Para a goma-resina mastigável também chamada "goma arábica", veja Mástique.
miniatura|direita|Goma-arábica em pedaços e em pó miniatura|direita|Senegalia senegal, retratada no manual medicinal Köhler's Medizinal-Pflanzen, de 1887, de Franz Eugen Köhler
Goma-arábica, também chamada goma-acácia, goma-sudanesa, goma-do-Senegal e por outros nomes, é uma goma vegetal obtida comercialmente sobretudo do exsudato de duas espécies de Acacia sensu lato, Senegalia senegal e Vachellia seyal. O conjunto taxonômico no qual essas plantas foram tradicionalmente agrupadas abrange centenas de espécies, e as gomas de outras espécies também foram estudadas por suas propriedades industriais. No comércio, o nome "goma-arábica" também foi aplicado a produtos de outras origens botânicas, que não correspondem necessariamente à definição adotada para o aditivo alimentar.
A goma é colhida de árvores silvestres e cultivadas ao longo do Sahel, do Senegal à Somália. Antes da guerra iniciada no Sudão em 2023, o país fornecia cerca de 70 a 80% da oferta mundial. O nome "goma arábica", em árabe الصمغ العربي, transliterado aṣ-ṣamḡ al-ʕarabī, vem de sua comercialização por mercadores e portos árabes, pelos quais o produto chegou à Europa. A goma já era empregada na medicina árabe no século IX.
A goma-arábica é uma mistura de glicoproteínas e polissacarídeos, com estruturas ricas em arabinose e galactose. É solúvel em água e usada na indústria alimentar e na fabricação de refrigerantes como emulsificante, espessante e estabilizante. Recebe a designação E414 na União Europeia e o número INS 414 no sistema internacional de numeração de aditivos alimentares do Codex Alimentarius. Também é empregada em litografia, impressão, tintas, adesivos, cosméticos e aplicações industriais, entre elas o controle de viscosidade em tintas e na indústria têxtil.
Definição A 31.ª sessão do Comitê do Codex sobre Aditivos Alimentares e Contaminantes, realizada em Haia de 19 a 23 de março de 1999, adotou a definição de goma-arábica como o exsudato seco dos troncos e galhos de Acacia senegal ou Acacia seyal, da família Fabáceas, também chamada Leguminosae. Essas espécies foram transferidas, respectivamente, para os gêneros Senegalia e Vachellia.
Na reavaliação de segurança de 2017, a Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar distinguiu a definição do aditivo do uso comercial menos preciso de seu nome. Embora a maioria das amostras comercializadas internacionalmente corresponda às espécies previstas, alguns produtos vendidos como "goma-arábica" podem vir de outros gêneros, como Combretum e Albizia.
Efeitos sobre a saúde A goma-arábica é uma fonte de fibra dietética. Seus possíveis efeitos fisiológicos foram investigados em estudos in vitro, em animais e em seres humanos. Ela resiste à digestão pelas enzimas humanas e chega ao intestino grosso, onde é fermentada pela microbiota, com produção de ácidos graxos de cadeia curta. Os resultados experimentais não estabelecem, por si só, eficácia terapêutica em seres humanos.
Entre os efeitos investigados estão: absorção de cálcio pelo tubo digestivo, avaliada em ratos em experimentos apresentados em uma patente sobre agentes promotores da absorção de cálcio. redução da resposta de glicose e insulina após refeições com carboidratos, um dos efeitos avaliados pela Food and Drug Administration para reconhecer a goma de acácia como fibra dietética. alterações no índice de massa corporal e no percentual de gordura corporal, avaliadas em um ensaio com mulheres adultas saudáveis. redução do colesterol total, da lipoproteína de baixa densidade e dos triglicerídeos, observada em um estudo que comparou o uso de goma-arábica junto com uma estatina ao uso da estatina isoladamente. atividade antioxidante, investigada em modelos experimentais. efeitos sobre os rins e o fígado, com resultados provenientes de experimentos e de estudos clínicos de alcance limitado. modulação de mediadores de inflamação e de respostas do sistema imunológico. alterações na barreira intestinal e efeitos em modelos experimentais de câncer colorretal. Um estudo em camundongos avaliou ações antioxidantes e antigenotóxicas durante a carcinogênese, sem estabelecer prevenção do câncer em seres humanos. proteção do intestino de ratos contra efeitos adversos do anti-inflamatório não esteroide meloxicam.
A fermentação de fibras e seus possíveis efeitos prebióticos também são investigados em relação à função intestinal. Em um ensaio publicado em 2024 com pessoas com síndrome do intestino irritável com predomínio de constipação, a fibra de acácia aumentou a frequência das evacuações após quatro semanas. Não houve diferença estatisticamente detectável em relação ao placebo no escore global de gravidade dos sintomas.
Segurança O Comitê Conjunto FAO/OMS de Peritos em Aditivos Alimentares estabeleceu em 1989 para a goma de acácia uma ingestão diária aceitável "não especificada". Essa classificação dispensa um limite numérico de ingestão diária nas condições previstas de uso alimentar, mas não significa que qualquer quantidade ou forma de exposição seja isenta de risco.
A exposição ocupacional ao pó de goma-arábica pode causar sensibilização. Em uma investigação com onze trabalhadores de uma fábrica de doces encaminhados por sintomas respiratórios ou cutâneos, quatro receberam diagnóstico de asma ocupacional provocada pela goma. Dois desses trabalhadores também tiveram urticária de contato e um apresentou rinite ocupacional.
Usos miniatura|direita|Exsudato gomoso de Vachellia nilotica, espécie cuja goma também foi estudada para aplicações industriais
A mistura de polissacarídeos e glicoproteínas da goma-arábica lhe confere propriedades de adesivo e ligante. Sua composição pode variar, o que favoreceu sua substituição por materiais mais uniformes em algumas aplicações industriais. Na alimentação, é empregada em xaropes para refrigerantes e em produtos de confeitaria, como balas de goma e marshmallows. Também pode integrar o revestimento de chocolates e confeitos, incluindo formulações de M&M's. Para artistas, é um ligante tradicional de tintas de aquarela e da impressão à goma em fotografia. Também é empregada em composições pirotécnicas. Fármacos e cosméticos usam a goma como ligante, emulsificante, agente de suspensão ou modificador de viscosidade.
Na produção de vinho, a goma-arábica é usada como aditivo de estabilização coloidal. Pode ajudar a evitar turvação por cobre, proteger contra turvação férrica leve e impedir a precipitação de pigmentos e outras substâncias presentes no vinho em estado coloidal. Também foram estudados seus efeitos sobre a adstringência e a estabilidade coloidal.
Ela é ingrediente de graxas para sapatos e pode ser usada na preparação de cones de incenso. Também funciona como adesivo reativado pela umidade, por exemplo na goma de selos postais, em envelopes e em papéis de cigarro. Na litografia, mantém as áreas sem imagem da matriz receptivas à água, enquanto essas regiões repelem a tinta oleosa. Uma película de goma também protege a superfície preparada durante o armazenamento antes de seu uso em uma prensa de impressão.
Alimentos Na indústria alimentar, a goma-arábica é usada como estabilizante, emulsificante e espessante em coberturas, recheios, balas macias, chicletes e outros produtos de confeitaria. Em refrigerantes, ajuda a manter dispersos os componentes oleosos dos aromatizantes, evitando sua separação da fase aquosa. Uma solução de açúcar e goma-arábica em água, o xarope de goma, é usada em coquetéis como adoçante e para produzir uma textura mais macia.
A goma-arábica é uma fibra dietética solúvel. Nos Estados Unidos, determinados usos alimentares da goma de acácia são geralmente reconhecidos como seguros, sob as condições estabelecidas na regulamentação. Em 2021, a FDA aceitou uma petição para reconhecer a goma de acácia como fibra dietética na rotulagem, com base em seus efeitos sobre a resposta glicêmica e insulínica após refeições com carboidratos.
Doses de 30 g por dia foram geralmente bem toleradas nos estudos com adultos examinados pela EFSA, embora alguns participantes tenham apresentado flatulência. A goma não é absorvida intacta e não é digerida no intestino delgado. Sua fermentação ocorre no cólon. Foram observados efeitos prebióticos em voluntários saudáveis, como alterações nas populações de bactérias intestinais. Ela é um substrato para microrganismos, e não um probiótico, termo aplicado aos próprios microrganismos vivos.
O valor energético usado na rotulagem variou entre autoridades e períodos. Uma revisão de 1998 discutiu estimativas de até 2 kcal/g obtidas em ratos e ressaltou que elas não podiam ser transferidas diretamente para seres humanos. O mesmo trabalho registrou o uso inicial de 4 kcal/g pela FDA e a ausência, naquele período, de um valor europeu atribuído à fibra solúvel. Em 2008, a FDA não apresentou objeção a um pedido de uso de 1,7 kcal/g para a goma-arábica. Na União Europeia, o Regulamento n.º 1169/2011 estabeleceu para a fibra alimentar o fator de conversão de 8 kJ/g, correspondente a 2 kcal/g para fins de rotulagem.
Pintura e arte miniatura|direita|Goma-arábica em pó para artistas. Uma parte pode ser dissolvida em quatro partes de água destilada para preparar uma solução para mistura com pigmentos miniatura|direita|Seleção de guaches, alguns dos quais contêm goma-arábica
A goma-arábica é usada como ligante em aquarela porque se dissolve facilmente em água. Pigmentos ficam dispersos na solução de goma em proporções diferentes, formando a tinta. A água atua como veículo e diluente e permite transferir a tinta para uma superfície como o papel. Depois de sua evaporação, a goma retém as partículas de pigmento no suporte. A penetração da tinta e a distribuição do ligante também dependem das características do papel e da quantidade de água empregada.
A adição de goma-arábica à aquarela pode aumentar o brilho e a transparência da camada de tinta e retardar sua secagem, ampliando o tempo de trabalho. Isso não equivale a aumentar a resistência do pigmento ao desbotamento pela luz. Uma pequena quantidade de goma também pode facilitar a retirada de cor do papel durante a pintura.
Cerâmica A goma-arábica é usada como aditivo em esmaltes cerâmicos. Atua como ligante, ajudando o esmalte a aderir à argila antes da queima e reduzindo danos durante o manuseio da peça. Também pode alterar a floculação e a fluidez da mistura, com efeitos sobre sua sedimentação durante o armazenamento.
O preparo pode envolver uma solução em água quente, com 10 a 25 g/L de goma, adicionada ao esmalte depois da moagem em moinho de bolas. As proporções citadas para formulações cerâmicas vão de 0,02% a 3,0% da massa seca do esmalte. A fração orgânica da goma se decompõe durante a queima. A presença de sais minerais em sua composição impede que se generalize a afirmação de que a queima não deixa qualquer resíduo. Outros ligantes, como a carboximetilcelulose, também são empregados em esmaltes comerciais.
Fotografia O processo fotográfico de bicromato de goma usa goma-arábica misturada com dicromato de amônio ou dicromato de potássio e pigmento para produzir uma camada fotossensível. A exposição à radiação ultravioleta endurece essa camada e reduz sua solubilidade em água. A lavagem remove as partes não endurecidas, enquanto a goma que permanece retém os pigmentos no papel e forma a imagem.
Gravura e litografia A goma-arábica é usada na preparação química de matrizes litográficas, de pedra ou metal. A litografia é um processo planográfico, no qual as áreas impressoras e não impressoras permanecem essencialmente no mesmo plano. A preparação com goma torna as áreas sem imagem receptivas à água, impedindo que recebam a tinta oleosa durante a impressão.