Os Cérices (Kerykes) foram um geno (clã) sacerdotal da Grécia Antiga, radicado principalmente em Atenas, de grande riqueza e influência, monopolizando algumas das principais funções dos Mistérios de Elêusis, especialmente a de portador da tocha (daduco, dadoukos), e ocupando destacadas posições na administração civil. Vários ramos se estabeleceram em outras cidades e alguns foram recebidos em Roma, onde também desempenharam cargos relevantes.

O clã reivindicava uma descendência do deus Hermes, e seu nome deriva da função de arauto (keryx), um dos atributos do deus como mensageiro do Olimpo e um dos encargos tradicionais dos Cérices nas celebrações dos Mistérios.Walter, Burkert. Religião grega na época clássica e arcaica. Fundação Calouste Gulbenkian, 1993, p. 545

Origem e caracterização

Eram eupátridas, foram uma das principais famílias da Atenas clássica e uma das duas principais famílias sacerdotais dos Mistérios de Elêusis, uma das mais influentes instituições religiosas da Grécia, detendo hereditariamente a função de daduco (dadoukos, portador da tocha).Lambert, Stephen. "Aristocracy and the Attic genos: a mythological perspective". In: Fisher, Nick & Wees, Hans Van (eds.). Aristocracy in Antiquity: Redefining Greek and Roman Elites. The Classical Press of Wales, 2015, pp. 169-202 A palavra daduco era também um epíteto de Deméter, deusa presidente dos Mistérios, que no mito carregava uma tocha enquanto procurava sua filha Perséfone.Morelli, Donato. "Parte Prima: Fonti". In: Studi Classici e Orientali, 1959 (8) A principal família dirigente dos Mistérios era os Eumólpidas, que monopolizava a função de hierofante, sacerdote que supervisionava todos os ritos e realizava a etapa final da iniciação.Cosmopoulos, Michael B. Bronze Age Eleusis and the Origins of the Eleusinian Mysteries. Cambridge University Press, 2015, pp. 16-19 Uma série de outras funções importantes era monopolizada por essas duas famílias. Posições de menor expressão eram atribuídas a outras famílias.Papazarkadas, Nikolaos. Sacred and Public Land in Ancient Athens. Oxford University Press, 2011, pp. 190; 253-255

Não é claro qual ancestral fundador teriam tido, e tampouco é claro de que maneira vieram a controlar a prestigiada função de daduco. São atestados desde o século VI a.C., e alguns indícios sugerem que podem ter feito parte da elite de Elêusis já no século VIII a.C.,Bohen, Barbara. Kratos & Krater: Reconstructing an Athenian Protohistory. Archaeopress, 2017, p. 70 mas eles próprios reivindicavam uma origem ateniense. Segundo Walton, não há evidências de que residissem em Elêusis no tempo das reformas de Clístenes (508 a.C.), o que para ele justifica a teoria de Ferguson proposta em 1938 de que eles originalmente eram uma associação organizada ou reorganizada no tempo da conquista de Elêusis por Atenas com o objetivo de permitir o acesso de atenienses à administração dos Mistérios.Walton, Francis R. "Athens, Eleusis, and the Homeric Hymn to Demeter". In: Harvard Theological Review, 23/08/2011 Outros estudiosos apoiam a teoria, mas ela permanece controversa,Maas, Manon van der. The Incorporation of Eleusis into the Athenian Polis: The City Eleusinion and the Sanctuary Material in the Wells of the Athenian Agora. Utrecht University, 2020, p. 39 como o próprio Walton reconheceu. Fênipo e seu filho Cálias I são os primeiros a serem documentados. Cálias foi daduco e vencedor de provas hípicas nos Jogos Pítios e nos Jogos Olímpicos.

O daduco era o segundo oficial masculino em importância em Elêusis, vindo logo atrás do hierofante, e além de carregar a tocha, lia a proclamação, participava nas cerimônias purificatórias, na celebração dos ritos e na iniciação preliminar dos candidatos, e por um especial privilégio era o único oficial que usava o chamado Velocino de Zeus durante a purificação daqueles que haviam sido maculados por sangue. Associava-se ao hierofante na liderança da grandiosa procissão solene que ia de Atenas até Elêusis, que contava com a participação dos principais oficiais civis, delegações de outras cidades gregas e enviados estrangeiros; na oferenda de preces pelo bem estar do Estado, e possivelmente era responsável pela produção de efeitos de luz especiais. Usava uma regalia muito elaborada, tinha os cabelos atados atrás da cabeça e colocava uma faixa sobre a testa. Vivia com salário do Estado no pritaneu, e tinha o direito de ter uma estátua sua no santuário, mas não podia entrar no santo dos santos nem participar da exposição dos objetos sagrados ao iniciado durante a iniciação final. Uma sacerdotisa o auxiliava nas suas funções.Mylonas, p. 232 Também deste clã tradicionalmente saía o sacerdote do altar, o arauto do sacrifício (keryx)Massey, Lesly F. Daughters of God, Subordinates of Men: Women and the Roots of Patriarchy in the New Testament. McFarland, 2015, p. 181 e um dos organizadores das orgias sagradas.Papazarkadas, p. 256 A indicação para os cargos se fazia por sorteio dentro do clã e os escolhidos mantinham a posição por toda a vida. Eles e os Eumólpidas se alternavam na função de purificador (hydranos), oficial que aspergia a água sagrada sobre os candidatos à iniciação, equivalente a um batismo, e os preparava para os ritos. Os dois clãs também dividiam a função de mistagogo, aquele que conduzia os iniciados nos ritos preliminares, e podiam indicar candidatos de suas próprias famílias. Ambos se alternavam ainda na função de espondóforo, espécie de relações públicas e embaixador, que percorria as cidades gregas proclamando uma trégua para a celebração dos Mistérios, angariando doações e pedindo que as cidades enviassem delegações oficiais.Mylonas, George Emmanuel. Eleusis and the Eleusinian Mysteries. Princeton University Press, 2015, pp. 236-244 Finalmente, os Cérices e Eumólpidas tinham, cada um, um representante na comissão que fazia toda a organização logística dos Mistérios, paga pelo Estado e coordenada pelo arconte rei, assessorado por outros dois oficiais atenienses.

thumb|left|Hermes, Museu Pio-Clementino

Bem depois do seu aparecimento iniciaram a construção do mito de que descendiam do deus Hermes através de seu filho Cérix, casado com uma filha de Cécrope, primeiro rei mítico de Atenas, filho dos deuses Hefesto e Gaia, estabelecendo uma razão para as honras que alegavam merecer e uma forma de competir com a ilustre tradição dos Eumólpidas, que também alegavam descender de Cécrope, e com os quais de qualquer maneira se aparentaram através de múltiplos casamentos. É possível que essas disputas tenham sido a origem da tradição alternativa que fala de Cérix como filho de Eumolpo, fundador epônimo dos Eumólpidas, a quem a deusa Deméter teria revelado os Mistérios.

Foram grandes proprietários de terras, exerciam grande influência política não apenas pelas suas importantes funções religiosas, mas também por ocupar magistraturas civis, e no século V a.C. ganharam uma vasta riqueza explorando minas de prata no sul da Ática, além de cobrarem altas taxas para a realização das suas funções sacerdotais. Em 460 a.C. uma lei ateniense regulamentou a cobrança dessas taxas para todas as famílias envolvidas nos Mistérios.Bubelis, William Stanley. Hallowed Stewards: Solon and the Sacred Treasurers of Ancient Athens. University of Michigan Press, 2016, p. 13

Relatos antigos afirmam que pretendiam ter um estatuto régio. Plutarco relata que Cálias II, neto do primeiro, um dos homens mais ricos de Atenas, lutou na Batalha de Maratona (490 a.C.) com toda a regalia sacerdotal, sendo tomado por um rei e recebendo a prosternação de alguns soldados. Um deles teria lhe oferecido um tesouro de ouro, que foi aceito, mas Cálias imediatamente teria morto o soldado. Depois foi enviado a Susa para concluir um tratado de paz com Artaxerxes, rei da Pérsia, mas parece que não teve sucesso. Em seu retorno a Atenas foi acusado de alta traição e condenado a pagar uma multa de cinquenta talentos."Callias and Hipponicus". In: Encyclopædia Britannica, ed. online, 1911

Hipônico, filho de Cálias II, foi um comandante militar. Participou da invasão da Beócia (426 a.C.) e foi morto na Batalha de Délio (424). Seu filho Cálias III foi daduco mas ficou notório por sua libertinagem e extravagância, caindo na pobreza e sendo ridicularizado pelos poetas cômicos como um exemplo de ateniense degenerado. Uma cena do Simpósio de Xenofonte, bem como outra do Protágoras de Platão, se passam em sua casa. Apesar de sua vida dissipada, desempenhou um papel nos negócios públicos. Em 392 comandou os hoplitas atenienses em Corinto, quando os espartanos foram derrotados por Ifícrates. Em 371 estava à frente da embaixada enviada para fazer um acordo com Esparta. A paz resultante foi chamada em sua homenagem de Paz de Cálias. Xenofonte disse que nesta embaixada ele apresentou-se igualmente ataviado com a regalia sacerdotal e deu um discurso insistindo que detinha o estatuto de próxeno (diplomata de Esparta), alegando que ele teria passado hereditariamente em sua família desde o tempo de seu bisavô. Xenofonte acrescentou um comentário mordaz a essa história dizendo que Cálias era "o tipo de homem que apreciava ser elogiado por si mesmo não menos que ser elogiado pelos outros".

O grande tumulus familiar se localizava perto do Precinto XX do cemitério da Via Sagrada que ia de Atenas a Elêusis, sendo hoje identificado como a Tumba 9.Bohen, p. 46 A partir do século IV a.C. mantiveram uma residência oficial em Elêusis, onde eram realizadas reuniões e ritos especiais. No século III a.C. há poucos registros sobre a hierarquia dos Mistérios, e aparentemente nesta época os Cérices já não residiam em Elêusis e os daducos eram providos pela família dos Licômidas,Mylonas, p. 234 mas ramos dos Cérices voltariam a ocupar a função a partir do século II a.C.

Um decreto ateniense honrando o daduco Temístocles, encontrado em uma inscrição de c. 20 a.C., cita numerosos membros do clã e parece trazer uma lista de daducos, citando dez pessoas antes dele, e acrescentando que antes desses outros já haviam ocupado a função, além de nomear todos os outros sacerdócios que o clã detinha. Nesta época o clã já tinha absorvido várias outras famílias ricas e influentes, e aparentemente a integração era possível através de casamento, o que envolvia a capacidade de assumir sacerdócios tradicionais do clã. Pelo menos em uma data tardia isso é provado por um decreto de Marco Aurélio proibindo que Valério Mamertino assumisse a função de arauto sagrado porque nem seu pai nem sua mãe eram Cérices. Não está descartada a possibilidade, embora não haja nenhuma prova incontroversa, de que a afiliação pudesse ser obtida mediante compra, especialmente depois da conquista romana, quando houve uma reorganização da elite grega. Na análise de Schiller, "no fim do século I o geno dos Cérices parece mais um clube político do que um clã sacerdotal. Dos trinta Cérices citados no decreto honrando Temístocles, pelo menos sete, se não mais, haviam sido arcontes epônimos". De qualquer modo, na era de Augusto eram sacerdotes em uma dúzia de cultos de diferentes deuses,Schmalz, Geoffrey C. R. Augustan and Julio-Claudian Athens: A New Epigraphy and Prosopography. Brill, 2009, p. 276 ganharam o favor dos imperadores romanos, tornando-se, junto com os Eumólpidas, os preferidos na escolha dos sacerdotes do culto imperial em Atenas, e permaneceriam ativos em Elêusis até a dissolução do santuário.Cosmopoulos, p. 7

Ramos principais Cláudios de Melite