Julio Elbio Véliz Mello (Carmelo, 30 de setembro de 1916 - local e data de falecimento desconhecidos) foi um jogador uruguaio que atuava como goleiro e também treinador de futebol. Notabilizou-se no Pará, onde é considerado o maior goleiro do século XX no futebol local,DA COSTA, Ferreira (2013). 1949 - Após 9 anos de jejum, Leão Azul volta a reinar e conquista o 15º campeonato. Parazão Centenário. Teresina: Halley S.A. Gráfica e Editora, pp. 89-91 chegando a ser eleito nesse sentido pela imprensa em 1975, em uma primeira "seleção de todos os tempos" do futebol paraense.
Também há aqueles que consideram-no como maior ídolo do Remo, mesmo à frente de Alcino,TAVERNARD, Mauro (2017). Com a palavra, os adversários bicolores - e um árbitro. Alcino Negão Motora - A História do Gigante do Baenão. Belém: RM Graph Editora, pp. 162-166TAVERNARD, Mauro (2018). Especial Clube do Remo 113 Anos - Ídolos Eternos #1. Fenômeno Azul - a Revista da Torcedor Azulino n. 1. Diário do Pará, pp. 16-17 usualmente considerado como o maior. Véliz defendeu o Remo por dez anos, entre 1946 e 1955, período no qual o rival Paysandu só ganhou uma vez o Campeonato Paraense de Futebol, sendo a Tuna Luso a maior concorrente, três vezes campeã contra as cinco edições vencidas pelos azulinos.DA COSTA, Ferreira (2015). Campeonato Paraense de Futebol 1908-2015. Remo x Paysandu - Uma "Guerra" Centenária. Belém: Valmik Câmara, pp. 227-233 Durante sua estadia no "Leão Azul", o clube também recuperou vantagem em número de vitórias no Re-Pa e de títulos paraenses, duas estatísticas que até o início da década de 1950 favoreciam mais o arquirrival. O uruguaio também foi o goleiro do Torneio Internacional de Caracas de 1950, primeiro título internacional remista; e presume-se que ele detenha o recorde de partidas pelo clube, embora o número preciso de jogos seja desconhecido.
Véliz tinha característica de usar uma só de suas mãos grandes para fazer defesas, sendo também descrito como um goleiro de habilidade ainda incomum no Brasil para neutralizar jogadas aéreas fora da pequena área, em tempos em que os goleiros no país ainda pouco costumavam sair do gol; a postura não deixava de ser criticada, havendo na imprensa carioca quem opinasse Véliz como um "louco" ao vê-lo sair jogando até a intermediária. também era um provocador de adversários, verbalmente ou por malabarismos com a bola após realizar defesas. Também era duro com os próprios colegas de defesa para ordenar o setor.
A respeito dele, a revista brasileira Placar conteve o depoimento dado em 1977 pelo jardineiro do Baenão: "esse aí foi o maior goleiro que já pisou esta grama em todos os tempos. E aqui já jogaram o Batatais, o Barbosa, o Castilho, o Gilmar e o Costa Pereira".
Carreira Nacional thumb|right|300px|Terceiro na fileira inferior do Nacional campeão do Torneio Internacional Noturno Rio-pratense de 1938: Ricardo Faccio, Lirio Fernández, Francisco Arispe, Mario Rodríguez, Alejandro Morales e Ramón Cabrera; Roberto Porta, Atilio García, Julio Véliz, Enrique Hernández, Arturo de León e Eduardo García.
Seu primeiro clube foi a equipe amadora do Wanderers de sua cidade natal de Carmelo, de onde rumou em 1936 ao Nacional, após angariar fama no interior uruguaio. Estreou em 12 de fevereiro de 1938 no time adulto, em amistoso contra uma seleção da liga da segunda divisão, vencido por 3-2.
Em paralelo, o clube também competia no Torneio Internacional Noturno Rio-pratense. Véliz era reserva de Eduardo García, mas foi utilizado nos duelos contra Boca Juniors (derrota 2-0, em Buenos Aires) e River Plate (derrota de 1-0), nas duas rodadas finais, após os tricolores já terem garantido na antepenúltima o troféu MELOS PRIETO, Juan José (2012). 1938 - La Copa Lord Willingdon. El Torneo Nocturno Rioplatense. El Padre de la Gloria. Montevidéu: Ediciones El Galeón, pp. 80-81 - considerado um dos precursores da Copa Libertadores da América ao envolver os cinco grandes do futebol argentino, a dupla Nacional e Peñarol e a dupla Rosario Central e Newell's Old Boys, além de outros participantes. Em meio ao título, o Nacional chegou a estender na Avenida 18 de Julio, a principal de Montevidéu, suas camisas manchadas de sangue após triunfo sobre o Estudiantes de La Plata.
Véliz conseguiu ser o goleiro titular pelo restante do ano de 1938 do Nacional, que celebrou também o Campeonato de Honor, em junho, de modo invicto; e a Copa Lord Willingdon, em 11 de setembro. Este foi um amistoso entre Nacional e Peñarol providenciado pelo embaixador Eugen Millington-Drake em meio à visita do então vice-rei da Índia britânica, Marquês de Willingdon, ao país, destinando-se ao vencedor um troféu oferecido pela comunidade anglo-uruguaia. O rival alinhou na ocasião dois vencedores da Copa do Mundo FIFA de 1930: Álvaro Gestido e Ernesto Mascheroni.MELOS PRIETO, Juan José (2012). 1938 - La Copa Lord Willingdon. El Torneo Nocturno Rioplatense. El Padre de la Gloria. Montevidéu: Ediciones El Galeón, pp. 80-81
Um dos reservas de Véliz era o jovem Roque Máspoli, que, sem espaço no clube, seria destinado ao modesto Liverpool uruguaio antes de vir a se notabilizar exatamente no Peñarol, vindo a vencer a Copa do Mundo FIFA de 1950.BASSORELLI, Gerardo (2012). Roque Máspoli. Héroes de Peñarol. Montevidéu: Editorial Fin de Siglo, pp. 202-208 Contudo, ao fim do ano, apesar da artilharia de Atilio García e do elenco tricolor contar também com dois jogadores tanto da seleção uruguaia como da italiana (Ricardo Faccio e Roberto Porta, futuro técnico do Uruguai na Copa do Mundo FIFA de 1974), o Nacional não impediu um tetracampeonato seguido (então um recorde) do rival no campeonato uruguaio de 1938. Véliz, ainda assim, pôde sair-se invicto no clássico: 1-1 pelo Campeonato de Honor, 3-1 na Copa Lord Willingdon e 2-1 pelo campeonato uruguaio. Em 1977, a revista brasileira Placar chegou a noticiar que teria figurado, ainda que como reserva, na Copa América de 1939, onde teria jogado três partidas. Contudo, o sítio eletrônico da Asociación Uruguaya de Fútbol não tem registros de jogos de Véliz pela Celeste; os dois goleiros levados pela seleção uruguaia foram Horacio Granero e Aníbal Paz.
O próprio Aníbal Paz, o outro futuro goleiro campeão da Copa do Mundo FIFA de 1950, na reserva de Máspoli, chegou do Bella Vista e tomou a titularidade no Nacional entre 1939 e 1953, a ponto de tornar-se o recordista de partidas pelo clube.BASSORELLI, Gerardo (2012). El Legendario Aníbal Paz. Héroes de Nacional. Montevidéu: Editorial Fin de Siglo, pp. 51-56 Véliz acabou jogando apenas três vezes pelos tricolores em 1939, em dois amistosos e em uma única participação no título do campeonato uruguaio de 1939, no 8-2 sobre o Bella Vista, já em 18 de novembro; foi o primeiro título do chamado Quinquenio de Oro do Nacional, um recordista pentacampeonato seguido, ainda inédito na liga uruguaia.MELOS PRIETO, Juan José (2012). 1939-1943. El Nacional de Atilio y El Quinquenio de Oro. El Padre de la Gloria. Montevidéu: Ediciones El Galeón, pp. 82-83
A mesma revista Placar de 1977 também relatou que Véliz estava negociando transferência para o futebol italiano, havendo oferta da Fiorentina. Contudo, o estouro da Segunda Guerra Mundial despertou receios em sua família, que o convenceu a seguir carreira no Brasil. A mesma matéria registrou ainda a curiosidade de Véliz ter convivido no Nacional com Juan Álvarez, então goleiro da equipe infantil e que viria a consagrar-se como treinador exatamente no Paysandu. Foi sob o comando técnico de Álvarez que o Paysandu lograria famosa vitória exatamente sobre um Peñarol treinado precisamente por Máspoli, em 1965.
No sul e sudeste do Brasil thumb|right|300px|Visto brasileiro emitido a Véliz em 1940. Véliz foi contratado pelo Grêmio, mas chegou já após o período de inscrição para o torneio citadino porto-alegrense, que na época servia de etapa classificatória ao estadual, ainda regionalizado - somente os campeões municipais ou regionais disputavam o campeonato gaúcho. Sem poder ser inscrito, o uruguaio foi emprestado ao Bagé, com o qual obteve o título citadino bageense, em campanha marcada pelo 7-0 sobre o rival Guarany, ainda a maior goleada do clássico Ba-Gua. A conquista municipal também serviu de classificatório à fase final do campeonato gaúcho de 1940. Ao fim, Véliz e o Bagé chegaram à decisão, terminando vice-campeões para o Internacional, que iniciava um hexacampeonato seguido (então um recorde no certame) no período colorado apelidado de "Rolo Compressor". Véliz chegou a ser sondado para reforçar o próprio Inter, após o primeiro jogo das finais.
Apesar da série de conquistas do rival, Véliz atraiu atenção do futebol do Sudeste. Foi disputado por Abel Picabéa, treinador argentino do São Cristóvão, por Ondino Vieira, técnico uruguaio do Fluminense, e por Vicente Feola, já no São Paulo. Por já ter se apalavrado primeiramente com o São Cristóvão, teria dado preferência a essa equipe, então repleta de outros provenientes do Rio da Prata, como Armando Renganeschi e Dante Bianchi. Antes do contrato com os alvinegros ser concluído, Véliz manteve-se ativo na pré-temporada do Canto do Rio, onde chegou no fim de janeiro de 1943; lá, foi apadrinhado por outro uruguaio, Armando Graham Bell, igualmente um jogador que passara pelo Nacional em 1938. A equipe de Niterói chegou a tentar contratar o goleiro ao fim de fevereiro, após ser aprovado em amistosos realizados ao longo de excursão feita por Paraná e Santa Catarina. Porém, Véliz terminou por oficializar o contrato com o São Cristóvão, sendo enfim anunciado ao fim de março como reforço pelos dois anos seguintes dos "cadetes".
O uruguaio, contudo, ainda demorou até 23 de maio para estrear, em função de demora da regularização de seu contrato junto à federação. Apareceu a tempo de integrar o elenco vencedor do Torneio Municipal de Futebol do Rio de Janeiro de 1943, onde disputou duas partidas, no 1-0 sobre o America e no 6-6 exatamente contra o Canto do Rio. Em 1977, ele ainda recordava daquela estreia, contra o America: "ganhamos de 1-0. Nunca apanhei tanta bola cruzada sobre a área como naquele dia. Os jornais destacaram a minha atuação e um deles trazia a manchete que dizia o seguinte: 'para os goleiros nacionais aprenderem a sair do gol'. É, as bolas altas eram o meu forte". Os dois adversários enfrentados pelo uruguaio no Municipal foram outras forças da competição; o America ainda era visto como um clube grande e tanto os rubros como os niteroienses dividiram a terceira colocação com o Botafogo. O goleiro chegou a contextualizar que a conquista do Municipal, na época, foi tão valorizada por público e imprensa como a de um Estadual.
O Flamengo havia sido apenas quarto colocado no Municipal, mas ao fim daquele mesmo ano de 1943 seria o vencedor do Estadual - em edição na qual Véliz e o São Cristóvão chegaram a liderar e disputar seriamente o título, terminando ao fim na terceira colocação; o time de Figueira de Melo ficou um ponto abaixo do vice Fluminense. Considerando-se ainda o título municipal, aquela temporada seria vista com o tempo como o último momento de protagonismo do São Cristóvão no futebol, em parte pelo desmanche que logo afetou o plantel - que incluía ainda o futuro capitão da seleção brasileira na Copa do Mundo FIFA de 1950, o zagueiro Augusto.
Ainda como jogador dos "cadetes", Véliz conheceu Belém do Pará em 1944, em meio a uma excursão do São Cristóvão. Já ali teria despertado interesse remista em contrata-lo, mas o uruguaio, apalavrado com seu treinador Picabéa para segui-lo rumo ao Madureira, permaneceu no Rio de Janeiro. Defendeu o "tricolor suburbano" por oito meses, chegando a novamente excursionar até Belém, em 1945. A equipe de Conselheiro Galvão, como o próprio São Cristóvão, reunia nomes que passaram ou passariam pela seleção brasileira naquela década; venceu um combinado paraense por 4-1, no fim de dezembro.