Fábio Luís Borgatti Coutinho é um jornalista, ex-galerista, curador de exposições, gestor e produtor cultural brasileiro. Foi diretor de três museus no Rio Grande do Sul, diretor de projetos especiais na Secretaria de Estado da Cultura, superintendente cultural da Fundação Iberê Camargo e um dos produtores executivos em várias edições da Bienal do Mercosul.
Biografia Primeiros trabalhos Nascido em Arroio dos Ratos, iniciou sua carreira na década de 1970 estudando Arquitetura, mas não chegou a se graduar. Entretanto, durante o curso fez um estágio no Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS) e atuou como professor de História da Arte. Atuou também no jornalismo,"Do mercado de pulgas à sala da cidade". Zero Hora, 14/03/2008, p. 3Germano, Paulo. "Salvaram o plátano". Zero Hora, 22/11/2019, p. 29 e criou a galeria de arte do Clube do Comércio,Ferron, Fabio Maleronka & Cohn, Sergio. "Fábio Coutinho". In: Ferron, Fabio Maleronka (coord.). Produção Cultural no Brasil, vol. 4. Editora Azougue, 2010, p. 23 que foi uma das principais da cidade em sua época,Scarinci, Carlos. A gravura no Rio Grande do Sul, 1900-1980. Mercado Aberto, 1982, p. 188 e depois manteve a Galeria Modus Vivendi e a Galeria Tekne.Rosa, Nei Vargas da. Estruturas Emergentes do Sistema da Arte: instituições culturais bancárias, produtores e curadores. Mestrado. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2008, p. 192
Enquanto isso, entrou em contato com Reginaldo Pujol, secretário municipal de Indústria e Comércio, que junto com um grupo de antiquários e personalidades da cultura estavam planejando criar uma feira de antiguidades na cidade."O Brique, assim como o MARGS, deu um toque mais contemporâneo à cidade". In: Jornal do Brique, 2017; II (3): 7 Coutinho foi uma das lideranças do grupo, que veio a fundar o Brique da Redenção no fim da década de 1970,Danezi, Nathalia Pereira. Microterritorialidades em espaços públicos: conflitos e resistências no Brique da Redenção, Porto Alegre/RS. Mestrado. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2018, pp. 78-80 hoje um Patrimônio Cultural do Rio Grande do Sul.<ref name="Bueller"> Bueller, Christian. "Começa a comemoração aos 44 anos do Brique da Redenção". Correio do Povo, 20/03/2022</ref> No início da década de 1990 desligou-se das galerias e passou a atuar como produtor cultural dirigindo a empresa Tekne Projetos Culturais.
Museu do Carvão
Em 1991 foi integrado ao corpo de assessores da direção do Museu do Carvão em Arroio dos Ratos, época em que ainda se encontrava fechado e desestruturado, tendo sido fundado em 1986. Em março de 1992 Coutinho assumiu a direção e obteve verbas para restauração do antigo complexo da usina termoelétrica e adaptação como museu e realização de paisagismo no entorno, possibilitando sua abertura em dezembro de 1994 com a exposição de longa duração Ecos do carvão presentes na cultura, que teve sua curadoria. Segundo Clarissa Wetzel de Oliveira, "na gestão de Coutinho o museu tomou efetivamente forma", e "boa parte do legado atual do museu [está] diretamente associado a este momento".Oliveira, Clarissa Wetzel de. "Nós criamos uma raça". O discurso identitário na narrativa expositiva do Museu Estadual do Carvão (Arroio dos Ratos/RS). Mestrado. Universidade de São Paulo, 2018, pp. 15; 79-80; 97 Nas palavras de Alexsandro Witkowski, que também dirigiu o museu, "a paisagem e a ideia da natureza convivendo em harmonia que transmite o atual complexo é uma visão moderna da gestão do ex-diretor Fábio Coutinho. Ele foi diretor na época do governo Alceu Collares e graças a ele aconteceu a primeira requalificação do espaço. Inaugurou-se o prédio dos geradores, que lembra a usina do gasômetro. Ele foi recuperado para ser o local em que aconteceriam exposições. Eles também aterraram e fizeram uma elevação para ser um anfiteatro".Gloria, Rafael. "Museu Estadual do Carvão completa trinta anos em compasso de abandono". Nonada, 18/05/2016
MACRS
Foi diretor de projetos especiais da Secretaria Estadual da Cultura,Dalcol, Francisco. Museu, exposições e curadorias: a geopolítica da Fundação Iberê Camargo. Mestrado. Universidade Federal de Santa Maria, 2013, p. 222 e diretor do Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul em 1994,Knaak, Bianca. "Apontamentos sobre modos de ser (e não ser) museu de arte contemporânea em Porto Alegre". In: Museologia & Interdisciplinaridade, 2012; 1 (2) realizando alumas exposições, mas as instituições estaduais atravessavam uma fase conturbada por disputas políticas e Coutinho deixou a direção no ano seguinte, fazendo críticas às direções anteriores por gastarem dinheiro público sem critério, mas foi por sua vez criticado pela pesquisadora Ana Zavadil Machado por descartar catálogos, abrindo lacunas na memória documental do museu.Machado, Ana Méri Zavadil. Reatando os nós: arte & fato galeria, museu de arte contemporânea do Rio Grande do Sul- MAC/RS e Torreão espaços de legitimação em Porto Alegre (1985-1997). Mestrado. Universidade Federal de Santa Maria, 2011, pp. 77-78
Em 1999 fez a curadoria da mostra itinerante Vasco Prado, que passou por Brasília, Rio de Janeiro, Pelotas, Passo Fundo, Santa Maria, Novo Hamburgo e Caxias do Sul."A Arte de Vasco Prado em Caxias". Pioneiro, 29/11/1999, Caderno Sete Dias, p. 1
MARGS
De 1999 a 2002 assumiu a direção do Museu de Arte do Rio Grande do Sul.Fetter, Bruna Wulff. Mapas dentro de mapas: Estratégias de articulação entre o local, o regional e o global na Bienal do Mercosul. Mestrado. Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2008, pp. 115-116 Coutinho chegou ao MARGS quando o prédio do museu havia sido recém restaurado e adaptado para as exigências da museologia moderna, mas no período imediatamente anterior sua condição como instituição era extremamente precária, com estrutura física comprometida, instalações disfuncionais, poucos funcionários, poucas verbas e uma política museológica defasada e inconsistente. Coutinho atuou numa conjuntura política favorável, quando o governo do estado deu grande atenção ao MARGS, possibilitando renovar e ampliar a equipe de funcionários e injetar recursos. Coutinho atraiu diversos mecenas, que contribuíram com doações de obras e financiamento, e procurou atualizar o museu de acordo com princípios mais avançados.
Implementou diversos projetos de grande alcance e importância, destacando-se a criação do Núcleo de Restauro com uma restauradora permanente; lançamento da Revista do MARGS com ensaios, crítica de arte e informações sobre as atividades da instituição; reorganização do website na internet; o Projeto Informatização do Banco de Dados do Acervo, organizando e digitalizando a base documental do acervo que até então se encontrava em extrema desordem e era pouco acessível; o Projeto Banco de Imagens, ampliando significativamente sua base fotográfica, e o Projeto Aquisição – Os Precursores, que buscou identificar e preencher algumas lacunas mais dramáticas na seção de arte gaúcha, concentrando-se nos artistas mais antigos, que abriram caminhos e ajudaram a consolidar o estado como um centro produtor de alto nível, considerando que, sendo o principal museu público de arte do estado, deveria estar entre suas prioridades a qualificação da coleção de arte local, adquirindo mais de 100 trabalhos de artistas que não eram representados no acervo ou tinham fraca representação. Segundo Ricardo Frantz, coordenador do acervo nesta época, o Projeto Aquisição "tem importância histórica como a primeira declaração de intenções oficial clara e definida, cujo texto original é conhecido, na história das elusivas políticas de acervo do MARGS, e como o primeiro reconhecimento oficial da vocação natural do museu na óptica da Nova Museologia". Também foram publicados três catálogos sobre o acervo.Frantz, Ricardo André. "Antigualhas do Acervo: A formação e evolução física e documental do Acervo do Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli (MARGS): memórias e políticas, 1954-2014". Academia.edu, 2014-2020, pp. 26-31
No campo das exposições destacaram-se o Projeto Itinerâncias, parte de uma iniciativa da Secretaria da Cultura para descentralizar a cultura, com peças representativas da coleção sendo apresentadas em Caxias do Sul, Bagé, Pelotas, Santa Maria e Passo Fundo,"Telas famosas ao alcance do olhar serrano". Pioneiro, 22/10/1999, Caderno Sete Dias, p. 5"A arte de Leopoldo Gotuzzo". Pioneiro, 10/10/2001, Caderno Sete Dias, p. 3"Acervo do MARGS dá brilho à semana". Caxias Notícias, 20/10/1999, p. 14 a exposição de longa duração Acervo Permanente, montada de modo a reconstituir o percurso histórico das artes gaúchas, atendendo a constantes solicitações do público e de escolas, uma iniciativa aprovada pelo crítico Armindo Trevisan pelo seu valor educativo,Trevisan, Armindo. "A Atualidade de um Museu". In: MARGS. Tomo Editorial, 2000, pp. 31-40 e uma série de parcerias institucionais que resultaram em exposições com acervos externos nacionais e internacionais, incluindo De Frans Post a Eliseu Visconti, uma grande seleção de peças do Museu Nacional de Belas Artes; Florença: Tesouros do Renascimento, uma amostra de renascentistas do acervo da Galeria dos Uffizi, e Arte Missioneira, a primeira reunião em larga escala do acervo estatuário missioneiro fora do Museu das Missões,Frantz, p. 33 todas realizadas com apuro museográfico, sempre acompanhadas de material informativo, atividades paralelas e substanciais catálogos ilustrados.Sastre, Rodolfo Marques. Museografia em Porto Alegre. Dois estudos de caso: Zorávia Bettiol: a mais simples complexidade / O grão da imagem: uma viagem pala poética de Ver Chaves Barcellos. Bacharelado. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2007, pp. 57-58
Segundo a pesquisadora Bianca Knaak, "este museu de arte foi, durante o governo petista (1999–2002), a grande 'joia da coroa' ", recebendo a maior parte das verbas da Secretaria da Cultura, e "com relatórios de atividades e de frequentação periódicos, indicando números inéditos de visitantes ao museu, o prestígio conquistado pelo marchand e produtor cultural na direção do MARGS junto ao governo petista lhe garantiu potencial autonomia em sua gestão". Ela teceu algumas críticas à sua gestão por essa mesma autonomia, dizendo que "isto significou, dentre outras particularidades, como a facilidade para captação de recursos e parcerias, também o alheamento das atividades do MARGS das orientações e diretrizes do próprio Instituto Estadual de Artes Visuais, expondo e indispondo a sociedade artística porto-alegrense entre aplausos e perplexidades".Knaak, Bianca. As Bienais de Artes Visuais do Mercosul: utopias & protagonismos em Porto Alegre (1997-2003). Doutorado. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2008, pp. 134-135 Por outro lado, segundo Rodolfo Sastre, "nesta época é ressaltada por uma série de pessoas do meio artístico a importante participação de Fábio Coutinho na diretoria de 1999 a 2002, cuja gestão ampliou a participação da comunidade e a credibilidade [do MARGS] entre as instituições e os museus brasileiros".
Bienal do Mercosul