thumb|Vista parcial da Colônia Africana em torno de 1910 A Colônia Africana foi um antigo território negro da cidade brasileira de Porto Alegre, situado originalmente no atual Bairro Rio Branco, expandindo-se numa fase tardia para o Bairro Mont'Serrat. Surgindo a partir de 1884 como ponto de fixação de ex-escravos, formou uma comunidade pobre e marginalizada, mas social e culturalmente dinâmica, florescendo sobre uma base principalmente negra até os anos 1930, quando começou a se descaracterizar com o crescente influxo de imigrantes brancos. Uma série de outros fatores contribuiu para que a área fosse progressivamente branqueada e gentrificada, incluindo pressão do poder público, especulação imobiliária, discriminação racial e conflitos internos.

Hoje o Bairro Rio Branco é uma das zonas mais valorizadas da cidade, e a história da antiga Colônia Africana, que foi largamente apagada, vem sendo recentemente resgatada por pesquisadores, memorialistas e jornalistas como parte de um movimento pelo direito ao conhecimento, à memória e à identidade e de valorização do patrimônio afro-gaúcho, sendo também incluída no itinerário do Museu de Percurso do Negro em Porto Alegre e em atividades escolares.

Origens thumb|esquerda|Vista parcial do início da formação da Colônia Africana, fim do século XIX. No topo da colina ainda são visíveis algumas sedes de chácaras rurais das abastadas famílias proprietárias

A Colônia Africana começou a ser formada com a abolição da escravatura localmente em 1884, quatro anos antes da assinatura da Lei Áurea, quando ali começaram a se reunir ex-escravos. Ela fez parte da formação de um "cinturão negro" em torno do centro urbanizado da cidade no período pós-abolição. A área da Colônia Africana era então um lugar relativamente distante do centro, ainda rural e parcialmente coberto de mata, situado entre os arraiais São Manoel e São Miguel, em terras que pertenciam às famílias Mariante e Mostardeiros, que ali haviam instalado chácaras para produção de hortigranjeiros, usando mão-de-obra escrava. Seu acesso principal se dava pelo antigo Caminho do Meio, hoje a Avenida Protásio Alves.Silveira, Alexandre Barcelos. De Colônia Africana a Bairro Rio Branco: desterritorialização e exílio social na terra do latifúndio Porto Alegre, 1920 - 1950. Mestrado. Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2015, pp. 36-37Mattos, Jane. "Os territórios negros de Porto Alegre: o Areal da Baronesa, Ilhota, Colônia Africana e o Mercado do Bará". Matinal Jornalismo, 07/06/2021

O seu território original equivalia aproximadamente à área delimitada pelas atuais ruas Ramiro Barcelos, Mostardeiro, Avenida Protásio Alves e o Morro do IPA, mas essa geografia é um tanto incerta, havendo descrições diferentes. O fato é que a Colônia cresceu significativamente ao longo dos anos, seus limites nunca foram muito precisos e a população negra foi migrando lentamente em direção aos altos do Morro do IPA e o Bairro Mont'Serrat quando as partes mais baixas começaram a ser tomadas por imigrantes brancos.Silveira, Alexandre Barcelos. "Colônia Africana e a construção do território negro em Porto Alegre". In: XII Encontro Estadual de História da ANPUH-RS. São Leopoldo, 2014Rech, Tiago Bassani. Casas de religião de matriz africana em Porto Alegre: territorialidades étnicas e/ou culturais a partir da antiga Colônia Africana. Mestrado. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2012, pp. 86-87 thumb|A Igreja de Nossa Senhora da Piedade em 1918

Os antigos escravos das famílias proprietárias foram os primeiros habitantes permanentes da Colônia, estabelecendo-se nos barrancos existentes nos fundos das chácaras,Carvalho, Ana Paula Comin de. O espaço da diferença no Brasil: etnografia de políticas públicas de reconhecimento territorial e cultural negro no sul do país. Doutorado. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2008, p. 92 sendo logo acompanhados por outros libertos e também por alguns integrantes do proletariado urbano que vinha sendo expulso do centro. Em 1888 apareceu pela primeira vez num mapa oficial da cidade, já tendo cinco ruas, e poucos anos depois sua denominação já estava consagrada na imprensa.Vieira, Daniele Machado. Territórios negros em Porto Alegre: RS (1800-1970): geografia histórica da presença negra no espaço urbano. Associação Nacional de Pós Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional, 2021, pp. 154-176 Em 1889 foi iniciada a construção de uma igreja dedicada a Nossa Senhora da Piedade, em terreno doado por Polidório Mariante, uma tentativa da Igreja Católica de afastar a população negra dos cultos de matriz africana e do espiritismo. Um pequeno grupo já se declarava católico nesta época. Devido ao acesso difícil, a construção se arrastou por muitos anos.Silveira (2015), pp. 37-39 As tentativas dos primeiros padres em catequizar a população não católica não foram bem recebidas. Os habitantes se ocupavam todos em ofícios humildes, como os de carroceiro, biscateiro, criada, engomadeira, sapateiro, cangueiro, lavadeira, cozinheira, servente, serrador, vivendo em sua maioria em casebres rústicos e precários, embora houvesse algumas residências mais bem aparelhadas e sólidas.

A escravidão fora extinta, mas o preconceito não, e devido à prevalência de negros pobres, não demorou que a Colônia ganhasse má fama como zona perigosa, infestada de marginais, sendo repetidamente desmerecida na imprensa.Silveira (2015), pp. 58-62 Uma notícia em A Federação de 1895 dizia que a Colônia já era então "célebre" pelos tumultos, roubos e brigas que lá ocorriam com frequência,"Na Colonia Africana". A Federação, 01/04/1895, p. 2 e em notícia da Gazeta da Tarde de 1896 era dito: "Um tenebroso inferno assemelha-se a famosa Colônia Africana, antro de vagabundos e desordeiros, que por ali pintam o caneco. Não há dia em que não role o pau por certas tabernas ali situadas, onde se juntam os avinhados heróis do cacete e da faca". Outras notícias enfatizavam o perigo que a Colônia representava para os "cidadãos de bem" da cidade e a necessidade de repressão policial ou expulsão.Bohrer, Felipe Rodrigues. "Breves considerações sobre os territórios negros urbanos de Porto Alegre na pós-abolição". In: Iluminuras, 2011; 12 (29): 121-152 — Dossiê Trajetos antropológicos & trajetórias sociais: memórias, sociabilidades e imagens A existência de vários terreiros e mães-de-santo era outro motivo de críticas, em um período em que os cultos africanos eram perseguidos. thumb|Habitações da Colônia em torno de 1920

Em 1896 a área foi posta sob a jurisdição do 3º Distrito Policial, sendo instalada uma delegacia,Silveira (2015), p. 18 em 1898 já era um arraial e as habitações estavam sujeitas ao pagamento de imposto predial, no mesmo ano parte do seu território foi incorporado à zona urbana oficial, e em 1900 havia uma aula pública."Governo do Estado". A Federação, 23/01/1900, p. 1 No início do século XX a Colônia já estava sendo loteada por companhias privadas e recebia algumas melhorias de infraestrutura, calçando algumas ruas, recebendo iluminação pública em alguns trechos. Em 1910 foi criada a paróquia e em 1913 foi inaugurada a igreja, que deu origem a diversas irmandades e associações, como a Pia União das Filhas de Maria, a Liga do Menino Jesus, a Pia Associação dos Tabernáculos e outras, frequentadas por uma população mista. Em 1915 foi fundado o Colégio de Nossa Senhora da Piedade. Também apareciam algumas figuras que se destacavam e conquistavam algum prestígio e um padrão de vida um pouco melhor, como Abel de Souza, que se tornou tipógrafo e revisor de vários jornais importantes, ou Veridiano Farias, professor de música e médico.Silveira (2015), pp. 41-56

Apesar da baixa reputação da área, operários e artesãos brancos, em sua maioria imigrantes europeus de diversas procedências, começavam a se fixar na região, especialmente as partes mais baixas e próximas do centro, abrindo pequenas oficinas e mercados. Também chegavam alguns judeus. Iniciava uma fase de progressiva descaracterização como território negro, e começavam a se verificar conflitos entre negros e brancos e deslocamento da população negra.Silveira (2015), pp. 65-67 A comunidade crescia rápido mas permanecia pobre. Em 1906 eram registrados ali 437 cortiços, e em 1914 o número havia saltado para 742.Vieira, p. 68 Em 1912 o nome Bairro Rio Branco é usado pela primeira vez em documentos oficiais, mas essa denominação por muito tempo não prevaleceu.Rech, p. 34

Transformação

thumb|esquerda|Festa no Salão Modelo da Colônia Africana em torno de 1920 thumb|esquerda|Bloco carnavalesco Os Turunas em 1931

A memória da antiga escravidão permanecia viva na Colônia, e criou-se uma rede de solidariedade interna entre a população negra, que foi fortalecida através da religião que compartilhavam. Embora muitos se dissessem católicos, em sua maioria o faziam como meio de ganhar mais aceitação social, continuando a frequentar ao mesmo tempo os cultos africanos, que eram a devoção amplamente majoritária dos negros.Rech, pp. 39-40 Essa solidariedade produziu sistemas de auto-organização, possibilitando um crescimento social e cultural e o surgimento de diversas sociedades de assistência mútua, empenhadas na alfabetização de seus sócios, formação de uma agenda cívica, organização de festividades religiosas e auxílio social e financeiro.Fleck, Giovana. "Colônia Africana: como teve início a remoção dos negros para a periferia de Porto Alegre". Sul 21, 02/04/2017Rech, pp. 40-42 Muitos eventos festivos assumiam um definido caráter de valorização coletiva da identidade negra, e não era raro que incorporassem integrantes de outros territórios negros de Porto Alegre, havendo várias vias de comunicação e intercâmbio entre eles.

Nos anos 1920 uma comunidade já estava bem consolidada, dotada de uma cultura peculiar, fortemente marcada pela herança negra, manifesta em gírias, culinária, música, festividades, artesanato, religião, medicina caseira, formas de brincadeiras infantis, repertório de lendas, articulando uma identidade própria. Vários blocos carnavalescos se formaram nesta época, como Os Turunas, Os Prediletos e Aí Vem a Marinha, bem como clubes sociais como a Sociedade Bailante Orgulho da Colônia, um nome que denotava um caráter afirmativo, além de escolas de samba, grupos culturais e esportivos. Nos bailes organizados no Salão Modelo (também conhecido como Salão do Rui), que se tornou notório em toda a cidade, desfilava uma sociedade negra culta e bem trajada, que elegia sua Rainha, se entretinha ao som de grandes orquestras e assistia a apresentações de nomes nacionais como Grande Otelo, Horacina Corrêa, Dalva de Oliveira, Herivelto Martins, Orlando Silva e Francisco Alves.Silveira (2015), pp. 71-92Maidana, Pâmela. "Uma Colônia Africana em Porto Alegre". In: Sextante, maio/2022 thumb|Baile no Salão Modelo na década de 1930