Huang-Lao ou Huanglao (, "escola do Imperador Amarelo e de Lao Zi"; ou também Huang-Lao zhi dao (黃老之道), "Caminho do Imperador Amarelo e de Lao Zi") foi a escola de pensamento chinesa mais influente no início da dinastia Han do século II a.C., tendo suas origens em um impulso político-filosófico mais amplo em busca de soluções para fortalecer a ordem feudal conforme aparece na política Zhou. Não explicada sistematicamente pelo historiógrafo Sima Qian, é geralmente interpretada como uma escola de sincretismo, desenvolvendo-se em uma religião importante, o início do taoismo religioso. Foi provavelmente o movimento mais antigo que uniu Lao Zi, Zhuangzi, a adoração do Imperador Amarelo, a Escola de Naturalistas, elementos da religião popular chinesa e aspectos das outras Cem Escolas de Pensamento. Estreou o uso político do taoismo com ênfase prática, articulando teorias cosmológicas para indicar como a administração, lei e ordem social deveriam ser reguladas de acordo com o Tao.
O taoismo Huang-Lao foi a vertente mais prevalente do período dos Estados Combatentes até a dinastia Han. Enfatizando a busca pela imortalidade, Feng Youlan e Herrlee Creel consideraram o chamado taoismo religioso diferente, senão contraditório, da linha mais filosófica do taoismo encontrada no Zhuangzi (taoismo Lao-Zhuang). Provavelmente originando-se juntos por volta de 300 a.C., o Huang-Lao, mais politicamente dominante, denotava ambos para grande parte dos Han. Altamente favorecido por governantes, dominou a vida intelectual dos qin e dos primeiros han junto com o "legalismo chinês", e o termo taoismo (dao-jia) provavelmente foi cunhado com o conteúdo do Huang-Lao e Zhuangzi em mente.
Terminologia e origem miniaturadaimagem| Huanglao jun, deificação taoista de Laozi Huang-Lao é uma palavra-valise, com Huang referindo-se ao Imperador Amarelo (黃帝 Huangdi) e Lao a Lao Zi (老子"Velho Mestre"). O nome taoista relacionado Huanglao jun () foi uma deificação de Laozi como uma personificação messiânica do Tao.
O termo Huang-Lao aparece pela primeira vez nos Registros do Grande Historiador (109–91 a.C.), que foram iniciados por Sima Tan e concluídos por seu filho Sima Qian. Em seguida, aparece na História dos Han de Ban Gu (composta entre os anos 54 e 92). Essas são consideradas as duas fontes principais a fornecerem explicitamente o pensamento do Huang-Lao. Sima Tan (pelo menos possivelmente) estudara sob um mestre do Huang-Lao com uma linhagem filosófica que remonta à Academia Jixia dos período dos Reinos Combatentes na corte de Qi (moderna Shandong). A origem convencional do Huang-Lao é traçada à Casa de Tian no reino de Qi, cujos regentes teriam favorecido o pensamento de Laozi e a elevação do Imperador Amarelo como um ancestral venerado; em tentativas filosóficas, religiosas e políticas de legitimar o trono usurpado, a Academia Jixia foi fundada para atrair intelectuais, e a partir dela teria se expandido essa escola de pensamento. Thomas Michael considera que a ampla publicidade do Tao Te Ching por volta de 250 a.C. teria levado diretamente à formação da escola Huang-Lao.
Ideologia política Esse prólogo de Sima Tan sobre o taoismo é considerado no mundo acadêmico uma descrição plausível para o Huang-Lao do período Han inicial:"A Escola do Tao permite que a essência numinosa do homem seja concentrada e unificada, mova-se em uníssono com o informe e providencie adequadamente para a miríade de coisas. Quanto aos seus métodos, segue a tendência geral dos naturalistas (Yinyang chia), escolhe o melhor dos confucionistas e moístas e adota o essencial dos terminólogos (Ming-chia) e legalistas. Ela muda com o tempo e muda em resposta às coisas; e no estabelecimento de costumes e em aplicações práticas, em nenhum lugar é inadequada. A orientação geral de seu ensino é simples e fácil de captar, muito é alcançado com pouco esforço. Os confucionistas diferem disso porque acreditam que o governante é divinamente designado para governar o homem; o governante dá o primeiro passo e o ministro segue sua liderança. Isso leva à exaustão do governante, enquanto o ministro vive uma vida de lazer. O princípio do Grande Tao é abandonar a força rígida e a ganância, eliminar a inteligência, deixar de lado essas coisas e, em vez disso, governar o reino com as técnicas da Escola do Tao. (...) A Escola do Tao fala em não fazer nada, e também em nada ficar por fazer. É uma questão simples colocar esses princípios em prática, embora a expressão desses princípios seja obscura. Seus ensinamentos são baseados em um conjunto metafísico de teorias que orientam a técnica de acordo e seguimento. (...) Como alguém pode fazer declarações sobre como governará o reino se ainda não lutou pelo controle de sua unidade espiritual e física?"Hans van Ess analisou as biografias do Shiji e Hanshu de indivíduos do século II a.C. descritos como seguidores do "Huang-Lao" e encontrou que eles eram membros de uma facção de Huang-Lao ou de uma facção Ru "confuciana" e Fa "legalista". O historiador Sima Qian usou o termo Huang-Lao "como uma caracterização de pessoas pertencentes a um grupo político que era a facção à qual ele também pertencia." Esses membros históricos da facção Huang-Lao tinham três políticas em comum: "oposição às campanhas no norte" contra os Xiongnu, "filiação a famílias ricas e independentes com uma base de poder longe da capital" em Chang'an, e "oposição às medidas para privar os reis feudais de seu poder".
Sima Qian apresenta ao longo de sua obra um viés de favorecer essa escola taoista, que defendia, por exemplo, um governo minimalista. Isso aparece nos relatos em descrições de exemplos sob três formas: afastamento da vida política para cultivo pessoal e da imortalidade; delegação de funções administrativas a subordinados, enquanto o regente realiza a não-ação (wu wei); e não interferência nas atividades do povo. Reis que seguiram essa teoria são por ele elogiados e Sima Qian apresenta seus governos como estáveis, benéficos aos mercadores, caracterizados por baixos impostos, não intervencionismo, códigos legais simplificados, aversão a documentos escritos e descentralização da autoridade entre feudos. Sima Qian chega a afirmar: "Portanto, o tipo mais elevado de governante aceita a natureza das pessoas, o segundo melhor leva ao que é benéfico, o seguinte dá-lhes instrução moral, o segundo força-os a serem ordeiros e o pior tipo entra em competição com eles." E:"A sociedade obviamente deve ter agricultores antes de poder comer; silvicultores, pescadores, mineiros, etc., antes que possa fazer uso dos recursos naturais; artesãos antes que possa fabricar bens e comerciantes antes que possam ser distribuídos. Mas uma vez que estes existam, que necessidade há de diretrizes governamentais, mobilizações de trabalho ou assembleias periódicas? Cada homem deve apenas ser deixado para utilizar suas próprias habilidades e exercer sua força para obter o que deseja"Pode-se dizer que as famílias ricas do Huang-Lao consideravam o imperador um "primus inter pares" (o primeiro entre iguais; o membro sênior ou representante de um grupo) em vez de alguém investido de autoridade absoluta. Naturalmente, como alguém que favorece sua classe e ideologia com isso, o trabalho de Sima Tan era bastante tendencioso para o taoismo e o feudalismo (ou a versão chinesa dele). Sima Qian considerou o imperador Wen de Han e o imperador Jing de Han, a imperatriz viúva Dou, Cao Can, Chen Ping e Tian Shu como proponentes do Huang-Lao.
A filosofia taoista do Huang-Lao foi favorecida nas cortes Han ocidentais do imperador Wen (r. 180–157 a.C.) e do imperador Jing (r. 157–141 a.C.), antes de o imperador Wu (r. 141–87 a.C.) estabelecer o confucionismo como o filosofia do estado. Sob o reinado de Wu, assessores como Tian Fen demitiram seguidores do taoismo, e, com Dong Zhongshu, não confucionistas foram banidos e teorias de governança do Huang-Lao foram incorporadas em um novo confucionismo.
Nesse eclipse da tradição, Ji An foi um expoente apresentado por Sima Qian como seguidor do Huang-Lao. Ele foi fortemente atacado pelos legalistas Gongsun Hong e Zhang Tang. Ji An era de uma família privilegiada e foi um representante poderoso que favorecia famílias ricas, enquanto Gongsun Hong e Zhang Tang denunciavam a luxúria, tinham hábitos frugais e orientavam a centralização e aumento da autoridade e regulação pelo imperador; em contrapartida, Ji An criticou esses oponentes, o código legal confucionista reformulado e as intervenções do imperador Wu, contrastando com os governantes anteriores que seguiam a não-ação. Por fim, Gongsun Hong e Zhang Tang conseguiram o rebaixamento de Ji An, bem como puseram um fim a outros grupos de interesses na corte, com a morte de Liu An.
Textos Se o termo for definido vagamente, vários textos pré-Qin podem ser incluídos retroativamente sob a categoria Huang-Lao. Se considerar os títulos que contém o nome "Imperador Amarelo" na bibliografia preservada no Hanshu, o único que sobreviveu é o Huangdi Neijing. A maioria dos textos de Huang-Lao desapareceu, e os estudos acadêmicos tradicionalmente associaram a escola filosófica com os clássicos chineses sincretistas, ou seja, o legalista Hanfeizi, o taoista Huainanzi, mas também os mais confucionistas Guanzi e a compilação do pensamento de Xunzi. Outras propostas incluem partes do taoista Zhuangzi (os capítulos do Huang-Lao constituiriam um dos três grupos, conforme análise literária de estilo e conteúdo: neles, enfatiza-se a não-ação do governante, enquanto seus ministros detém a ação; os outros dois grupos de capítulos seriam o dos transmissores e o dos anarquistas); seções do histórico Guoyu ("Discursos dos Estados"), Chunqiu Fanlu ("Orvalho Luxuriante dos Anais da Primavera e do Outono") e Lüshi Chunqiu ("Os Anais da Primavera e do Outono do Senhor Lü"), o Heguanzi ("Livro do Mestre Chapéu-Faisão") e o militar Huang Shigong San Lüe ("Três Estratégias de Huang Shigong"). Também, o Yinwenzi.
Randall P. Peerenboom critica a tendência de classificar todos esses textos juntos e "fazer de 'Huang-Lao' uma lata de lixo, varrendo muito para dentro dela". Se definido de forma mais estrita, nada antes da dinastia Han poderia ser chamado de Huang-Lao. Nenhum texto pré-Qin realmente usa o termo. Estudiosos modernos estão reinterpretando Huang-Lao após a descoberta em 1973 dos manuscritos de seda de Mawangdui, que incluíam quatro textos, chamados de Huang-Lao boshu (黄老帛书 "Textos de Seda de Huang-Lao"), os quais são controversamente identificados como os há muito perdidos Huangdi Sijing ("Quatro Clássicos do Imperador Amarelo") ou um texto relacionado com o Heguanzi.
Também com a descoberta das tiras de bambu do Museu de Xangai, alguns manuscritos que contém doutrinas taoistas em sua relação com uma aplicação política passaram a ser consideradas.
Sincretismo precoce O sincretismo de textos "legalistas" como aqueles de Shen Dao e o Han Feizi às vezes são considerados os primeiros exemplos de Huang-Lao. O mais puramente administrativo Shen Buhai foi considerado o primeiro filósofo político conhecido a ter sido influenciado por tal ideologia. No entanto, o argumento de Sima Tan de que Shen Buhai e Shen Dao estudaram Huang-Lao é problemático. Como seu porta-voz, Sima Tan provavelmente empurra para trás a origem de Huang-Lao tanto quanto possível. O estado de direito de Huang-Lao difere fundamentalmente, por exemplo, daquele de Han Fei, favorecendo o naturalismo. Ele também atua mais como uma restrição teórica ao governante. Nem Shen Buhai nem Shen Dao jamais tentaram articular fundamentos naturais ou éticos para fa (método administrativo), nem fornecer qualquer fundamento metafísico para nomeação (xing-ming). Os Huang-Lao Boshu do período Han fundamentam fa e xing-ming no Tao.