O Campeonato Brasileiro de Clubes Campeões de 1920, denominado de Taça Elixir de Nogueira pelo Club Athletico Paulistano e também conhecido como Torneio dos Campeões, Copa/Torneio dos Campeões Estaduais ou Torneio Nacional de Clubes, foi um dos primeiros campeonatos de futebol de nível interestadual no Brasil. Organizado pela Confederação Brasileira de Desportos (CBD, a precursora da atual CBF), em 1920, plena fase amadora, é tido como um dos antecedentes do Campeonato Brasileiro de Futebol.
O jornal O Paiz, edição de 25 de março de 1920, anunciava o início do "grande interestadual promovido pela CBD", que convidou altas autoridades do país, incluindo o presidente do Brasil, Epitácio Pessoa, para acompanhar os jogos. O torneio foi vencido pelo Paulistano, a "Taça Elixir de Nogueira", na qual continha a inscrição "Campeão Brasileiro de 1920". A farmácia "Viúva Silveira & Filho" instituiu uma taça para a CBD: "Sr. presidente da C.B.D. vimos a vossa presença oferecer... para ser conferido como prêmio ao vencedor do torneio entre os campeões do Rio, S. Paulo e Rio Grande do Sul, uma taça de prata, denominada 'Taça Elixir de Nogueira".
Segundo o setor de memória do Club Athletico Paulistano, foi a primeira competição do futebol brasileiro que envolveu mais de dois estados. Contudo, o torneio não é reconhecido pela Confederação Brasileira de Futebol como Campeonato Brasileiro. Em 2022, o portal Superesportes entrou em contato com o clube paulista, que negou pretensão de reconhecimento. Em 2023, afirmou em nota ao Lance! que “o tema está em avaliação pelo clube”. Opositor do profissionalismo à época, o clube deixou o futebol em 1929, mas continua ativo em outras modalidades, como o basquete.
Participantes Foram chamados os campeões estaduais de 1919 de São Paulo, Rio de Janeiro (Distrito Federal) e Rio Grande do Sul: borda|20x20px|Distrito Federal (Rio de Janeiro-DF), campeão carioca (Liga Metropolitana de Desportos Terrestres); (São Paulo-SP), campeão paulista (Associação Paulista de Esportes Atléticos); (Pelotas-RS), campeão gaúcho (Federação Riograndense de Desportos).
Sobre as escolhas dos clubes, O Imparcial (1920) afirma que o Brasil de Pelotas teve preferência "pelas necessidades de conhecer a eficiencia dos elementos riograndenses, que jamais haviam se apresentado nesta capital (Rio de Janeiro, então capital nacional)", e precedência "pela circumstancia de ser longínquo o Estado do Rio Grande". Já as escolhas de Paulistano e Fluminense tiveram como fundamento "cimentar a paz" recentemente estabelecida entre as duas entidades. O jornal também afirma que a CBD pretendia convidar o "Americano F.C." (sic), de Minas Gerais, o que não foi possível diante da "precariedade do tempo que não permitiria a realização de mais de tres matches, como fôra muito".
O Fluminense, campeão estadual pela oitava vez (terceiro consecutivo), ganhou 17 dos 18 jogos, sofrendo uma derrota, para o São Cristóvão. O Paulistano, em seu sétimo título (quarto consecutivo), teve 14 vitórias, dois empates e duas derrotas. Já o Brasil de Pelotas, primeiro campeão gaúcho, jogou apenas uma partida, vencendo o Grêmio por 5 a 1, fora de casa; cinco times desistiram do campeonato.
História Antecedentes
A origem da competição relaciona-se com a controvérsia sobre a Taça Ioduran de 1919, em que Fluminense e Paulistano se enfrentariam como campeões estaduais de Rio de Janeiro e São Paulo, sendo que este seria o mandante, por ser então campeão. Esta acabou não ocorrendo, em razão de desentendimento envolvendo a Associação Paulista de Esportes Atléticos (APEA) e a carioca Liga Metropolitana de Desportos Terrestres (LMTD), com aquela suspendendo os jogos interestaduais de seus filiados.
A razão da controvérsia foi a transferência do zagueiro Palomone, então Mackenzie, ao Botafogo, logo após o Sul-Americano de 1919. Isto gerou uma crise entre as instituições, conforme explica Fernandez (2016, pp. 240-241) citando Mazzoni (1950): "O clube paulista [o Mackenzie] acusou o clube carioca de aliciar o jogador com ofertas financeiras, a LMDT confirmou a transferência e a APEA rompeu com essa entidade, como a CBD ficou ao lado da LMTD, a APEA também rompeu com a CBD".
A APEA impediu o Paulistano de disputar a Taça Ioduran, sob a justificativa de falta de datas, de modo que o Fluminense, não sem o descontentamento do clube do Jardim América, foi declarado campeão por w.o pela LMTD. Já em 1920, o Paulistano aceitou entregar a taça, requisitando, como condição, um novo confronto. Assim, segundo Fernandez (2016, p. 241): "Essa atitude permitiu uma trégua para a realização do primeiro campeonato brasileiro de clubes, a Copa dos Campeões".
Em 1917, o Paulistano também perdeu a Taça Ioduran por w.o, para o America. Em abril de 1918, na única edição realmente jogada, foi campeão sobre o Fluminense, pelo placar de 3 a 2, no Rio de Janeiro. No mesmo ano, em junho, o Fluminense venceu o Paulistano por 3 a 1, pela taça Sodman, na capital paulista (antes, também fora de casa, venceu o Santos por 6 a 1); na volta ao Rio, recebeu uma taça do jornal conterrâneo O Imparcial, e foi saudado como campeão brasileiro. A Taça Ioduran é contabilizada como Taça dos Campeões Estaduais Rio–São Paulo, a qual já havia sido realizada em 1911 (Taça Salutaris), 1912 (Troféu Interestadual) e 1914, com vitórias de outros três clubes paulistas.
Treze anos antes, em 1907, foi disputada a Taça Brasil, tira-teima de ida-e-volta entre as seleções Carioca e a Paulista, organizada pelas respectivas federações estaduais, que usaram a rubrica "Campeonato Brasileiro" na comunicação entre si. São Paulo venceu.Mário Filho (15 de março de 1946). História do Campeonato Brasileiro - 1 O Globo Sportivo, p.3.
O torneio As despesas da competição foram totalmente pagas pela CBD, que precisava montar uma Seleção Brasileira para o Campeonato Sul-Americano de 1920, em outubro, no Chile, tendo o torneio como uma oportunidade de observar jogadores, e também de levantar fundos, visando a participação do país nos Jogos Olímpicos de Verão de 1920.
Todos os jogos foram disputados no estádio do Fluminense, o Estádio das Laranjeiras, que fora construído para o Sul-Americano de 1919, com o apoio da CBD, sendo o maior do Brasil na época. O juiz Henrique Vignal, da Liga Metropolitana e associado do C. R. Flamengo, considerado um dos melhores juízes do futebol brasileiro, conforme O Paiz (1920), apitou a partida inaugural. Arthur Friedenreich, goleador histórico, fez um hat-trick.
No jogo do título contra o anfitrião Fluminense, 25 mil pessoas fizeram presença, então ocupação máxima do Estádio das Laranjeiras. Houve torcida hostil ao time local, seja por torcedores de rivais cariocas ou pela própria torcida (esta última possibilidade levantada pelo O Paiz), o que chegou a ser apontado como razão da derrota e indicava o fim do cavalheirismo no futebol. Em São Paulo, lia-se o confronto do Rio de Janeiro na Praça Antônio Prado, em frente ao Estadão, que a partir de tabuletas informava os lances importantes. Por telefone, um repórter no estádio descrevia a partida para a redação. A vitória foi tida pela imprensa paulista como representação da superioridade do futebol de São Paulo sobre o futebol da então capital brasileira. O triunfo foi comemorado pelo poeta Mário de Andrade: "Os cariocas perderam o match / Quatro a um / Urrah, paulistas!". Mário Filho apontou que ter um elenco envelhecido, que vinha de um tricampeonato carioca, foi a causa do insucesso do Fluminense.
Depois de vencer os gaúchos e cariocas, a diretoria do clube paulista voltou para casa festejando os "campeões brasileiros", recebidos com placa, banquete e medalhas.
O Correio da Manhã (1920) discorreu sobre o último jogo da "série de jogos interestaduais" da CBD, ocorrido entre Fluminense e Brasil de Pelotas. Apesar da diferença de quatro gols em favor do dono da casa, o jornal observa que ambas equipes tiveram um desempenho superior ao que apresentaram contra o Paulistano. O periódico, que narrou cada gol e apresentou as estatísticas da peleja, ao final apresenta a tabela com a "colocação dos concorrentes ao título máximo do Campeonato Brasileiro".Correio da Manhã (Correio Sportivo). Football Interestadual - página 6, 4 de abril de 1920 Antes da partida houve uma preliminar: Serrano 5 x 1 Carioca. O time gaúcho guarda em suas dependências um troféu pela participação no campeonato. O jogo deveria ocorrer em 1º de abril, uma quinta, mas foi transferido para o sábado, em razão do falecimento, dois dias antes (30 de maio), do senador gaúcho Vitorino Monteiro. A mudança de data foi tomada conjuntamente pelos presidentes da CBD, do Fluminense e do Brasil de Pelotas. Em 3 jogos foram marcados 23 gols, uma média de 7,6 gols por partida.
A abrangência e a nota da CBD
Fontes atuais e da época o descrevem como o primeiro torneio nacional do futebol brasileiro, sucedido pelo Campeonato Brasileiro de Seleções Estaduais (1922 a 1987) e pelo Torneio dos Campeões (1937). Este último, organizado pela FBF, também era entre clubes, mas de cunho profissional, tendo sido oficializado como Brasileirão, em 2023, pela CBF. São competições distintas. Em 2022, o Club Athletico Paulistano, que abandonou o setor de futebol em 1929 (ainda como time amador), afirmou não ter interesse pelo mesmo reconhecimento. Em 2023, disse em nota que "o tema está em avaliação pelo clube".
Porém, cabe citar que o aspecto "geográfico" foi motivo de interesse e controvérsia logo após a definição do título e antes mesmo do terceiro jogo. O jornal carioca O Imparcial, de 1º de abril de 1920, publicou nota da CBD sobre "o campeão do Brasil":«O match Gaúchos x Cariocas, marcado para hoje, foi transferido para sabbado» O Imparcial. 1 de abril de 1920. Consultado em 30 de agosto de 2026
No mesmo texto, após a publicação da nota, o jornal afirma que os "intuitos imediatos" da CDB na promoção destes jogos foram: "apurar as possibilidades da realização, dentro de breve prazo, do campeonato brazileiro cujo projecto se acha em estudos" e "angariar meios para o preparo dos athletas" dos jogos olímpicos de Antuérpia. Sobre a natureza da competição, o jornal findou a matéria posicionando-se diante da nota da CBD:
O jornal O Estado de S. Paulo, de 29 de março de 1920, divulgou que o interestadual daquele ano era um campeonato nacional, representado pelas forças máximas da associação, e que, após a vitória sobre o Fluminense, o Paulistano confirmou o seu título de "campeão brasileiro de futebol". O Correio da Manhã, de 4 de abril de 1920, refere-se ao torneio como "Campeonato Brasileiro", na matéria "Football Interestadual".
Em 15 de março de 1946, o jornalista Mário Filho, para O Globo Sportivo, artigo "História do Campeonato Brasileiro - 1", escreve: "Em 20, a Confederação Brasileira organizou um torneio a que deu o título de Campeonato Brasileiro"; "E, havia dois anos, a CBD crismara de 'Campeonato Brasileiro' o certame dos campeões do Rio, São Paulo e Rio Grande".
Segundo reportagem de Mauro Pinheiro (1976), para a Placar, "a CBD organizou o primeiro Campeonato Brasileiro de Clubes Campeões, assim rotulado, mas que acabou sendo um simples triangular (...)". Em 1994, a mesma revista chamou a disputa de "avô do atual campeonato brasileiro". É mais referenciada pela imprensa em geral, porém, como "Copa dos Campeões" ou "Torneio dos Campeões".
Só no primeiro campeonato de seleções envolvendo sete estados, em 1922, que a CBD passou a referir uma competição oficialmente de "Campeonato Brasileiro". Em 2026, a Câmara de Sorocaba aprovou moção de apoio ao reconhecimento oficial (pela CBF) do Paulistano como "campeão brasileiro de 1920".
Saudação palestrina ao campeão O louro do Paulistano foi saudado pelo conterrâneo paulista, o Palestra Itália, atual Sociedade Esportiva Palmeiras. Eis o telegrama, divulgado em O Imparcial:
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