A crise da Americanas, holding brasileira que atua principalmente no segmento de varejo, tanto em lojas físicas quanto em plataforma online, refere-se a uma série de eventos ocorridos a partir do dia 11 de janeiro de 2023, quando foram identificadas e divulgadas ao mercado incoerências no balanço da empresa na ordem de R$ 20 bilhões.
Posteriormente identificadas como fraude, essas incoerências motivaram a abertura de investigações pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Polícia Federal (PF) e Ministério Público Federal (MPF). Paralelamente, também foram noticiadas investigações conduzidas por um Comitê Independente.
Os eventos que sucederam imediatamente ao anúncio das incoerências contábeis foram o pedido de recuperação judicial, o afastamento dos, até então, diretores da companhia e a instauração de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), onde foram apresentados documentos que indicaram a participação da antiga diretoria, inclusive mediante falsificação de documentos.
Dois anos após a descoberta da fraude, a Polícia Federal indiciou e o MPF denunciou 13 ex-executivos da Americanas pelos crimes de organização criminosa, manipulação do mercado de capitais, uso indevido de informações privilegiadas e falsidade documental. Entre os denunciados, estão o ex-CEO, Miguel Gutierrez, e a ex-diretora Anna Saicali, que chegaram a ser procurados pela Interpol durante cumprimento de mandados de prisão da Operação Disclosure, em junho de 2024.
Em janeiro de 2026, a Superintendência de Processos Sancionadores da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) concluiu a sua fase investigativa sobre a fraude contábil envolvendo a Americanas e apontou que o esquema teria sido arquitetado e liderado pelo ex-CEO Miguel Gutierrez. Segundo a acusação, também teriam integrado o núcleo principal da fraude os ex-diretores estatutários Anna Saicali, José Timotheo de Barros, Márcio Cruz Meirelles e Fábio Abrate.
Segundo as investigações, os acionistas de referência da Americanas, Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira, não teriam participado da execução da fraude, mas sido induzidos a erro pela antiga diretoria, que teria ocultado informações do Conselho de Administração, dos órgãos de governança e do mercado. Documentos obtidos pelos investigadores demonstram que os conselheiros indagavam sobre a possível existência de operações de risco sacado (um dos principais mecanismos utilizados para fraudar os balanços), mas os diretores categoricamente negavam que a companhia as realizasse.
Apesar da crise, a Americanas segue suas operações normalmente.
Contexto Histórico Inaugurada no ano de 1929 por um grupo estadunidense, a Americanas foi fundada em Niterói. O empreendimento oferecia uma série de produtos a preços acessíveis a população; suas operações se expandiram pelo país até que, em 1940, a Americanas tornou-se uma sociedade anônima, abrindo seu capital.
Em 1982, os empresários Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira, entraram na composição acionária de Americanas como controladores até julho de 2021, quando a Americanas e a B2W Digital se fundiram em uma única empresa, chamada de Americanas S.A. Para tornar esta reorganização possível, o trio cedeu o controle da companhia e passou a ser denominado como acionistas de referência.
Modelo de governança e composição da diretoria A Americanas S.A. é empresa de capital aberto e conta com um Conselho de Administração e um Conselho Fiscal, além de comitês que atuam como grupos de trabalho de assessoramento do Conselho de Administração, como o Comitê Financeiro e o Comitê de Auditoria, com mandato de 3 anos, permitindo reeleição. A gestão operacional da empresa fica a cargo de sua diretoria estatutária, que, até dezembro de 2022, era composta por:
Diretor Presidente (CEO) e de Relações com Investidores: Miguel Gutierrez, que ingressou na Americanas em 1993, tornando-se diretor em 1998 e desde 2001 passa a ocupar o cargo de Diretor Presidente; CEO da Plataforma de Inovação e Fintech: Anna Saicali, que atuava na função desde a criação da Ame Digital em 2019. Anteriormente, Anna Saicali foi diretora presidente da B2W Digital S.A. de 2004 a 2018; CEO da Plataforma Digital da Americanas S.A.: Márcio Cruz Meirelles, que foi presidente da B2W Digital S.A. entre 2018 e 2021; Diretor de Lojas Físicas, Logística e Tecnologia: José Timotheo Barros que ingressou na companhia em 1996.
Transição da diretoria A sucessão do cargo de Diretor Presidente aconteceu em 1º de janeiro de 2023, quando Sergio Rial assumiu junto com o novo Diretor Financeiro, André Covre. O mercado reagiu de forma positiva à mudança no comando da companhia, com a valorização imediata de suas ações e recomendação de aquisição por parte dos analistas financeiros.
Em 11 de janeiro , o então CEO, Sergio Rial, e o Diretor de Relações com Investidores, André Covre, comunicaram a decisão de não prosseguirem à frente de seus cargos. Após as renúncias, o Conselho de Administração elegeu Camille Loyo Faria e Leonardo Coelho, como CFO e CEO, para a liderança dos processos de recuperação da Americanas. Atualmente a diretoria é composta por:
Presidente - Fernando Dias Soares Sebastien Durchon - CFO
Pré-crise alt=Mesa da Audiência Pública sobre a dívida no balanço das Lojas Americanas. CEO das Americanas, Leonardo Coelho Pereira com o ex-CEO das Americanas, Sérgio Agapito Lires Rial - em pronunciamento.|miniaturadaimagem|Sergio Rial, em pronunciamento durante a audiência pública interativa realizada pela Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) para obter informações sobre a dívida no balanço da Americanas | Foto: Geraldo Magela/Agência Senado Sergio Rial detalhou, em sua participação na CPI da Americanas, na sessão do dia 22 de agosto de 2023, os momentos que antecederam a crise, iniciando pelo período de transição da diretoria. O processo de transição padrão envolve a sobreposição de executivos, conforme prática de mercado, com o propósito de auxiliar o novo executivo a compreender as oportunidades e desafios do mercado. Foi definido que seria necessário realizar algumas interações e reuniões para ambientação do novo CEO em questões da companhia.
Segundo o relato, ao assumir a posição, no dia 02 de janeiro de 2023, Sergio Rial iniciou as atividades e a ambientação final na nova posição, realizando adequações e comunicações internas de expectativa de crescimento, até que um dos executivos o procurou para esclarecer um aspecto que teria sido tratado numa apresentação feita em 27 de dezembro de 2022. Na ocasião, Miguel Gutierrez teria apresentado, a Rial e ao Presidente do Conselho, seu legado, antes de deixar a companhia:“Sergio Rial recebe (sic), no dia 4, uma informação: a de que o número que eu tinha visto na apresentação do dia 27 de dezembro, de 15,9 bilhões de reais, era dívida bancária não reportada como dívida. [...] Qual é a notícia que eu recebo? A empresa tem um patrimônio líquido de cerca de 16 bilhões, para uma dívida bancária de 36 bilhões: insolvente.”, disse Sérgio Rial à CPI.
Como a fraude no balanço da Americanas se tornou pública No dia 11 de janeiro de 2023, através de Fato relevante, foi comunicado ao mercado que foram detectadas incoerências contábeis em exercícios anteriores, incluindo o de 2022, com dimensão de 20 bilhões.
No mesmo Fato Relevante foi comunicada a renúncia de Sergio Rial e André Covre, nomeando interinamente o até então Diretor de Gente, João Guerra, para a posição de Diretor Presidente e Diretor de Relações com Investidores, a criação do comitê independente para apurar as circunstâncias que ocasionaram as referidas incoerências contábeis e a assessoria do Sergio Rial na condução dos trabalhos a serem realizados.
Marcos da crise Após a comunicação com o mercado, no dia 12 de janeiro de 2023 foi realizada uma reunião com os acionistas da empresa, prestando alguns esclarecimentos dos fatos informados no dia anterior. No dia 13 de janeiro de 2023, o juiz da 4º Vara Empresarial do Rio de Janeiro, concedeu uma medida tutelar de urgência cautelar, vetando a possibilidade de bloqueio, sequestro ou penhora de bens da companhia, adiou também a obrigatoriedade do pagamento de dívidas da companhia até que um Pedido de Recuperação Judicial fosse protocolado. No dia 16 de janeiro de 2023, através de Fato Relevante, a companhia anunciou a contratação da Rothschild & Co, banco de investimentos, nomeados para atuarem como interlocutores da Companhia com o mercado nacional e internacional. Em 17 de janeiro de 2023 foi anunciado via Fato Relevante a eleição para o cargo de Diretora Financeira e de Relações com Investidores da companhia, Camille Loyo Faria. No dia 19 de janeiro de 2023, a Americanas S.A. informou, através de Fato Relevante, que o Juízo da 4º Vara Empresarial da Comarca da Capital do Estado do Rio de Janeiro deferiu o processamento do pedido de Recuperação Judicial da companhia e suas subsidiárias. No dia 03 de fevereiro de 2023, o conselho de administração da Americanas deliberou o afastamento dos diretores estatutários Anna Christina Ramos Saicali, José Timotheo de Barros e Márcio Cruz Meirelles, e executivos Fábio da Silva Abrate, Flávia Carneiro e Marcelo da Silva Nunes, durante o período de apurações. Em 15 de fevereiro de 2023, a companhia anunciou a aprovação, via Conselho Administrativo, a eleição de Leonardo Coelho Pereira para o cargo de Diretor Presidente da Americanas S.A. A substituição foi recebida de forma positiva pelo mercado, visto a experiência de Leonardo Coelho em reestruturação de empresas. Em 17 de maio de 2023, foi instaurada a CPI da Americanas, que teve duração de 135 dias. Em 19 de dezembro de 2023, 11 meses depois do deferimento da Recuperação Judicial e após uma série de negociações com os credores, foi aprovado o Plano de Recuperação Judicial da Americanas, com o voto favorável de mais de 90% dos credores que representam 97,19% dos créditos. Em janeiro de 2024, um ano após a crise, a Americanas tinha 1759 lojas e R$1,55 bilhão em caixa, mas seu valor de mercado era de apenas R$747 milhões, com as ações sendo negociadas a R$0,82. Em 26 de fevereiro de 2024, a Justiça do Rio de Janeiro homologou o Plano de Recuperação da Americanas, dando início à aplicação dos prazos para pagamentos dos credores. Fornecedores começaram a receber seus créditos em março. A recuperação da Americanas foi marcada por uma Páscoa com resultado recorde: em abril, a varejista divulgou a venda de R$1 bilhão em chocolates. Foram 14% mais vendas nas lojas físicas, na comparação com 2023. Em maio de 2024, os acionistas aprovaram aumento de capital em até R$40,7 bilhões, com o aporte de R$12 bilhões sendo garantido pelos principais sócios, os investidores Jorge Paulo Lemann, Carlos Alberto Sicupira e Marcel Telles e conversão de créditos de até R$ 12 bilhões garantida pelos principais bancos brasileiros. No dia 27 de junho de 2024, a Polícia Federal deflagrou a Operação Disclosure, executando mandados de prisão contra o ex-CEO Miguel Gutierrez, e a ex-diretora Anna Saicali, considerada seu braço direito. Realizada em conjunto com o MPF, a operação também contou com mandados de busca e apreensão em outros 15 alvos. As investigações foram abastecidas pelas delações premiadas dos ex-diretores Marcelo da Silva Nunes e Flávia Pereira Carneiro Mota. Em 2 de setembro de 2024, a Polícia Federal do Brasil nomeou 41 suspeitos de participação na fraude bilionária que levou a Americanas a fazer um dos maiores pedidos de recuperação judicial da história do país, no início do ano 2023. Em 18 de outubro de 2024, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) acusou oito ex-executivos da Americanas, incluindo o ex-CEO Miguel Gutierrez e a ex-diretora Anna Christina Ramos Saicali, do uso indevido de informação privilegiada (insider trading) no mercado financeiro.