miniaturadaimagem|Autorretrato de Mestre Vitalino, famoso artista brasileiro. A arte popular brasileira é uma forma de expressão artística que reflete as tradições, cultura e identidade do Brasil. Sejam esculturas, pinturas, artesanatos, rendas ou outras manifestações artísticas. Ela incorpora produções artísticas de relevância para identidade cultural do país, à medida que os artistas extraem inspiração de suas raízes regionais, retratando lendas, tradições e crenças que são reflexos à sua herança cultural. Representando a vida simples do interior do Brasil.

História As produções ligadas à cultura popular ocupam um lugar de destaque na História da Arte. Artistas como José Antônio da Silva, Ranchinho e Heitor dos Prazeres, entre outros, tiveram grande reconhecimento da crítica especializada, que os inseriu no panorama geral da arte moderna no Brasil, justamente pela tentativa de identificar suas particularidades estéticas e culturais. Nesse sentido, artistas populares são fundamentais para a formação da arte moderna brasileira, e seus temas, formas, técnicas e modos de representar o mundo são referências importantes para o campo da arte.

Século XX O interesse intelectual pela cultura popular surgiu primeiro com os românticos do século XIX. A consolidação dos estudos no Brasil está diretamente ligada ao desenvolvimento do movimento folclórico, que ganhou força entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX. Bastante influenciado pelas correntes folclóricas europeias ligadas ao romantismo e ao nacionalismo, o folclore foi visto como uma ferramenta para a construção de uma identidade nacional, num momento posterior à Independência e à Proclamação da República. Nesse período, intelectuais como Sílvio Romero, que coletou e organizou dados sobre tradições populares, Câmara Cascudo, com sua ampla pesquisa sobre a cultura popular, e Mário de Andrade, que valorizava o popular como base da cultura nacional e aproximava o folclore do modernismo, entre outros, tiveram papel importante na produção de obras fundamentais para os estudos nessa área.TAVARES, Amanda. Arte popular X arte do povo: sentidos e apropriações. Rio de Janeiro, RJ. 28 abr. 2026. Apresentação de Power Point. 28 slides. Aula da Disciplina de História da Arte Global - Trânsitos: cultura popular e arte moderna e contemporânea no Brasil / Programa de Pós-Graduação em História da Arte da UERJ.FROTA, Lélia Coelho. “Arte é o que é bom e eu gosto”. Entrevista para a Riccardo Gambarotto. Revista RAIZ. Edição no. 1. Publicado em 08 de março de 2007 apud GUIMARÃES, Leda. Chaves conceituais e históricas na constituição da Arte e Artista popular no Brasil. Rev. Interd. em Cult. e Soc. (RICS), São Luís, v. 1, n. 1, p. 83-104, jul./dez. 2015.

Todavia, ainda nas primeiras décadas do século XX, o Movimento Modernista e o Movimento Regionalista de Gilberto Freyre, em Recife, em que o autor professava a “reabilitação dos valores do Nordeste”, ampliaram esse interesse, valorizando a produção popular e a cultura material. De fato, cabe destacar, Gilberto Freyre não se limitou à eventos e publicações. Através de seu empenho ocorre, por exemplo, a criação do Museu de Arte Popular, em Recife, no ano de 1955, sob a direção de Abelardo Rodrigues.WALDECK, Guacira. A Revelação e a Escola. In:______ Manuel Eudócio, patrimônio vivo. Rio de Janeiro: IPHAN, CNFCP, 2005.

Década de 1930 Depois da Semana de Arte Moderna de 1922, o Brasil vivia um momento de crescimento industrial e de rejeição ao que era visto como atrasado. Nesse contexto, o governo de Getúlio Vargas, ao mesmo tempo em que adotava o samba e a feijoada como símbolos da identidade brasileira, reprimia práticas afro-brasileiras como a capoeira, além de outras formas de canto, jogos e danças.GUIMARÃES, Leda. Chaves conceituais e históricas na constituição da Arte e Artista popular no Brasil. Rev. Interd. em Cult. e Soc. (RICS), São Luís, v. 1, n. 1, p. 83-104, jul./dez. 2015. Assim, o governo de Vargas a cultura popular é institucionalizada e reelabora nos moldes da chamada alta cultura (arquitetura, literatura, artes visuais, música, artes cênicas etc.)".

Diante disso, os intelectuais sentiram uma certa urgência em registrar e preservar a cultura popular antes que ela desaparecesse, seja pela repressão policial do Estado, seja pelo crescimento das cidades e da industrialização. É nesse momento, na década de 1930, que vale destacar a criação das universidades de São Paulo e do Rio de Janeiro, que tornaram o estudo da estética, da filosofia e das ciências sociais parte do ensino formal, criando uma base acadêmica para o reconhecimento e a valorização das artes populares no Brasil.

Década de 1940 É a partir da década de 1940 que a valorização do popular ganhou novos contornos, com objetos que até então circulavam principalmente em feiras, embora já presentes nas coleções de alguns colecionadores, passando a ter maior visibilidade. Em 1947 foi criada a Comissão Nacional de Folclore, formada por intelectuais que buscavam consolidar o folclore como disciplina acadêmica e defender ações voltadas à preservação do que consideravam manifestações populares. Na agenda da Comissão, os congressos e encontros reservavam espaço para apresentações de comidas, festas e brincadeiras. Além disto, para os folcloristas, reunir objetos como artefatos e instrumentos musicais era uma forma de mostrar a "alma do povo" em suas diferentes expressões regionais e, nesse processo, definir quais manifestações fariam parte do que entendiam como a cultura genuína do povo.WALDECK, Guacira. Exibindo o povo: Invenção ou documento.  Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, n. 28, p. 82-99, 1999. Ainda em 1947 ocorreu o I Congresso Brasileiro de Folclore, com o objetivo de preservar as tradições populares, mapear as manifestações regionais, valorizar as práticas não eruditas e construir uma ideia de cultura nacional baseada no povo.

No mesmo ano ocorreu também, uma mudança importante na forma como a produção artística popular passou a ser vista pelas elites intelectuais e pelos meios artísticos. O artista plástico e caricaturista pernambucano Augusto Rodrigues inaugurou a exposição "Cerâmica Popular Pernambucana", no Rio de Janeiro. Essa exposição é considerada um marco porque foi interpretada posteriormente como a "descoberta" do famoso artista popular Mestre Vitalino. As peças de cerâmica produzidas por ele, que antes eram vendidas na Feira de Caruaru, passaram a ser reconhecidas como obras de arte, dando início a um processo de valorização estética da produção popular. Essa mudança esteve ligada aos ideais do Modernismo de 1922, que defendia a valorização das expressões culturais brasileiras como base da identidade nacional.

De fato, é importante destacar que o Modernismo foi o principal responsável pelo reconhecimento da arte e do artista popular no Brasil ao longo do século XX. O movimento moderno entrou em conflito direto com o ensino acadêmico tradicional, o que levou seus integrantes a valorizar e dar visibilidade a expressões culturais até então ignoradas pela elite artística, entre elas as produções de crianças, de pessoas com transtornos mentais, de indígenas, de africanos e de artistas sem formação formal.BARBOSA, Ana Mae. Entre Culturas. In: Naifs [entre culturas]. Bienal Naifs do Brasil. São Paulo: SESC, 2006.

Ao valorizar o traço "ingênuo" de autodidatas, crianças e indígenas, os modernistas buscavam justificar as origens de sua própria arte moderna. Artistas como Tarsila do Amaral, Portinari, Guignard e Di Cavalcanti passaram a retratar o cotidiano popular que, para Lélia Coelho Frota, deve ser entendido dentro do movimento de construção do interesse pelo popular naquele momento da modernidade brasileira, que buscava na "brasilidade" uma conexão de identidade.

Segunda metade do século XX Nas décadas seguintes, o campo de estudos sobre arte popular recebeu contribuições de diversos pesquisadores, com destaque para o trabalho da já mecionada Lélia Coelho Frota. Segundo a autora, antes do século XX já existiam criações individuais nas artes de origem popular, assim como obras coletivas de cerâmica, trançado e outras técnicas. Porém, a busca por um estilo próprio, o que ela chama de desejo de biografia, só aparece a partir do século XX. Ou seja, "desejo de biografia" marca a passagem de uma produção tratada como folclórica e anônima para o reconhecimento do criador individual como autor.

Destaca-se a trajetória desta intelectual pois, Lélia Coelho Frota foi uma das mais importantes pesquisadoras e promotoras da arte popular brasileira, atuando como historiadora da arte, crítica, curadora, poetisa, tradutora e antropóloga. Sua trajetória institucional foi marcada por cargos de grande relevância, como a direção do Instituto Nacional do Folclore da Funarte, onde criou o programa Sala do Artista Popular, a presidência do Iphan e a direção do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro. No campo curatorial, representou o Brasil nas Bienais de Veneza de 1978 e 1988, organizou a exposição Brésil, Art Populaire Contemporain no Grand Palais de Paris (1987) e coordenou a Exposição Permanente de Arte Popular Brasileira em João Pessoa (1989-1990), além de fundar o Museu de Arte Popular Edson Carneiro. Sua atuação foi decisiva para que a arte popular ganhasse visibilidade, legitimidade e espaço institucional no Brasil e no exterior, por meio de estudos, catalogações, exposições e registros que preservaram manifestações culturais fundamentais da cultura brasileira.CNFCP - Lélia Frota. Homenagem a Lélia Coelho Frota (1938-2010) - escritora, poeta, museóloga, historiadora da arte, antropóloga e ex-diretora do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP). Acervo do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP). Em 2005, Lélia publicou o "Pequeno Dicionário da Arte do Povo Brasileiro - Século XX", onde reuniu informações acerca de 150 criadores de arte popular. Em 1975 a autora já havia escrito o livro Mitopoética de Nove Artistas Brasileiros, onde dissertou sobre nove artistas das camadas pobres, no "Dicionário" ela reúne verbetes biográficos e temáticos que abordam a formação familiar e profissional dos artistas, a origem social e eventuais deslocamentos migratórios, situando a obra a partir da história do indivíduo.

Século XXI O anos 2000 marcam uma virada de rumo onde os debates e transformações repercutiram em exposições dedicadas à arte popular. Antes de dar continuidade, contudo, é importante destacar que, com o avanço dos estudos, foram surgindo diversas denominações para classificar esse tipo de produção, como Arte Naif, Arte Primitiva, Outsider Art, Arte Popular, Arte Ingênua, Arte Tradicional, Arte Espontânea, Arte Étnica etc. Cada termo carregava uma perspectiva diferente sobre o tema, o que gerou um intenso debate entre pesquisadores sobre qual seria a denominação mais adequada.