thumb|O iniciado e o sumo sacerdote (hierofante), em uma ânfora eleusina Os Eumólpidas foram o mais ilustre dos genos (clãs) sacerdotais da Ática, na Grécia Antiga. Alegavam descender de Eumolpo, um bardo e rei mítico da cidade de Elêusis. A família mantinha um culto privado de Deméter, que evoluiu para os afamados Mistérios de Elêusis, o mais importante festival religioso da Grécia Antiga. Depois que Elêusis foi dominada por Atenas, os Eumólpidas mantiveram o governo hereditário dos Mistérios, monopolizando o alto sacerdócio e outras funções, e assim permanecendo até a supressão do culto no reinado de Teodósio.

Origens míticas

thumb|left|Deméter e sua filha Persófone em uma cena dos Mistérios. Ex-voto eleusino, c. 450 a.C

Os Eumólpidas alegavam descender do bardo mítico Eumolpo, que segundo diziam era filho do deus marinho Posídon e de Quíone, filha do deus aéreo Bóreas, a quem atribuíam a introdução dos Mistérios de Deméter na Ática, tornando-se rei de Elêusis e o primeiro hierofante.Clinton, Kevin. "Eumolpus". In: Oxford Classical Dictionary. Oxford University, 25/12/2015 Contudo, as versões sobre a origem e posição de Eumolpo variam muito: em umas ele é um pastor de pais desconhecidos nativo de Elêusis, ou vinha da Trácia; em outras é um nobre ou líder local sem título específico, em outra ele é apenas o primeiro estrangeiro a ser iniciado nos Mistérios, e em outras ele não tem nada a ver com os Mistérios mas é apenas um rei trácio que ajuda Elêusis em suas lutas contra Atenas, e os Mistérios teriam sido fundados mais tarde por um homônimo.Simms, Robert M. "Eumolpos and the Wars of Athens". In: Greek, Roman and Byzantine Studies, 1983; 24 (3): 197-208 Algumas dessas versões provavelmente refletem as primeiras tradições locais, que depois foram transfiguradas e engrandecidas para legitimar o prestígio e autoridade dos Eumólpidas, e outras provavelmente derivam de fontes atenienses interessadas em desvincular os Eumólpidas dos Mistérios.

Segundo as narrativas de Tucídides, Eurípides, Pausânias e outros autores (que divergem em vários detalhes), Eumolpo e Erecteu, rei de Atenas, lutaram um tentando dominar o outro. Erecteu levava vantagem, mas ambos teriam morrido na guerra, então as duas cidades chegaram a um acordo: Elêusis se sujeitaria a Atenas em tudo, menos na direção dos Mistérios, que foi confiada a um filho de Eumolpo.Spaeth, Barbette Stanley. "Athenians and Eleusinians in the West Pediment of the Parthenon". In: Hesperia: The Journal of the American School of Classical Studies at Athens, 1991; 60 (3): 331-362Stein, Charles. Persephone Unveiled: Seeing the Goddess and Freeing Your Soul. North Atlantic Books, 2006, p. 53Ribeiro, Ana Maria Oliveira Lau. Arquitetura e Ética: Dos Fundamentos da Modernidade. Doutorado. Universidade de Lisboa, 2020, p. 57 Em outras variantes Eumolpo não morre e é ele quem conduz a continuidade dos Mistérios, ou que Eumolpo (ou um de seus filhos) tentava dominar Atenas porque aquela terra anteriormente pertencera a seu pai Posídon, e quando Eumolpo é morto Posídon desencadeia um terrível terremoto para punir os atenienses. A guerra aparece indiretamente também no mito narrando a disputa entre os deuses Posídon e Atena pelo patronato de Atenas, saindo Atena vencedora.

A guerra narrada no mito pressupõe uma datação muito antiga mas não há evidência arqueológica segura para ela, embora não seja implausível em termos históricos. A absorção de Elêusis por Atenas só é documentada no fim do século VII a.C. e só foi completada no tempo de Sólon, mas o processo pode ter sido muito mais longo como parte do sinecismo da Ática sob a hegemonia de Atenas, mas a datação histórica deste evento também é muito controversa, alguns propondo que já estava em grande parte completo em tempos micênicos e outros que só ocorreu depois da Idade das Trevas, em torno do século VIII a.C.Papadimitriou, Nikolas. "Συνοίκησις in Mycenaean Times? The Political and Cultural Geography of Attica in the Second Millennium BCE". In: CHS Research Bulletin, 2017; 5 (2)Padgug, Robert A. "Eleusis and the Union of Attika". In: Greek, Roman and Byzantine Studies, 1972; 13 (2)

As genealogias posteriores a Eumolpo também são bastante divergentes entre si, algumas favorecendo a autoctonia e outras favorecendo ligações com famílias atenienses, especialmente a dos Cérices, que em uma data tardia foi incorporada na administração dos Mistérios, onde veio a ganhar grande importância provendo o mais alto sacerdote após o hierofante e ocupando outros cargos de relevo.

História

Origens históricas e afirmação da família

Historicamente não se sabe ao certo como os Mistérios surgiram, eles podem ser herdeiros de tradições egípcias, trácias, minoicas ou micênicas que adoravam figuras de Grandes Mães como Deméter.Kerényi), Karl. Dionysos. Archetypal image of indestructible life. Princeton University Press, 1976, p. 79Burkert, Walter. Greek Religion. Harvard University Press, 1985, p. 285Farness, Sherly. "A Re-Examination of the Cult of Demeter and the Meaning of the Eleusinian Mysteries". In: Phoebus: A Journal of Art History, 1979 (2): 31-38 O mito em torno do qual girava a atividade do santuário era o do rapto de Perséfone, filha de Deméter, pelo deus dos mortos Hades, que a queria para ser sua consorte. Deméter era a deusa da terra, patrona dos grãos e frutas e da agricultura. Na simbologia eleusina clássica, a descida de Perséfone para o submundo era relacionada ao inverno no ciclo das estações: um período escuro, frio e estéril, cheio de tristeza. Ao dar pelo desaparecimento da filha, Deméter, enfurecida e desesperada, jurou secar a terra até que a encontrasse. No meio da sua busca, acabou chegando a Elêusis, onde assumiu um disfarce e foi recebida pela família real. Sendo bem tratada, iniciou o rei Celeu ou a outros (as versões variam) na arte da agricultura. Depois de muito procurar, Deméter achou a filha, mas, entrementes, Perséfone havia comido um grão de romã, e por isso ficava presa ao submundo para sempre. Inconformada, Deméter apelou para Zeus e obteve um acordo: a filha viveria parte do ano no submundo com o marido, e parte do ano na superfície com a mãe saudosa. Sua subida representava o brotamento das sementes e a chegada da primavera: trazia a felicidade para a mãe, que revogava sua maldição e devolvia a fertilidade para a terra. Isso era o que produzia as colheitas fartas, e elas, a possibilidade de haver civilização. A renovação deste ciclo todos os anos representava para os iniciados a eternidade e a imortalidade da alma.Kerényi, Karl. Eleusis: Archetypal Image of Mother and Daughter. Bollingen Foundation, 1967, pp. 232–241Foley, Helene P. The Homeric Hymn ro Demeter. Princeton University Press, 19944"Demeter". In: Smith, William (ed.). Classical dictionary of biography, mythology and geography. Murray, 1859, pp. 212-213 thumb|Vista aérea das ruínas do Telesterion, a Sala da Iniciação, em sua última forma, resultado da reforma romana. Bem ao centro se localizava o antigo Mégaro B

A área de Elêusis dá os primeiros sinais de um povoamento esparso na passagem do Período Heládico Inicial (c. 3200–2000 a.C.) para o Médio (c. 2000–1550 a.C.). Pode ter surgido como um entreposto comercial.Glowacki, Kevin T. "New Insights into Bronze Age Eleusis and the Formative Stages of the Eleusinian Cults". In: American Journal of Archaeology, 2016; 120 (4): 673–677 A população foi formada por um grupo de clãs, cada um com seus próprios costumes, identidade e líder. Mais tarde esses clãs passaram a lutar entre si em busca de uma supremacia. No Período Heládico Médio III (c. 1700–1550 a.C.) já existe um cemitério de considerável extensão, evidenciando uma população em crescimento e uma estratificação social acentuada.

Os primeiros sinais seguros sobre os Eumólpidas começam a surgir entre c. 1450 e 1400 a.C., quando construíram um palácio, estrutura que hoje é identificada pelo nome Mégaro B. Segundo Sherly Farness, geralmente se considera que o culto de Deméter teria sido introduzido na época da construção do Mégaro B. Esta construção tinha um caráter principalmente residencial. Não seguia o modelo dos mégaros micênicos típicos, que também serviam como sede administrativa do governo, mas deve ter contido um templo ou capela, considerando o achado de muitas figuras votivas e restos de sacrifícios. As grandes dimensões do edifício geralmente são interpretadas como um sinal de que os Eumólpidas haviam se tornado a família governante.Cosmopoulos, Michael B. Bronze Age Eleusis and the Origins of the Eleusinian Mysteries. Cambridge University Press, 2015, p. 90-93Palinkas, Jennifer Lynne. Eleusinian Gateways: Entrances to the Sanctuary of Demeter and Kore at Eleusis and the City Eleusinion in Athens. State University of New York at Buffalo, 1998, pp. 34-36 No Período Heládico Tardio IIIB (c. 1300–1200 a.C.), quando o Mégaro B é ampliado, é certo que ali havia algum culto sendo desenvolvido.

O local se tornaria o centro do culto das deusas Deméter e Perséfone, que teria sido mantido pela família como um culto privado realizado no palácio. Não sendo um culto de Estado, a família selecionava segundo seus próprios critérios os candidatos a serem iniciados em seus arcanos. Para Martin Nilsson, "isso explica o motivo de ser um culto secreto e de serem admitidos não apenas cidadãos, mas também estrangeiros e escravos".Nilsson, Martin Persson. Greek Folk Religion. University of Pennsylvania Press, 1998, p. 46 Chamavam a si mesmos de "Filhos da Lua", ou "Cantores das Melodias Curativas",Hiebel, Frederick. The Gospel of Hellas: The Mission of Ancient Greece and The Advent of Christ. Antroposophic Press, 1949, reimpressão Research Institute for Waldorf Education, 2008, p. 117 e o "Eumolpo histórico" pode ter sido um antigo bardo que cantava as histórias de Deméter.Athanassakis, Apostolos N. "Music and ritual in primitive Eleusis". In: Seminar Papers. Society of Biblical Literature, 1976, p. 103

O conhecimento sobre os Eumólpidas está mais concentrado no seu papel nos Mistérios, e há pouca informação sobre como eles funcionavam como família.Bubelis, William. Inheritance, Priesthoods and Succession in Classical Athens: the Hierophantai of the Eumolpidai. In: Laurence, Ray & Strömberg, Agneta (eds.). Families in the Greco-Roman World. Continuum, 2012, pp. 95- É possível que fossem mais um tipo de guilda ou irmandade reunida em torno do culto do que uma família ou clã convencional, mas um parentesco parece ter sido exigido.Jones, Nicholas F. The Associations of Classical Athens: The Response to Democracy. Oxford University Press, 1999, p. 244 Pakkanen, Petra. Interpreting Early Hellenistic Religion. Foundation of the Finnish Institute at Athens, 1996, pp. 30-31 Ramos Eumólpidas viveram em Paionia, Perithoedae, e provavelmente em Kydathenaion e Halai Aexonides. O ramo de Paionia alcançou o arcontado-real de Atenas em algum momento entre 522-486 a.C. Dois de seus membros foram hierofantes no século IV a.C.Humphreys, S. C. Kinship in Ancient Athens: An Anthropological Analysis. Oxford University Press, 2018, p. 368