Cristiano IX (Eslésvico, – Copenhague, ), nascido príncipe Cristiano de Eslésvico-Holsácia-Sonderburgo-Glucksburgo, foi o Rei da Dinamarca de 1863 até 1906.
Originalmente um príncipe alemão, Cristiano foi escolhido, com a aprovação das grandes potências europeias, como herdeiro presuntivo do trono dinamarquês, então ocupado por Cristiano VIII, uma vez que seu filho, o futuro Frederico VII da Dinamarca, aparentava incapacidade de gerar descendência. Cristiano casou-se com a princesa Luísa de Hesse-Cassel, união que se mostrou decisiva para sua escolha como rei, já que a esposa, sobrinha de Cristiano VIII, possuía um vínculo mais próximo com a linha de sucessão do que ele próprio.
Seus seis filhos estabeleceram alianças matrimoniais com importantes casas reais europeias, conferindo-lhe o apelido de "sogro da Europa". Duas de suas filhas, as princesas Alexandra e Dagmar, casaram-se, respectivamente, com os monarcas britânico e russo, tornando o rei Jorge V e o imperador Nicolau II seus netos mais notáveis.
Início de vida Nascimento e família miniatura|esquerda|220px|O Castelo de Gottorf, local de nascimento de Cristiano O príncipe Cristiano nasceu em 8 de abril de 1818, na residência de seus avós, o Castelo de Gottorf, próximo à cidade de Eslésvico, no Ducado de Eslésvico, então parte do Reino da Dinamarca. Era o sexto filho, o quarto menino, do duque Frederico Guilherme de Eslésvico-Holsácia-Sonderburgo-Beck e de sua esposa, a princesa Luísa Carolina de Hesse-Cassel. Recebeu o nome em homenagem ao primo de sua mãe, Cristiano Frederico da Dinamarca, que ascendeu ao trono como rei Cristiano VIII da Dinamarca em 1839 e também foi seu padrinho.
O pai de Cristiano era o chefe da Casa de Eslésvico-Holsácia-Sonderburgo-Beck, um ramo cadete distante e de pouca relevância da Casa de Oldemburgo, a família real da Dinamarca. A linhagem descendia de um filho mais novo do rei Cristiano III da Dinamarca, o duque João de Eslésvico-Holsácia-Sonderburgo. João e seus descendentes receberam o título e o estatuto de duques, mas possuíam apenas direitos hereditários sobre Eslésvico e Holsácia, sem exercer soberania territorial. Devido ao grande número de filhos de João, o Ducado de Sonderburgo foi dividido, após sua morte, em vários pequenos ducados apenas nominais, formados por poucas propriedades e paróquias, o que gerava rendimentos insuficientes para sustentar um estilo de vida compatível com a posição social de seus titulares. A linhagem de Eslésvico-Holsácia-Sonderburgo-Beck foi fundada pelo duque Augusto Filipe, neto de João, e recebeu essa denominação a partir da propriedade do senhorio de Beck, pertencente ao primeiro duque. Os filhos de Augusto Filipe e seus descendentes ingressaram nos serviços militares prussiano, polonês e russo, até que seu bisneto, o pai do príncipe Cristiano, retornou ao Exército Real Dinamarquês e foi designado para à Holsácia. Foi nesse contexto que conheceu a princesa Luísa Carolina, filha do conde Carlos de Hesse-Cassel, que havia sido criada na corte dinamarquesa e se casado com a filha mais nova do rei Frederico V, a princesa Luísa. O conde Carlos construiu sua carreira na Dinamarca, onde alcançou o posto de marechal de campo e exerceu o cargo de governador dos ducados de Eslésvico e Holsácia.
Juventude e educação miniatura|220px|O Castelo de Glucksburgo, residência da família homônima O jovem príncipe passou os primeiros anos de sua infância com seus numerosos irmãos na residência de seus avós, o Castelo de Gottorf, tradicional sede dos governadores de Eslésvico e Holsácia. Em 6 de julho de 1825, o duque Guilherme foi nomeado Duque de Glucksburgo por seu cunhado, o rei Frederico VI da Dinamarca, uma vez que a antiga linhagem de Glucksburgo havia sido extinta em 1779 e o castelo homônimo encontrava-se desocupado.. Em decorrência disso, Guilherme alterou seu título de Duque de Eslésvico-Holsácia-Sonderburgo-Beck para Duque de Eslésvico-Holsácia-Sonderburgo-Glucksburgo, dando origem à posteriormente célebre Casa de Glucksburgo. A família transferiu-se então para o Castelo de Glucksburgo, onde Cristiano cresceu com seus irmãos sob a supervisão direta dos pais. O duque Guilherme escreveu certa vez a um amigo: "Educo os meus filhos de forma rigorosa, para que aprendam a obedecer, sem deixar de os preparar para as exigências e necessidades do presente". Contudo, o duque faleceu prematuramente em 17 de fevereiro de 1831, aos 46 anos de idade, em consequência de um resfriado que evoluiu para pneumonia e, segundo sua própria avaliação, também de escarlatina, doença que já havia acometido dois de seus filhos. Sua morte deixou a esposa viúva, sem recursos financeiros e responsável por dez filhos. À época, Cristiano tinha apenas doze anos.
Após a morte do pai, em 1831, o rei Frederico VI da Dinamarca, juntamente com Guilherme de Hesse-Philippsthal-Barchfeld, amigo próximo do falecido duque, assumiram a tutela de Cristiano e de seus nove irmãos. Nesse mesmo ano, o jovem príncipe manifestou o desejo de seguir carreira como oficial da Marinha. No entanto, durante uma visita do rei ao Castelo de Gottorf, pouco após o funeral do duque Guilherme, Frederico VI concordou com a mãe de Cristiano que ele deveria ser enviado a Copenhague para receber formação como oficial do Exército. A partir de 1832, um ano após a morte de seu pai, Cristiano passou a viver na Dinamarca e foi educado na Academia Militar Real de Copenhague. Ali, recebeu instrução particular e manteve pouco contato com os demais cadetes. Em contrapartida, foi bem acolhido pelo casal real, que não tinha filhos homens: a rainha Maria Sofia era sua tia, e o rei Frederico VI, primo de sua mãe. Em 1838, seu irmão mais velho, o duque Carlos de Glucksburgo, casou-se com a filha mais nova do casal real, a princesa Guilhermina.
miniatura|esquerda|220px|O Palácio Amarelo, residência de Cristiano na Dinamarca entre 1839 e 1865. Cristiano foi confirmado em 1835, na Igreja da Guarnição de Copenhague. No ano seguinte, foi nomeado capitão da Cavalaria Real Dinamarquesa e passou a residir no quartel da cavalaria, próximo ao Canal de Frederiksholm, em Copenhague. Viveu ali de forma modesta até 1839, quando o rei Frederico VI lhe concedeu um apartamento no Palácio Amarelo, nas proximidades de Amalienborg, onde residiu até 1865. Entre 1839 e 1841, estudou direito constitucional e história na Universidade de Bonn, juntamente com seu meio-primo Frederico Guilherme de Hesse. Durante esse período, em dezembro de 1839, recebeu a notícia da morte de seu patrono, o rei Frederico VI, que foi sucedido por Cristiano VIII, primo de sua mãe. Durante as férias universitárias, Cristiano realizou diversas viagens pela Alemanha e também visitou Veneza. Em 1841, retornou a Copenhague. No trajeto de volta, passou pela corte de Berlim, onde recusou uma proposta do rei Frederico Guilherme IV da Prússia para ingressar no exército prussiano.
Casamento Na coroação da Rainha Vitória, realizada em 28 de junho de 1838, na Abadia de Westminster, em Londres, Frederico VI foi representado por Cristiano. Durante sua permanência na capital britânica, Cristiano cortejou a jovem rainha, então solteira, porém sem êxito. Atendendo aos desejos de sua família, Vitória optou por se casar com seu primo, Alberto de Saxe-Coburgo-Gota. Ainda assim, a jovem soberana formou uma impressão favorável do Príncipe Cristiano, que tinha a mesma idade que ela e que, vinte e cinco anos mais tarde, viria a tornar-se sogro de seu filho mais velho, Alberto Eduardo, Príncipe de Gales.
miniatura|220px|A princesa Luísa de Hesse Cristiano, por sua vez, contraiu um casamento que teria consequências significativas para o seu futuro. No outono de 1841, ficou noivo de sua prima em segundo grau, Luísa de Hesse. Ela era filha do conde Guilherme de Hesse-Cassel-Rumpenheim, que serviu como general dinamarquês e exerceu o cargo de governador de Copenhague. O conde Guilherme era casado com a princesa Luísa Carlota da Dinamarca, irmã do rei Cristiano VIII, sendo Luísa, portanto, sobrinha do novo monarca. Ambos compartilhavam um bisavô em comum, o rei Frederico V. O casamento foi celebrado em 26 de maio de 1842, na residência dos pais da princesa, o Palácio de Amalienborg. Os recém-casados passaram a lua de mel em Kiel, onde visitaram o irmão mais velho de Cristiano, Carlos, e sua esposa, Guilhermina.
Após o matrimônio, o casal recebeu o Palácio Amarelo, localizado na rua Amaliegade, como residência oficial. Seus cinco primeiros filhos nasceram ali, entre 1843 e 1853: Frederico, em 1843; Alexandra, em 1844; Guilherme, em 1845; Dagmar, em 1847; e Tira, em 1853. À época, a família ainda era relativamente desconhecida e levava um estilo de vida consideravelmente burguês para os padrões da realeza.
"Sogro da Europa" Cristiano e Luísa tiveram um casamento bem sucedido, e os seus seis filhos realizaram casamentos notáveis em várias casas reais europeias, sendo pais, tios e avós de cinco monarcas europeus, Nicolau II da Rússia, Constantino I da Grécia, Jorge V do Reino Unido e Cristiano X da Dinamarca, afirmando a nova linhagem dinástica de Glucksburgo, como uma das mais mais proeminentes do continente.. Atualmente, a maioria das casas reais reinantes e depostas descendem de Cristiano IX e sua esposa. Entre seus descendentes estão os atuais reis Frederico X da Dinamarca, Haakon VIII da Noruega, Filipe da Bélgica, Carlos III do Reino Unido e Filipe VI da Espanha, bem como o atual grão-duque Guilherme V de Luxemburgo..
Herdeiro presuntivo da Dinamarca A linha de sucessão dinamarquesa Na década de 1840, tornou-se cada vez mais evidente que o Reino da Dinamarca enfrentava uma grave crise sucessória. Quando o rei Cristiano VIII ascendeu ao trono, em 1839, nem seu filho, o príncipe herdeiro Frederico, nem o irmão mais novo do monarca, o príncipe herdeiro Fernando, possuíam descendentes, tornando progressivamente improvável o nascimento de um herdeiro legítimo. Com isso, a casa real dinamarquesa reinante, o ramo principal da Casa de Oldemburgo, corria o risco de extinção. A crise sucessória apresentava um dilema particularmente complexo, uma vez que as normas de sucessão não eram uniformes em todas as partes do Estado dinamarquês, composto pelo Reino da Dinamarca e pelos ducados de Eslésvico, Holsácia e Lauemburgo.
miniatura|centro|800px|Esta árvore genealógica mostra a ligação de Cristiano com Frederico VII e demais monarcas dinamarqueses .
No Reino da Dinamarca, a sucessão era regulada pela Lei Real de Sucessão Dinamarquesa, promulgada em 1665, que reconhecia como herdeiros apenas os descendentes patrilineares do rei Frederico III, mas admitia a sucessão feminina na hipótese de extinção de todas as linhagens masculinas. Na Holsácia e no Lauemburgo, integrantes da Confederação Germânica, vigorava o direito consuetudinário, que previa exclusivamente a sucessão patrilinear, sem, contudo, restringi-la aos descendentes de Frederico III. Diante da existência de diversas linhagens masculinas colaterais da Casa de Oldemburgo com direitos sucessórios nos ducados, mas não descendentes de Frederico III, tornava-se iminente a possibilidade de separação entre a coroa dinamarquesa e os ducados. A extinção do ramo principal da Casa de Oldemburgo poderia, assim, pôr fim à união pessoal que ligava a Dinamarca a Eslésvico, Holsácia e Lauemburgo.