A Igreja Católica no Chile é parte da Igreja Católica universal, em comunhão com a liderança espiritual do Papa, em Roma, e da Santa Sé. O país vem passando por um forte processo de secularização de sua sociedade, com o afastamento dos valores e tradições católicos da população, além da perda de fiéis, especialmente para a irreligião. Com isso, tem havido aumento da intolerância e do fundamentalismo esquerdista contra a as igrejas cristãs, especialmente na região da Araucanía, com ataques, saques, depredações e incêndios a igrejas, relacionados ao conflito mapuche.
História Colonização europeia thumb|left|250px|A Primeira Missa celebrada no Chile, por Pedro Subercaseaux. Parte do Império Inca, a região em que habitava o povo araucaniano (ou mapuches), um grupo cujo feroz desejo de independência causou problemas aos exploradores espanhóis quando chegaram, em 1536. Entre os católicos que chegaram com os conquistadores, estava Rodrigo González de Marmolejo, que fundou a primeira paróquia do país em 1547. Pertencente ao território do Vice-Reino do Peru ao norte, o Chile tornou-se um vice-reino para a região. Os nativos foram forçados a migrar para o sul, e a colonização se limitou à região central, onde Santiago foi fundada em 1541, La Serena em 1544 e Concepción em 1550. Os padres logo chegaram à região: os mercedários em 1550, os franciscanos em 1553, os dominicanos em 1557, os jesuítas em 1593, os agostinianos em 1595 e os hospitaleiros de São João de Deus em 1617. Da mesma forma, foram estabelecidos conventos de freiras, como o da Limpia Concepción em Santiago (1574), bem como a ordem das Isabelas de Osorno. O Hospital de São João de Deus foi fundado em Santiago em 1541. O bispado de Santiago foi criado em 1561 e Rodrigo González Marmolejo se tornou seu governador.
Embora a escassez de padres e o afastamento da região continuassem a dificultar as missões, a situação foi um pouco remediada pela chegada dos bispos Diego de Medellín e Antonio de San Miguel Avendaño y Paz em 1569 e 1576, respectivamente, que organizaram a igreja. Foi decidido naquele momento que a doutrina seria apoiada pelo próprio povo nativo; que um doutrineiro serviria várias cidades ao mesmo tempo; e, finalmente, que um espanhol ou um mestiço se encarregaria de tarefas missionárias simples durante a ausência do doutrineiro. Essas autoridades ficaram conhecidas como "sayapayos" — mais tarde chamados de "fiscais" — que alcançaram uma certa importância em Santiago e grande influência em Chiloé. Os bispos Antonio San Miguel, da Diocese de Santiago, e Diego de Medellín, da Diocese de La Imperial (criadas em 1563) participaram do terceiro conselho em Lima em 1581, e colaboraram para que os decretos do Conselho dos Sacramentos, Doutrina, Catecismo para os Nativos e Reforma e Disciplina do Clero tivessem rápida aplicação rápida no território chileno. Após a perda de algumas cidades do sul entre 1599 e 1602, o bispo de La Imperial mudou sua sé para Concepción.
Na Diocese de Santiago e ao norte, os esforços de evangelização tiveram sucesso. Entre 1579 e 1621, o número de cristãos batizados aumentou de 36% para mais de 90%. Até 1650, quase todas as tribos não agressivas nessa região já haviam sido batizadas, resultando na substituição das doutrinas por um sistema paroquial que durou até 1810. Na Diocese de Concepción, por outro lado, havia problemas mais sérios; Exceto por Chiloé, na região entre os rios Maule e Biobío e nalgumas regiões próximas aos fortes, os araucanos rejeitaram o cristianismo, em parte por causa da guerra que estava sendo travada contra eles. O jesuíta Luís de Valdívia sustentava que para convertê-los seria necessário que as hostilidades fossem suspensas e a entrada de missionários sem aparato militar fosse permitida. Embora suas ideias tenham sido aceitas apenas pelo curto tempo de 1610 a 1615, jesuítas e franciscanos continuaram a se dedicar ao estabelecimento de missões entre as tribos nativas ao longo do século XIX.
thumb|right|200px|Estátua de Nossa Senhora, no Cerro San Cristóbal, em Santiago.
Apesar dos confrontos com os colonizadores, as ordens religiosas foram capazes de dar uma base sólida ao clero e construir igrejas, catedrais e seminários no século XVII. Os jesuítas fundaram colégios e desenvolveram um sistema de missões, a fim de alcançar lugares isolados. Ainda assim, a rebelião dos mapuches ao sul se estendeu até o século XIX, e os edifícios da igreja eram frequentemente destruídos por terremotos e por invasões de rebeldes nativos.
Sínodos foram convocados a fim de lidar com problemas de conduta de sacerdotes, escolas paroquiais, observância de feriados, catequese e ensino das classes mais baixas. Após a expulsão dos jesuítas em toda a América do Sul em 1767, os franciscanos assumiram toda a atividade da missão, bem como a operação de faculdades antes operadas pelos jesuítas. Eles centralizaram suas atividades no Colegio Misiones em Chillán. O batismo e outros sacramentos foram administrados, o ensino foi realizado e as línguas nativas foram aprendidas pelos missionários, no intuito de facilitar o entendimento e assimilação dos indígenas.
Independência thumb|200px|right|Dom Rafael Valentín Valdivieso No mesmo ritmo de grande parte dos outros países da América do Sul, o Chile se declarou independente da Espanha em 18 de setembro de 1810, ainda que seu status autônomo não seria reconhecido por mais sete anos. Em 1817, José de San Martín, o libertador da América do Sul, liderou 3.200 soldados pela Cordilheira dos Andes e derrotou os espanhóis nas batalhas de Chacabuco e Maipú. Durante a guerra da independência, a Igreja sofreu uma grave recessão. O bispo Rodríguez, de Santiago, foi exilado por causa de suas simpatias monarquistas, e o Colegio de Misión em Chillán foi dissolvido por razões semelhantes.
À medida que o novo governo se agarrava ao futuro do Chile como nação livre, a divisão do clero aumentou, atingindo o ápice entre 1824 e 1830. Apesar de o catolicismo ser a religião do Estado sob a Constituição de 1810, o governo decretou a tomada das propriedades do clero em 1824. Os serviços religiosos diminuíram e numerosas paróquias não tinham ninguém para servi-las; ordens foram desorganizadas e muitos sacerdotes religiosos foram forçados a ser secularizados.
Em 1830, após a estabilização da economia chilena devido à descoberta de minerais no Deserto de Atacama, a ordem foi restaurada e as instituições da igreja foram restabelecidas. As propriedades tomadas foram devolvidas e as relações normais foram retomadas entre o governo e e a Santa Sé. Santiago foi elevada a arquidiocese, e seu primeiro arcebispo foi Manuel Vicuña Larraín. As dioceses de La Serena e de San Carlos de Ancud foram erigidas em 1840. Cinco anos depois, a Arquidiocese de Santiago foi ocupada por Rafael Valentín Valdivieso Zañartu e, em 1854 a de Concepción por José Hipólito Salas y Toro, os quais realizaram reformas de longo alcance. O trabalho de Valdivieso em relação aos escritórios da cúria, ordens religiosas, restauração de seminários, escolas paroquiais, dentre outros, deu à Igreja no Chile uma base muito sólida para o período moderno. No final deste século, com a ocupação efetiva de Antofagasta e Tarapacá, foram criados vicariatos apostólicos para suas regiões.
thumb|right|250px|Fachada da Pontifícia Universidade Católica do Chile
Os nativos tinham número limitado de vocações no Chile. Apenas 17% dos padres eram mestiços em 1565, e uma ordem do rei Filipe II proibiu a ordenação de não europeus. Durante o período colonial, devido à escassez de sacerdotes, homens com sangue de um quarto ou menos ameríndios podiam ser ordenados, mas a ordem geral prevaleceu até a independência; Uma exceção foi feita quando quatro nativos foram ordenados em 1794 no Colegio de Naturales de Chillán. A independência chilena levou ao fim dessa proibição. A educação, que estava exclusivamente nas mãos da Igreja durante todo o período colonial, passou a competir com o Estado. Em 1888, a Pontifícia Universidade Católica do Chile foi criada e aprovada pelo Papa Leão XIII em 28 de julho de 1889, e erigida canonicamente por Pio XI no dia 11 de fevereiro de 1930.
Ao longo dos anos 1800, o Chile continuou a estender seu território, expandindo o sul para o Estreito de Magalhães, em 1843, Llanquihue, em 1848 e Araucanía, em 1884, enquanto ao norte foram conquistadas as províncias de Tarapacá e Antofagasta após a Guerra do Pacífico, na qual o Chile lutou contra o Peru e a Bolívia. A propagação da fé ao sul do Chile também foi avançada através do trabalho dos salesianos e capuchinhos. O território da Araucanía, onde nenhum trabalho missionário havia sido realizado desde o século XVI, atingiu uma população cristã de 29% em 1892. Os salesianos conseguiram fundar missões ao sul após esforços das Filhas de Maria, que tinham centros em Punta Arenas, na Ilha Dawson e na Terra do Fogo. A prefeitura apostólica da Araucanía, criada em 1848, tornou-se um vicariato apostólico em 1928.
Antes de 1810, a Igreja era organizada sob o padroado, que consistia em um sistema de patrocínio real exercido pelos reis espanhóis em troca de do direito de apontar prelados, como bispos e padres, o direito de fazer regras em questões religiosas, poder ante os tribunais eclesiásticos, a permissão para aceitar bulas e documentos pontifícios. Após a independência, o governo chileno também fez uso dessas mesmas prerrogativas, sem a aceitação da Santa Sé. Essa situação criou uma crise após 1850, que durou até a assinatura de uma concordata em 1925, após os esforços do presidente Arturo Alessandri e do então arcebispo de Santiago, Crecente Errázuriz. A Constituição foi reformada, estabelecendo a divisão entre Igreja e Estado e, em consequência, o desaparecimento definitivo do padroado. Além disso, Alessandri e a Santa Sé reafirmaram a capacidade da Igreja de se governar, sem qualquer tipo de interferência do Estado. A Pontifícia Universidade Católica de Valparaíso foi criada em 1928 e a Universidade Católica do Norte, em Antofagasta, foi reconhecida pelo Estado em 1963.
Ditadura militar Em 1970, os chilenos foram às urnas e elegeram o líder marxista Salvador Allende como presidente, e o governo de coalizão de comunistas e socialistas passou a tentar reduzir o poder da Igreja Católica no Chile. Allende quis nacionalizar a indústria, realizar a retirar a propriedade privada das terras, o que lhe rendeu a oposição não apenas dos chilenos conservadores, mas também dos Estados Unidos. Sob o governo de Allende, a economia chilena ruiu. Durante o regime de Augusto Pinochet, os abusos dos direitos humanos aumentaram devido às repressões contínuas do trabalho organizado e outras formas de oposição contra o governo. Os bispos chilenos foram francos em sua oposição a Pinochet e formaram o vicarato da solidariedade para lidar com os milhares de presos, torturados ou desaparecidos políticos. O plebiscito de 1988 foi agendado por Pinochet, e, graças aos esforços de líderes da igreja em conscientizar os fiéis, o presidente não conseguiu se manter no cargo. Em 1990, um governo eleito de forma livre e democrática volta ao poder.
Redemocratização Em 1997, foi aprovada uma lei que legalizou o divórcio, levando o cardeal chileno Carlos Oviedo Cavada a afirmar que a nova lei "tornaria todas as famílias instáveis, pois cria uma mentalidade de consciência indiferente" em relação à instituição do casamento. Um programa de educação sexual iniciado pelo Ministério da Educação foi retirado após a intercessão dos bispos chilenos. O presidente chileno Ricardo Lagos aboliu a pena de morte no país em maio de 2001, equilibrando a ação apoiada pela Igreja de aplicar punições mais rígidas para combater o aumento de crimes violentos e relacionados a drogas, em vez da pena máxima. Além disso, os esforços do Vaticano para mediar as disputas de território entre a Bolívia e o Chile foram apoiadas pela Igreja quando foram propostas em 1996.
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