miniaturadaimagem|Gravura do final do século XIX ilustrando dois homens gweagal confrontando um grupo de desembarque inglês em 1770. A história dos indígenas australianos começou ao menos 65 mil anos atrás, quando os humanos passaram a habitar as massas continentais australianas. Este artigo narra a história dos povos aborígenes australianos e os nativos das Ilhas do Estreito de Torres, dois grupos amplos que incluem subgrupos que são definidos a partir de sua língua e cultura.
A origem dos primeiros humanos que habitavam o continente e os terrenos que se tornaram ilhas com o aumento do nível do mar ainda é motivo de conjectura e debate. Alguns antropólogos acreditam que eles chegaram através das primeiras migrações para fora da África. Apesar de que eles provavelmente migraram para a Austrália através do Sudeste Asiático, os aborígenes australianos não demonstram ter ligações com as populações asiáticas e melanésias, apesar dos nativos do Estreito de Torres terem uma ligação genética com os melanésios. Há evidências de trocas genéticas e linguísticas entre os australianos do norte do continente e os austronésios, da Nova Guiné, mas pode ser resultado do comércio e casamento interracial modernos.
A população aborígene é composta de diversos grupos, e é estimado que o número de pessoas vivendo na Austrália no início da colonização varia de 300 mil a um milhão, enquanto outras estimativas afirmam que a população poderia chegar a 1,25 milhão. Estima-se que um total de 1,6 bilhão de pessoas tenham vivido no continente nos 65 mil anos antes da colonização britânica. Os locais mais densamente povoados pelos aborígenes eram as regiões costeiras temperadas, mais especificamente o vale do rio Murray, as mesmas regiões mais povoadas nos dias de hoje. A população encolheu no início da colonização em Nova Gales do Sul, em 1788. Em 1930, havia 50 mil aborígenes. A drástica redução da população foi atribuída por epidemias de varíola e outras doenças, mas outras fontes atribuem às Guerras Fronteiriças, ou até mesmo o assassinato deliberado de aborígenes.
Após a colonização, as populações indígenas foram absorvidas, exterminadas, reduzidas ou expulsas de suas terras. Os aspectos tradicionais do estilo de vida aborígene foram preservados principalmente em áreas como o Grande Deserto Arenoso, onde a colonização europeia foi menos intensa. Apesar dos aborígenes tasmanianos serem quase extintos (pensava-se que eles haviam de fato sido extintos), outras populações aborígenes conseguiram criar comunidades pela Austrália.
Migração para a Austrália
miniaturadaimagem|Os antigos continentes de Sondalândia e Sahul. Acredita-se que as primeiras migrações humanas para a Austrália aconteceu através de uma ponte terrestre entre o continente Sahul e a ilha de Nova Guiné. Mesmo assim, ainda seria preciso atravessar o oceano através da Linha de Wallace. Também é possível que os aborígenes tenham chegado navegando de uma ilha para a outra, indo pelo percurso entre Sulawesi e Nova Guiné, alcançando o nordeste da Austrália através do Timor.
Um estudo de 2021 que mapeou as prováveis rotas de migração para a Austrália sugere que a população de Sahul demorou cerca de 5 mil–6 mil anos para atingir a Tasmânia (que até então era parte do continente), se movendo em média 1 km ao ano, saindo da região de Kimberley na Austrália Ocidental cerca de 60 mil anos atrás. A população total poderia chegar até 6,4 milhões, com 3 milhões vivendo na área da atual Austrália. Os modelos sugerem que havia dois caminhos que a população pode ter seguido. A rota do sul passava por Kimberley, Pilbara e a Terra de Arnhem, atravessava o Grande Deserto Arenoso até mudar de direção para o lago Eyre, continuando no sudeste do continente. Ela, por fim, passava pelo sudoeste, através do rio Margaret e a planície de Nullarbor. Já a rota do norte atravessava o atual Estreito de Torres e se dividia em um caminho que levava à Terra de Arnhem e outro que levava à Costa Leste. As rotas são parecidas com as rodovias e rotas de estoque atuais da Austrália.
O local mais antigo que se sabe que tenha havido presença humana é Madjedbebe, que foi possivelmente ocupado 65 mil ± 6 mil anos atrás, e no mínimo 50 mil anos atrás. Os abrigos rochosos presentes em Madjedbebe (cerca de 50 km da atual costa) e Nauwalabila I (70 km mais ao sul) mostram evidências do uso de objetos feitos de ostras para propósitos artísticos desde ao menos 45 mil a 50 mil AC. De acordo com a datação feita em 1999 por Charles Dortch, as ferramentas de pedra feitas de cherte e caliche encontradas na ilha de Rottnest, ao oeste da Austrália, são de 70 mil AC. A datação usando arqueobotânica feita por um estudo de 2018 em evidências de uma habitação humana em Karnatukul, na cordilheira de Carnavon, área do Pequeno Deserto Arenoso, é cerca de 50 mil anos, 20 mil mais cedo do que se acreditava anteriormente. Também há evidências das mudanças no regime de agricultura com vara de fogo, que começaram nos recifes de Queensland entre 70 e 100 mil anos atrás, e da interação genética humana de diversas partes do mundo, que evidencial que evidencial a chegada dos aborígenes em 60 mil anos.
Os humanos migraram para a Tasmânia há cerca de 40 mil anos através de uma ponte terrestre que existia na massa de terra principal antes do último máximo glacial. Após a subida do nível do mar há 12 mil anos que cubriu a passagem, os habitantes locais ficaram isolados até a chegada dos europeus.
Tribos aborígenes de pessoas com menor estatura habitavam as florestas tropicais ao norte de Queensland. A tribo mais conhecida são os tjapukai, que viviam na região de Cairns. Pensava-se que a origem dos povos da floresta, referidos coletivamente como "barrineanos", era de uma migração anterior de negritos ao continente, mas a chamada teoria do "aborígene pigmeu" foi desacreditada.
O homem do lago Mungo, encontrado perto do lago Mungo em Nova Gales do Sul, é o mais antigo humano encontrado na Austrália. Apesar da idade exata do homem de Mungo esteja em disputa, o consenso é que ele tenha 40 mil anos. As ferramentas de pedra encontradas ao seu lado foram datadas por associação Estratigráfica em 50 mil anos. Já que o lago está ao sudeste da Austrália, muitos arqueólogos concluíram que os humanos devem ter chegado ao noroeste do continente ao menos milhares de anos antes da datação do homem de Mungo.
Mudanças cerca de 4 mil anos atrás Os dingos chegaram na Austrália cerca de 4 mil anos atrás. Acredita-se que eles chegaram através de navegantes asiáticos e que extinguiram o lobo-da-tasmânia na principal massa continental. Neste período, também houve mudanças nas línguas faladas pelos aborígenes; as línguas pama–nyungan e o uso de pequenas ferramentas de pedra se espalharam pela maior parte do continente. Hipotetiza-se que houve contato da Índia com a Austrália. As evidências são componentes genéticos sul-asiáticos nos aborígenes, de acordo com dados de SNP na sequência genética, e a existência de uma linhagem de cromossomo Y chamada de haplogrupo C*, que tem seu ancestral em comum cerca de 5 mil anos atrás.
Em estudo de 2016 conduzido pela Sociedade Max Planck chefiado por Irina Pugach, o resultado de um extenso mapeamento genético indicou que os aborígenes australianos, os papuanos e os mamanwas, uma população indígena do sul das Filipinas, estão fortemente relacionados, com a origem em comum cerca de 36 mil anos atrás. O mesmo estudo revela que o genoma aborígene consiste de 11% de DNA indiano, que está uniformemente espalhado no norte da Austrália. A estimativa é que houve um fluxo genético substancial entre os indianos e os aborígenes do norte do continente cerca de 4,230 anos atrás. Já que o registro arqueológico revela que as ferramentas de pedra e o processamento de comida surgiram nessa época, supõe-se que houve uma migração da Índia para o continente.
Porém, em estudo de 2016 da Current Biology feito por Anders Bergström et al. excluiu o cromossomo Y como evidência da migração indiana para a Austrália. No estudo, foram sequenciados 13 cromossomos Y de aborígenes australianos usando avanços recentes no sequenciamento genético com o intuito de investigar o tempo de divergência com os cromossomos Y de outros continentes, incluindo uma comparação com o haplogrupo C. Os autores concluíram que, apesar da pesquisa não disprovar a ausência de fluxo genético do holoceno, de não haver influências do sul da Ásia naquele período e que a aparência do dingo seja uma forte evidência de um contato exterior, há a completa falta de fluxo genético, sugerindo que as mudanças linguísticas e tecnológicas foram feitas pelos próprios aborígenes. Porém, o fluxo genético com a população do Estreito de Torres é plausível e passível de demonstração com os dados dispostos, apesar do estudo não ter conseguido determinar, dentro dos últimos 10 mil anos, a data do ocorrido. Novas técnicas de análise possuem o potencial de desvendar estas questões.
Pré-colonização
Geografia miniaturadaimagem|A costa da Tasmânia e Vitória cerca de 14 mil anos atrás, quando o nível do mar começou a subir. O mapa também mostra alguns sítios arqueológicos.
Quando o noroeste da Austrália, que é mais próximo da Ásia, foi ocupado, a região era feita de bosques e florestas tropicais. Após 10 mil anos de condições climáticas estáveis, período de tempo onde os aborígenes se espalharam por todo o continente, as temperaturas baixaram e os ventos ficaram mais fortes, marcando o começo de uma era do gelo. Durante o último máximo glacial, de 25 a 15 mil anos atrás, o nível do mar caiu cerca de 140 metros comparado com os valores atuais. Neste período, a Austrália estava conectada com a Nova Guiné, e a região de Kimberley, na Austrália Ocidental, estava separada do sudeste asiático (Wallacea) por um estreito de aproximadamente 90 km de largura. Dependendo da região, os níveis de chuva eram 40% a 50% mais baixos do que os atuais. Além disso, os níveis de CO2 eram metade dos níveis pré-industriais. Por isso, a vegetação precisava de ao menos o dobro de água para realizar a fotossíntese.
A região de Kimberley, incluindo a parte continental adjacente exposta de Sahul, era coberta com extensos prados dominados por flores como a poaceae, e bosques e arbustos de regiões semi-áridas cobrindo a área que juntava o continente com a Nova Guiné. Ao sudoeste de Kimberley, do Golfo de Carpentária ao norte da Tasmânia, incluindo as margens oeste e sul que agora são as plataformas continentais, a terra era praticamente toda feita de desertos e dunas. Acredita-se que nesse período, apenas 15% da Austrália estava coberta por algum tipo de árvore. Apesar de haver algumas árvores no sudeste do continente, a vegetação das regiões perto da costa era de savana semiárida, com algumas florestas tropicais sobrevivendo em áreas isoladas de Queensland.
A Tasmânia era coberta principalmente por estepes e pradarias alpinas, com pinheiros de neve em altitudes maiores. Há evidência que pode ter havido um declínio acentuado na população aborígene neste período, e parece que houve uma "refugia" dispersa, onde eles e as vegetações atuais conseguiram sobreviver. Parece que essas povoações mantiveram contato através de corredores entre as refugias. As chuvas fortes voltaram com o fim da Era do Gelo até cerca de 5,5 mil anos atrás, quando o ciclo de chuvas do norte se encerrou, sendo substituído por uma mega-seca que durou por 1,5 mil anos. O retorno das chuvas regulares em cerca de 4 mil anos A.P. criou o clima atual da Austrália.