O Jaguar Azul (Jaguarový ou Chariã/Xariã), também conhecido por Onça Celeste, é um ser primordial maligno da mitologia tupi-guarani. O povo guarani acredita que os eclipses solares e lunares são ocasionado por esta entidade. Dizem que chegará o dia em que Chariã com grande fúria destruirá as estrelas e a humanidade.
Este ser calamitoso é descrito como uma onça de tamanho colossal, tanto que somente seu olho direito é representado pelas estrelas vermelhas de Antares, da constelação de Escorpião, e de Aldebaran, da constelação de Touro. As duas constelações ficam opostas no zodíaco e isso demonstraria a vastidão do ser que se localiza em dois espaços opostos no cosmos. Curt Nimuendajú, que viveu parte de sua vida com os Apapokúva, o descreve como a aparência de um belo cão, grande mas não gigantesco, e seu pelo seria de um maravilhoso azul-celeste.
Na transcrição mais antiga conhecida desse mito, o religioso francês Claude d'Abbeville, em viagem ao Maranhão no ano de 1612, registrou a crença tupi de que a estrela Iaouare ("Jaguar” ou, como ele traduz, “Cão”) tenta devorar a Lua; é uma estrela muito vermelha, que a astronomia ocidental chama de Aldebaran (quando, no começo do inverno, desaparece no horizonte leste pouco antes do amanhecer, por vezes junto à Lua) ou Antares (quando, depois do final do inverno, desaparece no horizonte oeste pouco depois do anoitecer, também por vezes junto à Lua). Os homens tupinambás se voltavam para o nascente da Lua ao final do inverno quando ela se ergue vermelha de sangue por causa do Iaouare que a persegue e socam o chão com seus cacetes, rogando ao Pai Grande (Monã) por prenunciar a possível morte pela destruição do mundo. D'Abbeville não menciona essa fera celeste perseguindo o Sol.d’Abbeville, Claude (1614). História da missão dos padres capuchinhos na ilha do Maranhão e suas circumvisinhaças. São Luiz: Typ. do Frias, 1874.
Ainda segundo Nimuendajú, este ser completamente sobrenatural e imortal é contido pelo deus criador Ñanderuvuçú, abaixo de sua rede onde espera o dia em que será solto para destruir a humanidade, e nem o guerreiro mais destemido escaparia de suas garras. Apesar dos guaranis atrelarem os eclipses ao Jaguar Azul, Nimuendajú afirma que, de todos os guaranis, os Apapokúva e seus parentes próximos atribuem os eclipses ao Morcego Eterno ou Originário (Mbopí recoypý).
O mito Conta-se que desde os primórdios do tempo e do espaço, quando os irmãos gêmeos Quaraí e JaciAFONSO, Germano Bruno. Mitos e estações no céu tupi-guarani. ’Ciência e Cultura,’ [s. l.], v. 58, n. 4, out./dez. 2006. ainda viviam na Terra, antes de se estabelecerem no céu como Sol e Lua, viveram juntos diversas aventuras, um dia os dois encontraram Chariã pescando em um rio, e decidiram o importunar. Quaraí mergulhou no rio e segurou o anzol simulando um peixe fisgado. Quando a onça puxou caiu para trás vendo que nada havia pescado. Quaraí repetiu o gesto por três vezes e em todas Chariã caiu de costas. O seu irmão mais novo Jaci, vendo isto, decidiu também caçoar da onça, porém quando Jaci mergulhou indo em direção ao anzol, Chariã o fisgou e o matou com um bastão de madeira e o levou para casa como se fosse um pescado, para cozinhar com a sua mulher. Quando estavam cozinhando, Quaraí chega e é convidado a comer, agradece dizendo que aceitaria apenas um pouco de caldo de milho, mas pede que eles não jogassem fora os ossos do "peixe", pois queria os levar consigo. Mais tarde, longe dali, Quaraí utilizando de sua própria divindade, ressuscita seu irmão.
Na mentalidade tupi-guarani, um eclipse lunar seria portanto o deus Jaci sendo devorado por completo por Chariã, sendo a cor avermelhada do eclipse lunar o sangue de Jaci que o oculta. As fases da lua seriam portanto o processo das dilacerações ocasionadas pelo abocanhamento de Chariã. Contudo após Quaraí ressuscitar seu irmão, a lua retorna em toda a sua completude na forma de lua cheia.
Portando um medo ainda paira sobre os tupi-guarani. Acreditam que Chariã após se alimentar de Jaci, também consiga devorar Quaraí, ocasionando na completa escuridão e destruição do mundo. Por isso também o eclipse solar. Os eclipses seriam portanto o embate entre essas três entidades.
Para que não haja essa completa destruição, durante esses fenômenos astronômicos, os indígenas fazem rituais onde com muito barulho tentam espantar a entidade maléfica antes que ela também devore o sol. O próprio povo guarani diz ter a responsabilidade de manter essas tradições juntamente com a orientação dos deuses nas opys a fim de salvar a humanidade da destruição e também conduzir os guaranis ao paraíso Yvy Marã Ey. Para eles se os seus costumes e o povo guarani desaparecerem seria o fim de tudo.
Identificação com Anhá Xariã/Chariã é por vezes identificado com Anhá, o Anhanga dos tupis, o grande antagonista em vários mitos tupis-guaranis. Anhá/Xariã também matou um filho de Quaraí, e então este lutou com ele, e essa luta é representada pelo eclipse solar.CADOGAN, L. Ayvu rapyta: textos míticos de los Mbyá-Guaraní del Guairá. São Paulo: Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, 1959. (Boletim n. 227 / Antropologia n. 5).GALANTE, Lilian. Investigação etnobotânica na comunidade Guarani Mbya de Tekoa Pyau. 2011. 170 f. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2011.
Há ainda a tradição mbiá de que Anhá/Xariã é irmão ou companheiro de Nhanderu, o Nosso Pai, pois que ambos vieram do mesmo lugar, mas com qualidades opostas, às vezes amigo e às vezes inimigo, e ambos são creditados como os criadores da nova terra depois do dilúvio universal.SILVA, Gabriel da; DOOLEY, Robert A. (comp.). Nosso pai e Xariã fizeram este mundo ("Nhanderu, ha'e Xariã ko yvy onhonoague"). Brasília: Summer Institute of Linguistics, 1988. Nhanderu colocou as plantas bem perto dos homens para facilitar a vida deles, mas Anhá/Xariã as roubou e espalhou bem distantes umas das outras para prejudicá-los; em outra história, Nhanderu ensinou uma forma fácil de pescar os peixes, mas Anhá/Xariã, para dificultar a pesca, determinou que se usasse o timbó para atordoar os peixes e então capturá-los. Parte das histórias da inimizade entre Nhanderu e Anhá/Xariã, onde este matara o filho de Nhanderu e mais tarde fora morto queimado ao usar o cocar flamejante de Nhanderu, renascido como a saracura e de suas cinzas surgiram pernilongos e borrachudos, têm paralelos com a inimizade de Anhá/Xariã com Quaraí registrada no Ayvú Rapyta (compilação de mitos orais dos mbyá-guaranis do Guairá, Paraguai), repetindo as mesmas narrativas.
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