitos de munição pelos HIMARS ucranianos foram apontados como responsáveis por essa mudança.

Enquanto isso, a batalha por Soledar parecia estar chegando a uma conclusão. O governo britânico afirmou que a maioria da cidade já havia sido tomada, com o comando do Grupo Wagner afirmando que toda a região havia sido tomada. Combates ainda eram reportadas na área, contudo.

Em 11 de janeiro, o ministro da defesa russo, Sergei Shoigu, apontou o general Valery Gerasimov para substituir Sergey Surovikin como comandante das forças russas lutando na Ucrânia. Surovikin viria a servir como vice-comandante de Gerasimov. A mudança foi creditada a insatisfação de Moscou com a condução da guerra nos últimos meses.

O Grupo Wagner afirmou que cerca de 500 ucranianos haviam morrido durante a Batalha de Soledar. O governador ucraniano de Donetsk, Pavlo Kyrylenko, por outro lado, disse que 100 soldadados russos tinham sido mortos em 12 de janeiro na luta por Soledar.

Em 12 de janeiro, o governo polonês anunciou que tinha intenção de enviar duas brigadas de tanques Leopard 2 para o exército ucraniano. A ação foi saudada por muitos como um passo importante para aumentar a capacidade ofensiva dos ucranianos, mas os alemães ainda resistiam a ideia de enviar tanques para a Ucrânia.

No dia seguinte, em 13 de janeiro, o exército russo anunciou oficialmente que tinha tomado Soledar, mas o ministro da defesa ucraniano, Oleksii Reznikov, negou que a cidade tivesse sido capturada e afirmou que a luta foi "muito difícil". Pavlo Kyrylenko, governador de Donetsk, disse q ue "559 civis, incluindo 15 crianças" permaneciam em Soledar e não podiam ser evacuados. O Presidente Zelensky e a vice-ministra da defesa ucraniana, Hanna Maliar, anunciou que os bolsões de resistência no centro da cidade continuam e que a parte oeste do assentamento permanece nas mãos dos ucranianos. O Chefe de Gabinete do Presidente da Ucrânia, Andrii Yermak, disse que "Soledar é uma cena de batalhas de rua, com nenhum dos lados realmente no controle da cidade". A geolocalização baseada em fotos sugeriu que as tropas ucranianas ainda estavam defendendo a parte noroeste da cidade.

miniaturadaimagem|esquerda|Um prédio destruído em Dnipro após um bombardeio russo. Em 14 de janeiro, uma nova onda de ataques de mísseis russos em várias regiões da Ucrânia. A administração militar de Kiev relatou o ataque à infraestrutura crítica da capital. Kharkiv, Odesa e outras cidades industriais também foram atingidas. A cidade de Dnipro, em particular, foi atingida violentamente com um ataque russo com mísseis que destruiu parcialmente um prédio de apartamentos, matando pelo menos 40 pessoas e ferindo 75 outras.

O Reino Unido declarou que começaria a fornecer tanques de guerra pesados Challenger 2 e novos sistemas de artilharia para a Ucrânia. Outros países, como Polônia e Lituânia, queriam enviar também um punhado de seus tanques Leopard 2 aos ucranianos, mas o governo alemão ainda hesitava. Armin Papperger, o CEO da empresa de defesa alemã Rheinmetall, afirmou que a empresa não seria capaz de entregar tanques Leopard 2 prontos para batalha para a Ucrânia até 2024.

Entre 14 e 15 de janeiro, a luta por Soledar parecia aumentar vigorosamente de intensidade, apesar dos russos afirmarem que já estavam no controle da região. Finalmente, em 16 de janeiro, o governo ucraniano anunciou que suas tropas haviam se retirado de Soledar. Analistas internacionais afirmaram que a conquista de Soledar era importante para aumentar a moral russa e abriu caminho para o cerco de Bakhmut. Contudo, a conquista russa de Soledar foi descrita por muitos como uma "vitória de pirro", pois o preço que os russos pagaram por esse êxito foi muito alto.

17–31 de janeiro thumb|Técnicos da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) visitando a Usina Nuclear de Rivne, em 17 de janeiro de 2023 Em 17 de janeiro, foi divulgado pelos Estados Unidos que militares ucranianos já estavam em solo americano para realizar seu treinamento para operar uma bateria de mísseis MIM-104 Patriot. No dia seguinte, o ministro da defesa da Austrália, Richard Marles, afirmou que o exército australiano enviaria soldados para o Reino Unido para auxiliar os britânicos no treinamento de ucranianos em "táticas de infantaria em táticas de infantaria urbanas, arborizadas e básicas". Estima-se que cerca de dez mil militares ucranianos estavam sendo treinados na Inglaterra.

Em meados de janeiro, já fazia meses que a Ucrânia pedia para seus aliados ocidentais por tanques de guerra. Os europeus só haviam enviado blindados soviéticos antigos de seus arsenais (como o T-72), mas o governo ucraniano exortava por equipamento mais avançado para enfrentar os russos. Desde novembro, a guerra de movimento caracterizado pelas contra-ofensivas havia terminado e o conflito estava se arrastando num impasse com a chegada do inverno. Mas em janeiro, os russos se puseram em diversas ofensivas no leste, a medida que sua indústria de guerra reenchia seus estoques de equipamentos e a mobilização trazia mais recrutas, junto com o emprego em massa de empresas de mercenários, como o Grupo Wagner. Em 20 de janeiro, o ministro da defesa ucraniano, Oleksii Reznikov, afirmou que, apesar da hesitação dos governos ocidentais de enviar veículos pesados para a Ucrânia e a falta de acordo para a transferência de tanques, soldados ucranianos começariam a serem treinados para operar blindados Leopard 2 na Polônia. O governo alemão, que era o que mais resistia a ideia de mandar tanques para a Ucrânia, afirmou, via sua ministra de relações exteriores, Annalena Baerbock, que seu país não impediria a Polônia de treinar os ucranianos a usar veículos alemães.

Em 21 de janeiro, o exército russo começou uma nova ofensiva no Oblast de Zaporíjia. No dia seguinte, a mídia estatal russa afirmou que as tropas russas haviam avançado sobre as cidades de Orikhiv e Huliaipole, na região de Zaporíjia.

Em 23 de janeiro, Mateusz Morawiecki, o primeiro-ministro polonês, afirmou que seu país iria enviar cerca de quatorze blindados Leopard 2 para a Ucrânia, independente da aprovação do governo alemão; no dia seguinte, a Polônia solicitou oficialmente permissão para exportar seus veículos de origem alemã. Apesar da resistência inicial a ideia, o ministro da Defesa alemão, Boris Pistorius, afirmou que encorajava outros países a fornecer treinamento nos tanques para soldados ucranianos.