Luís I (Lisboa, – Cascais, ),Huberty, Michel; Giraud, Alain (1976). L'Allemagne dynastique, tome 1 Hesse-Reuss-Saxe, p. 524 apelidado o Popular, foi o Rei de Portugal e Algarves de 1861 até à sua morte. Segundo filho da rainha D. Maria II e de seu consorte, D. Fernando II, Luís sucedeu ao trono após a morte prematura de seu irmão mais velho, D. Pedro V. Casou-se com Maria Pia de Saboia, filha do rei Vítor Emanuel II da Itália, em 1862. Em contraste com a primeira metade do século, o seu reinado caracterizou-se pelo funcionamento eficaz da monarquia constitucional, pela conclusão da rede ferroviária, por reformas económicas e políticas e pela modernização da sociedade portuguesa.

O reinado iniciou-se de forma desfavorável, num contexto de graves dificuldades financeiras. Em 1868, a questão da sucessão espanhola provocou uma crise, quando Napoleão III apoiou a candidatura ao trono do rei D. Luís ou de seu pai, D. Fernando. De forma hesitante, D. Luís permitiu que o marechal Saldanha assumisse o poder, mas o antigo herói, já envelhecido, foi rapidamente forçado a demitir-se. Ao contrário do seu antecessor, D. Luís demonstrou preferência pelo Partido Regenerador, de orientação conservadora, que, sob a liderança do ministro António Maria de Fontes Pereira de Melo, promoveu uma política de desenvolvimento económico assente no recurso ao endividamento. Os Progressistas acusaram o rei de parcialidade, o que contribuiu para o fortalecimento do movimento republicano. D. Luís participou ainda em tratados com a Grã-Bretanha relativos a Moçambique e à Índia e recorreu à arbitragem para resolver outras disputas territoriais. Paralelamente, destacou-se pela sua atividade cultural, traduzindo para português obras de Shakespeare e de outros autores.

Primeiros anos miniatura|esquerda|220px|D. Luís, enquanto duque do Porto, 1854. Na Royal Collection. O príncipe D. Luís nasceu a 31 de outubro de 1838, às 23h30. Embora, enquanto segundo filho, não estivesse destinado à sucessão ao trono português, recebeu uma educação cuidada e exigente, em grande medida partilhada com o seu irmão mais velho, o príncipe D. Pedro. Foi inicialmente orientado pelo conselheiro Carl Andreas Dietz, que exercera funções de preceptor de seu pai, D. Fernando, até abril de 1847. Nesse ano, Dietz foi obrigado a abandonar Portugal, acusado de ingerência na política nacional, associada à sua filiação religiosa protestante, sendo então substituído pelo visconde de Carreira, com o apoio de Manuel Moreira Coelho.

miniatura|D. Luís (ao centro), acompanhado do seu irmão, o rei D. Pedro V, e da sua prima, a rainha Vitória, em 1854. D. Pedro e D. Luís dividiam o tempo entre os palácios de Mafra, Sintra, e de Vila Viçosa, para além de estadias esporádicas no Palácio de Belém.

O príncipe D. Luís iniciou a sua carreira naval ao ser nomeado membro da Companhia dos Guardas-Marinhas, tendo sido reconhecido numa cerimónia realizada no Arsenal Real da Marinha, a 28 de outubro de 1846, quando contava apenas oito anos de idade. Ao longo da sua trajetória na Marinha, foi sucessivamente promovido a subtenente, em 1851, a capitão-tenente, em 1854, a capitão de fragata, em 1858, e a capitão de navio de linha, em 1859. A 21 de junho de 1858, foi nomeado pelo seu irmão, o rei D. Pedro V, comandante da corveta Bartolomeu Dias. No exercício desse comando, realizou nove missões de serviço, com destinos como a Madeira, os Açores, Tânger, Angola, Southampton e Antuérpia.

D. Luís era um homem culto, profundamente interessado pela literatura e pela poesia. Contudo, não possuía formação política quando foi subitamente chamado a assumir a chefia do Estado, na sequência da morte dos seus irmãos, o rei D. Pedro V, D. João e D. Fernando, em 1861, vítimas de uma epidemia de febre tifoide.Gomes, Bernardino António. Notícia da Doença de que faleceu SM el-rei o Senhor D. Pedro V, Lisboa, 1862

Reinado D. Luís sucedeu ao seu irmão, o rei D. Pedro V, falecido após um reinado de pouco menos de oito anos, ascendendo ao trono a 11 de novembro de 1861 como D. Luís I. Ele foi aclamado rei em 22 de dezembro do mesmo ano.

miniatura|esquerda|220px|D. Maria Pia e D. Luís. Em busca de uma esposa, o novo monarca considerou várias pretendentes, destacando-se a princesa Maria de Hohenzollern-Sigmaringen, irmã da sua falecida cunhada, a rainha D. Estefânia, e a arquiduquesa Maria Teresa da Áustria. Finalmente, D. Luís casou-se por procuração em Turim, a 27 de setembro de 1862, com a princesa Maria Pia de Saboia, filha do rei Vítor Emanuel II da Itália. Inicialmente, o casal viveu uma relação marcada por profundo afeto, mas as numerosas relações extraconjugais do rei levaram a rainha a entrar em depressão.Don Luis I, Roi du Portugal, La Ilustración Española y Americana, 25 de maio de 1870, p. 163 Deste matrimónio nasceram dois filhos: D. Carlos e D. Afonso.

miniatura|220px|Retrato formal de D. Luís, por Machado Eduardo, 1871. Durante o reinado de D. Luís I, registou-se um período particularmente fértil em acontecimentos políticos, com a fundação de diversos partidos em Portugal. Destacam-se o Partido Reformista,Partido Reformista, 1867, José Adelino Maltez, Respublica, Repertório Português de Ciência Política, Edição electrónica 2004 criado em 1865 e que chegou ao poder em 1868; o Partido Socialista Português, fundado em 1875 sob a designação de Partido Operário Socialista; e o Partido Progressista,Os Actos Adicionais à Carta Constitucional de 1826, Paulo Jorge Fernandes, Universidade Nova de Lisboa, Historia Constitucional, n. 13, 2012, págs. 570 estabelecido em 1876, que assumiu o poder em 1879. Em 1883 realizou-se o Congresso do Comité Organizador do Partido Republicano Português. No final do reinado de D. Luís, o Partido Republicano já se encontrava consolidado como uma força política plenamente estruturada.O Campo Político dos Partidos Republicanos Portugueses (1910-1926), por Ernesto Castro Leal, Lagos da República

Durante o reinado de D. Luís I, destacam-se várias realizações de relevância histórica e social, entre as quais se incluem a expansão da rede ferroviária; a construção do Palácio de Cristal, no Porto; a abolição da pena de morte para crimes civis; a abolição da escravatura no Império Português; e a publicação do primeiro Código Civil. Em 1876, foi fundado o primeiro banco público português, a Caixa Geral de Depósitos, e inauguradas no Porto a Ponte Maria Pia e a Ponte Dom Luís I.Pont Dom-Luis Ier, Structurae

Após a Revolução de 1868 na Espanha, foi-lhe oferecida a coroa espanhola, após o exílio da rainha Isabel II. No entanto, D. Luís recusou a proposta, comunicando a sua decisão tanto ao Conselho de Ministros, presidido pelo duque de Loulé, como ao povo português. Dois dias depois da publicação da sua carta patriótica no Diário Oficial, esta foi reproduzida no Diário de Notícias, permitindo à Casa Real desmentir rumores sobre uma possível abdicação. Na primeira página do jornal, proclamou: "Nasci português, quero morrer português". De facto, caso tivesse aceite a coroa espanhola, D. Luís teria de abdicar do trono português em favor do seu filho, o príncipe D. Carlos, então com seis anos de idade, ficando o seu pai, o antigo rei consorte D. Fernando II, como regente. A aceitação da coroa espanhola também poderia ter aberto caminho a uma União Ibérica a médio prazo. Após a recusa do rei português, o trono de Espanha foi finalmente oferecido ao príncipe Amadeu de Saboia, seu cunhado.

Em setembro de 1871, subiu ao poder Fontes Pereira de Melo, que organizou um gabinete regenerador, o qual se conservou até 1877. Seguiu-se o duque de Ávila, que não se aguentou durante muito tempo por lhe faltar maioria. Assim, e depois do conflito parlamentar que rebentou em 1878, Fontes foi chamado outra vez para constituir gabinete. Consequentemente, os progressistas acusaram o rei de patrocinar escandalosamente os regeneradores. Este episódio constituiu um incentivo ao desenvolvimento do republicanismo.

Em 1884, realizou-se a Conferência de Berlim, que deu origem ao denominado Mapa cor-de-rosa, o qual definiu a divisão territorial da África entre as principais potências coloniais: o Império Alemão, a Bélgica, a França, o Reino Unido e Portugal.Francis, John Michael (2006). "Iberia and the Americas: culture, politics, and history: a multidisciplinary encyclopedia, Volume 1, Transatlantic relations series" (em inglês), p. 38, ABC-CLIO,

Interesses pessoais miniatura|esquerda|220px|Autorretrato de D. Luís. No Palácio da Ajuda. miniatura|D. Luís com um violoncelo. Dotado de grande sensibilidade artística, dedicou-se à pintura, à composição musical e à execução de instrumentos como o violoncelo e o piano. Poliglota, dominava corretamente várias línguas europeias e apreciava a escrita de poesia em língua portuguesa. Realizou traduções de obras de William Shakespeare, nomeadamente O Mercador de Veneza, Ricardo III e Otelo, o Mouro de Veneza, sendo a sua tradução de Hamlet a mais reconhecida em Portugal.

D. Luís destacou-se igualmente como homem de ciência, revelando particular interesse pela oceanografia. Investiu uma parte significativa da sua fortuna no financiamento de projetos científicos e de navios dedicados à investigação oceanográfica, que percorreram os oceanos com o objetivo de recolher espécimes. Praticou ainda a fotografia com reconhecido êxito.

Doença e morte Ao longo da sua vida, D. Luís foi descrito como um mulherengo. Enquanto solteiro e oficial da Marinha, terá frequentado prostitutas e, após a sua ascensão ao trono, manteve várias relações extraconjugais, sendo a mais conhecida a que estabeleceu com a atriz Rosa Damasceno.

Em consequência desses comportamentos, contraiu sífilis, doença que, à época, era incurável e para a qual não existia qualquer tratamento eficaz. Em 1887, a enfermidade manifestou-se de forma evidente e evoluiu posteriormente para neurossífilis, vindo a causar-lhe a morte após prolongados e intensos sofrimentos, a 19 de outubro de 1889, antes de completar 51 anos de idade, na cidadela de Cascais.

Foi sepultado no Panteão Real da Dinastia Bragança, no interior da Mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa.

Títulos, estilos e honrarias miniatura|120px|Monograma real de D. Luís.

Títulos e estilos 31 de outubro de 1838 – 11 de novembro de 1861: "Sua Alteza, o Infante D. Luís, Duque do Porto" 11 de novembro de 1861 – 19 de outubro de 1889: "Sua Majestade Fidelíssima, o Rei"

O estilo oficial de Luís enquanto rei era: "D. Luís, pela Graça de Deus, Rei de Portugal e dos Algarves, d'Aquém e d'Além-Mar em África, Senhor da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia, etc."

Honrarias Enquanto monarca de Portugal, D. Luís foi Grão-Mestre das seguintes Ordens: Ordem dos Cavaleiros de Nosso Senhor Jesus Cristo Ordem de São Bento de Avis Antiga, Nobilíssima e Esclarecida Ordem de Sant'Iago da Espada Antiga e Muito Nobre Ordem da Torre e Espada Real Ordem Militar de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa

Ancestrais

Ver também Árvore genealógica dos reis de Portugal Panteão da Dinastia de Bragança

Leitura complementar Aragão, Augusto Carlos Teixeira de.Descripção Histórica das Moedas Romanas existentes no Gabinete Numismático de sua Magestade EL-Rei O Senhor Dom Luiz I. Typographya Universal, 1870. 640p. Sousa, Manuel, Reis e Rainhas de Portugal, editora SporPress, 1.ª edição, Mem Martins, 2000, páginas 149-151,

Ligações externas

D. Luís, "o Popular", D. Luis, Rei marinheiro (Extrato de programa), por José Hermano Saraiva, Videofono para a RTP, 2003

! colspan="3" style="background: #FBEC5D;" | Luís I de PortugalCasa de Bragança31 de outubro de 1838 – 19 de outubro de 1889 |- style="text-align:center;" |width="30%" align="center"| Precedido porPedro V |width="40%" style="text-align: center;"|130pxRei de Portugal e Algarves11 de novembro de 1861 – 19 de outubro de 1889 |width="30%" align="center"| Sucedido porCarlos I |- |width="30%" align="center"| Precedido porMaria II