Fogo-fátuo (em francês: Feu Follet) é um filme luso-francês de 2022 do género comédia romântica musical, realizado por João Pedro Rodrigues a partir de um argumento de sua autoria, escrito com João Rui Guerra da Mata e Paulo Lopes Graça. A longa-metragem é protagonizada por Mauro Costa como Alfredo, o príncipe herdeiro de Portugal, cuja paixão pelo meio ambiente o leva a tornar-se bombeiro, e conhecer o colega Afonso (interpretado por André Cabral e Oceano Cruz) com quem explora o amor e desejo.

A obra foi apresentada na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cinema de Cannes de 2022, a 24 de maio. A longa-metragem foi selecionada para inúmeros festivais e multipremiada, nomeadamente na quinta edição do Festival Internacional de Cinema de Bruxelas. Fogo-fátuo chegou aos cinemas franceses a 14 de setembro de 2022, e estreou nos portugueses no dia 29 do mesmo mês. Uma versão televisiva com duração mais reduzida, intitulada Um príncipe no quartel, estreou a 13 de novembro de 2022, na Arte.

Sinopse Em 2069, Sua Alteza Real Alfredo está acamado, a morrer. Ao seu lado, uma criança brinca com um pequeno camião de bombeiros.. O brinquedo transporta o Rei sem Coroa a memórias distantes da sua juventude, eufóricas e eróticas. O idoso moribundo começa a cantar de forma divertida uma canção infantil portuguesa dos anos 80, sobre a amizade com as árvores..

A canção transporta-o para o ano 2011, época em que Alfredo era ainda um jovem príncipe inocente. O seu pai tenta ensinar-lhe ideias geopolíticas que um dia o ajudarão a governar. Mas motivado pelo seu amor pelas árvores, e preocupado com as alterações climáticas e os incêndios florestais cada vez mais frequentes, Alfredo diz aos seus pais (o rei e a rainha de Portugal) que quer ser bombeiro. A mãe acha que ele está a brincar, assim como a comandante da corporação de bombeiros voluntários, mas o príncipe mantém a sua decisão. Na brigada que integra, com propensão para recriações eróticas da história da arte, Alfredo conhece o bombeiro veterano Afonso. O encontro dá início a uma história de amor e desejo mútuos. Após exercícios de treino homoerótico e sessões de fotografias nuas com colegas de trabalho, o casal foge para uma floresta onde trocam histórias íntimas. A relação de ambos marca um novo capítulo nas suas vidas, despertando a determinação de mudar o status quo social. Mas uma decisão de regressar à heteronormatividade ameaça a possibilidade de um futuro conjunto.

Elenco

Mauro Costa, como Alfredo (2011); Joel Branco, como Alfredo (2069). André Cabral, como Afonso (2011); Oceano Cruz, como Afonso (2069). Margarida Vila-Nova, como Teresa. Miguel Loureiro, como Eduardo. Dinis Vila-Nova, como Sebastião. Teresa Madruga, como Ama. Ana Bustorff, como Cunhada de Alfredo. João Mota, como Marido da cunhada. Paulo Bragança, como Primo de Alfredo. Raquel Rocha Vieira, como Rata de Sacristia. Anabela Moreira, como Rata de Sacristia. Cláudia Jardim, como Comandante. Joana Barrios, como Bombeira Otília. João Villas-Boas, como Bombeiro. João Reis Moreira, como Bombeiro. João Caçador, como Bombeiro. Coro Infantil de Santo Amaro de Oeiras.

Equipa técnica

Realização: João Pedro Rodrigues. Argumento: João Pedro Rodrigues, João Rui Guerra da Mata e Paulo Lopes Graça. Cinematografia: Rui Poças. Montagem: Mariana Gaivão. Som: Nuno Carvalho.. Misturas: Nuno Carvalho. Música: Carlos Paião, Wolfgang Amadeus Mozart, Ermo, Amália Rodrigues e Paulo Bragança. Decoração: João Rui Guerra da Mata. Figurinos: Patrícia Dória. Coreografia: Madalena Xavier. Efeitos especiais: Jam Abelanet. Produção: João Matos, João Pedro Rodrigues e Vincent Wang.

Tal como aconteceu com O Fantasma, Odete e O Ornitólogo, Rodrigues colaborou com o diretor de fotografia Rui Poças neste filme. Outros colaboradores recorrentes foram João Rui Guerra da Mata, Nuno Carvalho e Paulo Guilherme.

Produção

Desenvolvimento A ideia para o argumento surgiu a partir de um artigo de uma revista de imprensa rosa que João Pedro Rodrigues leu, apresentando as mordomias mantidas pela família real portuguesa no século XXI mesmo que o país fosse uma República. No mesmo artigo, era referido que o príncipe de Portugal teria gostado de ser bombeiro. Inspirado pela comicidade desta premissa, João Pedro Rodrigues escreveu o argumento de Fogo-fátuo durante 2019, juntamente com João Rui Guerra da Mata e o diplomata da ONU Paulo Lopes Graça, que contribuiu com muitos dos diálogos e com a seleção musical. Durante o confinamento da COVID-19, o guião viria a ser reescrito. O realizador pretendia adotar uma abordagem semelhante a um conto de fadas e "fazer um filme curto e divertido, porque acho que muito do cinema de arte hoje em dia é muito longo e muito chato." O argumento final de Fogo-fátuo mistura elementos de comédia, musical, fantasia e ficção científica, inspirado pela leveza do cinema de Charlie Chaplin, Buster Keaton, Ernst Lubitsch e Jerry Lewis.

A longa-metragem é uma produção luso-francesa, resultado da parceria da Terratreme Filmes, com House on Fire e Filmes Fantasma. Depois de um problema com o produtor de O Ornitólogo, João Pedro Rodrigues passou a assumir também o papel de coprodutor desta longa-metragem. Nos créditos finais do filme, o diretor agradece ao cineasta James Bidgood, falecido em 2022.

Rodagem A produção de Fogo-fátuo planeava filmar em 2020, mas a progressão da pandemia COVID ditou o adiamento da rodagem. Tal permitiu prolongar os ensaios das sequências musicais. As coreografias foram influenciadas por Anima (2020) de Paul Thomas Anderson e Thom Yorke e vídeoclipes de Perfume Genius. Autora das coreografias, Madalena Xavier trabalhou com alguns dos seus alunos, como André Cabral, que integraram o elenco do filme. Os primeiros ensaios envolveram apenas os personagens principais e progressivamente foram sendo integrados os personagens da corporação de bombeiros.

A rodagem viria a decorrer em novembro de 2021, tendo sido concluída em apenas duas semanas e dois dias. O realizador considerou as sequências coreografadas as mais complexas de filmar, tendo exigido dois dias de filmagem para dar conta da coreografia e trabalhar com um elevado número de atores. Foi utilizada nas gravações camera Sony Venice com lentes Leitz Thalia.

Música O filme utiliza diferentes tipos de música, desde os fados populares, música clássica, eletrónica e infantil. A abordagem musical de Fogo-fátuo é influenciada pelas obras de Vincente Minnelli e Jacques Demy, bem como por musicais como On the Town (1949), de Stanley Donen e Gene Kelly. O fadista Paulo Bragança contribuiu para a música, reorganizando alguns fados tradicionais para o filme e mudando a letra de um deles, Embuçado, para fazer um trocadilho entre as palavras "fado" e "falo".

Temas e estética

Pintura Há inúmeros pontos de referência a obras de arte ao longo filme, desde logo numa sequência em que os bombeiros, com diferentes estrutura de corpo, recriam várias pinturas famosas de de Caravaggio, Peter Paul Rubens, Diego Velázquez, José Malhoa e Francis Bacon para um calendário de parede, reminescente de um calendário Pirelli. Outro artista referido no filme é o cartunista José Vilhena, nas palavras do realizador, por ser "muito crítico em relação à ditadura que tivemos até 1974. De alguma forma, conseguiu fazer caricaturas políticas, ridicularizando as pessoas no poder. É como o que aconteceu com o Código Hays, com os cineastas a encontrar maneiras de falar sobre as coisas sem as invocar diretamente".

O quadro Mascarada Nupcial, pintado por José Conrado Rosa em 1788 e, à altura localizado no Musée du Nouveau Monde em La Rochelle (França), surge recorrentemente ao longo do filme. A pintura, repleta de estereótipos raciais, permite que Fogo-fátuo aborde a temática do colonialismo português.

Colonialismo Mascarada Nupcial, anteriormente conhecida pelo nome O Casamento do Negro Rosa, pintura do século XVIII que surge na longa-metragem, retrata uma cerimónia de casamento onde um conjunto de personagens negros que se vestem e emulam as posições e operações da elite da época. A obra tem despertado debate acerca da sua pretensão de servir como um reparador histórico que encaixa os corpos oprimidos em papéis que lhes foram negados, ou se na verdade o autor pretende registar uma atração circense. A dualidade da própria génese da obra tem sido vista como reproduzida no filme no papel de Afonso, um africano bombeiro com nome de rei. Para o realizador refere-se ao quadro do seguinte modo: "Acho que fala muito dos tempos que vivemos. Hoje não se pode chamar um quadro de O Casamento do Negro Rosa porque é considerado racista – e claro que é, mas esse também é o título que tinha. O filme é sobre esse tipo de subtileza. O que você pode dizer e o que não pode dizer".

A longa-metragem tece comentários políticos e pensa sobre a relação de Portugal com o seu passado monárquico e colonialista também através da relação dos protagonistas (o amor entre um príncipe europeu e um afrodescendente). Esta paixão cria uma utopia homoerótica em que estes dois companheiros improváveis ​​reimaginam o destino das relações entre as suas culturas, enquanto se utilizam expressões racializadas e provocatórias: se por um lado, o Príncipe Alfredo trata Afonso por “meu queimadinho de sol”, Afonso brinca com as tentativas de autorredenção do príncipe dizendo que “Ele acredita que a vingança contra os seus antepassados ​​colonialistas passa por dar o traseiro aos negros”. João Pedro Rodrigues comenta esta ironia do seguinte modo: "Eles insultam-se racialmente, um ao outro, como uma espécie de jogo sexual. Nessa cena de sexo, trazem o roleplay para a intimidade. É como se o amor e a intimidade pudessem ultrapassar essas feridas".

A escolha musical do filme procura também explorar um sentimento de culpa colonialista. Mané-Chiné, canção da autoria de Jorge Costa Pinto interpretada por Amália Rodrigues, é uma música de teor racista, ligada a uma tradição mais conservadora. Também a canção original que Paulo Bragança adaptou, Fado do Embuçado, da autoria de João Ferreira-Rosa, é uma canção monárquica que denota nostalgia pela aristocracia e pelo período pré-republicano.

Ecologia Numa das cenas do filme ambientadas em 2011, o Príncipe Alfredo quebra a quarta parede ao encarar a câmara para citar partes do discurso de Greta Thunberg de 2019 às Nações Unidas, ao tentar defender a sua escolha de se tornar bombeiro perante a sua família reprovadora. Amy Nicholson, do The New York Times, comenta que esta opção cinematográfica pode ser uma tentativa de o personagem principal convencer o público do filme que ele tentou que os seus pais fizessem algo para evitar a progressão das alterações climáticas.

Continuidade artística Nesta longa-metragem, João Pedro Rodrigues retoma a linguagem queer, que combina o erotismo com o gosto pelo bizarro, já explorada em O Fantasma (2000), Morrer como um Homem (2009) e O Ornitólogo (2016), desta vez dentro de uma fantasia musical. Tal como a personagem protagonista de Morrer como um Homem, o Príncipe Alberto descobre um outro lado de si mesmo, mas não consegue a sua transformação final, ao decidir cumprir o destino heteronormativo de príncipe herdeiro. Fogo-fátuo também apresenta semelhanças com a curta-metragem O Corpo de Afonso (2012), na qual o realizador imagina como seria a compleição física de D. Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal, a partir de um casting de rapazes de corpo torneado. Há uma oposição direta dessa noção em Fogo-fátuo, uma vez que o tipo de corpo do Príncipe Alberto se afastar totalmente dos dos intervenientes em O Corpo de Afonso.

Distribuição As vendas mundiais de Fogo-fátuo foram supervisionadas pela Films Boutique. A longa-metragem estreou na programação da Quinzena dos Realizadores do Festival de Cinema de Cannes de 2022, a 24 de maio.