O Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli (MARGS) é um museu brasileiro sediado em Porto Alegre, capital do estado do Rio Grande do Sul, pertencente ao governo estadual. Localiza-se na Praça da Alfândega, no Centro Histórico da cidade.

Instituído pelo governo do Rio Grande do Sul em 1954, sob a direção de Ado Malagoli, logo reuniu expressivo acervo e assumiu um papel de destaque no cenário artístico sulino, sendo um dos responsáveis pela consagração definitiva do Modernismo entre os gaúchos. Desde então, o MARGS vem aprimorando suas funções e afirmando sua posição no panorama museológico brasileiro como o maior e mais importante acervo público de arte gaúcha, montando mostras de reputados artistas locais e nacionais e recebendo importantes exposições do estrangeiro, mas sua trajetória é marcada por graves crises periódicas e muita polêmica.

Histórico do prédio O MARGS ocupa um prédio que foi construído para ser a sede da Delegacia Fiscal da Fazenda no estado. Para realização da obra, o governo federal abriu uma concorrência pública em 1912, cujo único inscrito foi a empresa de engenharia de Rudolph Ahrons, apresentando um projeto luxuoso orçado em cerca de 800 contos de réis. Contudo, o então Ministro da Fazenda, Francisco Sales, considerou que Porto Alegre não necessitava de um palácio para a instalação de uma mera repartição pública, e anulou a concorrência alegando custo exorbitante.Doberstein, Arnoldo Walter. Estatuária e Ideologia: Porto Alegre, 1900 - 1920. Secretaria Municipal de Cultura, 1992, p. 31

Assim o ministro delegou a um subordinado seu a criação de um projeto alternativo muito simples, um barracão à semelhança de uma residência de família remediada. Para a construção desta planta Ahrons voltou a concorrer, com uma oferta bem mais barata, que só não foi levada a cabo pela providencial saída de Sales do ministério. Em seu lugar assumiu Rivadávia Correia, um positivista gaúcho. Um de seus primeiros atos foi propor a Ahrons a anulação do contrato para construção do barracão, o que foi aceito, e a obra que foi realizada seguiu o primeiro projeto apresentado pelo engenheiro, mas agora orçado em 1:250:000$000 (mil duzentos e cinquenta contos de réis). thumb|esquerda|250px|As estátuas de Ceres e Hermes no frontispício, de Alfred Adloff thumb|esquerda|250px|Detalhe da fachada com as estátuas alegóricas da Pecuária e da Navegação

As obras finalmente foram iniciadas em 1 de setembro de 1913, empregando 300 operários, com decoração interna e externa a cargo da oficina de João Vicente Friedrichs, incluindo a participação de Franz Radermacher, Victorio Livi e Alfred Adloff, sendo este último o autor de todas as esculturas da fachada e do interior. Os trabalhos foram concluídos quase em totalidade em março de 1914, faltando apenas a instalação das cúpulas de bronze, encomendadas à Alemanha mas não entregues por terem sido confiscadas pelo governo alemão para uso do material na fundição de canhões. O prédio ficou sem cobertura nos torreões até 1922.

O projeto arquitetônico do edifício é de autoria do alemão radicado em Porto Alegre, Theodor Wiederspahn, o mais destacado arquiteto que atuou na cidade nas primeiras décadas do século XX.Ver imagens das plantas originais do prédio e outras informações da história do edifício em Weimer, Günter. Theo Wiederspahn: arquiteto. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2009, p. 50 ISBN 978-85-7430-860-9 Destaca-se entre os elementos da fachada o conjunto estatuário do frontispício, com as figuras reclinadas de Ceres (figurando a Agricultura) e Hermes (simbolizando o Comércio), sob um grande brasão da República. No terceiro piso, na base dos torreões, existem estátuas alegóricas da Indústria, da Pecuária, da Navegação e da Arquitetura. Esses elementos colocam o MARGS como um dos prédios mais exemplificativos da escultura fachadista porto-alegrense (período 1900-1928), fenômeno presente em outros edifício projetados por Wiederspahn.Alves, José Francisco. A Escultura Publica De Porto Alegre – Historia, Contexto e Significado. Artfolio, 2004, pp. 150-151 ISBN 978-85-99012-01-7 No interior, o saguão e o salão principal são decorados com mármore branco, ladrilhos em motivos geométricos no piso, estuques em relevo no teto e azulejos coloridos nas paredes, alguns dos quais com rostos e figuras em relevo. Também existe um grande vitral sobre o salão principal e trabalho de talha em madeira nas portas e outras aberturas. Os outros ambientes internos, originalmente ocupados pelos escritórios da Delegacia Fiscal, não possuem decoração significativa.

O prédio só passou a ser usado como museu em 1978, e foi incluído no rol de bens imóveis tombados pelos Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e Estadual (IPHAE), respectivamente em 1981 e 1985. No fim da década de 1990 foi completamente restaurado e suas instalações foram adaptadas para fazer dele um museu de acordo com as convenções museológicas contemporâneas e capaz de receber mostras de nível internacional, ainda que suas dimensões sejam relativamente modestas.

Na enchente de maio de 2024 no Rio Grande do Sul, o MARGS teve seu térreo completamente inundado, com a água atingindo até 2m de altura em seu interior. Foi preciso investir R$ 5,6 milhões para recuperar o museu, que reabriu após sete meses, em dezembro.

Atualmente a ocupação dos espaços é a seguinte:

Térreo – saguão, Direção, núcleos administrativos, AAMARGS, reserva técnica, sala de montagem, cozinha e oficina. Com entrada pelo exterior do prédio também existe um restaurante. Primeiro piso – três salas de exposição, uma copa, um café e uma arte-loja. Segundo piso – cinco salas de exposição, uma copa, dois auditórios e o Núcleo de Documentação e Pesquisa, com sua biblioteca. Terceiro piso – terraço aberto, com os torreões dos laboratórios de restauro e das oficinas de arte.

A instituição Estrutura administrativa thumb|Saguão Direção, a instância superior deliberativa, executiva e representativa do museu. Núcleo Administrativo, responsável pela manutenção da infraestrutura do prédio, gerenciamento de pessoal, organização geral do funcionamento do MARGS e assessoria à Direção em contatos externos. Núcleo de Curadoria, que concebe e produz as exposições do museu, gerencia a produção e montagem de exposições de artistas convidados e mostras do acervo próprio do MARGS. Núcleo de Comunicação, responsável pela produção de textos de divulgação e pela edição de livros, bem como intermedia as relações do museu com a mídia e o público. Núcleo Educativo, que organiza atividades voltadas para o público em geral, como as visitas de grupos e as palestras e atividades dos auditórios, além de oferecer cursos e oficinas de arte diversas. Núcleo de Documentação e Pesquisa, que registra a trajetória do MARGS e é constituído pela biblioteca especializada em artes visuais, com mais de três mil títulos, e pelo setor de documentação propriamente dito, que mantém uma hemeroteca e mais de um mil e 800 dossiês de artistas plásticos, além de colecionar e catalogar acervos especiais, publicações culturais, catálogos de exposições e material publicitário sobre as atividades realizadas desde 1955. Núcleo de Restauro, responsável pelos trabalhos de conservação preventiva e restauro das obras do acervo, bem como elabora e gerencia projetos de conservação e restauro em parceria com outras instituições museais do estado e fornece assessoria a diversos órgãos do Estado relativos a assuntos de sua área. Núcleo de Acervo, responsável pela guarda, documentação e catalogação das obras tombadas, administra também a Reserva Técnica e fornece assessoria à Direção a respeito de projetos de expansão do acervo.

AAMARGS A Associação dos Amigos do MARGS (AAMARGS), criada em 1982, colabora decisivamente para o sucesso das atividades do museu, intermediando parcerias e projetos, doando obras, administrando recursos captados, e seus membros têm sido valiosos auxiliares na orientação do público visitante através do grupo de voluntários.

Serviços O MARGS, além de suas exposições de acervo e de convidados, oferece ainda cursos, palestras e seminários teóricos sobre arte, cursos e oficinas práticos diversos, visitas guiadas mediante agendamento prévio, e dispõe de dois auditórios, uma arte-loja, um café e um pequeno restaurante.

Histórico thumb|Vitral sobre o salão principal thumb|Azulejo decorativo do saguão O MARGS é uma instituição subordinada à Secretaria de Estado da Cultura. Ao contrário de outros museus, que são fundados quando já existe uma coleção reunida à espera de organização e institucionalização, o MARGS foi criado em 1954 (decreto n° 5065) sem qualquer acervo ou sede própria, numa iniciativa ousada do então Secretário de Cultura do RS José Mariano de Freitas Beck. Era preciso ainda um nome para administrar o projeto, e a escolha recaiu sobre Ado Malagoli, um pintor laureado que felizmente possuía também os talentos indispensáveis de organizador e agitador cultural, além da bagagem de uma sólida formação intelectual e acadêmica. A iniciativa espelhou a criação de outras instituições culturais semelhantes no Brasil, como o Museu de Arte de São Paulo (MASP), em 1947; o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP), em 1948; e o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ), em 1952.Grecco, Vera; Golin, Cida & Marshall, Francisco. 50 Anos MARGS: 1954-2004. Porto Alegre: MARGS, 2005 ISBN 978-85-99596-01-2

O MARGS surgiu como um dos primeiros projetos museológicos de importância e abrangência estadual. Na época de sua criação o único museu de relevo na cidade e no estado era o Museu Júlio de Castilhos, cujo perfil é mais histórico do que artístico. A orientação imprimida por Malagoli tinha um claro propósito de atualizar o circuito artístico local através da constituição de um acervo composto por prioridades regionais e nacionais que incluíam artistas contemporâneos. Segundo a pesquisadora Marilene Burtet Pieta, este papel atualizador tornou-se patente ainda mais pelas primeiras exposições temporárias apresentadas, que discutiam a modernidade no Brasil, as novas possibilidades de expressão, resgatavam áreas negligenciadas como os primitivos e a arte sacra, introduziam a internacionalidade, e através de seus ciclos de palestras, que dentre outros temas abordavam o colecionismo, a legitimação das vanguardas, e o sistema institucional de arte no estado.Pieta, Marilene Burtet. A Modernidade da Pintura no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Sagra/DC Luzzato, 1995, pp.78-79 ISBN 978-85-241-0458-9

Primeiramente o museu foi instalado no foyer do Theatro São Pedro, e a primeira exposição realizada pela instituição, intitulada Arte Brasileira Contemporânea, ocorreu em 1955, sendo montada na Casa das Molduras. Em 1958 abriu uma exposição de Cândido Portinari, que atraiu grande público e serviu para consolidar a presença do MARGS no circuito de arte local.

A partir da década de 1970 a instituição passou a documentar sistematicamente as suas atividades, e iniciou a publicação de um Boletim Informativo, além de se mudar para sua sede atual. Na década de 1980 o museu ganhou mais visibilidade, recebeu melhorias na sua estrutura e instalações, e realizou exposições de impacto, como o Salão Caminhos do Desenho Brasileiro, além de editar vários livros sobre artistas locais importantes. Também nesta década se fundou a Associação dos Amigos do MARGS.

Com o restauro completo por que passou o prédio nos anos 90, recuperando toda sua infraestrutura e recebendo climatização e equipamentos expositivos modernos, o MARGS pôde enfim alavancar uma rápida expansão de suas atividades e projetar-se definitivamente no cenário museológico nacional e mesmo internacional. Nesta época o Núcleo de Restauro foi completamente aparelhado, passando a contar com uma restauradora permanente, tornando o museu independente também neste campo.