Em 18 de junho de 2023, o Titan, um submersível operado pela OceanGate Expeditions, desapareceu no Oceano Atlântico Norte, na costa de Terra Nova, no Canadá. O submersível, projetado para acomodar cinco pessoas, levava uma expedição de turistas para ver os destroços do RMS Titanic. Esperava-se que o submersível tivesse um suprimento de ar respirável de até 4 dias (96 horas), que teria acabado no início do dia 22 de junho de 2023, aproximadamente às 04h00 NDT (UTC−2:30, 03h30 no horário de Brasília, 07h30 no horário de Portugal).
Os esforços de busca e resgate foram realizados por uma equipe internacional composta pela Guarda Costeira dos Estados Unidos (USCG), pela Marinha dos Estados Unidos (USN) e pela Guarda Costeira do Canadá. Aeronaves da Real Força Aérea Canadense (RCAF) e da Guarda Aérea Nacional dos Estados Unidos (ANG), um navio da Marinha Real Canadense (RCN) e vários navios comerciais e de pesquisa e veículos subaquáticos operados remotamente (ROVs) também auxiliaram nas buscas.
Em 22 de junho, após quase 80 horas de busca, a Guarda Costeira dos Estados Unidos e a OceanGate confirmaram que um veículo subaquático operado remotamente (ROV) descobriu um campo de destroços contendo partes do Titan a aproximadamente 488 metros (1 600 pés) da proa do Titanic. Presume-se que o vaso de pressão tenha implodido durante ou após a descida do Titan, matando instantaneamente todos a bordo.
Antecedentes
O foi um transatlântico britânico que afundou no Atlântico Norte em 15 de abril de 1912 após bater em um iceberg. Em 1985, seus restos mortais foram descobertos a cerca de 400 milhas náuticas (460 mi; 740 km) da costa de Terra Nova, na semi-epônima província de Terra Nova e Labrador, Canadá.
Histórico Titan era uma embarcação para 5 pessoas feita de fibra de carbono e titânio operada pela OceanGate. O navio teria suporte de vida para sustentar cinco tripulantes por até 96 horas (4 dias).
Normalmente, a bordo de cada mergulho estava "um piloto, três convidados pagantes e o que a empresa chama de especialista em conteúdo". Uma vez perto do local de mergulho, a descida da superfície até o Titanic durava por volta de três horas, enquanto a imersão total levava aproximadamente oito horas. Durante a viagem, o submersível deveria se comunicar com a tripulação acima da água a cada 15 minutos.
A OceanGate pretendia realizar várias expedições ao Titanic em 2023, mas devido ao mau tempo em Newfoundland, a empresa faria apenas uma expedição em 2023. A empresa cobrava US$ 250 000 pela oportunidade de participar da expedição de oito dias.
Cobertura midiática e reações O submersível tornou-se amplamente discutido nas redes sociais conforme a história se desenrolou. O incidente inspirou memes de internet, que ridicularizaram as deficiências de construção do submergível e as vítimas; alguns modders de videogame recriaram o Titan como um veículo jogável em Grand Theft Auto V, e jogadores de Roblox recriaram o veículo – frequentemente incluindo o evento que transcorria – como um jogo multiplayer interativo. Os memes foram tachados de insensíveis, com David Pogue comentando que eles eram "inapropriados e um pouco doentios"; reações negativas similares ocorreram sobre os modds do Grand Theft Auto, pois alguns fãs os consideraram intempestivos e inapropriados, em razão da morte dos envolvidos. Alguns afirmaram que a reação combativa contra as vítimas pode estar relacionada à cobertura midiática de outras expedições de bilionários e suas próprias empresas, em condições extremas, como SpaceX e Blue Origin. Molly Roberts escreveu ao Washington Post que essas piadas sobre o acidente demonstravam o impulso dos usuários de internet serem irônicos, provocativos e agressivos uns com os outros, combinado com uma atitude de "comam os ricos".
Houve críticas à escala das buscas e dos esforços de resgate e à cobertura midiática em comparação ao desastre do barco de migrantes na Messênia, que ocorrera dias antes. A busca ao Titan provavelmente custou milhões de dólares aos cofres públicos. Ishaan Tharoor, do Washington Post, notou que usuários da internet no Paquistão contrastaram as vítimas paquistaneses envolvidas nos dois acidentes. No mar Jônico, próximo à costa de Pilos, na Grécia, um bote de pesca afundou enquanto carregava algo estimado entre 400 e 750 imigrantes, resultando em aproximadamente cem mortes confirmadas, outras cem pessoas resgatadas, e algumas centenas desaparecidas na altura do desaparecimento do Titan. Esforços de busca e resgate ao barco dos imigrantes foram conduzidos pelo exército e pela guarda costeira da Grécia.
O senador Marcos Pontes, ex-ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação do Governo Jair Bolsonaro, oferecia pacotes turísticos para o Titanic no Titan por meio de sua agência de viagens. O anúncio, veiculado no site da agência, foi removido após as notícias sobre o incidente do submersível Titan. A assessoria de imprensa de Pontes declarou que não chegou a vender esse pacote para tripulantes dessa viagem específica.
Iron Lung, um videogame que se passa em um submarino, lançado em março de 2022 na Steam, acabou recebendo notoriedade devido à semelhança do jogo com o acidente. Por consequência, o jogo teve seu número de vendas elevado após a notícia do acidente ser divulgada. O desenvolvedor do jogo, David Szymanski, divulgou em 21 de junho em seu Twitter um gráfico que mostrou o aumento das compras do jogo. Em 25 de junho, o youtuber estadunidense MrBeast, o indivíduo com mais inscritos da plataforma, revelou que foi convidado para entrar no submersível, mas acabou recusando a oferta.
Discutindo a escala das buscas e a resposta de resgate, Sean Leet, co-fundador e presidente da Horizon Maritime Services, a empresa proprietária do Polar Prince, disseː "Eu estive na indústria naval desde uma idade muito tenra e presenciei uma série de situações diferentes, e nunca vi uma aparelhagem daquela natureza mobilizar-se tão rapidamente [...] A resposta da Guarda Costeira e do Exército dos Estados Unidos, as pessoas no aeroporto, a gente aqui, várias companhias que estiveram envolvidas na mobilização dessa aparelhagem [...] isso foi feito de forma impecável."
Park Stephenson, pesquisador do Titanic, comentou inicialmente sobre o desaparecimento do Titanː "Não importa o que você ler nas próximas horas, tudo que se sabe verdadeiramente no momento é que as comunicações com o submersível foram perdidas e isso é atípico o suficiente para levantar a mais séria consideração." Stephenson tem experiência com explorações do mar-profundo em expedições como a do Titan, e mergulhou anteriormente nos destroços do Titanic em cinco ocasiões.
James Cameron, que dirigiu o filme Titanic de 1997, e visitou os destroços do navio 33 vezes, disse que estava "espantado pela similaridade" entre a implosão do submergível e os eventos que levaram ao desastre do Titanic. Cameron criticou a escolha de construir o vaso de pressão com fibra de carbono, apontando que esse material não tem "tenacidade sob compressão", quando sujeita às imensas pressões das profundezas. Também criticou o sistema de monitoramento real de Stockton Rush, porque seria uma solução inadequada e que pouco faria para prevenir uma implosão.
Segurança e preocupações Segurança miniaturadaimagem|Esquema do OceanGate Titan Como o Titan operava em águas internacionais, não era objeto de regulações de segurança. A embarcação não era certificada como navegável por qualquer agência regulatória ou organização terceira. O repórter David Pogue, que participou de expedição em 2022 como atração do CBS News Sunday Morning, afirmou que todos os passageiros do Titan assinavam um termo confirmando ter ciência de que aquela era uma embarcação "experimental", "que não foi aprovada ou certificada por nenhum órgão regulador, e poderia resultar em lesão física, incapacidade, trauma emocional ou morte". O produtor televisivo Mike Reiss, que também participou de expedição, notou que o termo mencionava "morte três vezes na primeira página". Um artigo de 2019 publicado na revista Smithsonian referiu-se a Rush como um "inventor audacioso". No artigo, descreve-se que Rush afirmou que a Lei de Segurança de Embarcações de Passageiros de 1993 dos EUA "priorizou desnecessariamente a segurança dos passageiros, em detrimento da inovação comercial". Em uma entrevista de 2022, Rush disse à CBS News: "Em um determinado ponto, segurança é só puro desperdício. Quero dizer, se você quer estar seguro, não saia da cama. Não entre em seu carro. Não faça nada." Numa entrevista em 2021, Rush observou: "Eu quebrei algumas regras para fazê-lo [o Titan]. Eu acho que as quebrei com lógica e boa engenharia. A fibra de carbono e titânio, existe uma regra que você não faz isso".
A OceanGate afirmava que o Titan era o único submersível tripulado que usava RTM, "um sistema integrado de monitoramento de saúde em tempo real". O sistema proprietário, patenteado por Rush, empregava sensores acústicos e extensômetros no limite para analisar os efeitos da pressão, que aumentava à medida que a embarcação submergia mais profundamente no oceano, e para monitorar a integridade do casco em tempo real. Isso supostamente funcionaria para avisar prematuramente sobre problemas e possibilitar que a descida fosse abortada em tempo suficiente para que voltassem à superfície.
Preocupações anteriores thumb|Cyclops 1 da OceanGate, uma versão anterior do Titan.Em 2018, o diretor de operações marinhas da OceanGate, David Lochridge, compos um relatório documentando as preocupações que tinha a respeito da segurança do Titan. Nos documentos, Lochridge disse que insistiu para que a empresa avaliasse e certificasse o Titan com uma agência, mas a OceanGate recusou fazê-lo, mencionando falta de interesse em pagar. Ele também disse que a janela transparente na parte posterior do Titan só tinha certificação para uma profundidade de 1 300 metros, apenas um terço da profundidade requerida para alcançar o Titanic. Lochridge também afirmou se preocupar porque a OceanGate não efetuou um ensaio não destrutivo no casco da embarcação antes de efetuar mergulhos tripulados, e alegou que foi "repetidamente informado de que não seria possível efetuar uma varredura na embargação devido à espessura do casco".
OceanGate disse que Lochridge, que não é engenheiro, recusou aceitar o parecer do time de engenharia da empresa, que atestou a segurança da embarcação, e que a avaliação da companhia sobre o casco do Titan era mais forte que qualquer avaliação que Lochridge pensava ser necessária. OceanGate processou Lochridge por alegadamente violar os termos do contrato de confidencialidade e por fazer declarações fraudulentas. Lochridge também processou a empresa, afirmando que foi erroneamente demitido, como se fosse um delator por ter trazido à tona preocupações sobre a possibilidade do Titan operar em segurança. Meses depois, as partes chegaram a um acordo.
Mais tarde, ainda em 2018, a Marine Technology Society escreveu uma carta a Rush expressando "preocupações unânimes a respeito do desenvolvimento do Titan e da expedição planejada ao Titanic", indicando que "a atual abordagem experimental poderia levar a resultados negativos (de menores a catastróficos) que teriam sérias consequências para todos na indústria." Um signatário da carta contou, posteriormente, ao New York Times que Rush o telefonou, após lê-la, para dizer que acreditava que os padrões da indústria sufocavam a inovação.
Incidentes anteriores miniaturadaimagem|Uma versão modificada de um controle sem fio Logitech F710 foi usada para pilotar o Titan.