Nísia Floresta Brasileira Augusta, pseudônimo de Dionísia Gonçalves Pinto, (Papari, 12 de outubro de 1810 — Rouen, França, 24 de abril de 1885) foi uma educadora, escritora e poetisa brasileira. Primeira na educação feminista no Brasil, com protagonismo nas letras, no jornalismo e nos movimentos sociais. Defensora de ideais abolicionistas, republicanos e principalmente feministas, posicionamentos inovadores na época, influenciou a prática educacional brasileira, rompendo limites do lugar social destinado à mulher. Capaz de estabelecer um diálogo entre ideias europeias e o contexto brasileiro no qual viveu, dedicou obras e ensinos sobre a condição feminina e foi considerada pioneira do feminismo no Brasil, além de denunciar injustiças contra escravos e indígenas brasileiros.
No cenário de mulheres reclusas ao casamento e maternidade, diante de uma cultura de submissão, foi a primeira figura feminina a publicar textos em jornais, na época em que a imprensa nacional ainda engatinhava. Dionísia Pinto ainda dirigiu um colégio para meninas na cidade do Rio de Janeiro e escreveu diversas obras em defesa dos direitos das mulheres, indígenas e escravos, envolvendo-se plenamente com as questões culturais de seu tempo, através de sua militância sob diversas vertentes. Em seu livro Patronos e Acadêmicos, referente às personalidades da Academia Norte-Riograndense de Letras, Veríssimo de Melo começa o capítulo sobre Nísia da seguinte maneira: “Nísia Floresta Brasileira Augusta foi a mais notável mulher que a História do Rio Grande do Norte registra”.
Trajetória como mulher da época Dionísia Gonçalves Pinto nasceu no dia 12 de outubro de 1810, em uma fazenda no município de Papari, atual Nísia Floresta, no Rio Grande do Norte. O grande pedaço de terra da família tinha nome de Floresta e estima-se que ocupa o que hoje são duas cidades. Filha do português Dionísio Gonçalves Pinto, que veio de Portugal para o Brasil no começo do século século XIX e trabalhava como advogado, e da brasileira Antônia Clara Freire, herdeira de umas das principais famílias da região. Dionísia tinha três irmãos: Clara, Joaquim e uma terceira irmã do casamento anterior de sua mãe viúva. Durante a infância e adolescência, passou por períodos de acentuada convulsão social, que contribuíram para sua formação.
Por conta das diversas insurreições que assolavam a região Nordeste na época - durante a permanência da Família Real no país - a família Gonçalves Pinto estava constantemente de mudança, principalmente por causa da origem e profissão do pai. Como português, sofria com as perseguições antilusitanas dos movimentos revolucionários e, como advogado, assumia causas que, por vezes, iam contra os interesses de notáveis proprietários de terras e fazendeiros locais. Dentro do estado de Pernambuco, a família passou por Goiana, Recife e Olinda, o que permitiu que Dionísia tivesse contato com diversas culturas e realidades ao longo da vida. thumb|Nísia Floresta antes dos 30 anos de idade
Em 1817, quando eclodiu a Revolução Pernambucana, o sentimento antilusitanista cresce ainda mais e a família é obrigada a se mudar da fazenda em Papari para Goiana. É nesse município, mais desenvolvido econômica e intelectualmente, onde Nísia Floresta inicia os estudos no convento das carmelitas. Além do estudo clássico manual e de canto, a influência do pai determina um primeiro contato de Dionísia Pinto com a cultura europeia e com o liberalismo, incentivada pela figura paterna a investigar livros da biblioteca do convento.
Seguindo a tradição da época, segundo a qual meninas entre doze e catorze anos já estariam prontas para o matrimônio, Nísia Floresta é forçada a se casar, em 1823, com treze anos de idade. A união se dá com Manuel Alexandre Seabra de Melo, proprietário de terras, mas dura poucos meses. Rompendo com o marido, Nísia retorna para a casa de seus pais que a recebem de volta, embora seja socialmente julgada devido à atitude considerada transgressora na época.
Ainda fugindo dos movimentos separatistas, a família mudou-se para Olinda, onde o pai acabou atuando em uma causa contra a elite local - a poderosa família Cavalcanti - e acabou, por conta desse antagonismo, assassinado em 1828. Nísia Floresta, que na época tinha dezessete anos de idade, descreve esse episódio da morte do pai em uma emboscada nos arredores de Recife: "Esse advogado, que fizera triunfar o direito de seu pobre cliente, alvo da injustiça atroz de um tal tirano, caiu de improviso sob os golpes de assassinos pagos por ele." (Floresta, 2001, p. 52)
No mesmo ano em que seu pai morreu, Nísia inicia um namoro com Manuel Augusto de Faria Rocha, acadêmico da Faculdade de Direito de Olinda. Ainda que acusada de adultério pelo marido de quem havia se separado, sofrendo ameaças do inconformado com o abandono, isso não impediu que Nísia Floresta tivesse sua primeira filha com Manuel Rocha, Lívia Augusta de Faria Rocha, nascida em janeiro de 1830. No ano seguinte, nasce seu segundo filho, que acaba morrendo precocemente pouco tempo depois.
Atuação nas letras thumb|Capa da 2ª edição de Direito das Mulheres e Injustiça dos Homens, 1833
O ano de 1831 é marcante pelas primeiras publicações escritas de Dionísia. Ela publica em um jornal pernambucano, chamado Espelho das Brasileiras, uma série de artigos sobre a condição feminina, sendo uma das mulheres pioneiras na contribuição para jornais da época. Em 1832, faz a publicação de seu primeiro livro: Direito das Mulheres e Injustiça dos Homens e assina pela primeira vez com o pseudônimo de Nísia Floresta Brasileira Augusta. A escolha se deu porque Floresta era o nome da fazenda onde nasceu, Brasileira pelo orgulho de seu país e Augusta como uma homenagem e recordação de seu segundo companheiro e grande amor.
Por muito tempo considerou-se que a obra fosse uma adaptação livre de A Vindication of the Rights of Woman, de Mary Wollstonecraft, pois a própria Nísia havia dito que nela se inspirara, mas estudos de Pallares-Burke (1995) e Oliveira & Martins (2012) demonstraram que Direito das Mulheres e Injustiça dos Homens é na verdade uma tradução integral de La femme n'est pas inferieure a l'homme, publicado em 1750, por sua vez uma tradução de Woman Not Inferior to Men, de uma escritora que só assina como Sophia. A identidade desta Sophia tem sido debatida, surgindo várias proposições: lady Mary Wortley Pierremont, lady Sophia Fermor, Philippe-Florent de Puisieux ou Madeleine d'Ansant de Puisieux.Coelho, Catarina Alves. Direito das Mulheres e Injustiça dos Homens: a tradução utópico-feminista de Nísia Floresta. Universidade de São Paulo, 2019, pp. 10-15
O título da tradução de Nísia publicado, primeiramente, na cidade de Recife em 1832 foi, segundo o autor Laurence Hallewell em sua obra O Livro no Brasil: sua historia, talvez "a mais interessante publicação do Recife desse período". No ano seguinte, em Porto Alegre, foi publicada pela Typographia de V. F. Andrade; e, no Rio de Janeiro, em 1839, pela Casa do Livro Azul.DUARTE, Constância Lima. “Nísia Floresta e Mary Wollstonecraft: diálogo ou apropriação?”. O Eixo e a Roda: Revista de Literatura Brasileira da Faculdade de Letras da UFMG, Belo Horizonte, v. 7, p. 153-161, 2001. Sua edição, mesmo que haja a polêmica se foi ou não uma tradução de A Vindication of the Rights of Woman, fez associar paulatino o nome de Wollstonecraft ao ideário feminista, ainda tão incipiente no Brasil.
A onda precursora feminista brasileira vem, tal como o primeiro livro de Nísia Floresta, inspirada por movimentos externos ao país. Nesse contexto, a autora tem papel relevante por sua capacidade de traduzir não apenas linguisticamente, mas também culturalmente a obra estrangeira, tornando possível a apropriação do discurso não para produzir réplicas, mas para construir adaptações à realidade nacional.
Ao assinar a publicação do livro, já com seu pseudônimo, a autora ganha o título incontestável de pioneira no movimento feminista brasileiro, denunciando o estado de inferioridade no qual viviam as mulheres de sua época e procurando romper com os preconceitos que as cercavam. Além do primeiro livro, sua colaboração em jornais, a partir de 1830, em Recife, também se fez notável através de seus contos, poesias, novelas e ensaios, posteriormente publicados em periódicos no Rio de Janeiro.
Publicado em 1841, seu segundo livro, Conselhos à Minha Filha, foi um presente de aniversário para Lívia, que completava doze anos. A partir de 1847, suas obras passam a contemplar mais a educação, nunca abandonando a bandeira da igualdade de gênero. Estão entre as publicações desse ano: Daciz ou A Jovem Completa, Fany ou O Modelo das Donzelas e Discurso Que às Suas Educandas Dirigiu Nísia Floresta Brasileira Augusta. Posteriormente, durante sua estada na Europa, Nísia ainda publicaria diversos relatos de suas viagens, suas obras, no entanto, se tornaram de difícil localização para os estudiosos. Seja porque se perderam ou porque, quando assinava, muitas vezes o fazia por pseudônimos. Artigos da autora assinados com o "Quotidiana Fidedigna", por exemplo, foram encontrados nos jornais O Recompilador Federal e O Campeão da Legalidade. De maio a junho de 1851, o jornal carioca O Liberal publicou uma série de artigos de Nísia, intitulados A Emancipação da Mulher, onde ela retomava a relevância da educação voltada às mulheres. miniaturadaimagem|esquerda|upright|Retrato de Nísia Floresta exposto na Escola Estadual Nísia Floresta e na Escola Municipal Yayá Paiva
Ainda com foco na questão pedagógica, em 1853, Nísia Floresta publicou seu livro Opúsculo Humanitário, uma coleção de artigos sobre emancipação feminina, merecedor de uma apreciação favorável de Auguste Comte, pai do positivismo. O conteúdo da obra sintetiza o pensamento da autora sobre a educação feminina, além de abordar a pedagogia de forma geral e apontar críticas a instituições de ensino da época. Ainda há nuances da temática do aleitamento materno, pauta defendida pela autora que considerava rude o tratamento dado às amas de leite por seus senhores.
A ideia de rompimento com a esfera privada, atribuída a Nísia, está diretamente relacionada com sua escrita. Em diversos textos, a autora discorre sobre si mesma, sua infância, seu falecido marido e seus familiares, tornando público de forma sistemática, inúmeros episódios de sua vida pessoal. Os diversos relatos de viagens produzidor por ela são pouco conhecidos, mas também tratam de uma rotina pessoal da autora. Entre eles estão o itinerário de uma viagem à Alemanha e três anos na Itália, seguidos de uma viagem à Grécia. O primeiro foi publicado em Paris, em francês, em 1857, e traduzido para o português somente em 1982. O segundo, também publicado em Paris, e em francês, em dois alentados volumes, em 1864 e em 1872, teve apenas o primeiro volume traduzido em 1998.
Logo após a publicação de Direitos das Mulheres e Injustiça dos Homens, a família se muda para Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, em 1832. No ano seguinte, Manuel Augusto morre e deixa Nísia viúva aos vinte e três anos. A partir de então, a autora passa a viver como chefe da família composta pela filha, mãe e duas irmãs, na capital gaúcha. O primeiro contato com o universo educacional data dessa época. Nísia administrou e lecionou em uma escola gaúcha, de 1834 até 1837, pouco antes da revolução farroupilha contribuir para mais uma mudança da família, dessa vez para o Rio de Janeiro, na época capital do Império.
Educação feminista