Iberê Gomes Grosso (São Paulo, 12 de junho de 1905 - Rio de Janeiro, 7 de fevereiro de 1983) foi um violoncelista e professor brasileiro, fez escola formando gerações de artistas talentosos e foi um dos principais celistas do Brasil.
Biografia Membro de uma destacada família musical de Campinas, era bisneto de Manuel José Gomes, alcunhado Maneco Músico, mestre de capela por mais de 50 anos e comerciante de instrumentos; neto do maestro, violinista e compositor José Pedro de Sant'Ana Gomes; sobrinho-neto do maestro e compositor de óperas Carlos Gomes, de fama internacional; sobrinho do violoncelista Alfredo Gomes, premiado pelo Real Conservatório de Bruxelas e professor no Instituto Nacional de Música, e filho da pianista Alice Gomes.Candido, Mariana de Oliveira & Nogueira, Lenita Waldige Mendes. "A Sociedade Sinfônica Campineira: memória e tradição na construção do significado de uma orquestra sinfônica". In: Revista Música, 2021; 21 (2) — Dossiê O legado musical de Arnold Schoenberg e seus reflexos na América Latina: 1951-2021Dantas-Barreto, Saulo. Violinos imperiais: luteria brasileira no século XIX. Mestrado. Universidade Estadual de Campinas, 2020, pp. 66-67 Alice foi professora de piano e casou-se em 27 de julho de 1904 com Rodolfo Grosso, alfaiate e comerciante em Campinas,"Anniversario de casamento". Correio Paulistano, 28/07/1922, p. 4 mais tarde arquivista da publicidade da Light no Rio,"Anniversarios". Gazeta de Notícias, 04/10/1935, p. 7 com quem teve quatro filhos, dos quais três fizeram carreiras brilhantes na música: a pianista Ilara Gomes Grosso, a violinista Alda Gomes Grosso, casada com o violinista Oscar Borgerth, e Iberê. O outro filho, José Pedro de Sant'Ana Gomes Grosso Neto, foi médico.Nogueira, Lenita Waldige Mendes. Música em Campinas nos últimos anos do império. FAPESP, 2001, p. 343
Nascido em São Paulo mas criado em Campinas, Iberê iniciou seus estudos musicais aprendendo piano com a mãe,Farias, Rubens Marques. Orquestra sinfônica do Paraná: da ópera Sidéria à Sagração da Primavera. Curitiba 1912-2012. Mestrado. Universidade do Estado de Santa Catarina, 2013, p. 58 e com 11 anos mudou-se para a casa do tio Alfredo no Rio de Janeiro, com quem começou a estudar violoncelo."Iberê e Ilária Gomes Grosso no programa Ondas Musicaes". Revista Fon-Fon, 17/03/1940, p. 58 Em 1919 ingressou no Instituto Nacional de Música, formando-se em 1924 com medalha de ouro, e no ano seguinte obteve em concurso promovido pelo Instituto o prêmio de viagem ao exterior. Com a bolsa do governo matriculou-se em 1926 na Escola Normal de Música de Paris, onde teve aulas com Diran Alexandrian e Pablo Casals, ao mesmo tempo fazendo trabalhos esporádicos como músico de cinema mudo. Em 1928 os pagamentos da bolsa atrasaram, deixando-o em situação precária, e um grupo de artistas organizou um concerto a fim de recolher fundos para ele."Iberê Gomes Grosso". Diário Nacional, 26/01/1928, p. 4 Teve de interromper os estudos para voltar ao Brasil e servir no Exército, mas foi dispensado pouco depois.Rouchou, Joelle. "Iberê, dedos de mestre aos 75 anos". Jornal do Brasil, 22/06/1980, pp. 4-5
Atuou muito no Brasil em conjuntos de música popular nas rádios e em gravações de cantores famosos, embora não desse muito valor a este campo. Sempre preferiu a música erudita. Seu repertório era diversificado. Trabalhava com autores europeus do século XVIII à contemporaneidade, incluindo entre outros Bach, Haendel, Rameau, Corelli, Boccherini, Haydn, Bruch, Sibelius, Ravel, Granados, De Falla,D'Alva, Oscar. "Notas de Arte". Revista Fon-Fon, 22/08/1931, p. 49D'Alva, Oscar. "Notas de Arte". Revista Fon-Fon, 09/01/1932, p. 18 além de dedicar muito espaço para autores brasileiros, como Francisco Braga, Glauco Velásquez, Henrique Oswald, Luiz Cosme, Jorge Antunes, Cláudio Santoro, Radamés Gnatalli, Francisco Mignone, Camargo Guarnieri, Villa-Lobos e outros."A temporada que passou". O Malho, 1945; XLIII (61): 37"Funarte lança o Projeto Memória". Cidade de Santos, 19/11/1980, p. 19 Foi um grande divulgador da música erudita brasileira.
Percorreu o Brasil com orquestras e grupos de câmara, sempre colhendo muitos elogios, além de ser uma presença assídua em programas de música erudita nas rádios nacionais.Oliveira, Magdala da Gama. "Novos aspectos do Rádio". Revista Fon-Fon, 13/05/1944, p. 52 Já no início da década de 1930 era citado como "um dos nossos mais aplaudidos virtuoses",D'Alva, Oscar. "Notas de Arte". Revista Fon-Fon, 13/06/1931, p. 48 "um dos mais belos talentos da moderna geração de concertistas brasileiros","Orchestra Philarmonica do Rio de Janeiro". A Batalha, 28/05/1931, p. 4 "artista finíssimo, magnífico temperamento, delicado e ao mesmo tempo vigoroso, com esplêndida qualidade de som, veludoso quando é preciso, amplo e forte quando a música assim o requer; sendo sempre um intérprete ideal quer se trate de clássicos como Beethoven, românticos como Lalo, ou modernos como Granados, Falla e Debussy"."Dolores Cecília de Vasconcellos e Iberê Gomes Grosso". Correio da Manhã, 20/12/1930, p. 7
Casou em 19 de outubro de 1935 com Adelinda Castellani,'Casamentos".A Noite, 19/10/1935 mais conhecida como Linda, com quem teria as filhas Helena e as gêmeas Yara e Ilara,Barbosa, Valdinha. Iberê Gomes Grosso: dois séculos de tradição musical na trajetória de um violoncelista. SindMusí, 2005, p. 175 e começou a dar aulas. No início cobrava dos alunos, mas em breve passou a lecionar de graça, hábito que manteve pelo resto da vida. Também foi professor da Superintendência de Educação Musical e Artística, onde ministrou o Curso de Formação de Professores Especializados em Música e Canto Orfeônico, do Conservatório de Canto OrfeônicoPeppercorn, Lisa Margaret. Villa-Lobos: Collected Studies. Scolar Press, 1992, p. 148 e a partir de 1950 foi livre docente de violoncelo na Escola de Música da UFRJ. Por suas aulas passou a maioria dos violoncelistas brasileiros que mais tarde fizeram renome, incluindo, entre outros, Aldo Parisot, Bernardo Katz, Márcio Carneiro, Márcio Malard, Antônio Guerra Vicente, Watson Clis, Cláudio Jaffé, Italo Babini e Alceu Reis. Segundo Fernanda Monteiro, da Associação Brasileira de Violoncelistas, "Iberê era um sol em torno do qual orbitavam alunos de diversas regiões, que se mudaram para o Rio a fim de estudar com o mestre". Nas palavras da pesquisadora Isabelle Azevedo, Iberê foi "um dos principais professores do instrumento no Brasil". Segundo o pesquisador Samuel Pereira Lopes, é justo dizer que Iberê foi o mentor de uma "escola brasileira" de violoncelo.Lopes, Samuel Pereira. Um violoncelista brasileiro que permeia a música popular e a sala de concerto: a biografia da carreira musical de Márcio Eymard Malard. Universidade Federal do Rio Grande do Norte, 2022, p. 53 Falando sobre a didática do mestre, Márcio Malard salientou que ele procurava desconstruir os preconceitos que os alunos traziam sobre a técnica, sonoridade, interpretação, empunhadura do instrumento e mesmo sobre a relação mestre-discípulo, incentivando-os a desenvolverem um espírito crítico e encontrarem seu próprio caminho. Ele acrescenta que a prova disso é que nenhum dos alunos saiu com a mesma forma de tocar de Iberê e todos diferiam entre si.Apud Lopes, p. 175
Na década de 1940 participou da Embaixada Artística Brasileira, criada pelo governo da República e coordenada por Villa-Lobos, que tinha o objetivo de estreitar relações culturais entre o Brasil e os países hispano-americanos. Fez turnês na Europa e Israel tocando somente música brasileira. Trabalhou por cerca de 30 anos em parceria com Radamés Gnatalli, tocando arranjos de música erudita feitos por Radamés num trio que incluía Radamés ao piano e o violinista Romeu Ghipsman. Este conjunto foi uma presença frequente nos programas da Rádio Nacional. Também atuou muito em duo com Radamés, fazendo turnês internacionais.Lopes, p. 75 Radamés disse sobre o amigo: "Quando eu fazia uma peça para violoncelo, era para o Iberê tocar. Ele tinha muita bossa, muito jeito pra música brasileira". Canaud, Fernanda. O virtuosismo e o "Swing" revelados na revisão fonográfica de Flor da Noite e Modinha & Baião de Radamés Gnattali. Doutorado. UniRio, 2013, pp. 5; 65; 84
Foi membro do Quarteto Borgerth com Oscar Borgerth e Alda Grosso Borgerth (irmã de Iberê), violinos, e na viola Affonso Henrique Garcia (depois Edmundo Blois), "finíssimo conjunto de cordas";"Broadcasting". O Malho, 1942; XLI (25): 70 do Trio Rádio Ministério da Educação junto com o violinista Anselmo Zlatopolsky e o pianista Fritz Jank (depois Alceo Bocchino),Miranda, Osvaldo. "Hi-Fi". Última Hora, 22/02/1958, p. 9 membro do Trio Pró-Arte com o violinista Alberto Jaffé e a pianista Daisy de Lucena, com "grande aceitação da crítica especializada";"A cidade nas artes". Cidade de Santos, 10/08/1968, 2º Caderno, p. 4 por muitos anos se apresentou em duo com sua irmã Ilara ao piano e com o pianista Arnaldo Estrella;"Sepultamento de Iberê reúne mundo da música". Tribuna da Imprensa, 09/02/1983, p. 6 participou da formação inicial do Quarteto da Guanabara com Estrella, Mariuccia Iacovino ao violino e Federiçk Stephany na viola,"Quarteto da Guanabara". Sala Cecília Meirelles, 21/06/2021 grupo onde permaneceu 13 anos, muito elogiado pelo crítico Luiz Paulo Horta, chamando-o de "uma de nossas mais nobres formações camerísticas",Horta, Luiz Paulo. "Homenagem a Bartok". Jornal do Brasil, 06/04/1981, p. 9 atuou com importantes orquestras nacionais"Gomes Grosso em Brasília". Jornal do Commercio, 05/11/1961, 2º Caderno, p. 3 e foi um dos fundadores da Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal do Rio de Janeiro e da Orquestra Sinfônica Brasiliense (depois chamada Orquestra Sinfônica Brasileira),"Orchestra Synphonica Brasiliense". Correio da Manhã, 21/07/1940, p. 5 da qual foi primeiro violoncelo.XV temporada, 12º Concerto da Série Vesperal. Orquestra Sinfônica Brasileira, 1955, p. 133 Deixou uma significativa discografia."Iberê Gomes Grosso". Jornal do Brasil, 17/02/1983, Caderno B, p. 2 Compôs algumas peças para piano em sua juventude, e algumas vezes atuou como maestro, estreando na regência em 1943 à frente da Orquestra Sinfônica Brasileira, com obras de Brahms, Sibelius, Lalo e Villa-Lobos.Oliveira, Magdala da Gama. "Iberê Gomes Grosso". Revista Fon-Fon, 11/09/1943, p. 52
Depois de uma vida intensamente dedicada à música, faleceu no Rio na noite do dia 7 de fevereiro de 1983, quando se recuperava de uma cirurgia no crânio, depois de ter sofrido um acidente. Foi velado na Escola de Música da UFRJ e sepultado no Cemitério São Francisco Xavier do Caju."Iberê Gomes Grosso". Jornal do Brasil, 08/02/1983, p. 14 No obituário que escreveu na Tribuna da Imprensa, Carlos Dantas disse: "Figura notável na vida musical brasileira, mestre formador de jovens mestres, o violoncelista Iberê Gomes Grosso desaparece aos 78 anos deixando bem viva a aura de competência e grandeza humana que lhe envolvia por onde atuasse em sua múltipla atividade nas gravações, recitais, concertos e salas de aula. [...] Foi responsável por momentos de importância absolutamente maior na vida artística brasileira".Dantas, Carlos. "Mestre Iberê". Tribuna da Imprensa, 10/01/1983, p. 11
Reconhecimento