A história do conhecimento é o campo acadêmico que abarca o conhecimento humano criado ou descoberto ao longo da história e suas formas, focos, acumulação, agentes,SARASIN, Philipp. Was ist Wissensgeschichte? vol. 36, no. 1, 2011, pp. 159-172. Disponível em https://doi.org/10.1515/iasl.2011.010. Acesso em 17 de janeiro de 2023. impactos, mediações, distribuições, aplicações, contextos sociais, condições e métodos de produção históricos. É uma área correlata, mas distinta da história da ciência, da história da erudição e da história da filosofia. O âmbito da história do conhecimento abrange todos os campos descobertos e criados do conhecimento derivado do ser humano, tais como lógica, filosofia, matemática, ciência, sociologia, psicologia ou mineração de dados.
A história do conhecimento é uma disciplina acadêmica que estuda as formas de conhecimento no passado registrado. A disciplina se consolidou nos anos 2000 como uma resposta à era digital e foi formalmente reconhecida com a introdução de instituições acadêmicas como a Geschichte des Wissens. Estudiosos do campo visam investigar as formas, difusão e produção do conhecimento com enfoque tanto no “alto” conhecimento de prestígio, tanto no “baixo” conhecimento do cotidiano. As teorias de Michel Foucalt, com conceitos como “ordens do saber”, têm grande importância nas abordagens da área, sendo usadas de forma similar em outros campos que abordam o uso de quadros sociais, culturais e políticos.
A formação da disciplina tem raízes no campo da história da ciência nos anos 1950 e conceitos contemporâneos podem ser identificados em obras que remontam ao século XV. A extensão dos estudos do campo é dinâmica, podendo abranger desde à antiguidade até a revolução digital. Os conceitos aplicados nesta especialização, como a “cientificação”, explicam a transformação de informação em conhecimento. A “cientificação” está relacionada com a descrição de informação “bruta” dada por Peter Burke. Peter Burke está listado entre alguns dos autores canônicos no campo, ao lado de Martin Mulsow, Pierre Bourdieu e Michel Foucault.
A história do campo Os Fundamentos da História do Conhecimento foram traçados por acadêmicos como o historiador Peter Burke, em trabalhos como “O que é história do conhecimento?”. O livro identifica o “Progresso do conhecimento” do século XV, em que Francis Bacon escreve sobre a circulação do conhecimento. O conceito de “circulação” foi usado no campo da História desde os anos 2000, e traça a transferência do conhecimento através de atores e espaços. No século XIX, acadêmicos expressavam a vontade de historicizar o conhecimento e observar seus avanços. Isso se assemelha à emergência da História das ciências naturais no século XIX. O filósofo cientista Auguste Comte foi um dos primeiros a tentar implementá-la no sistema universitário. O filósofo ilustra o crescimento do interesse acadêmico que visava historicizar o conhecimento. Seguindo Comte, o segundo movimento da Sociologia do Conhecimento dos anos 1960, introduziu ideias de Michel Foucault e Pierre Bourdieu. Do mesmo modo, ambas autoridades impactaram a História do Conhecimento, evidenciado pela obra de Foucault nos campos de produção do conhecimento e o trabalho de Bourdieu sobre conhecimento situado em “Homo Academicus”.
A origem da História do Conhecimento acompanha os avanços da História da Ciência enquanto uma disciplina acadêmica. George Sarton, no início do século XX, defendeu o uso de novas práticas para estudar o progresso científico e previu o uso das humanidades pela ciência. No período dos anos 1950 e 1960, a História da Ciência tinha se implementado enquanto uma disciplina acadêmica, nas universidades da América e da Europa. A mudança de História da Ciência para o alemão Wissenschaftsgeschichte (História do Conhecimento Acadêmico) envolveu a inclusão das humanidades e das ciências sociais. Nos anos 2000 começou o movimento em direção ao alemão Wissens Geschichte, que significa História do Conhecimento. Ao decorrer do estabelecimento da História do Conhecimento, se foi discutido se a História da Ciência deveria ou não ser absorvida pela História do Conhecimento.
A relevância da História do Conhecimento coincidiu com a discussão acerca do termo acadêmico “Sociedade do Conhecimento” refletida na necessidade da gestão de conhecimento desde a década de 1960. Isso também coincidiu com o estudo da revolução digital que pode ser enxergada como uma parte de uma série de revoluções do conhecimento. A era da revolução digital produziu questões sobre como o conhecimento passado foi gerado e circulado. Peter Burke documenta que a crescente globalização da escolaridade contribuiu para o crescimento da disciplina, como visto em sua pesquisa independente na década de 1990, com livros como “Fields of Knowledge” (1992) e “Colonialism and its Forms of Knowledge” (1996). Logo a História do Conhecimento como uma disciplina se tornou institucionalizada nos anos 2000 por toda a Alemanha (em Erfurt e Kiel).
Escopo A história do conhecimento é conhecida por sua amplitude de áreas de estudo. Apesar de não haver consenso entre os acadêmicos sobre o que a pesquisa da disciplina inclui. Áreas que vêm sendo pesquisadas pela disciplina incluem conhecimento em contextos não ocidentais, conhecimento da elite, conhecimento das práticas cotidianas, conhecimento implícito e religioso, conhecimento social, político e cultural. Os tópicos de receitas médicas escritas por mulheres, os fracassos de colheita do século 18 na história da "sabedoria" americana, como a psicologia pop.
Conhecimento é um conceito formativo para o campo, entretanto, sua definição por acadêmicos de Wissensgechichte, como escreve Suzanne Manchard, é “inconsistente”. Acadêmicos admitem a ideia geral de que conhecimento é definido por algo que no passado foi considerado conhecimento. Em oposição Lorraine Daston vê essa definição como prejudicial para o campo, escrevendo-a como muito expansiva e defende a definição de “conhecimento sistematizado”. Daston também afirma na "História da Ciência e da História do Conhecimento" que não há uma definição única de conhecimento.
As definições de conhecimento usadas divergem e medidas interdisciplinares como a área da epistemologia são utilizadas para fornecer uma noção mais clara. Isto vem sendo contestado, pois as definições epistemológicas ignoram conhecimentos que podem ser aplicados. O conhecimento é variável e o que é definido como digno de conhecimento, aceito como conhecimento ou evidência de conhecimento depende do ‘lugar, tempo ou grupo social’. Além disso, conhecimento conceitualizado em diferentes línguas (latim; scientia 'saber que' em comparação com 'saber como'), complicando o trabalho de acadêmicos para definir o conhecimento ou a disciplina. Isto porque a compreensão de conhecimento é afetada pela língua. Relativo ao tópico, tem sido apontado conhecimento como um conceito corre o risco de tornar-se progressivamente vago e incapaz para o uso de análises.
Os movimentos disciplinares e transdisciplinares se sobrepõem com o número de campos acadêmicos. A Geschichte des Wissens incorpora pesquisadores de várias áreas, incluindo filosofia, história literária e história predominantemente social, entre outras. Na geografia, uma sobreposição com a história do conhecimento pode ser vista como uma recente mudança epistemológica e seus estudos sobre locais de produção de conhecimento, ou seja, o estudo do conhecimento científico em seus ambientes geográficos. A definição de Lorraine Daston inclui o conhecimento religioso, pois o conhecimento confessional é sistematizado.
Na história do conhecimento, a ideia de que conhecimento e história são plurais na pluralização do savoir (saber) de Michel Foucault. Isto também é fundado no campo da antropologia que pluraliza cultura no conceito ‘culturas do conhecimento’. Isto tem a ver com as muitas formas de conhecimento, tais como o abstrato ou concreto. Ao mesmo tempo contrasta com a crença do século 19 da história singularmente como narrativa. Essa visão é conhecida como Die Geschichte e foi construída durante o século 20. Além disso, um estudioso pergunta se a história do conhecimento pode eliminar a necessidade de conceitos como "história social" e "história cultural". O mesmo estudioso prossegue descrevendo a forma como Peter Burke usa o conhecimento como um substituto para a cultura.
Conceitos Teorias, abordagens e conceitos têm sido usados para estudar a história do conhecimento e permitir que pesquisadores entendam questões e problemas em uma escala menor para então relacioná-los a contextos mais abrangentes. Por exemplo, existem conceitos que são “políticos”, “sociais” e “culturais” que são relevantes para o campo de estudos. Historiadores também costumam abordar o campo a partir de uma visão interna do mesmo, avaliando o conteúdo e não as abordagens contextuais que focam nos conceitos.Peter Burke, “The History of Knowledge. Social or Cultural History?,” Cultural History in France, 2019.
Scientification ou Cientifização é um conceito usado no campo da história do conhecimento para designar a transformação da informação em conhecimento, processo no qual a transformação é sistematizada. O conceito de Cientifização aborda práticas convencionais como a observação que, com o passar do tempo, foi disciplinarizada. Essa transformação se relaciona com o que estabelece Peter Burke, sendo a informação uma forma “crua” que, ao “cozinhar”, se torna conhecimento. Similarmente, métodos como objetividade, demonstração, erro e crença são derivados de metodologias científicas tradicionais e são aplicados na pesquisa histórica e historiográfica.Peter Burke, What Is the History of Knowledge? (Cambridge, Uk: Polity Press, 2015); Martin Mulsow and Lorraine Daston, “History of Knowledge,” in Debating New Approaches to History, ed. Marek Tamm and Peter Burke (Bloomsbury Publishing, 2018). Fundamentalmente, porém, o uso da ciência foi definido apenas no século XIX, criando um anacronismo quando o conceito é aplicado em práticas de conhecimento anteriores à esta data.
As ‘orders of knowledge’ ou ‘ordens do conhecimento’ de Michel Foucault é um conceito que estabelece que as organizações são definidas pelo tempo ou espaço em que se encontram. Quando os valores de uma cultura interagem com as práticas de conhecimento, forma-se um regime. O sistema é entendido como centros de conhecimento (como as universidades) e é formado e modificado a partir de interações e valores. Essa é a base da teoria de Foucault de que um ‘regime of truth’ ou ‘regime de verdade’ é inerente a uma sociedade. Historiadores observam um recorte temporal e indagam como as pessoas interpretavam os conceitos ao olhar para que conhecimentos influenciavam as interpretações, para então investigar como seus entendimentos afetavam as ordens de conhecimento. Alguns profissionais da área são vistos trabalhando na Geschichte Des Wissens na Universidade de Zurique. Publicações do co-fundador da instituição Philip Sarasin são similares àquelas de Foucault.