miniaturadaimagem|319x319px|Mapa político da América Latina A América Latina é um território que compreende desde o México até a Argentina, incluindo as Ilhas Caribenhas. Esse espaço foi colonizado, principalmente, pelos portugueses, espanhóis, holandeses, franceses e ingleses, durante mais de três séculos (XVI-XIX), de modo que houve a formação de nações culturalmente diversas, mas que apresentam processos históricos e características afins. Além disso, o território tem as maiores diásporas de espanhóis, portugueses, africanos, italianos, libaneses, árabes e japoneses do mundo. A região também possui grande população de alemães (a segunda maior depois dos Estados Unidos), franceses, chineses e judeus. Em menor grau, há presença de suíços, suecos, coreanos, indianos, turcos, gregos, palestinos, israelitas, finlandeses e islandeses. Logo, o termo “nacionalismos latino-americanos” pressupõe que, mesmo havendo semelhanças nos compartilhamentos entre os povos da região, estes manifestam sentimentos nacionais que exprimem elementos distintos, os quais são frutos da formação nacional particular do país em que habitam. Dessa forma, estudá-los é extremamente complexo.

Processo histórico de construção das nações latino-americanas Os nacionalismos latino-americanos surgem em um contexto histórico no qual o continente estava sob domínio de potências estrangeiras, Portugal e Espanha, que gozavam dos benefícios do terrível sistema colonial. Logo, o sentimento nacional nessa parte do globo floresce, devido à insatisfação perante o colonizador e, consequentemente, apresenta características revolucionárias. Esses traços são baseadas em noções de igualdade e liberdade, desenvolvidas por autores como John Locke e Jean Jacques Rousseau, os quais pregavam o direito de todos os povos à determinar a forma de governo sob a qual vivem e a gozar de representação política.SIEKMEIER, James F. (2017). Latin American Nationalism: Identity in a Globalizing World. Londres: Bloomsbury Ademais, a Independência Americana inspirou os movimentos nacionalistas latino-americanos, o que os rendeu um caráter predominantemente cívico, e não assentado em aspectos étnicos, ligados a uma única raça. Tal sentimento nacional aumenta à medida que as colônias de Espanha e Portugal crescem economicamente e se tornam mais estáveis socialmente, já que as suas elites locais se tornam mais confiantes, acreditando que são capazes de se auto-governar. Portanto, as guerras de libertação nacional são a porta de entrada para a ideia de nação na América Latina.

As revoluções latino-americanas não foram realizadas mediante uma mobilização que destacasse as diferenças culturais entre as colônias e a metrópole, devido à falta de elementos étnicos para a autodeterminação desses povos. Logo, seu caráter foi essencialmente econômico, contra a exploração colonial centenária.HOBSBAWM, Eric (2017). Viva la Revolución: A Era das Utopias na América Latina 1 ed. ed. São Paulo: Companhia das Letras Essa ausência de fatores étnicos no discurso nacionalista revolucionário se deu por conta das enormes diversidades regionais, raciais e sociais nas colônias. A mais forte dessas divisões era, sem dúvidas, a visão das elites sobre os indígenas, que não os reconheciam como cidadãos, apenas os enxergavam como contribuintes, isto é, pagadores de impostos que não deveriam usufruir de nenhum direito social. Na visão das elites, os povos originários eram um obstáculo a ser superado nos esforços para o desenvolvimento da nação. Por conseguinte, a adoção de símbolos pré-colombianos e o uso do termo "nação", fazendo alusão à noção de que todos são iguais e de que, portanto, todos devem ter os mesmos direitos, não passou de uma manobra política das elites locais visando mobilizar as camadas subalternas da população para legitimar o controle do poder central. Dessa forma, com a independência das colônias, desenvolveu-se um nacionalismo assentado, sobretudo, na ideia de que os recursos naturais daquele território pertenciam às pessoas que ali viviam e produziam e que, portanto, seguia os propósitos econômicos da revolução nacional.

Contudo, apesar de a independência ter significado o fim da jurisdição colonial, a dependência econômica da América Latina com a Europa não cessou, já que o esforço revolucionário exigiu a captação de recursos financeiros vindos do Norte, na forma de empréstimos, para o estabelecimento de suas novas nações. Consequentemente, o avanço na matéria de direitos individuais e direitos políticos foi deixado em segundo plano, em detrimento das políticas visando assegurar as necessidades econômicas da população.

Durante o século XIX, na ausência de conflitos inter-estatais, muito importantes, segundo Hobsbawm (2017), para o forjamento de identidades nacionais, observou-se diversos esforços para a integração nacional, dentre os quais a integração física e a integração social foram os mais importantes. Tais formas de integração se caracterizam, respectivamente, pela construção de meios de transporte que conectam as regiões dos territórios nacionais e pela imposição cultural e linguística sobre os indígenas, visando à unificação.

A Crise de 1929 evidenciou-se como um momento de inflexão do nacionalismo latinoamericano, dado que objetivando enfrentá-la, as elites locais criaram políticas econômicas nacionalistas, de caráter desenvolvimentista, visando a industrialização e a urbanização. O período que se seguiu dessa crise foi de extrema fragilidade, o que suscitou duras críticas ao sistema capitalista e, sobretudo, à divisão internacional do trabalho, que prejudicava os Estados latinoamericanas em detrimento dos Estados europeus. Logo, produziram-se diversas teorias, como as teorias da Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL) na década de 60, que criticavam a maneira como as economias latinoamericanas se inseriram na economia mundial, dado que o modelo agro-exportador (herança colonial) apenas beneficiava uma pequena elite ligada ao capital internacional. Assim, de acordo com esses teóricos, por ser capaz de produzir somente bens agrícolas - insumos de menor valor agregado -, as economias da região sofriam com uma situação de dependência externa, haja vista que apenas as nações desenvolvidas podiam os abastecer de produtos mais complexos - de maior valor agregado. Dessa forma, como afirma Nicola Miller (2006)MILLER, Nicola (2006). «The historiography of nationalism and national identity in Latin America». Nations and Nationalism (v.12 n.2): 201-221, “Existe até os dias atuais uma tendência para muitos setores da sociedade latinoamericana de enxergar o nacionalismo como uma defesa crucial contra a usurpação do capital internacional”. Desse modo, “como Hobsbawm (1995) coloca, pelo menos desde a Revolução Mexicana (1910-20) em diante, o nacionalismo na América Latina frequentemente assume uma ênfase esquerdista, ‘desenvolvimentista, anti-imperialista e popular".

Portanto, emergiu uma forma de nacionalismo que opunha os latinoamericanos aos estrangeiros, especialmente os europeus e americanos, e que, consequentemente, abarcava grupos subalternos em sua concepção de nação. Logo, o nacionalismo da região adquiriu traços populares e passou a valorizar elementos da cultura popular local, que até então eram endossados apenas de forma oportuna, genuinamente. Na metade do século XX, a manifestação desses elementos nacionais ampliou-se, devido à ascensão dos meios de comunicação de massa, como a televisão e o rádio – mecanismos que facilitaram a comunicação entre povos, fazendo surgir maiores identificações. Ademais, é correto afirmar que houve, por parte dos Estados da região, “estratégias de ‘nacionalização’ de práticas culturais consideradas ‘populares’, como certos tipos de música e festejos populares, como o Carnaval no Brasil, El Día de Los Muertos, no México, e outros”. Não obstante, deve-se ressaltar que o nacionalismo latino-americano está muito mais associado ao anti-imperialismo do que aos separatismos de base étnica-linguística.

Vale destacar que há pesquisadores que acreditam que a década de 30 não foi apenas um momento de mudanças no nacionalismo latinoamericano, mas o momento de sua gênese. Segundo Siekmeier (2017): "somente com as políticas econômicas nacionalistas que se seguiram à Grande Depressão, incluindo a industrialização e a urbanização, os estados latinoamericanos adquiriram recursos e, consequentemente, habilidade para criar tradições, mitos e ideias (e efetivamente disseminá-las) para provocar um efetivo processo de construção nacional."

Logo, sob essa visão, a criação dos Estados latinoamericanos teria sido anterior à formação de sua nação, e não um processo de constituição mútua.

É preciso entender que os nacionalismos latinoamericanos são um fenômeno diferente do europeu. Ainda que a Segunda Guerra Mundial tenha sido um evento de grandes proporções que afetou, mesmo que não diretamente, o mundo inteiro, o seu impacto na América Latina foi extremamente diferente da sua influência na Europa. Enquanto no velho mundo gerou-se um trauma ao redor do nacionalismo, dado que, em grande medida, esse elemento foi responsável pela devastação da guerra, no novo mundo isso não aconteceu. Por conseguinte, o nacionalismo latinoamericano continuou sendo “concebido, primeiramente, em termos emancipatórios”.

A década de 80 trouxe consigo uma grande recessão mundial, cujos efeitos contribuíram para a crise da dívida latino-americana, que atingiu fortemente vários países da região. Diante de um cenário de estagflação, os governos latino-americanos substituíram as políticas econômicas desenvolvimentistas em vigor, em muitas regiões, desde a década de 30, pelas políticas econômicas de cunho neoliberal do Consenso de Washington. Logo, o nacionalismo latino-americano perdeu seu viés esquerdista e surgiu como um discurso de bases étnico-linguísticas, que não reivindicava territórios específicos e que, por consequência, não apresentava tendências separatistas. Consequentemente, passou-se a conceber, de maneira geral, a nação de forma mais plural, isto é, como resultado da junção de diversos povos, de diferentes línguas e costumes e, consequentemente, o nacionalismo latinoamericano tomou uma forma cívica. Dessa forma, na América Latina “a heterogeneidade é concebida como parte da nação”.CANCLINI, Nestor (2001). Consumidores e Cidadãos: conflitos multiculturais da globalização. [S.l.]: UFRJ. p.10

O caso brasileiro O nacionalismo brasileiro tem suas peculiaridades em relação aos demais países da América do Sul, exigindo uma análise mais minuciosa sobre o seu desenvolvimento histórico ao longo dos anos. Assim, é importante compreender esse fenômeno sob três perspectivas principais e que guiarão a análise. Isto é, como ele se relaciona com a formação nacional, os símbolos e a sua utilização no contexto atual.

Em primeiro lugar, é fundamental compreender como decorre sua formação nacional, pois esta teve seu ponto de partida marcado pela vinda da família real portuguesa em 1808, como muito bem abordado por Boris Fausto em seu livro “História Concisa do Brasil”. Esse acontecimento impulsionou uma ruptura com o status colonial anterior e estabeleceu as bases para a construção de uma identidade nacional mais autônoma. O nacionalismo começou a emergir a partir desse contexto, uma vez que a presença da côrte real no Brasil estimulou o senso de pertencimento a uma entidade política única, separando-se gradualmente das amarras coloniais.