Abinavagupta (em devanágari: अभिनवगुप्तः, Abhinavagupta; c. 950 - 1016 d.C.Triadic Heart of Shiva, Paul E. Muller-Ortega, page 12) foi um filósofo, místico e teórico da estética da Caxemira. Ele também foi considerado um influente músico, poeta, dramaturgo, exegeta, teólogo e lógicoRe-accessing Abhinavagupta, Navjivan Rastogi, page 4Key to the Vedas, Nathalia Mikhailova, page 169—uma personalidade polimática que exerceu fortes influências na cultura indiana.The Pratyabhijñā Philosophy, Ganesh Vasudeo Tagare, page 12Companion to Tantra, S.C. Banerji, page 89

Abinavagupta nasceu em uma família brâmane de estudiosos e místicos cujos ancestrais imigraram de Kannauj pelo grande rei da Caxemira, Lalitaditya Muktapida. Ele estudou todas as escolas de filosofia e arte de seu tempo sob a orientação de até quinze (ou mais) professores e gurus. Em sua longa vida ele completou mais de 35 obras, a maior e mais famosa das quais é Tantrāloka, um tratado enciclopédico sobre todos os aspectos filosóficos e práticos de Kaula e Trika (conhecido hoje como xivaísmo da Caxemira). Outra de suas contribuições muito importantes foi no campo da filosofia da estética com seu famoso comentário Abhinavabhāratī de Nāṭyaśāstra de Bharata Muni.Luce dei Tantra, Tantrāloka, Abhinavagupta, Raniero Gnoli, page LXXVII Ele foi o mais importante dentre os teóricos medievais da estética indiana, constituindo a parte mais conhecida de sua filosofia; sua teoria estética foi inovadora e influente, analisando a psicologia e ontologia do conceito já anteriormente existente de rasa.

Vida "Abhinavagupta" não era seu nome verdadeiro, mas sim um título que ganhou de seu mestre, carregando um significado de "competência e autoridade".The Krama Tantricism of Kashmir; Navjivan Rastogi, page 157 Em sua análise, Jayaratha (1150–1200) – que foi o mais importante comentador de Abinavagupta – revela ainda mais três significados: "estar sempre vigilante", "estar presente em todo o lado" e "protegido por louvores". Raniero Gnoli, o único estudioso de sânscrito que completou uma tradução do Tantrāloka para uma língua europeia, menciona que "Abhinava" também significa "novo", como uma referência à sempre nova força criativa de sua experiência mística.Luce dei Tantra, Tantrāloka, Abhinavagupta, Raniero Gnoli, 1999, page 3

Com Jayaratha, aprendemos que Abinavagupta possuía todas as seis qualidades exigidas para os destinatários do tremendo nível de śaktipāta, conforme descrito nos textos sagrados (Śrīpūrvaśāstra):Abhinavagupta, Ganesh Tryambak Deshpande, page 19 uma fé inabalável em Deus, realização de mantras, controle sobre princípios objetivos (referentes aos 36 tattvas), conclusão bem-sucedida de todas as atividades realizadas, criatividade poética e conhecimento espontâneo de todas as disciplinas.

A criação de Abinavagupta foi bem equilibrada entre os ramos da tríade (Trika): vontade (icchā), conhecimento (jñāna), ação (kriyā); suas obras também incluem canções devocionais, obras acadêmicas/filosóficas e obras que descrevem práticas rituais/iogues.Re-accessing Abhinavagupta, Navjivan Rastogi, page 8

Como autor, é considerado um sistematizador do pensamento filosófico. Ele reconstruiu, racionalizou e orquestrou o conhecimento filosófico de uma forma mais coerente, avaliando todas as fontes disponíveis de seu tempo, não muito diferente de um pesquisador científico moderno.Re-accessing Abhinavagupta, Navjivan Rastogi, page 10

Vários estudiosos contemporâneos caracterizaram Abinavagupta como um "estudioso e santo brilhante",Īśvara Pratyabhijñā Kārikā of Utpaladeva, Verses on the Recognition of the Lord; B. N. Pandit, page XXXIII "o auge do desenvolvimento do xaivismo caxemir" e "de posse da realização iogue".

Origem social, família e discípulos

Nascimento "mágico" ou divino O termo pelo qual o próprio Abinavagupta define sua origem é "yoginībhū", 'nascido de uma yoginī'.Luce dei Tantra, Tantrāloka, Abhinavagupta, Raniero Gnoli, page 3 No xivaísmo da Caxemira e especialmente no Kaula, considera-se que uma progênie de pais "estabelecida na essência divina de Bhairava"Re-accessing Abhinavagupta, Navjivan Rastogi, page 2 é dotada de excepcional capacidade espiritual e intelectual. Supõe-se que tal criança seja "o depositário do conhecimento", que "mesmo quando criança no útero, tem a forma de Xiva", para enumerar apenas alguns dos atributos clássicos do tipo.

Com essa cosmovisão, Abinavagupta descreve seu nascimento nos versos iniciais de seu Tantrasara de forma poética, como vinculado ao nascimento da Criação por Xiva, conforme escreve:"Que meu coração brilhe, incorporando a beatitude do Supremo; [pois é] um com o estado de potencial absoluto manifestado na fusão desses dois, a 'Mãe' fundamentada na representação pura, radiante em uma gênese sempre nova, e o 'Pai', todo abrangente [Bhairava], que mantém a luz [da consciência] através de suas cinco faces; formado a partir das emissões produzidas através da fusão desses dois, minha mãe Vimalā cuja maior alegria foi em meu nascimento, e meu pai [Nara]siṁhagupta [quando ambos eram] todo-abrangentes [em sua união]."Assim, fez uma identificação da relação sexual de seus pais, que resultou na sua concepção, em analogia com o ato de procriação geral do universo por Xiva. Para Abinavagupta, a união sexual supramundana conforme a teoria do Kaula, diferente da cópula ordinária, permite a realização pelos adeptos do estado absoluto de Xiva-Xácti, e, tendo nascido de uma união desse tipo, essa afirmação serve também para demonstrar sua competência como mestre frente aos leitores.

Pais Abinavagupta nasceu em uma família brâmane na Caxemira. Sua mãe, Vimalā (Vimalakalā) morreu quando Abinavagupta tinha apenas dois anos;Luce dei Tantra, Tantrāloka, Abhinavagupta, Raniero Gnoli, page 4 como consequência da perda de sua mãe, por quem ele era supostamente muito apegado, ele ficou mais distante da vida mundana e se concentrou ainda mais no empreendimento espiritual.

O pai, Narasiṃhgupt, após a morte de sua esposa, favoreceu um estilo de vida ascético, enquanto criava seus três filhos. Ele tinha uma mente cultivada e um coração "extraordinariamente adornado com devoção a Mahesvara (Xiva)" (nas próprias palavras de Abinavagupta). Foi o primeiro professor de Abinavagupta, instruindo-o em gramática, lógica e literatura.

Família Abinavagupta tinha um irmão e uma irmã. O irmão, Manoratha, era um devoto versado de Xiva. Sua irmã, Ambā (nome provável, segundo Navjivan Rastogi), dedicou-se à adoração após a morte de seu marido no final da vida.

Seu primo Karṇa demonstrou desde a juventude que compreendeu a essência do xivaísmo e estava desapegado do mundo. A esposa dele era provavelmente a irmã mais velha de Abinavagupta, Ambā, que olhava com reverência para seu ilustre irmão. Ambā e Karṇa tiveram um filho, Yogeśvaridatta, que era precocemente talentoso em ioga.

Abinavagupta também menciona seu discípulo Rāmadeva como fielmente devotado ao estudo das escrituras e ao serviço de seu mestre. Outro primo era Kṣema, possivelmente o mesmo que o ilustre discípulo de Abinavagupta, Kṣemarāja. Mandra, um amigo de infância de Karṇa, foi o anfitrião deles em uma residência suburbana; ele não apenas era rico e possuidor de uma personalidade agradável, mas também igualmente culto. E por último, mas não menos importante, Vatasikā, tia de Mandra, que recebeu uma menção especial de Abinavagupta por cuidar dele com excepcional dedicação e preocupação; para expressar sua gratidão, Abinavagupta declarou que Vatasikā merecia o crédito pela conclusão bem-sucedida de seu trabalho.

Ancestrais Segundo o próprio relato de Abinavagupta, seu ancestral mais remoto conhecido chamava-se Atrigupta, nascido em Madhyadeśa, ou seja, o País Médio. Nascido em Madhyadeśa, ele viajou para a Caxemira a pedido do rei Kayastha Lalitāditya, por volta do ano 740 d.C.Triadic Mysticism, Paul E. Murphy, page 12

Mestres Abinavagupta é famoso por sua sede voraz de conhecimento. Para estudar ele buscou muitos professores (até quinze), tanto filósofos místicos quanto estudiosos. Ele se aproximou dos vaixnavas, dos budistas, dos xivaístas do Śiddhānta e dos estudiosos do Trika.

Entre os mais proeminentes de seus professores, ele enumera quatro, dois dos quais eram Vāmanātha, que o instruiu no xivaísmo dualista, e Bhūtirāja na escola dvaita-advaita. Além de ser professor do famoso Abinavagupta, Bhūtirāja também foi pai de dois eminentes estudiosos.

Lakṣmaṇagupta, discípulo direto de Utpaladeva, na linhagem de Trayambaka, foi altamente respeitado por Abinavagupta e ensinou-lhe todas as escolas de pensamento monista: Krama, Trika, e Pratyabhijña (exceto a Kaula). Śambhunātha ensinou-lhe a quarta escola (Ardha-trayambaka). Esta escola é na verdade Kaula e foi emanada da filha de Trayambaka.

Para Abinavagupta, Śambhunātha era o guru mais admirado. Descrevendo a grandeza de seu mestre, ele comparou Shambhunātha ao Sol, em seu poder de dissipar a ignorância do coração, e, em outro lugar, com "a Lua brilhando sobre o oceano de conhecimento do Trika". Abinavagupta recebeu iniciação kaula através da esposa de Śambhunātha (agindo como dūtī ou canal). A energia desta iniciação é transmitida e sublimada ao coração e finalmente à consciência. Tal método é difícil, mas muito rápido e é reservado para aqueles que abandonam suas limitações mentais e são puros. Foi Shambhunātha quem solicitou que ele escrevesse Tantrāloka. Como guru, ele teve profunda influência na estrutura do TantrālokaThe Triadic Heart of Śiva, Kaula Tantricism of Abhinavagupta in the Non-Dual Shaivism of Kashmir; Paul Eduardo Muller-Ortega, page 1 e na vida de seu criador, Abinavagupta.

Outros doze de seus principais professores são enumerados nominalmente, mas sem detalhes. Acredita-se que Abinavagupta teve mais professores secundários. Além disso, durante a sua vida acumulou um grande número de textos que citou na sua magnum opus, no seu desejo de criar um sistema sincrético e abrangente, onde os contrastes das diferentes escrituras pudessem ser resolvidos pela integração numa perspectiva superior.

Estilo de vida Abinavagupta permaneceu solteiro durante toda a sua vida, e como adepto de Kaula, pelo menos inicialmente manteve o brahmacharya e supostamente usou a força vital de sua energia (ojas) para aprofundar sua compreensão do sistema nervoso espiritual que ele delineou em suas obras—um sistema que envolve a união ritual entre Puruxa (como Xiva) e Xácti. Tal união é essencialmente não física e universal, e assim Abinavagupta se concebeu como sempre em comunhão com Xiva-Xácti. No contexto de sua vida e ensinamentos, Abinavagupta compara Xiva como asceta e desfrutador.

Abinavagupta estudou assiduamente pelo menos até os trinta ou trinta e cinco anos de idade. Para conseguir isso, ele viajou, principalmente dentro da Caxemira. Pelo seu próprio testemunho, ele alcançou a libertação espiritual através da sua prática de Kaula, sob a orientação do seu mais admirado mestre, Śambhunātha. Ele morava em sua casa (funcionando como um ashram) com seus familiares e discípulos,Īśvara Pratyabhijñā Kārikā of Utpaladeva, Verses on the Recognition of the Lord; B. N. Pandit, page XXXIV e não se tornou um monge errante, nem assumiu os deveres regulares de sua família, mas viveu sua vida como escritor e um professor. A personalidade de Abinavagupta foi descrita como uma realização viva de sua visão.