Arqueojogos (Archeogaming) é um cenário dentro da arqueologia que, de modo geral, considera o estudo da disciplina dentro dos videogames, assim como seu uso para responder a interesses arqueológicos. Com isso, ele pode incluir, mas não se limita, a escavação física de disco rígidos (hardwares) dos equipamentos, o uso de métodos arqueológicos ou o estudo crítico de como a disciplina é representada nesses universos. A aplicação de realidade virtual e aumentada em arqueologia também podem ser discutidas nessa rubrica.

Meghan Dennis afirma que o arqueojogo é "a utilização e tratamento do espaço imaterial para o estudo da criação de culturas, especificamente através do videogame" que “requer tratar o mundo do jogo, um mundo delimitado e definido pelas limitações do hardware, software e codificação, tanto como um universo fechado quanto uma extensão da cultura externa que o criou. Tudo que adentra o espaço imaterial vem da fonte cultural externa, de um jeito ou de outro”. Levando isso em consideração, o cenário dos arqueojogos indica que não há diferença funcional entre estudar arqueologia no físico, em sua materialidade, e implementá-lo enquanto um estudo, crítica e criação do videogame para e sobre arqueologia. Assim, dizemos que arqueojogar “requer a mesma prática padrão de coleta física de dados da escavação, apenas com ferramentas diferentes. Ele também provê a oportunidade de usar o mundo dos jogos para refletir a prática, teoria e a perspectiva da [arqueologia]”.

História O primeiro registro do uso do termo “Archaeogaming” apareceu em 9 de junho de 2013, no blog de Andrew Reinhard, onde ele discutiu as possibilidades da arqueologia de World of Warcraft e argumentou pelo potencial para explorar a jogabilidade e construção desses mundos usando a metodologia arqueológica. O termo passou a ser usado retroativamente a trabalhos realizados anteriormente no âmbito dos videogames e da arqueologia, como, por exemplo, na investigação etnográfica conduzida por Emily Johnson em The Elder Scrolls V: Skyrim. Desde então, o termo vem sendo usado por vários acadêmicos e segue em desenvolvimento. Embora Reinhard leve o crédito por seu primeiro uso, nota-se aqui muitos outros estudos acadêmicos já o abordavam sob diferentes nomes como arqueologia de jogos (gaming archaeology) ou jogo-arqueologia (game-archaeology).

Tipos de arqueojogos Há muitas formas ou subcategorias no espectro mais amplo dos arqueojogos: do estudo da cultura material dos videogames à criação de jogos como meio de pensar sobre ou representar a prática, processos e resultados arqueológicos. As categorias centrais serão discutidos abaixo.

Arqueologia dos videogames (escavação no mundo real) A arqueologia dos videogames no mundo físico implica na escavação da cultura material usando metodologias convencionais e especializadas para os arqueojogos. A escavação do cemitério de jogos da Atari, que descobriu cartuchos de E.T. the Extra-Terrestrial, no New Mexico, é um exemplo deste tipo.

Arqueologia nos videogames (escavação digital) A escavação digital faz uso de métodos arqueológicos para investigar a operação por dentro do jogo. Um exemplo desse método pode ser encontrado no uso que John Aycock faz dos métodos da ciência da computação para explorar a construção e implementação de funções dentro dos videogames. Douglas Heaven escreveu sobre a arqueologia dos dejetos/lixo no mundo virtual para a revista New Scientist. Em junho de 2016, o lançamento de No Man’s Sky foi acompanhado por uma prospecção arqueológica, o primeiro projeto formal de arqueologia realizado dentro de um universo de geração procedural.

Análise crítica da arqueologia e patrimônio cultural nos videogames O estudo crítico de como a arqueologia tem sido, poderia e deveria ser usada em videogames é, talvez, a abordagem mais extensa dos arqueojogos em grupos acadêmicos e literatura popular. Proponentes deste eixo discutem como a arqueologia tem sido representada em produções externas dos jogos, além de produzir enquadramentos que tentam melhorar a representação do material arqueológico, técnicas e resultados.

O patrimônio cultural também pode ser explorado de forma arqueológica através do arqueojogo, de análises críticas de jogos como Subnautica e Never Alone, ao uso em didático, por professores e estudantes, de playthoughs de Far Cry Primal.

Contribuidores também têm explorado aspectos de design e criação de jogos, em relação à disciplina, expondo paralelos entre o desenolvimento de títulos como Dia do Tentáculo remaster e o processo arqueológico.

Criação de jogos arqueológicos Há dois ramos principais nestes subgrupos: jogos que representam materiais, técnicas e processos arqueológicos e aqueles que atendem às necessidades da disciplina. A primeira, se refere à produção de jogos para museus, exibições ou sites online, normalmente como o objetivo educacional ou para informar uma audiência. A segunda, foca em como os videogames, como um tipo de mídia, podem ser usados para suprir, superar ou fornecer novos métodos de registrar, expressar ou comunicar a arqueologia para fins acadêmicos.

Recepção de mídia O conceito de arqueojogos começou a receber atenção global após a publicação do artigo de Kathleen Caulderwood, “The Archaeologist Who Studies World of Warcraft “, em agosto de 2015 no Vice Motherboard. A história recebeu maior circulação graças a um site chamado Kotaku, sobre vídeo games, que o mencionou na postagem “Arqueólogos de verdade estão escavando World of Warcraft, Skyrim”. Guokr, um site chines de notícias científicas e tecnológicas, comentou sobre archaeogaming logo depois, seguido pelo site de tecnologia alemã, Tecnology Review.

Arqueojogo tem sido o assunto de duas  transmissoras nacionais de rádio no Canadá e Irlanda. Primeiro em Spark, um programa de rádio da Canadian Broadcasting Companie – CBC, Nora Young, “Nós estamos criando ao longo do caminho’: o que significa ser um arqueólogo de videogame”. Depois, no Ireland's Lyric FM Culture File com Eleonor Flagg, “O que é archaeogaming?”

Desenvolvimentos subsequentes Em abril de 2016, um grupo de acadêmicos reunidos na universidade de Leiden, Holanda, como parte da conferência VALUE, sobre passado interativo. O objetivo dessa conferência foi apresentar pesquisas atuais, engajar discussões críticas sobre arqueologia e videogames, criando um manifesto para assentar as bases daquilo que vinha sido trabalhado sob a alcunha de arqueojogos, a partir de seu próprio desenvolvimento teórico, metodológico e prático. Os princípios centrais do primeiro rascunho do manifesto (1.0) são os seguintes:

Criar uma linguagem comum para descrever a intersecção entre arqueologia e videogame. Desenvolver paradigmas metodológicos, técnicos e teóricos requeridos para análises efetivas, críticas e aprimoramento do campo. Desenvolver estratégias efetivas de comunicação com as indústrias de desenvolvimento de jogos em relação ao uso da arqueologia. Desenvolver estruturas éticas para o envolvimento de materiais arqueológicos em videogames. Curar e fornecer conjuntos de dados, informações e modos de comunicação que sejam acessíveis a desenvolvedores que desejam acessar material arqueológico. Desenvolver plataformas pelas quais o público possa acessar informações arqueológicas integrais sobre e para videogames. Preservar jogos, cultura dos jogos e a história dos jogos usando métodos e teorias arqueológicas apropriadas. Abordar o estudo da percepção pública da arqueologia nos/dos videojogos, bem como a sua cultura envolvente (incluindo convenções, cosplays, fanart, etc.) com o devido cuidado e abordagens metodológicas adequadas. Envolver-se com a história do desenvolvimento, a cultura do desenvolvedor e o impacto que isso tem na prática de desenvolvimento de jogos através de uma lente arqueológica. Desenvolver o campo de arqueojogo em nível acadêmico, público e industrial por meio de compartilhamento efetivo de conhecimento, centralização e informações abertas.

Alguns jogos arqueológicos Em 2019, foi realizada um projeto de iniciação científica na área de arqueojogos (PICVOL 2019/2020 — UFS)SILVA, B. S. R. da .; LESSA NETO, W. H. Quantas tumbas cabem em megabites: subsídios para um banco de dados de arqueologia e jogos eletrônicos. Revista Arqueologia Pública, Campinas, SP, v. 17, n. 00, p. e022013, 2022. DOI: 10.20396/rap.v17i00.8667349. Disponível aqui. Acesso em: 30 out. 2023.  com o intuito de identificar elementos arqueológicos ou que remetiam a arqueologia através do mapeamento de jogos eletrônicos disponíveis no mercado dos videogames. Através do levantamento desses dados foi possível a construção de um banco de dados contendo 65 jogos arqueológicos ou com menções a arqueologia. Esses jogos são: +NºNomeDesenvolveraData de lançamentoGêneroDisponível1A Mansão de QuelíceraCasthaliaMaio de 2014Educacional/