O trilema de Lewis é um argumento apologético tradicionalmente usado para defender a divindade de Jesus, postulando que as únicas alternativas eram que ele era mau ou louco.Lewis, C. S., God in the Dock (Eerdmans, 2014), pp. 100–101. Uma versão foi popularizada pelo professor, consultor literário da Universidade de Oxford e escritor C. S. Lewis, em um programa na rádio BBC e em seus escritos. Às vezes o argumento é descrito como "Lunático, Mentiroso ou Senhor" ou "Louco, Mau ou Deus". Assume a forma de um trilema – uma escolha entre três opções, cada uma das quais de alguma forma tem difícil aceitação.
Este argumento é muito popular entre os apologistas cristãos, mas alguns teólogos e estudiosos da BíbliaDavis (2006), p. 151 não acreditam que Jesus afirmasse ser Deus.Hick, John, The Metaphor of God Incarnate, p. 27.
História Este argumento tem sido usado de diversas formas ao longo da história da igreja. Foi usado pelo pregador americano Mark Hopkins em seu livro Lectures on the Evidences of Christianity (1846), baseado em palestras proferidas em 1844.Mark Hopkins, Lectures on the Evidences of Christianity (1846), Palestra VIII: "ou... estas afirmações eram bem fundadas,ou de uma insanidade irremediável. ... Nenhum impostor em juízo perfeito preferiria utilizar tais afirmações." Outro uso inicial dessa abordagem foi feito pelo pregador escocês "Rabino" John Duncan (1796-1870), por volta de 1859-60: William Knight, Colloquia Peripatetica, 1870, page 109: Knight explica que as conversas citadas aconteceram durante os verões de 1859 e 1860.Ou Cristo enganou a humanidade conscientemente, ou Ele próprio foi iludido e auto-enganado, ou Ele era Divino. Não há como escapar deste trilema. É inexorável.J. Gresham Machen usou uma linha de argumento semelhante no capítulo 5 de sua famosa obra Cristianismo e Liberalismo (1923). Nesta obra, Machen diz:O verdadeiro problema é que a elevada reivindicação de Jesus, se... for injustificada, coloca uma mancha moral no caráter de Jesus. O que se pensará de um ser humano que se afastou tanto do caminho da humildade e da sanidade a ponto de acreditar que os destinos eternos do mundo foram entregues em suas mãos? A verdade é que se Jesus for apenas um exemplo, ele não é um exemplo digno, pois afirmou ser muito mais.Outros que usaram esta abordagem incluíram N. P. Williams, Reuben Archer Torrey (1856–1928) Undated sermon by R. A. Torrey, Billy Graham archives; see also Deity of Jesus Christ, by R. A. Torrey, 1918 e W. E. Biederwolf (1867–1939).W. E. Biederwolf, "Yes, He Arose", in Great Preaching on the Resurrection: Seventeen Messages, ed. Curtis Hutson, Sword of the Lord Publishers (1984), page 29. O escritor G. K. Chesterton usou algo semelhante ao trilema em seu livro O Homem Eterno (1925), que Lewis citou como o segundo livro que mais o influenciou.
Formulação apresentada por Lewis CS Lewis foi um consultor de literatura medieval na Universidade de Oxford, escritor popular, apologista cristão e ex-ateu. Ele usou o argumento descrito abaixo em uma série de palestras na rádio BBC, que posteriormente foram publicadas como o livro Cristianismo Puro e Simples.Quero evitar aqui que alguém diga a enorme tolice que muitos costumam dizer a respeito dele: “Estou pronto para aceitar a Jesus como um grande mestre de moral, mas não aceito sua reivindicação de ser Deus”. Esse é o tipo de coisa que não se deve dizer. Um homem que fosse meramente um ser humano e dissesse o tipo de coisa que Jesus disse não seria um grande mestre de moral. De duas uma, ou ele seria um lunático — do nível de alguém que afirmasse ser um ovo frito — ou então seria o diabo em pessoa. Faça a sua escolha. Ou esse homem era, e é, o Filho de Deus; ou então um louco ou algo pior. Você pode descartá-lo como sendo um tolo ou pode cuspir nele e matá-lo como a um demônio; ou, então, poderá cair de joelhos a seus pés e chamá-lo de Senhor e Deus. Mas não me venha com essa conversa mole de ele ter sido um grande mestre de moral, pois ele não nos deu essa alternativa e nem tinha essa pretensão. [...] Agora, me parece óbvio que ele não era nem um lunático nem um fanático; e, consequentemente, por mais estranho, aterrorizante ou improvável que possa parecer, tenho de aceitar a visão de que ele era e é Deus.Lewis, C. S.. Cristianismo puro e simples. traduzido por Gabriele Greggersen. 1a ed. — Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017., pp. 59–60.Lewis, que havia falado sobre o cristianismo de forma extensiva a membros da Força Aérea Real, estava ciente de que muitas pessoas não acreditavam que Jesus fosse Deus, mas o viam como "um 'grande professor' que foi deificado por seus seguidores"; seu argumento pretende superar isso. Baseia-se na suposição tradicional de que, em suas palavras e ações, Jesus afirmava ser Deus. Por exemplo, em Cristianismo Puro e Simples, Lewis refere-se ao que ele diz serem afirmações de Jesus:
ter autoridade para perdoar pecados – comportando-se como se realmente fosse “o principal ofendido em todas as ofensas”.Lewis, C. S., Mere Christianity, Simon & Schuster. p. 55. sempre ter existido; e afirmar voltar para julgar o mundo no fim dos tempos.Lewis, C. S., Mere Christianity, London: Collins, 1952, p. 51.
Lewis dá a entender que isso equivale a uma afirmação de ser Deus, e argumenta que excluem logicamente a possibilidade de que Jesus tenha sido apenas "um grande professor moral", porque ele acredita que nenhum ser humano comum que faça tais afirmações poderia ser racional ou moralmente confiável. Em outro lugar, ele se refere a este argumento como "o aut Deus aut malus homo " ("ou Deus ou um homem mau"),Lewis, C. S., God in the Dock: Essays on theology and ethics, 1945, Eerdmans, p. 101; letter to Owen Barfield, c. August 1939, printed in Walter Hooper (ed.), The Collected Letters of C. S. Lewis, Volume 2, Harper Collins (2004), page 269 uma referência a uma versão anterior do argumento usado por Henry Parry Liddon em suas palestras, em que Liddon defendeu a divindade de Jesus com base em vários fundamentos, incluindo as afirmações que ele acreditava que Jesus fez.Henry Parry Liddon, The Divinity of Our Lord and Saviour Jesus Christ, Lecture IV (London, 1867): Liddon's version was 'Christus si non Deus non bonus'. According to Charles Gore, (The Incarnation of the Son of God, 1890), Liddon could not recall the source of the epigram, but Gore thought the argument went back to Victorinus Afer. (Appendices, page 238)
Em As Crônicas de Nárnia Uma versão desse argumento aparece no livro de Lewis,O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa. Quando Lúcia e Edmundo retornam de Nárnia (a segunda visita de Lúcia e a primeira de Edmundo), Edmundo diz a Pedro e Susana que estava brincando com Lúcia e fingindo que eles foram para Nárnia. Pedro e Susana acreditam em Edmundo e estão preocupados que Lucy possa ter uma doença mental, então procuram o professor em cuja casa estão morando. Depois de ouvi-los explicar a situação e fazer algumas perguntas, ele responde:
Influência do argumento
No Cristianismo O trilema continuou a ser usado na apologética cristã após Lewis, notadamente por escritores como Josh McDowell. Peter Kreeft descreve o trilema como “o argumento mais importante na apologética cristã” Kreeft, Peter (1988). Fundamentals of the Faith: Essays in Christian Apologetics, p. 59. San Francisco, Ignatius Press. . Chapter excerpted online, accessed 13 April 2007. e constitui uma parte importante da primeira palestra do Curso Alfa e do livro em que se baseia, Questões de Vida, de Nicky Gumbel. Ronald Reagan também usou este argumento em 1978, numa resposta escrita a um ministro metodista liberal que disse não acreditar que Jesus fosse o filho de Deus.Helene von Damm, ed., Sincerely, Ronald Reagan (New York: Berkley, 1980), 90 Uma variante também foi citada por Bono.Michka Assayas, Bono in Conversation, (Riverhead Hardcover, 2005) page 205. A versão de Lewis foi citada por Charles Colson como base de sua conversão ao Cristianismo.Jonathan Aitken, Charles Colson, (Continuum International, 2005), pages 210–211. Stephen Davis, um defensor de Lewis e deste argumento,Davis, Stephen T. (2006), "Was Jesus Mad, Bad, or God?", Christian Philosophical Theology, Oxford University Press, Abstract, ch. 9, pp. 149f. "In this chapter, C. S. Lewis'[s] famous trilemma argument in favour of the divinity of Christ (Jesus was either mad, bad, or God) is developed, and a version of it is defended." argumenta que isso pode mostrar a crença na Encarnação como racional.Davis (2006), "I [...] claim that the MBG argument, properly understood, can establish the rationality of belief in the incarnation of Jesus." (p. 150) Bruce M. Metzger argumentou que "Muitas vezes tem sido apontado que a afirmação de Jesus de ser o único Filho de Deus é verdadeira ou falsa. Se for falsa, ou ele sabia que a afirmação era falsa ou não sabia que era falsa. No primeiro caso (2) ele era um mentiroso; neste último caso (3) ele era um lunático. Nenhuma outra conclusão além dessas três é possível."Bruce M Metzger, The New Testament: Its Background, Growth, and Content, (Abingdon, 1964, rev. 2003), p. 157.
No meio não-cristão O escritor ateu Christopher Hitchens aceita a análise das opções de Lewis, mas chega à conclusão oposta: que Jesus não era bom. Ele escreve: “Devo dizer que Lewis é mais honesto aqui. Na ausência de uma linha direta com o Todo-Poderoso e de uma convicção de que os últimos dias estão sobre nós, como é “moral”... reivindicar o monopólio do acesso ao céu, ou ameaçar os vacilantes com fogo eterno, e muito menos condenar figueiras e persuadir os demônios a infestarem os corpos dos porcos? Tal pessoa, se não fosse divina, seria um feiticeiro e um fanático."
Críticas ao argumento Escrevendo sobre a "ausência quase total do argumento nas discussões sobre o status de Jesus por teólogos profissionais e estudiosos bíblicos",Davis (2006) page 151 Stephen T. Davis comenta que ele "é frequentemente criticado severamente, tanto por pessoas que acreditam na divindade de Jesus, quanto por pessoas que não acreditam”.Davis (2006), page 150
As reivindicações de Jesus à divindade Uma crítica frequente é que o trilema de Lewis depende da veracidade dos relatos bíblicos das declarações e milagres de Jesus.Blomberg, Craig L. (1987). The Historical Reliability of the Gospels, (Intervarsity Press), page xx. "The problem with this argument is that it assumes what is regularly denied, namely, that the gospels give entirely accurate accounts of the actions and claims of Jesus ... This option represents the most common current explanation of the more spectacular deeds and extravagant claims of Jesus in the gospels." O trilema baseia-se na interpretação da representação de Jesus feita pelos autores do Novo Testamento: uma objeção comum é a de que as declarações de Jesus registradas nos Evangelhos estão sendo mal interpretadas e não constituem reivindicações de divindade.Davis (2006), page 150. De acordo com Bart Ehrman, é historicamente impreciso que Jesus se autodenominasse Deus, então a premissa de Lewis de aceitar essa afirmação é problemática. Ehrman afirmou que é uma mera lenda que o Jesus histórico tenha se autodenominado Deus; isso era desconhecido para Lewis, já que ele nunca foi um estudioso profissional da Bíblia.