Arqueologia da Guerra Civil Espanhola é o nome dado ao estudo arqueológico sobre os vestígios da Guerra Civil Espanhola, conflito armado que decorreu entre 1936 e 1939.

A Arqueologia da Guerra Civil Espanhola enquadra-se na Arqueologia Contemporânea, uma vertente de estudo da Arqueologia como disciplina das ciências sociais e humanas, na sua componente geral. Esta por sua vez estuda os acontecimentos históricos, de um ponto de vista arqueológico que ocorreram entre a Revolução Francesa, onde se deu início à Era contemporânea, até à nossa actualidade.

Importância da Arqueologia Contemporânea A Arqueologia aborda, evidentemente, diversos períodos cronológicos incluindo a Era contemporânea. Não obstante isso, esta área de estudo ainda é muitas vezes desconsiderada em comparação com outros períodos cronológicos mais antigos por vários arqueólogos, devido a diversos factores tais como como a vasta documentação, fotografias e vídeos, que não existem no estudo de períodos cronológicos mais antigos, e que fazem com que a abordagem a determinado sítio arqueológico possa ser diferente devido aos meios que se encontram à disposição dos arqueólogos.

Apesar das várias críticas existem alguns pontos interessantes e válidos que devem ser tidos em conta acerca da importância da Arqueologia Contemporânea:

● Dar a conhecer à sociedade em geral, diversos factos sobre um assunto em particular de um ponto de vista mais material através da Arqueologia.

● Procurar pela veracidade dos factos, que em diversos momentos da Era contemporânea podem ter sido deturpados por exemplo: o número de mortos que um regime apresenta à sua população acerca de algum confronto, manifestação ou guerra versus o número de mortos que realmente ocorreu (p. e. número de mortos nas valas comuns da guerra civil espanhola).RUIBAL, Alfredo González (2019). Volver a las Trincheras. Una arqueología de la Guerra Civil española. Epublibre. [S.l.]: Epublibre. p. 21

● Integrar a população de uma forma mais activa com a História do seu país, assim como aumentar a consciência da mesma para a preservação do património, (p. e. a Arqueologia Social na América Latina).SPRIGGS Matthew (1984). Marxist perspectives in archaeology, New directions in archaeology. Cambridge University Press. p 150

Guerra Civil Espanhola e a sua relação com a Arqueologia O relacionamento da Guerra Civil Espanhola com a área de estudo da Arqueologia é relativamente recente sendo que apenas no início do século XXI é que a sociedade espanhola começou a presenciar uma mudança, quer em termos políticos como em termos sociais, acerca do conflito que ocorreu em Espanha na década de 30 do século XX.

Esta mudança teve a sua origem na transição numa primeira fase, mais embrionária, após a morte do general Francisco Franco em 1975, quando o reino de Espanha realizou a sua transição gradual para uma monarquia constitucional sendo a mesma reinada por D. Juan Carlos à época.

A segunda fase de transição deu-se após a aprovação da Lei da Memória Histórica em 2006 que se caracterizou, na sua essência pela re-examinação do passado recente da História de Espanha, mais em concreto desde a guerra civil até à actualidade.ELLINGTON Ashley (2014) Archaeology and Memory of the Spanish Civil War. Georgia Southern University. p 7 Esta re-examinação permitiu à sociedade espanhola informar-se de forma mais clara e ampla acerca da guerra civil que ocorreu no seu próprio país assim como o regime de Franco que governou o mesmo durante praticamente 4 décadas.

Ao permitir à sociedade espanhola esta visão mais clara dos acontecimentos , o Estado espanhol tinha como objectivo fazer com que a mesma tivesse a plena noção dos ideais e daquilo que era verdade, ou não, a respeito dos republicanos e dos nacionalistas pois a História Mundial é sempre escrita pelos vencedores e não pelos vencidos.

Naturalmente o regime de Franco caracterizou-se pelo seu anti-socialismo, anti-comunismo e anti-anarquismo que foram as três principais correntes ideológicas que compunham a facção republicana tendo a sociedade espanhola da época sido fortemente influenciada pela ideologia nacionalista.ELLINGTON Ashley (2014) Archaeology and Memory of the Spanish Civil War. Georgia Southern University. p 6

Valas comuns Em termos arqueológicos a Lei da Memória Histórica de 2006 permitiu acelerar o processo de exumações que já se encontrava a decorrer em Espanha desde o início do século XXI, sendo apoiado por organizações não governamentais (ONGs) como por exemplo a associação Recuperación de la Memoria Historica e a associação Foro por la Memoria.

Para além do apoio das ONG's na exumação dos corpos pertencentes a indivíduos que morreram no período da guerra civil espanhola, as universidades também tiveram um papel importante inclusive no período anterior à aprovação da Lei da Memória Histórica, pois as mesmas ajudavam a preservar a documentação e realizavam trabalhos de laboratório como forma de organizar e e detalhar a enorme quantidade de corpos que iam sendo descobertos.ELLINGTON Ashley (2014) Archaeology and Memory of the Spanish Civil War. Georgia Southern University. p 8

Relativamente às valas comuns em concreto, é possível afirmar que existiam alguns factores importantes que contribuíram para a maior divulgação e aprofundamento do estudo dos indivíduos que iam sendo encontrados. Antes de ser realizado qualquer procedimento arqueológico em concreto, ou seja, a escavação propriamente dita, eram feitos diversos questionários à população próxima do local que iria ser escavado, de forma a facilitar o processo de maximização de todas as informações relevantes e relativas aos indivíduos desaparecidos, e em que circunstâncias é que os mesmos desapareceram. miniaturadaimagem|304x304px|Fig. 1- Escavação de uma vala comum da Guerra Civil Espanhola Em termos mais práticos, a escavação propriamente dita seguia os padrões normais de uma escavação arqueológica, ao longo de camadas estratigráficas e desse modo deixando os indivíduos expostos que nesse local tinham falecido. Uma parte bastante importante das escavações das valas comuns era também a vistoria do local com um detector de metais de forma a ser possível localizar todos os vestígios possíveis de balas que estivessem no local, pois as mesmas são uma componente directamente ligada aos assassinatos das vítimas que, na sua grande maioria eram mortas a tiro.ELLINGTON Ashley (2014) Archaeology and Memory of the Spanish Civil War. Georgia Southern University. p 8, 9

Através das análises dos diversos locais referentes às valas comuns, foi possível perceber que muitos dos indivíduos foram mortos antes de serem enterrados nas mesmas, sendo que em certos locais crê-se que vários indivíduos foram mortos nas próprias ruas. Estes assassinatos eram em diversas situações organizados de forma a levar a vítima a pensar que ia ser encaminhada para uma esquadra ou para a penitenciária, quando na realidade as mesmas acabariam por morrer pouco tempo depois.ELLINGTON Ashley (2014) Archaeology and Memory of the Spanish Civil War. Georgia Southern University. p 9

As valas comuns referentes à guerra civil espanhola tiveram uma utilização bastante diversificada, tendo algumas sido utilizadas para enterrar poucos indivíduos e apenas numa única ocasião, enquanto outras foram utilizadas mais do que uma vez e tinham no seu interior várias ossadas pertencentes a diversas indivíduos.ELLINGTON Ashley (2014) Archaeology and Memory of the Spanish Civil War. Georgia Southern University. p 10

Trincheiras

Nacionalistas As trincheiras são, desde há bastante tempo uma componente bastante comum dos conflitos armados, sendo as mesmas uma estrutura bastante útil para a defesa de um determinado grupo de indivíduos devido às suas características e especificidades.

A guerra civil espanhola não fugiu a essa regra tendo sido construídas diversas trincheiras de forma a segurar posições estratégicas, e adoptar uma postura defensiva em relação ao inimigo. Relativamente à facção dos nacionalistas é possível afirmar que de todas as trincheiras edificadas, há uma que sobressai devido à quantidade generosa de informações que foram possíveis obter através das escavações arqueológicas realizadas na mesma. Esta trincheira denomina-se El castillo e está situada em Abanádes localizando-se a mesma a Nordeste de Madrid e na província de Guadalajara.RUIBAL, Alfredo González (2019). Volver a las Trincheras. Una arqueología de la Guerra Civil española. Epublibre. [S.l.]: Epublibre. p. 183

Estas escavações arqueológicas foram realizadas devido a dois motivos principais sendo que o primeiro encontrava-se obviamente no interesse por parte dos arqueólogos em encontrar informações, através dos artefactos presentes, acerca da guerra civil espanhola e das suas especificidades no local em questão. Por outro lado, outra motivação destas escavações, residia no desejo dos arqueólogos, ao finalizarem as escavações no local, poderem deixar o mesmo em condições e apto a ser visitado tanto para indivíduos provenientes do estrangeiro, como para os próprios espanhóis que tinham interesse em adquirir novos conhecimentos acerca deste conflito armado que ocorreu no seu próprio país.RUIBAL, Alfredo González (2019). Volver a las Trincheras. Una arqueología de la Guerra Civil española. Epublibre. [S.l.]: Epublibre. p. 99

Esta trincheira terá sido construída, muito provavelmente entre Junho de 1937, época em que o alto comando do General Francisco Franco decidiu não iniciar a sua retirada da posição estratégica onde se encontrava até Abril de 1938, data que ficou marcada pela contra-ofensiva nacionalista sobre as posições republicanas situadas na zona mais oriental de Espanha.RUIBAL Alfredo González (2011) Digging Franco's Trenches: An Archaeological Investigation of a Nationalist Position from the Spanish Civil War, Journal of Conflict Archaeology. p. 100

A trincheira de El castillo foi construída numa colina sendo que esta localização foi obviamente selecionada pela vantagem em termos defensivos, que a altura do terreno dá, aos indivíduos que se encontravam dentro da trincheira. Foram também deixados postos de metralhadoras onde eram feitos pequenos buracos na própria trincheira de modo a aproveitar a conjugação da localização da mesma com o poder de fogo destas armas, fazendo com que se tornasse mais complicado para o invasor aceder ao local.RUIBAL Alfredo González (2011) Digging Franco's Trenches: An Archaeological Investigation of a Nationalist Position from the Spanish Civil War, Journal of Conflict Archaeology. p. 102 Numa das extremidades desta trincheira em específico foi construído um bunker onde era usado armamento de maior calibre, sendo que toda a estrutura em si foi construída e reforçada com materiais que aguentassem uma possível invasão armada, tais como pedra ou betão com cerca de 60 centímetros de espessura e contendo ainda a presença de ameias, muito conhecidas pela sua presença nas muralhas dos castelos onde forneciam protecção aos indivíduos dentro do mesmo dando-lhes também a possibilidade de observar e atacar à distância o inimigo.

Para além da estrutura defensiva e mais visível no topo da mesma, a trincheira de El castillo continha também alguns abrigos no interior e ao longo da mesma onde, como o nome indica, serviam para abrigar os soldados que estivessem, no momento a repousar enquanto os seus camaradas estavam de vigia no topo da trincheira. Por motivos de segurança, estes abrigos tinham acesso directo à trincheira, de forma a evitar a exposição desnecessária dos soldados que se encontravam no interior mesma, ao fogo inimigo.