Abdias do Nascimento (Franca, 14 de março de 1914 — Rio de Janeiro, 23 de maio de 2011) foi um ator, poeta, escritor, dramaturgo, artista plástico, professor universitário, político e ativista dos direitos civis e humanos das populações negras brasileiras.

Em 1936, mudou-se para a capital fluminense para cursar Economia, formando-se em 1938, na então chamada Universidade do Brasil. Em 1938, organizou e participou do Congresso Afro-Campineiro, em Campinas. Mantendo-se sempre em movimento, cursou Sociologia no Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB) em 1956, e recebeu o título de doutor honoris causa pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Considerado um dos maiores expoentes da cultura negra e dos direitos humanos no Brasil e no mundo, foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz de 2010. Fundou entidades pioneiras como o Teatro Experimental do Negro (TEN), o Museu da Arte Negra (MAN) e o Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (IPEAFRO). Foi um idealizador do Memorial Zumbi e do Movimento Negro Unificado (MNU) e atuou em movimentos nacionais e internacionais como a Frente Negra Brasileira,Geledés, Abdias fala da Frente Negra Brasileira. Acesso em 19/6/2020. a Negritude e o Pan-Africanismo. Quando jovem, foi membro da Ação Integralista Brasileira, onde atuou como jornalista, considerando o período fundamental para lhe "possibilitar conhecimentos sobre a cultura brasileira, arte, literatura e economia", tendo se desligado após o fechamento legal da AIB por se opor a "um segmento sistematicamente racista contra os negros" dentro do movimento.Depoimento transcrito no livro O Griot e as Muralhas, de Abdias Nascimento e Éle Semog (Rio de Janeiro: Pallas, 2006), p. 84-85. Atuou no antigo Partido Trabalhista Brasileiro (1945-65) e foi fundador do Partido Democrático Trabalhista em 1981, chegando a ser vice-presidente da legenda à qual foi filiado até sua morte.[Fonte: Dicionário Histórico Biográfico Brasileiro pós 1930. 2ª ed. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2001]

Foi professor emérito na Universidade Estadual de Nova Iorque em Buffalo, onde, durante seu exílio do regime militar, lecionou por dez anos. Nascimento atuou como professor visitante na Escola de Artes Dramáticas da Universidade Yale. Convidado pelo Fórum das Humanidades da Universidade Wesleyan, também nos Estados Unidos, ele participou na condição de professor visitante, com alguns dos mais destacados intelectuais da época, do Seminário "A Humanidade em Revolta". Foi professor convidado do Departamento de Línguas e Literaturas Africanas da Universidade de Ifé, em Ifé, Nigéria. Voltando do exílio, foi deputado federal e senador da República, além de secretário do governo do Estado do Rio de Janeiro.

Biografia Família Filho de Georgina Ferreira do Nascimento (conhecida como Dona Josina), doceira e ama de leite, e de José Ferreira do Nascimento, sapateiro e violonista, Abdias do Nascimento era neto de mulheres escravizadas. A avó materna, Francelina, foi internada no famigerado asilo de Juquery e sofreu sérias consequências dos maus tratos lá recebidos. A avó paterna, Ismênia, nascida na África, foi estuprada por um português. Por isso o pai de Abdias "carregou, durante seus 95 anos de vida, a dor de ser um filho 'natural', isto é, de não ter sido reconhecido pelo pai". Foi amigo de infância e colega de estudos de Geraldo Campos de Oliveira, e depois seu companheiro de ativismo negro e político. O pai de Geraldo, Orozimbo Campos, deu orientação política para Nascimento e lhe providenciou o primeiro emprego.<ref name="William">Binazzi, Biancamaria. "Teatro de Babel #12: a presença negra no Teatro Musicado". Jornal da USP, 2 de fevereiro de 2026 </ref>

Movimento integralista Abdias participou da Ação Integralista Brasileira, sobre a qual declarou:

Comentando em sua autobiografia as declarações de Abdias sobre sua passagem pela AIB, o advogado e ex-deputado federal baiano Rubem Nogueira, que sobre Abdias afirmou que o "conheci de perto" durante a década de 30, sustentou que Abdias "se manteve fiel (ao Integralismo) até o fim da existência legal da AIB, motivo por que sofreu arbitrária detenção em começos de 1938". Realmente, em fevereiro de 1938, Abdias foi detido no âmbito do Processo n° 461 do Tribunal de Segurança Nacional, ao lado de outros seis integralistas, por distribuir boletins integralistas nos últimos dias de dezembro de 1937.A Noite (Rio de Janeiro), 23 de fevereiro de 1938, p. 2 e 7.O Imparcial (São Luís), 31 de dezembro de 1937, p. 1. Segundo apurou a polícia política, Abdias teria sido, ao lado de Rômulo Almeida, o principal autor de uma derrama de boletins em edifícios no Centro do Rio de Janeiro.O Radical (Rio de Janeiro), 28 de dezembro de 1937, p. 1.

Dentro da AIB, trabalhou no gabinete de Plínio Salgado. Participou dos círculos de estudantes integralistas. Segundo Gerardo Melo Mourão, "Abdias se dedicou exclusivamente ao problema da raça negra, da redenção dos negros brasileiros, dizia que era a missão dele e era realmente uma coisa tão importante". Anos mais tarde, no pós-guerra e em um contexto de disputas políticas na UNE, seu passado integralista foi usado como pretexto para deslegitimar sua atuação política. Em publicação de 1976, disse: "Não tinha nada a declarar naquela espécie de autocrítica sob coação. Nada havia no meu passado para lamentar ou arrepender. (...) Passei por aquilo e larguei para trás. Mudei. (...) Sofri o racismo no meio integralista e denunciei o fascismo. Não iria agora me submeter a uma nova manobra de cunho nazi-fascista. Então eles (os donos da UNE) expulsaram a mim, ao Aguinaldo Camargo e ao Rodrigues Alves, sob a acusação de que éramos racistas!"NASCIMENTO, Abdias do. Entrevista. In CAVALCANTE, Pedro Celso Uchôa e RAMOS, Jovelino (orgs). Memórias do exílio. 1964/1978. De muitos caminhos. Vol. 1, cit., loc. cit.CAVALCANTE, Pedro Celso Uchôa e RAMOS, Jovelino (orgs). Memórias do exílio em PDF

Ainda sobre a relação com a Ação Integralista Brasileira, o intelectual Luiz Carlos Amaral Gomes, pseudônimo de Ele Semog autor em parceria com (Abdias Nascimento) a obra denominada Abdias Nascimento: o griot e as muralhas onde relata-se que:

Após o Estado Novo, a imprensa oficial do partido integralista que sucedeu a AIB, o Partido de Representação Popular, deu ampla divulgação às atividades de Abdias. Ele chegou mesmo a dar entrevistas para o jornal oficial do integralismo, A Marcha, na década de 1950, e foi através da editora GRD, do diretor de A Marcha, o integralista Gumercindo Rocha Dorea, que lançou seus primeiros livros na década de 1960. Segundo Gabriel Soares Predebon, isso demonstra uma continuidade das relações de Abdias com o movimento integralista. Um de seus principais aliados no TEN, Ironides Rodrigues, foi o responsável pela coluna de cinema de A Marcha entre 1954 e 1962.

A luta antirracista durante a Ditadura Militar miniaturadaimagem|Teatro Experimental do Negro ensaiando Sortilégio, com Abdias do Nascimento e sua esposa Léa Garcia, em 1957. Durante o período da Ditadura Militar a atuação de movimentos e ativistas negros gerou a desconfiança por parte dos militares que passaram a vigiar a ação dessas pessoas que estavam envolvidas nos debates de raça no país, entre elas, Abdias do Nascimento. Considerado uma das principais referências do movimento negro e de grande relevância para a cultura afro-brasileira, Abdias fez parte da Frente Negra Brasileira (FNB), foi fundador do Teatro Experimental do Negro, e foi pioneiro do Movimento Negro Unificado (MNU).

Abdias foi uma das lideranças mais perseguidas pelo governo ditatorial brasileiro, por isso se exilou nos Estados Unidos e na Nigéria durante 13 anos. E mesmo durante o exílio permaneceu constante na luta antirracista.

Um episódio marcante de sua jornada intelectual durante o exílio foi durante o II Festival Mundial de Artes e Culturas Negras (Festac), em Lagos, na Nigéria. No referido evento, realizado entre 15 de janeiro e 12 de fevereiro de 1977, foi organizado um Colóquio intelectual intitulado Civilização Negra e Educação que visava reunir os grandes nomes da intelectualidade africana e da diáspora negra. O evento contou com a colaboração do governo ditatorial brasileiro, que enviou representantes às reuniões preparatórias, aproveitando o estreitamento das relações Brasil-Nigéria, marcadas pelo aumento das exportações e pela circulação de recursos ligados ao petróleo e à infraestrutura do festival. Desde a organização até a escolha da delegação artística, o festival exigia a participação obrigatória de pessoas negras. No comitê organizador brasileiro e no colóquio foram enviados uma maioria de intelectuais brancos, sendo que das sete comunicações inscritas, apenas 2 foram assinadas por pessoas negras. Tal decisão foi diretamente confrontada e questionada por Abdias do Nascimento, já sendo reconhecido mundialmente pelas denuncias e enfrentamento do racismo no Brasil. Abdias solicitou diretamente ao secretariado do festival a inscrição de sua comunicação, mas foi negada.

A justificativa para tal negativa, segundo o coronel Ahmadu Ali, presidente do comitê de avaliadores e ministro da educação da Nigéria, foi de que o ensaio enviado por Abdias, intitulado "Democracia racial: mito ou realidade?" não era estritamente acadêmico e propagava crenças ideológicas. De forma evidente, a negação atendia a interesse do governo ditatorial brasileiro e também denuncia a perseguição política sofrida por Nascimento.

Mesmo tendo seu trabalho recusado, ele concluiu a redação do texto, enviou cartas aos organizadores, obteve credenciamento como observado, e teve participação ativa em todo o evento. Tanto que, com o apoio da delegação estadunidense, tomou a palavra para contestar algumas das teses apresentadas pelos membros da delegação brasileira e ainda, fez circular cópias do seu trabalho, o qual tinha sido impedido de apresentar.

Abdias denuncia essa perseguição impingida pelo Itamaraty e pela ditatura militar no livro, "Sitiado em Lagos", publicado ainda em 1977, além de analisar as razões e as estratégias do governo para evitar sua participação neste festival.

Após o festival, em 1978, Abdias publicou o livro intitulado "Genocídio do Negro Brasileiro: processo de racismo mascarado" que tornou sua passagem por Lagos reconhecida no Brasil.

Com o endurecimento do da ditadura militar, Abdias exila-se por 13 anos no exterior. Na mesma época, o TEN é dissolvido e Abdias se afastou do teatro, conduzindo sua militância política por outros caminhos, tendo lecionado como professor universitário e dedicando-se à pintura e à pesquisa de visualidades relacionadas à cultura religiosa afro-brasileira.

Durante essa época, formou junto com Gerardo Melo Mourão, Godofredo Iommi, Efrain Bo, Raul Young e Napoleón López uma aliança poética chamada La Santa Hermandad de la Orquídea. Em 1940, "os orquídeas" iniciaram sua jornada pela Amazônia passando por todos os tipos de dificuldades físicas e econômicas, de acordo com o que foi registrado por Juan Raúl Young, em uma carta de 1978 endereçada a Abdias, na qual resgata suas memórias desta viagem:

Segundo a historiadora e intelectual negra Maria Gerlane Santos de Jesus, Abdias era uma das principais influências na luta antirracista:

Vida política Após a volta do exílio (1968-1978), Abdias se inseriu na vida política ao colaborar fortemente para a criação do MNU em 1978 e como um dos fundadores do PDT em 1980.