A Citânia de Sabroso, igualmente conhecida como Castro de Sabroso, é um sítio arqueológico correspondente a um antigo povoado fortificado, situado no concelho de Guimarães, em Portugal. A povoação em si consistia num conjunto de cerca de 39 casas, de planta circular e rectangular, rodeadas por uma cintura de muralhas, que devido às suas dimensões são consideradas como um dos conjuntos mais monumentais do período pré-romano, na região setentrional do país. Foi habitada principalmente durante a segunda metade do primeiro milénio a.C, durante a Idade do Ferro. As primeiras escavações iniciaram-se em 1877, por Francisco Martins Sarmento, e em 1958 foram reiniciados os trabalhos arqueológicos, coordenados pelo professor britânico Christopher Hawkes. Está classificado como Monumento Nacional.PORTUGAL. Decreto sem nome, de 16 de Junho de 1910. Ministerio das Obras Publicas, Commercio e Industria - Direcção-Geral das Obras Publicas e Minas. Publicado no Diário do Governo n.º 136, de 23 de Junho de 1910. - via Direcção-Geral do Património Cultural. O castro é considerado como um dos mais importantes monumentos da cultura castreja em Portugal, sendo um exemplo de um povoado fortificado pré-romano, e um testemunho do processo da romanização, que levou ao seu abandono.CRUZ, 2020:20
Descrição Localização O sítio arqueológico situa-se na área do Monte do Coto de Sabroso, nas imediações de São Lourenço de Sande. Do ponto de vista administrativo, integra-se na união de freguesias de Sande, São Lourenço e Balazar, na zona setentrional do concelho de Guimarães.CRUZ, 2020:17 O acesso é feito através do lanço entre Guimarães e Braga da Estrada Nacional 101, e depois pela Estrada Municipal 585, via São Lourenço de Sande. Implanta-se no topo de uma colina com cerca de 270 m de altitude, que faz parte do conjunto montanhoso das serras da Falperra e Sameiro, na fronteira entre os concelhos de Guimarães e Braga. Neste conjunto integra-se também um outro importante sítio arqueológico, o castro da Citânia de Briteiros, situado a cerca de 2,7 Km de distância de Sabroso, no sentido Sudoeste. Encontra-se na margem direita do Rio Ave, estando rodeado por um grande número de cursos de água pertencentes à bacia hidrográfica, como a ribeira da Canhota, que nasce na colina, o rio de Agrela, que corre a oriente, e o dos Paus, no lado ocidental. Assim, ambos os castros, em conjunto com o de Santa Iria e outros na região, teriam sido implantados de forma a melhor controlar o vale do rio Ave.CRUZ, 2020:17-18 No caso do povoado de Sabroso, este foi disposto num local que facilitava o acesso às terras baixas. Pode desta forma ser considerado como um exemplo da organização territorial típica durante o período da antiguidade na região, com os povoados a implantaram-se no topo de elevações, em locais próximos de cursos de água e dos terrenos mais baixos, permitindo o aproveitamento dos vastos recursos naturais, principalmente através da agropecuária.CRUZ, 2020:22 Devido à sua localização e dimensões muito inferiores às da Citânia de Briteiros, uma das funções de Sabroso poderia ser como posto avançado, servindo de apoio à região que era controlada por aquela cidade.
Composição Consiste num castro ou povoado fortificado, que ocupa a parte superior de uma colina com cerca de 278 m de altura. O sítio arqueológico ocupa uma área aproximada de 3 Ha, com uma área intramuros de cerca de 2 Ha, dimensões muito inferiores às da Citânia de Briteiros.CRUZ, 2020:103
Segundo o arqueólogo Gonçalo Cruz, a riqueza dos vestígios encontrados no local, e a aposta desmesurada nas defesas, com muralhas de dimensões muito superiores às normalmente encontradas em pequenos castros, pode significar que o povoado tinha uma grande importância, talvez como residência de elites locais, ou do ponto de vista religioso. Esta última hipótese pode ser sustentada pela descoberta de um possível altar, situado no interior do sítio arqueológico, e formado por «um penedo com uma cavidade decorada a toda a volta para sacrifícios», além dos fragmentos de duas estátuas em forma de porcos, que «provavelmente representavam divindades», podendo estar ligadas à utilização do altar. Também existem registos de um monumento funerário associado ao antigo povoado, que já terá sido destruído. Destaca-se igualmente a presença de várias inscrições em penedos no topo da colina, em forma de círculos concêntricos e covinhas. No interior do sítio arqueológico existe também um marco geodésico. Martins Sarmento refere igualmente a presença de um grupo de quatro túmulos «a cerca de 800 passos das suas muralhas», que segundo o arqueólogo seria a área sepulcral do povoado, tendo encontrado no interior de uma das sepulturas uma machadinha de xisto, e noutra três pontas de flecha em sílex, «duas d'ellas tão similhantes ás outras, achadas num dolmen do Neiva, que ninguem será capaz de as extremar, se por acaso as baralhar».
Nas imediações do castro também existia um edifício, que foi identificado por Martins Sarmento como um balneário, mas que terá sido destruído pelo dono dos terrenos ainda no século XIX.
Defesas Foram descobertos os vestígios de duas linhas de muralhas diferentes, que estavam protegidas por fossos, que ainda são visíveis nos cantos a Este e Norte, e que encerravam uma área de 180 por 100 m. A primeira linha, que rodeia o cume do cerro, tinha um perímetro total original de 357 m, do qual restou cerca de 324 m, enquanto que a segunda cria um perímetro adicional de 392 m. Os muros são em talude, e foram construídos com blocos de granito assentes em seco, formando um aparelho de configuração poligonal, com vários lanços que atingem uma altura de três a cinco metros, e uma espessura de cerca de quatro metros e meio. Nos tramos de maiores dimensões, o primeiro lanço de muralhas alcança uma altura de 5,20 m e uma espessura de 4,20 m, que se destacam pela sua grandeza, tendo em conta que se trata de um pequeno castro, sendo consideradas como um dos conjuntos mais monumentais da época pré-romana na região setentrional do país. Nas camadas mais fundas foram encontrados fragmentos de peças de cerâmica, que provavelmente foram utilizados para preencher os alicerces da estrutura. Em vários pontos das muralhas existem vestígios de obras de reforço, que consistiram na construção de muros junto à muralha, aproveitando as fundações originais. Estes muros apresentam uma face com um aparelho poligonal muito bem feito, constituindo um dos elementos de maior interesse no sítio arqueológico. Segundo Martins Sarmento, foram provavelmente feitos no sentido de altear as muralhas originais, mas sem as alterar significativamente, uma vez que também serviam como elemento de suporte ao planalto. A maior parte das muralhas sobreviveram intactas, salvo alguns lanços que foram demolidos no século XX.CRUZ, 2020:106 O acesso ao povoado era feito através de duas portas, uma a Norte, na muralha antiga, e outra a Sul, pela nova muralha.
Residências A maior parte das casas estão dispostas no recinto da muralha primitiva, provavelmente devido à natureza dos terrenos no interior da muralha meridional, que apresentam um declive muito mais pronunciado. No interior das muralhas foram encontradas trinta e nove unidades residenciais, das quais trinta e cinco são de planta circular, enquanto que as três restantes são rectangulares, com os cantos arredondados. Duas destas casas rectangulares faziam parte de um conjunto que também contava com uma outra estrutura, que seria uma cisterna. As casas eram em pedra, e algumas tinham coberturas compostas por lâminas de xisto. Pelo menos duas das casas circulares tinham o pavimento interior em lajeado de pedra. Também foram encontradas as ruínas de vários muros, que poderiam ser de suporte ou de divisão entre as unidades familiares.CRUZ, 2020:106 As casas estavam construídas sobre plataformas artificiais, devido ao desnível natural do terreno. Ao contrário da Citânia de Briteiros, onde as casas foram estruturadas segundo uma rigorosa estratégia urbana, em Sabroso a organização interna foi feita de forma muito mais irregular, sem quaisquer planos prévios, com as casas a serem dispostas em núcleos familiares, sem ruas definidas entre elas, o que pode ser explicado pelas reduzidas dimensões do povoado. O total de núcleos familiares era de cerca de vinte, sendo cada um composto por duas ou três casas, provavelmente habitadas por membros da mesma família, e que estavam organizadas em redor de um pátio central, seguindo desta forma o exemplo comum para este tipo de edifícios durante a Idade do Ferro. Tal como sucede na Citânia de Briteiros, os pátios tinham pavimento de lajes.CRUZ, 2020:110
Martins Sarmento comenta que em termos de arquitectura, o povoado de Sabroso era tão rico como a vizinha Citânia de Briteiros, uma vez que algumas casas tinham portas «cuidadosamente esculturadas». Dentre estas destaca-se um conjunto de peças em pedra formando uma portada, primorosamente esculpida, muito semelhante a um conjunto encontrado em Briteiros. Os elementos laterais da porta estavam decoradas com incisões em forma de círculos concêntricos, tipo de ornamentação que surgiu igualmente noutras peças de Sabroso, tanto em fragmentos de cerâmica como numa placa de bronze. Martins Sarmento classificou estes motivos ornamentais como sendo provavelmente da Idade do Bronze, e equiparou-os aos símbolos da suástica que foram descobertos pelo arqueólogo Heinrich Schliemann na Grécia e na Turquia. Em Sabroso não se encontraram vestígios de influência romana nas casas, ao contrário do que sucedeu em Briteiros, o que poderá ser explicado por a povoação ter sido abandonada antes da introdução deste tipo de elementos.CRUZ, 2020:111-112 Martins Sarmento descobriu igualmente vestígios de algumas pequenas praças pavimentadas com ladrilhos, além de pelo menos uma calçada.
Gravuras rupestres No sítio arqueológico destaca-se também a presença de várias gravuras rupestres, que foram sulcadas nos penedos de granito na parte superior da colina, no interior do castro, registando-se também a presença de um núcleo fora das muralhas.CRUZ, 2020:35, 38 São compostas por círculos concêntricos, espirais, labirintos e covinhas, e integram-se na chamada arte atlântica, que se desenvolveu no período de transição entre o Neolítico e o Calcolítico, sensivelmente entre o quarto e o terceiro milénios a.C.. Um dos elementos mais destacados é um labirintiforme, que segundo a arqueóloga Daniela Cardoso, que estudou as gravuras em 2020, apresenta um estilo comum na «fachada atlântica europeia», desde a Irlanda até à área do rio Vouga, em Portugal, e para o qual foram avançadas várias interpretações, incluindo uma que aponta para «círculos celestes e solares, associados a rituais que desconhecemos». Dois dos afloramentos no interior do castro também são de especial interesse, principalmente aquele onde se situa o marco geodésico, e no qual se encontram gravuras da arte atlântica e duas figuras antropomórficas que provavelmente são posteriores, talvez da Idade do Ferro. Na rocha onde se encontra o altar, e que foi chamada de penedo gamela por Estácio da Veiga, também foram descobertas várias figuras compostas por covinhas alinhadas.
O conjunto de gravuras no exterior do castro situa-se a Sul do sítio arqueológico, na área das Pegadinhas, num afloramento de granito, e é composto por podomorfos, ou seja, representações de pés, cercados por várias covinhas. Os podomorfos são dois, de configuração simétrica, enquanto que as covinhas são de várias dimensões.CRUZ, 2020:38-39
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