O transborde da Guerra Civil Síria é o impacto que a Guerra Civil Síria tem em outros países, particularmente nos fronteiriços. Desde os protestos da Primavera Árabe, que a Guerra Civil Síria se tornou numa guerra por procuração entre as potências do Médio Oriente, Turquia e Irão. Esta guerra também é vista como um potencial ponto de despoletação para uma guerra regional, receios estes concretizados quando o Estado Islâmico do Iraque e do Levante — grupo militante jihadista salafita e alegado antigo afiliado da Al-Qaeda — se estabeleceu na Síria em 2013 e, no ano seguinte, combinou a Guerra do Iraque (2013-2017) e a da Síria num único conflito.
Iraque
Incidentes na fronteira Iraque-Síria Em 4 de março de 2013, ocorreu uma emboscada bem-sucedida contra uma escolta do Exército Sírio que estava sobre a proteção de soldados iraquianos. O grupo estava a viajar na província de Anbar, próximo da fronteira com a Síria. O Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL) assumiu a responsabilidade pelo ataque a 11 de março. 51 soldados sírios foram mortos.
Em março de 2013, uma fonte de um hospital disse que o Exército Sírio Livre atacou soldados iraquianos após estes entrarem no Iraque. Isto levou a uma escalada de combates em todo o país. Em Maio de 2013, a Operação al-Shabah realizada pelo exército iraquiano, não conseguiu eliminar as milícias e prevenir a sua consolidação de várias delas com o EIIL. Conflito armado eclodiu na província de Al Anbar no final de 2013 e, em janeiro de 2014, o Estado Islâmico tornou-se num pseudo-país que assumiu grande parte do Iraque e da Síria, apagando a fronteira entre os dois e transformando o conflito numa guerra multinacional. Em Junho de 2014, o EIIL lançou uma ofensiva no norte do Iraque, tomando grandes áreas do país e ameaçando a própria capital.
Em junho de 2016, o Exército Livre da Síria, apoiado pelos Estados Unidos, superou as forças do EIIL na cidade fronteiriça de al-Bukamal . Esta cidade é essencial pois liga o leste da Síria ao Iraque. No entanto, nas horas seguintes, o EIIL lançou uma contra-ofensiva e retomou al-Bukamal, com o Exército Livre Sírio sofrendo baixas significativas. O controlo territorial significativo que o EIIL mantém em torno de al-Bukamal permite uma passagem relativamente fácil entre as duas nações. O EILL também conduziu ataques perto da passagem fronteiriça Waled-Tanif.
Líbano A Guerra Civil Síria levou a incidentes de violência sectária no norte do Líbano, entre apoiantes e opositores do governo Assad, e a confrontos armados entre sunitas e alauitas em Trípoli, Líbano. A Força Aérea Árabe Síria conduziu ataques contra alvos no Líbano, enquanto que os rebeldes lançaram mísseis contra alvos do Hezbollah, uma organização para-militar xiita. Combates entre os apoiantes do xeque sunita Ahmed Al-Assir, que é contra o envolvimento do Hezbollah na Síria, e o exército libanês, mataram pelo menos 15 dos seus soldados.Deadly fighting rages in Lebanon Al Jazeera, 24 Junho 2013
Fronteira Líbano-Síria No início do verão de 2012, dois militantes do Hezbollah foram mortos em território libanês num confronto com rebeldes sírios. Em 17 de setembro, aeronaves sírias de ataque dispararam três mísseis sobre território libanês perto de Arsal — foi sugerido que os jatos estavam a perseguir rebeldes nas proximidades. O ataque levou o presidente libanês, Michel Sleiman, a lançar uma investigação, embora não culpou publicamente a Síria pelo incidente.
Em 22 de setembro de 2012, membros armados do Exército Sírio Livre atacaram um posto fronteiriço perto de Arsal. Esta foi relatada como a segunda incursão da semana. O grupo foi expulso pelo Exército Libanês, que deteve e posteriormente libertou alguns rebeldes devido à pressão de moradores locais indignados. O presidente libanês elogiou as ações levadas a cabo pelos militares, mantendo a posição do Líbano como sendo "neutra em relação aos conflitos de outros". Ele apelou aos residentes da fronteira para "ficarem ao lado do seu exército e ajudarem os seus membros". A Síria tem apelado a uma intensificação da buscas contra rebeldes, que afirma estarem escondidos em cidades fronteiriças libanesas. Em outubro de 2012, Hassan Nasrallah negou que os membros do Hezbollah estavam a lutar ao lado do exército sírio, e que os libaneses na Síria estavam apenas a proteger as aldeias habitadas pelos libaneses do Exército Sírio Livre.
Em agosto de 2014, a força aérea síria bombardeou o lado libanês da fronteira. Em dezembro daquele ano, usaram bombas de barril em supostas instalações rebeldes a noroeste de Arsal.
Líbano vs. ISIL e Frente al-Nusra De 2 a 5 de agosto de 2014, o exército libanês entrou em confronto com homens armados sírios na cidade de Arsal, o que deixou mais de cem soldados mortos de ambos os lados. Em 21 de agosto de 2014, a Frente al-Nusra invadiu o Líbano perto da cidade de Arsal e da e Al-Fakiha, no Vale do Bekaa. Após uma batalha entre eles e o Hezbollah, sete combatentes do Hezbollah e 32 terroristas sírios morreram em confrontos em torno da aldeia síria de Nahleh, perto da fronteira de Arsal. Dezenas de reféns foram levados de volta à Síria durante a batalha de Arsal. Após negociações infrutíferas, o gabinete libanês votou a favor de autorizar o exército a invadir a Síria para libertá-los em 4 de Setembro de 2014, no entanto não foi realizada. Em Dezembro de 2015, após mais de um ano e meio de cativeiro, as tropas libanesas mantidas prisioneiras pela Al Nusra foram trocadas por prisioneiros detidos no Líbano. Houve outra tentativa de invasão do Líbano por uma força conjunta EIIL-Nusra no início de Outubro, que foi derrotada pelo Hezbullah, e em Janeiro de 2015.
Hezbollah vs. Estado Islâmico Em Junho de 2015, o Hezbollah alegou que estava no meio de uma grande batalha com o EIIL, clamando ter invadido partes do Líbano e tomado território.
Turquia Com uma fronteira de 1609km com a Síria e o Iraque, tem havido uma série de incidentes envolvendo a Turquia com várias facções em conflitos a sul da sua fronteira.
Conflitos na fronteira Síria-Turquia Á apoiar abertamente a deposição de Bashar al-Assad, a Turquia permitiu o estabelecimento de uma “rodovia jihadista” onde rebeldes, incluindo o EIIL, foram autorizados cruzar, ao sul da fronteira, tanto suplementos e militantes. Houve vários incidentes, incluindo o abate de um jato da Força Aérea Turca pela Síria, que matou os 2 pilotos, e também o abate de um jato da Força Aérea Síria pela Turquia, e um ataque do exército turco em fevereiro de 2015 para evacuar um pequeno enclave em Síria.
Turquia e EILL A Turquia tinha alegadamente apoiado o EIIL ao longo das suas muitas encarnações. Em certa medida, isso começou a mudar com os bombardeamento de Reyhanlı em 2013 e um ataque aéreo de retaliação em janeiro de 2014. O EILL superou esta situação e começou a conquistar território no norte do Iraque, seguida pela consolidação de territórios no norte da Síria. No verão de 2014, começou a tomar territórios perto da área fronteiriça com a Turquia, levando a que centenas de milhares de refugiados atravessassem a fronteira para causar se rebeldar. Como consequência, a Turquia pôs o fim da a trégua com o PKK.
Uma votação para autorizar a ação militar foi aprovada pelo parlamento turco em 2 de outubro de 2014. No entanto, não teve seguimento e ocorreram mais tumultos em muitas das cidades da Turquia, à medida que o governo exigia cada vez mais condições para participar na guerra. Os tumultos se intensificaram e várias dezenas de manifestantes foram mortos.
A relação entre o EIIL e a Turquia deteriorou-se durante a primavera e o verão de 2015, levando a ataques de elite na fronteira e a ataques aéreos por parte dos turcos.
Cerco ao túmulo de Süleyman Shah Em 22 de fevereiro de 2015, o exército turco invadiu a Síria por Kobanî e dirigiu-se ao túmulo de Suleyman Shah, que foi desmantelado e trazido de volta à Turquia. Os 40 guardas que estavam de serviço lá foram resgatados. Cerca de 100 veículos militares, incluindo 39 tanques, estiveram envolvidos, juntamente com 572 militares, um dos quais morreu num acidente.
Um ataque ao túmulo, considerado território turco ao abrigo de um acordo franco-turco de 1921, esteve sob ameaça no início do ano, levando o governo a declarar que retaliaria contra qualquer ataque ao túmulo, e serviria como um casus belli. O governo sírio disse que o ataque foi um ato de "agressão flagrante" e que responsabilizaria Ancara pelas suas repercussões.
Abate de avião de guerra russo Em 24 de novembro de 2015, um avião de guerra russo foi abatido na zona fronteiriça entre a Síria e a Turquia. A Turquia afirma que o avião violou o espaço aéreo turco, uma afirmação que a Rússia nega. Os primeiros relatos de várias agências de notícias russas indicaram que o avião tinha sido abatido por um ataque terrestre de rebeldes sírios, mas as autoridades russas confirmaram mais tarde os relatos turcos de que o avião tinha sido abatido pelos seus caças. De acordo com autoridades turcas, o jato russo, um SU-24, foi abatido por dois jatos F-16 turcos após múltiplos pedidos (10 pedidos num intervalo de cinco minutos) para que o jato russo mudasse o seu curso. A Turquia afirma que o jato russo violou o seu espaço aéreo, sobrevoando o território turco apesar dos avisos para mudar de rumo, enquanto a Rússia afirma que o seu jato nunca entrou no espaço aéreo turco e esteve sobre a Síria o tempo todo. A Turquia produziu um gráfico que mostra o padrão de voo do avião russo, que mostra-o a cruzar o extremo sul da província de Hatay antes de ser abatido e cair perto da montanha do Turcomenistão, perto da fronteira Síria-Turquia.
A Rússia manteve firmemente que “durante todo o seu voo, a aeronave permaneceu exclusivamente acima do território sírio”. Em resposta, o presidente russo Vladimir Putin afirmou que o ataque foi "uma facada nas costas dos cúmplices dos terroristas". A Turquia já havia alertado a Rússia sobre violações do espaço aéreo turco e também alertou sobre ataques contra civis turco-sírios que viviam ao longo da sua fronteira.
Conflito curdo O conflito de 2015 entre a Turquia e o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) eclodiu após negociações de paz de dois anos, que começaram no final de 2012, mas que não conseguiram progredir à luz das crescentes tensões na fronteira com a Síria no final de 2014, quando o Cerco de Kobani originou uma onda de refugiados curdos na Turquia. Alguns dos curdos acusaram a Turquia de ajudar o Estado Islâmico do Iraque e do Levante durante a crise, resultando em manifestações curdas na Turquia, envolvendo dezenas de mortes. As tensões aumentaram ainda mais no verão de 2015 com o atentado bombista de 20 de julho em Suruç, alegadamente executado por um grupo turco afiliado ao EIIL contra apoiantes curdos. Em 21 de julho, o PKK matou um soldado turco e feriu mais 2 em Adıyaman. Em 23 de Julho, dois agentes da polícia turca foram mortos pelo PKK em Ceylanpinar, que o descrevou como retaliação.
Jordânia Houve vários incidentes ao longo da fronteira entre a Síria e a Jordânia. A Jordânia tem cerca de 600 mil refugiados sírios acreditados– embora as autoridades jordanianas digam que o número total é de 1,4 milhões.
Intensos bombardeios em Daraa, Síria, atingiram acidentalmente o lado jordânio da fronteira; danos signficativos não foram causados. Houve ocorrências em que homens armados foram mortos ou feridos em confrontos com soldados das patrulhas fronteiriças da Jordânia. Desde outubro de 2014, a Jordânia tem tomado uma parte ativa na coligação anti-EILL, contribuindo para a campanha de ataques aéreos liderada pelos Estados Unidos.