Diplomacia científica é um campo interdisciplinar das relações internacionais que aproxima as ciências consideradas de base ou "ciências duras" com os tomadores de decisão,Legrand, T.; Stone, D. (2018). Science diplomacy and transnational governance impact. British Politics, p. 392-407. doi:10.1057/s41293-018-0082-z como os políticos, por exemplo. Essa atividade existe de maneira "não-oficial" há muito tempo,Turekian, V. (2018). The evolution of Science Diplomacy. Global Policy, v. 9, n. 3, p. 5-7. doi: http://dx.doi.org/10.1111/1758-5899.12622 desde que os países se relacionam em projetos em comum. Apesar disso, o termo é relativamente recente, e foi publicado pela primeira vez em artigo da primeira metade dos anos 2000Vikhlyaev, A. A. (2005). Science on the tap, not on the top. International Journal of Technology and Globalisation, v. 1, n. 2, p. 145-161. doi:10.1504/ijtg.2005.007048 e formalizado em relatório de 2010 de duas importantes instituições científicas (AAAS e The Royal Society).Ruffini, P.-B. (2023). Science diplomacy. On several basic notions and key questions. In: Arnaldi, S. (Ed). Science Diplomacy: foundations and practice. EUT Eldizioni Univeristà di Triste, p. 15-34. URL: https://www.interacademies.org/sites/default/files/2023-06/UTS-CEI_ChapterPMcGrath_SDGsandTWAS.pdf
Por meio dela ocorre a colaboração de diversos países para a realização de melhorias para a população, de forma geral. Isso porque a ciência e o desenvolvimento tecnológico têm potencial na resolução de diversos problemas mundiais, como melhorias na agricultura, acesso à água potável, a erradicação da fome, criação de medicamentos para doenças, ou combate ao desmatamento e à poluição, mudanças climáticasMoomaw, W. R. (2018). Scientist diplomats or diplomat scientists: who makes science diplomacy effective? Global Policy, v. 9, n. 3, p. 78-80. doi: https://doi.org/10.1111/1758-5899.12520 entre tantos outros. Seria possível classificar esses problemas da humanidade dentre os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, que foram elaborados com grande respaldo científico.McGrath, P. F. (2023). The Sustainable Development Goals, science diplomacy and TWAS. In: Arnaldi, S. (Ed). Science Diplomacy: foundations and practice. EUT Eldizioni Univeristà di Triste, p. 105-115. URL: https://www.interacademies.org/sites/default/files/2023-06/UTS-CEI_ChapterPMcGrath_SDGsandTWAS.pdf
Além disso, pela diplomacia científica é possível fortalecer as relações entre as diferentes nações, ao serem abordados problemas comuns a eles.Karacan, D. B.; Ruffini, P.-B. (2023). Science diplomacy in the Global South. Science and Public Policy, p. 1-7. doi: https://doi.org/10.1093/scipol/scad028 Para tal, ela deve ser baseada em algumas das questões fundamentais da ciência, como universalidade, neutralidade e capacidade progressiva de influências nas negociações.Polejack, A. (2023). Coloniality in science diplomacy – evidence from the Atlantic Ocean. Science and Public Policy, p. 1-12. doi: https://doi.org/10.1093/scipol/scad027 Devido a essa importância, é necessário que esse conhecimento faça a diferença de alguma forma. Sendo assim, vê-se na diplomacia científica um caminho para essa transformação, e na construção de um futuro mais sustentável e com menor desigualdade. Assim, parte importante da diplomacia científica está relacionada à capacidade dos seus envolvidos em levar as questões em discussão para a população, aumentando seu interesse sobre esses tópicos, sendo essa função também delegada à Comunicação, Divulgação e Jornalismo científicos.
De acordo com estudos sobre a área, a diplomacia científica é exercida em grande parte por uma míriade/mistura de atores não governamentais, como instituições e agências. São esses órgãos, de fato, que estão auxiliando na coordenação regulatória em relação às atividades e ao debate político, por meio da difusão das decisões, com apoio de funcionários oficiais de cada país, especialistas em cada área, bem como pesquisadores que atuam de forma a incentivar a internacionalização. De fato, existe uma discussão bastante importante sobre o papel dos diplomatas cientistas e cientistas diplomatas na atuação desse campo).
Além das definições tradicionais de diplomacia científica apresentadas, algumas abordagens contemporâneas têm sido destacadas em estudos recentes. A diplomacia científica não se limita apenas à promoção de cooperação internacional, mas também envolve políticas de inclusão científica, buscando integrar países de diferentes níveis de desenvolvimento tecnológico e científico em projetos globais. Esta perspectiva amplia a visão tradicional, que prioriza parcerias entre países de alta capacidade científica, e sugere que a ciência pode ser um mecanismo de redução de desigualdades globais.
Outro ponto complementar refere-se ao papel das organizações multilaterais e acadêmicas internacionais. Instituições como a International Science Council (ISC) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC) atuam ativamente como mediadoras entre governos, oferecendo recomendações baseadas em evidências e criando plataformas para debates científicos que influenciam políticas externas. Essa atuação é uma extensão da seção histórica da página, pois mostra que a diplomacia científica contemporânea é multiescalar, incluindo atores não estatais e redes de conhecimento globalizadas.
Além disso, práticas recentes indicam a utilização da diplomacia científica em crises globais, como pandemias e mudanças climáticas. Por exemplo, a cooperação internacional durante a pandemia de COVID-19, envolvendo compartilhamento de dados genômicos e desenvolvimento de vacinas, é um caso concreto de como a diplomacia científica pode fortalecer respostas rápidas a emergências globais, complementando a seção de projetos históricos como CERN e SESAME.<ref>WHO – Science diplomacy in pandemics. https://www.who.int/news-room/feature-stories/detail/science-diplomacy</ref>
Finalmente, a diplomacia científica também está sendo integrada a estratégias de inovação tecnológica, onde países buscam não apenas cooperação acadêmica, mas também transferência de tecnologia e proteção de propriedade intelectual dentro de acordos internacionais. Esse ponto complementa as seções que tratam apenas da construção de infraestruturas científicas, mostrando que a diplomacia científica contemporânea é tanto política quanto estratégica, combinando conhecimento científico com interesses econômicos e tecnológicos.
Conceitos Existem algumas divisões que podem ser feitas sobre o assunto em diferentes vertentes ou dimensões, de acordo com a The Royal Society e a Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS), porém não totalmente livre de críticas:
1) Diplomacia para a ciência: refere-se a atividades realizadas por governos e organizações, para promover a cooperação internacional em ciência, tecnologia e inovação. Exemplos incluem acordos internacionais sobre o uso compartilhado de instalações de pesquisa;
2) Ciência para a diplomacia: envolve o uso da ciência como um meio de melhorar as relações internacionais e promover a paz. A colaboração científica pode construir pontes entre países e ajudar a construir a confiança entre nações que, de outra forma, poderiam estar em conflito.
3) Ciência na diplomacia: aqui a ciência é usada como uma ferramenta na política externa para resolver questões internacionais. Por exemplo, a ciência pode fornecer evidências para informar e apoiar decisões de políticas diplomáticas, como a criação de tratados internacionais sobre mudanças climáticas.
Outra questão interessante a ser debatida é o papel da diplomacia científica na "decolonização", ou seja, no combate à visão eurocêntrica de mundo, que influenciou em grande parte a construção do conhecimento científico.
Instituições e campo de trabalho
A Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS, na sigla em inglês) é uma das mais importantes sociedades científicas do mundo, e incentiva o engajamento de seus membros, assim como pesquisadores, governantes e o público em geral.
Grandes exemplos internacionais dos avanços possíveis que puderam ser realizados com auxílio da diplomacia científica são a construção e administração do CERN,Höne, K. E.; Kurbalija, J. (2018). Accelerating basic Science in an Intergovernamental Frameworl: learning from CERN’s Science Diplomacy. Global Policy, v. 9, n. 3, p. 67-72. doi: https://doi.org/10.1111/1758-5899.12589 que levou à descoberta do bóson de Higgs, o laboratório SESAME (Synchrotron-Light for Experimental Science and Applications in the Middle East),Paolucci, G. (2023) SESAME, a new light for the Middle East. In: Arnaldi, S. (Ed). Science Diplomacy: foundations and practice. EUT Eldizioni Univeristà di Triste, p. 117-138. URL: https://www.interacademies.org/sites/default/files/2023-06/UTS-CEI_ChapterPMcGrath_SDGsandTWAS.pdf a Estação Espacial InternacionalPayette, J. (2012). Research and Diplomacy 350 kilometers above the Earth – Lessons from the International Space Station. Science and Diplomacy, v. 1, n. 4. 12 de dez. 2012. Disponível em: <https://www.sciencediplomacy.org/article/2012/research-and-diplomacy-350-kilometers-above-earth>. Acesso em 11 de jul. 2023., a exploração de “espaços internacionais”The Royal Society and AAAS. (2010). New Frontiers in Science Diplomacy – Navigating the changing balance of power. Disponível em: <https://www.aaas.org/sites/default/files/New_Frontiers.pdf>. Acesso em 10 jul. 2023. do ÁrticoBertelsen, R. G. (2019). The Arctic as a laboratory of global governance: the case of knowledge-based cooperation and Science Diplomacy. In: Finger, M.; Heinine, L. (Eds). The Global Arctic Handbook. , p. 251-267. URL: https://pure.spbu.ru/ws/files/36242903/The_GlobalArctic_Handbook.pdf e da Antártica,Wilson, G. (2015). Antarctic Science: a case for extending diplomacy for Science. In: Davis, L. S; Patman, R. G. Science Diplomacy: New Day or False Dawn, p. 69–85. doi: 10.1142/8658Jayaram, D. (2022). Geopolitics, environmental change and Antarctic governance: a region in need of a transformative approach to Science Diplomacy. In: Khare, N. (Ed). Assessing the Antarctic environment from a climate change perspective, p. 1-17. doi: 10.1007/978-3-030-87078-2_1 o Acordo sobre a Biodiversidade Além das Áreas de Jurisdição Nacional (BBNJ)Harden-Davies, H. (2018). The next wave of science diplomacy: Marine Biodiversity Beyond National Jurisdiction. ICES Journal of Marine Science, v. 75, n. 1, p. 426-434. doi: 10.1093/icesjms/fsx165 Tessnow-von Wysocki, I.; Vadrot, A. B. M. (2020). The voice of science on Marine Biodiversity Negotiations: a systematic literature review. Frontiers in Marine Science, v. 7: 614282. doi: 10.3389/fmars.2020.614282Mendehall, E.; Tiller, R.; Nyman, E. (2023). The ship has reached the shore: the final sessions of the ‘Biodiversity Beyond National Jurisdiction’ negotiations. Marine Policy, v. 155: 105686. doi: https://doi.org/10.1016/j.marpol.2023.105686 e demais redes de contato e parcerias de pesquisadores, em diversas áreas do conhecimento.
Comissões sobre a biodiversidade atuam de forma conjunta há bastante tempo com o intuito de informar tanto a população como os poderes públicos de dados essenciais para adequados manejo e gestão, como por exemplo a Comissão Baleeira Internacional, em relação a esse grupo de cetáceos.
Em períodos de epidemias e pandemias, como a mais recente de covid-19, houve um esforço particularmente grande para o avanço no desenvolvimento de vacinas e remédios, além de facilitar a distribuição para países mais pobres e/ou em desenvolvimento.
Mais recentemente, o trabalho conjunto de diversas universidades, e laboratórios farmacêuticos para a elaboração de vacinas contra a covid-19 demonstram a importância do campo. Como é muito mais trabalhoso de se construir o conhecimento científico sem auxílio, a diplomacia surge como uma ferramenta essencial em momentos críticos.