thumb|261px|Manifestação do Bloco das Mulheres na Luta Contra a Violência do Estado no Dia Internacional da Mulher de 2013, Belo Horizonte.
As origens do feminismo no Brasil se encontram no século XIX. Estas primeiras manifestações desafiaram ao mesmo tempo a ordem patriarcal e também reivindicações que iam da igualdade política até a emancipação feminina, pautando-se na relação de dominação masculina sobre a feminina em todos os aspectos da vida da mulher. Durante o Império do Brasil, alguns juristas tentaram legalizar o voto feminino, com ou sem o consentimento do marido. A constituição de 1891, não excluía a mulher do voto, pois na cabeça dos constituintes não existia a ideia da mulher como um indivíduo dotado de direitos. Isso fez com que muitas mulheres requeressem, sem sucesso, o alistamento. A constituição republicana de 1891 continha inicialmente uma medida que dava direito de voto para as mulheres, mas na última versão essa medida foi abolida, pois predominou a ideia de que a política era uma atividade desonrosa para a mulher.
Alguns momentos históricos desta época foram importantes no avanço da luta das mulheres, entre outros, as greves de 1917, em 1922 o surgimento do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e, nesta mesma data, a realização da Semana de Arte Moderna em São Paulo. Em 1919, aquela que é, ao lado de Nísia Floresta, considerada pioneira no feminismo brasileiro, Berta Lutz, fundou a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, que lutava pelo voto, pela escolha do domicílio e pelo trabalho de mulheres sem autorização do marido.
Rio Grande do Norte e Minas Gerais foram Estados pioneiros no país a legalizar o voto feminino. A primeira eleitora registrada foi Celina Guimarães Viana. Celina, em 1927, invocou o artigo 17 da lei eleitoral do Rio Grande do Norte, que dispunha: "No Rio Grande do Norte, poderão votar e ser votados, sem distinção de sexo, todos os cidadãos que reunirem as condições exigidas em Lei". Em 25 de novembro de 1927, ela deu entrada numa petição requerendo a inclusão no rol dos eleitores. Face ao que o juiz Israel Ferreira Nunes deu parecer favorável, incluindo-a no rol dos eleitores e enviou telegrama ao presidente do Senado Federal, pedindo em nome da mulher brasileira a aprovação do projeto que instituía o voto feminino.
História
Século XIX thumb|Nísia Floresta, pioneira do feminismo no Brasil. thumb|Josefina Álvares de Azevedo, nome de relevo na primeira fase do feminismo brasileiro.
O movimento feminista brasileiro iniciou em meados do século XIX, quando mulheres de vários pontos do país começaram a buscar uma maior participação política e cultural na sociedade, então dominada pelos princípios patriarcais. Naquela época a visão geral sobre as mulheres era de muitas maneiras negativa. Se não eram operárias e serviçais, permaneciam confinadas à esfera doméstica, cumprindo o papel social que delas se esperava — o de serem boas esposas e boas mães, sempre submissas à tutela masculina. Se fossem virtuosas podiam ser endeusadas como "anjos do lar", mas acreditava-se que tinham uma natureza passional e sentimental e um espírito inconstante, temia-se que sua sexualidade escapasse ao controle, e deviam renunciar a qualquer pretensão de comando. Além disso, suas possibilidades de educação eram limitadas, os cursos superiores estavam fora de seu alcance, questionava-se sua capacidade intelectual e negava-se a elas o direito à atividade política. Mulheres das classes mais altas podiam se dedicar a algumas atividades culturais e artísticas, como a pintura, a literatura e a música, consideradas aceitáveis desde que não se profissionalizassem.Carelli, Sandra. Texto e Contexto: virtude e comportamento sexual adequados às mulheres na visão da imprensa porto-alegrense na segunda metade do século XIX. Mestrado. UFRGS, 1997, pp. 96-97Pesavento, Sandra Jatahy. "Mulheres e história: a inserção da mulher no contexto cultural de uma região fronteiriça (Rio Grande do Sul, Brasil)". In: Revista de Literatura Brasileira, 1991; (23):54-72Freitas, Emanuele Mendonça de & Alves, Márcio Miranda. "Trabalho, religião e família: relatos de regionalidade no romance A Cocanha". In: Travessias Interativas, 2017; 14 (2):67-81 O magistério era tido como uma profissão digna e honrosa, mas também estava cercado de limitações e preconceitos. Como disse Regina Zilberman,
"Destinar as mulheres ao magistério resolvia vários problemas: justificava a necessidade de educá-las; solucionava o problema da falta de mão-de-obra para o magistério, profissão pouco procurada por mal remunerada; não carecia melhorar os proventos, porque o salário da mulher não deveria ser superior ao do homem, e sim adicional. Essas razões estavam recobertas por outras, de caráter ideológico: idealizava-se a professora, chamando-a de mãe e, assim, sugerindo que, ensinando, ela continuava fiel à sua natureza maternal; negava-se o elemento profissional da docência, porque a sala de aula convertia-se num segundo lar; ensinar não seria problema, porque não era trabalho, e sim extensão das tarefas domésticas, o que sustava o eventual pendor emancipatório que essa atividade poderia conter e não contradizia a índole machista da sociedade patriarcal brasileira; e permanecia intocada, e também idealizada, a associação mulher-esposa-mãe, mesmo quando estivesse fora de casa, ganhando o modesto pão de cada dia".Zílberman, Regina. "Leitoras de Carne e Osso: a mulher e as condições de leitura no Brasil do século XIX". In: Revista de Estudos Literários, 1993; 1 (1):31-47
Mulheres negras sofriam opressão ainda maior em função de sua situação de escravizadas, e mesmo as libertas resistiam frente, além da discriminação de gênero, ao preconceito que recaía sobre a sua raça e etnia.Gregori, Juciane de. "Feminismos e resistência: trajetória histórica da luta política para conquista de direitos". In: Caderno Espaço Feminino, 2017; 30 (2) Foi através da dedicação de algumas mulheres à imprensa e à literatura que as ideias feministas começaram a ganhar corpo. Segundo Zahidé Muzart, "no século XIX, as mulheres que escreveram, que desejaram viver da pena, que desejaram ter uma profissão de escritoras, eram feministas, pois só o desejo de sair do fechamento doméstico já indicava uma cabeça pensante e um desejo de subversão. E eram ligadas à literatura. Então, na origem, a literatura feminina no Brasil esteve ligada sempre a um feminismo incipiente".Muzart, Zahidé. "Feminismo e literatura ou quando a mulher começou a falar". In: Moreira, Eunice Maria (org.) História da Literatura, teorias, temas e autores. Mercado Aberto, 2003, p. 267
Nísia Floresta, educadora e escritora, é considerada a primeira das feministas do Brasil, publicando em 1832 o livro Direitos das mulheres e injustiças dos homens, e deixando artigos na imprensa e outros livros como Conselhos à minha filha (1842), Opúsculo humanitário (1853) e A mulher (1856). Por muito tempo considerou-se que a obra fundadora do feminismo brasileiro fosse uma adaptação livre de A Vindication of the Rights of Woman, de Mary Wollstonecraft, pois a própria Nísia havia dito que nela se inspirara, mas após estudos de Pallares-Burke (1995) e Oliveira & Martins (2012), foi demonstrado que Direito das mulheres e injustiça dos homens é na verdade uma tradução integral de La femme n'est pas inferieure a l'homme, publicado em 1750, de uma escritora que só assina como Sophia.Coelho, Catarina Alves. Direito das Mulheres e Injustiça dos Homens: a tradução utópico-feminista de Nísia Floresta. Universidade de São Paulo, 2019, pp. 10-15 Em seus outros escritos Nísia ainda mostra uma ambivalência entre o apego à tradição patriarcal e a necessidade de ruptura e renovação, uma ambivalência que afetaria várias outras feministas nesta primeira fase, formando o que Céli Jardim Pinto chamou de "feminismo bem comportado", apontando para o elemento conservador que ainda era influente.Otto, Claricia. "O feminismo no Brasil: suas múltiplas faces". In: Revista Estudos Feministas, 2004; 12 (2) thumb|esquerda|160px|O Corymbo, edição de 10 de julho de 1920
Em meados do século XIX já surgiam jornais femininos em vários pontos do Brasil, onde as mulheres defendiam sua emancipação, como o Jornal das Senhoras (1852) editado por Joana Paula Manso de Noronha, Belo Sexo (1862), dirigido por Júlia de Albuquerque Aguiar, O Sexo Feminino (1873), editado por Francisca Senhorinha da Motta Diniz, O Eco das Damas (1879), de Amélia Carolina Couto, O Direito das Damas (1882), de Idalina de Alcântara Costa, O Corymbo (1883), dirigido pelas irmãs Revocata Heloísa de Melo e Julieta de Melo Monteiro, e muitos outros, formando uma rede que cobria de norte a sul do país, embora nesta fase ainda não constituísse um movimento realmente organizado. Suas reivindicações eram múltiplas. Muitos desses jornais advogavam o direito ao voto e à vida política, mas outros pregavam o abolicionismo, o direito à educação, a legalização do divórcio, o direito de ocupar cargos públicos.Moura, Nayara Aparecida. "A Primeira Onda feminista no Brasil: uma análise a partir do jornal A Família do século XIX (1888-1894)". In: Revista Discente da Pós-Graduação em Sociologia da UFPE, 2018; 2 (2): 62-86 Grande parte dessas mulheres era republicana.
No fim do século as mulheres já compunham uma parcela expressiva do operariado urbano, e influenciadas por imigrantes espanhóis e italianos, muitas começaram a apoiar o anarquismo e o socialismo e se envolver em movimentos sindicais, lutando por melhores salários e condições de higiene e saúde no trabalho, além de protestarem contra as discriminações e abusos a que estavam sujeitas no ambiente laboral. Mesmo que a constituição republicana de 1891 já assegurasse o voto para as mulheres, era mal interpretada. O artigo 70 dizia: "São eleitores todos os cidadãos maiores de 21 anos", porém, o termo "cidadãos", segundo a interpretação da época, referia-se apenas aos homens, e não aos cidadãos na forma genérica. A mulher só conseguiu efetivamente o direito ao voto em 1932.
A sociedade brasileira se transformava rapidamente em múltiplos níveis, mas permanecia dominante o ideal burguês da família nuclear onde a mulher era esposa e mãe, e assim ao longo de toda a segunda metade do século XIX se levantou uma forte campanha contra as pretensões femininas na imprensa, atacando e ridicularizando a promoção de uma "inversão dos papéis" e a alegada perda da doçura, fragilidade e resignação que eram tidas como próprias das mulheres e as verdadeiras marcas da feminilidade, e que seriam a temida consequência natural da sua saída do espaço doméstico. Mesmo entre os meios acadêmicos, jurídicos e científicos eram publicados vários trabalhos reforçando a ideologia masculina e tentando demonstrar que a emancipação feminina era antinatural e uma perigosa ameaça para a sociedade que a oficialidade desejava construir, estigmatizando e até patologizando as tentativas de libertação do modelo social vigente.Souza, Cássia Regina da Silva Rodrigues de. "Periódicos Feministas do Século XIX: Um Chamado à Resistência Feminina". In: Anais do XV Encontro Regional de História da ANPUH-Rio — Ofício do Historiador: Ensino e Pesquisa. Rio de Janeiro, 23-27/07/2012
As conquistas feministas no século XIX foram pequenas, e contemplaram de modo geral apenas as mulheres brancas das classes média e alta, mas mesmo assim, na visão de Silva & Pedro, "já demonstravam a união em torno de objetivos comuns ao sexo feminino que viriam influenciar a geração seguinte de feministas".Silva, Rebecca Corrêa e & Pedro, Joana Maria. "Sufrágio à brasileira: uma leitura Pós-Colonial do Feminismo no século XIX". In: Caderno Espaço Feminino, 2016; 29 (2)
Século XX
thumb|Primeiras eleitoras do Brasil, Natal, Rio Grande do Norte, em 1928. Arquivo Nacional. thumb|Integrantes da Federação Brasileira para o Progresso Feminino, em 1930. Arquivo Nacional.