A língua ik, também conhecida como icé-tod, icietot, ngulak, ng’ateus, ng’ateuso, teus, teuso e teuth, é uma língua falada principalmente na região nordeste da Uganda, no distrito de Kaabong, condado de Dodoth, subcondado de Kamion.

O ik é falado pelo povo da etnia de mesmo nome, os Ik (Icé-ám, de maneira nativa). Existem cerca de 14.000 falantes no total, e há evidências de que esse número está aumentando, devido à diminuição de conflitos, ao melhoramento da segurança e ao acesso a serviços de saúde. Na Escala Graduada Expandida de Interrupção Intergeracional (EGIDS, em inglês), a língua se enquadra na categoria 6a, ou seja, é falada por várias gerações e ensinada a crianças, de modo que seja considerada segura pela UNESCO.

Muito dessa situação linguística pode ser assimilada à atitude que os Ik têm em relação à sua língua. Os ik consideram seu idioma um símbolo de sua etnia, identidade e solidariedade, um meio de sobrevivência contra a opressão e os inimigos que enfrentaram. O povo reconhece o idioma como um bem cultural unificador, e por isso ensinam-no e utilizam-no sempre que possível.

O idioma é classificado como parte do subgrupo linguístico kuliak, juntamente com o nyang’i e o soo. O kuliak, por sua vez, é considerado parte do grupo sudanês oriental, pertencente à família nilo-saariana, mas há divergências referentes a essa determinação.

Etimologia O povo Ik chama sua própria língua de icé-tót [ītʃé-tôd̥̚], que significa, literalmente, "conversa do povo". A palavra possui a mesma raiz de Icé-ám [ītʃéám], em singular, Ikᵃ [īkḁ], no plural. Essa é a forma como o povo se autodenomina, que pode ser traduzida para "o Povo".

O idioma recebe muitos nomes dos povos vizinhos Teso-Turkanos. Muitos desses ainda são conhecidos, mas possuem significado derrogatório, e há um movimento para colocá-los em desuso. Ng’ateus, ng’ateuso, teus, teuso e teuth são variações de uma mesma palavra (pl. ŋíteusó, sg. éteusóít) que significa "pobre, sem gado ou armamento".

A denominação teso-turkana para seus vizinhos ŋíkúlyâk (sg. ékulyakít), com o mesmo significado de tom derrogatório, originou o termo que abrange o ik e duas outras línguas, kuliak. Alguns estudiosos sugerem substituir a palavra por rub, que significa "o Povo" em proto-kuliak.

Classificação e línguas relacionadas O ik é parte do grupo kuliak juntamente com duas línguas em risco de extinção, o nyang'i e o soo. Já acerca da família linguística a qual o kuliak pertence, a hipótese mais aceita e mais recente (2013) coloca-o na família nilo-saariana, ramo sudanês oriental. Entretanto, o ik se distancia de outras línguas do mesmo ramo, e é raramente mencionado.

Existem opiniões conflitantes sobre a classificação genética do grupo linguístico kuliak. Alguns linguistas (Tucker, Lamberti) analisam o kuliak como parte do ramo cuxítico da família afroasiática de línguas, o que advém do elaborado sistema de casos e de alguma similaridade pronominal entre o ik e o egípcio antigo.

Entre aqueles que colocam o kuliak na família nilo-saariana, há uma divisão acerca de qual ramo ele se encaixa. Greenberg, Ehret, Fleming e Lewis apoiam sua locação no sudanês oriental, devido a uma grande quantidade de cognatos lexicais encontrados com línguas nilóticas orientais, além de características morfo-sintáticas compartilhadas. Bender, Knigton e Dimmendaal classificam o grupo como parte da família, mas como satélite/independente. Dimmendaal também cita que o kuliak se aproxima das línguas nilo-saarianas nordestinas, devido a qualidades compartilhadas.

Há ainda linguistas que não consideram que os estudos feitos até agora são o bastante para classificar o kuliak em uma família específica. Gulliver & Gulliver, Laughlin, Heine e König afirmam que a classificação ainda é um desafio devido a insuficiência de evidências ou a resultados conflituosos.

O ik não possui dialetos aparentes, e as variações de fala são mínimas entre seus usuários, ocorrendo principalmente na fonologia e no léxico. Essa realidade é possível por causa de fatores combinados como o pequeno número de falantes, a proximidade geográfica, a mobilidade entre clãs e a solidariedade étnica.

Distribuição geográfica miniaturadaimagem|esquerda|252x252px|Indivíduos do povo Ik O povo Ik, em sua maioria, vive no distrito de Kaabong, anteriormente parte do distrito de Kotido, na Uganda. Eles estão concentrados no extremo nordeste da subregião de Karamoja, no subcondado de Kamion do condado de Dodoth. Sua área atual estende-se desde o Monte de Lopokók e a Floresta Tímu no sul da região até o Monte Morúŋole e o Parque Nacional do Vale de Kidepo, ao norte, o que resulta em uma faixa de extensão aproximada de 50km de comprimento e 1km de largura ao longo da fronteira entre o Quênia e a Uganda.

Um grupo Ik de centenas de indivíduos vive em New Site, no Sudão do Sul, e pouco mais de 100 indivíduos podem ser encontrados ao longo da fronteira noroeste do Quênia em busca de condições de vida em centros urbanos. Além desses, uma pequena comunidade Ik vive em Masindi, no oeste da Uganda.

No início no século XXI, os Ik habitavam apenas a nação da Uganda, mas anos recentes mostraram contingentes vagando livremente entre a Uganda, o Quênia, o Sudão do Sul e a Etiópia.

Quando não moram em centros urbanos como Kaabong, na Uganda, ou Kakuma, no Quênia, os Ik vivem em awikᵃ (manyattas ou aldeias) – locais fechados por uma cerca alta feita de paus, postes e espinhos (maríŋ). Essas estruturas podem ser pequenas, hospedando apenas uma família, ou grandes, hospedando de dez a vinte parentes ou famílias não relacionadas. História Não há um estudo profundo histórico feito acerca das origens do idioma ik ou do grupo kuliak. Segundo sua tradição oral, o povo veio do Egito, descendo o Nilo Azul, passando pela Etiópia. Há uma possível conexão entre os pronomes do ik e os do egípcio antigo e médio, e os Ik questionam se seu etnônimo deriva ou relaciona-se ao povo egípcio dos Iksos (Hicsos), mas essa hipósese ainda é especulativa.

Um começo menos especulativo é a partir da Etiópia. O ik foi analisado como detentor de semelhanças com as línguas etíopes afro-asiáticas e outras nilo-saarianas. Um dos estudos realizados (Lamberti, 1988) supõe que o local de nascimento (Urheimat) da língua e do povo ik tenha sido na província do centro-oeste etíope de Gojjam. Embora ainda seja impossível analisar a pré-história dos Ik em detalhes, há evidências de que os povos Kuliak passaram milhares de anos migrando e descendo a partir do sudoeste da Etiópia, vagando pelos desertos e colinas entre as fronteiras do Sudão, Etiópia, Quênia e Uganda, o que seria uma possível explicação para a dificuldade de classificação do grupo linguístico.

O padrão de migrações dos Ik encontra-se no escape de fenômenos como a fome, a sede, a doença e a insegurança. Seu passado reflete a necessidade de sobrevivência em meio a adversidades, o que, de certa forma, continua no século atual com mudanças climáticas, conflitos, discriminação étnica e marginalização. Apesar dos desafios, os Ik estão crescendo numericamente e se preparam para crescer como uma cultura e sociedade, fortalecendo sua língua ao utilizá-la sempre que possível, ensiná-la nas escolas e recitá-la nas igrejas, instituições que historicamente representam uma ameaça para idiomas marginalizados.

Fonologia O sistema fonológico do ik possui 39 (trinta e nove) fonemas, sendo eles 30 (trinta) consonantais e 9 (nove) vocálicos, além de dispor de dois níveis de tom subjacentes.

Consoantes O sistema fonológico consonantal do ik possui 30 fonemas. Este número mostra-se alto quando comparado à língua turkana, língua nilótica oriental com a qual possui contato próximo. No entanto, essa quantidade aproxima-se de outras na área maior do Grande Vale do Rifte, onde o daasanach cuxítico possui 25 (vinte e cinco) sons consonantais e o dime omótico possui 33 (trinta e três). +Fonemas consonantais do ikLabialAlveolarLateralPalatalVelarGlotalPlosivaDesvozeada Vozeada Implosiva (ʝ) (ƙ) Ejetiva (ƙ) FricativaDesvozeada Vozeada ʲAfricadaDesvozeada (c)Vozeada (j)LíquidaNasalAproximante (y)

A ejetiva africada lateral [tɬʼ] é muito rara no ik falado. Segundo reconstruções, o som é usualmente substituído pela implosiva palatal [ʄ], o que pode ser observado em tlʼɔt → ʝɔtᵃ (Adenium obesum - espécie de planta) e tlʼáɓú-ɡwa → ʝáɓú-ɡwa (galinha d'angola). Uma corrente semelhante pode ser observada entre crianças pequenas do povo que substituem [ʝ] por [ʦʼ], como em áʝʊ́ƙɔtɪ́akᵃ → átsʼʊ́ƙɔtɪ́akᵃ (eu comi).

A fricativa desvozeada [ʃ] é derivada da fricativa lateral desvozeada [ɬ], usada por falantes mais velhos. Assim, [ɬ], tal qual [tɬʼ], está em risco de desaparecer. Falantes utilizam [ɬ] ou [ʃ], nunca os dois. Falantes de meia idade podem ocasionalmente pronunciar a fricativa palatal com uma pequena lateralidade, e jovens que têm contato com línguas teso-turkanas, as quais não possuem o fonema [ʃ], tendem a mudá-lo para [tʃ] ou [dʒ].

A fricativa lateral vozeada [ɮ] é também observada como marginal, pronunciada raramente pelos mais velhos. Ela se dividiu em [ʒ] e [ɦʲ]. A fonética da fricativa glotal [ɦʲ] é difícil de se definir, mas é evidente que [ɦ] nunca aparece sem a palatalização. O som também já foi representado como [ʱj]. Para alguns falantes, especialmente os mais novos, a consoante pode perder seu vozeamento ou sua estridência, ocasionando variantes como [hj] ou [j].

Desvozeamento consonantal Em ik, algumas consoantes vozeadas que estão localizadas antes de vogais desvozeadas ou pausas na fala, como no final de uma frase, sofrem desvozeamento parcial ou desoclusão inaudível. Desse modo, além dos 30 fonemas consonantais, há um número considerável de alofones gerados a partir desse processo. +Alofones por desvozeamento consonantal em ikDesvozeada parcialDesoclusasbb̥b̥̚dd̥d̥̚gɡ̊ɡ̊̚ɓɓ̥ɓ̥̚ɗɗ̥ɗ̥̚ʝʝ̊ʝ̊̚zz̥dzʣ̥rr̥ (ou [r̥ː])ll̥l̥̚ww̥yẙ

As consoantes plosivas do ik [p, b, t, d, k, ɡ] podem todas tornar-se desoclusas antes de uma pausa, mas apenas quando a vogal pré-pausa é deletada inteiramente. Dessa forma, as plosivas desvozeadas possuem também os alofones [p̚, t̚, k̚].

Vogais O ik utiliza 9 vogais, a vogal aberta [a] e outros 4 (quatro) pares que se diferenciam na posição da raiz da língua, a qual pode ser avançada (+ATR) ou neutra (-ATR). O sistema vocálico do ik se assemelha a alguns de línguas súrmicas, como o didinga, e outros de línguas nilóticas-orientais, como o turkana. +Fonemas vocálicos do ikAnteriorPosterior+ATR-ATR+ATRFechadaMédiaAberta As vogais do ik são todas vozeadas, exceto quando precedem uma pausa, em que são desvozeadas. As vogais com posição avançada da raiz da língua (+ATR) podem ser caracterizadas como pesadas ou soprosas, e aquelas que possuem uma posição neutra (-ATR) são caracterizadas como leves ou planas.

As vogais posteriores [o, ɔ, u, ʊ] podem ser dessilabificadas antes de uma vogal adjacente, desde que [w] seja utilizado como um alofone semi-vocálico. O mesmo ocorre com as anteriores [i, ɪ], produzindo um alofone semi-vocálico em [j].

Desvozeamento vocálico Como regra geral, qualquer vogal imediatamente antes de uma pausa na fala em ik sofre desvozeamento. Esse processo pode dividir-se em duas situações: a vogal ser desvozeada e sussurrada, ou ser desvozeada e apagada (o que torna o apagamento da vogal uma espécie de alofone dos sons vocálicos). Uma vogal desvozeada é inaudível quando a anterior é idêntica ou próxima a ela. +Exemplos de desvozeamento vocálico em ikGlosaEscritaTranscriçãoTraduçãoín-o || ínᵒ[íno̥]com um(ns) animal(is)ínó-o ||ínó[ínó]de um(ns) animal (is)baro-obaroᵒ[bàrò]do curraldakú-odakúᵒ[dākú]da árvore A regra é suspensa apenas em quatro situações:

quando a sentença possui entonação interrogativa; quando a sentença possui entonação solícita; quando aparecem os demonstrativos anafóricos =ꜜdɛ́ɛ́ (sg.) ou =ꜜdíí (pl.); quando a vogal em si faz parte de um demonstrativo dêitico.