thumb|Capa do jornal Notícias Populares (NP) em 4 de março de 1996, cuja edição trazia fotos dos corpos mutilados dos integrantes da banda Mamonas Assassinas As fotos dos Mamonas Assassinas mortos foram um conjunto de imagens publicadas pelo jornal Notícias Populares que mostravam os corpos mutilados das vítimas do acidente aéreo ocorrido em 2 de março de 1996, dentre elas os corpos dos integrantes da banda Mamonas Assassinas, então no auge de sua popularidade. O registro fotográfico foi realizado por Fernando Cavalcanti, o primeiro profissional da imprensa a chegar aos destroços e a fotografar o local. Posteriormente, Cavalcanti se isentou da responsabilidade editorial, afirmando que a decisão de publicar as imagens "nunca foi de nenhum fotógrafo, porque nunca nos deixaram influir na decisão do que publicar".
Após a publicação das fotos, o jornal Notícias Populares bateu seu recorde de tiragem, imprimindo 250 mil exemplares e, num segundo momento, chegou a publicar um pedido de desculpas aos leitores por não ter conseguido suprir a demanda. A divulgação das imagens explícitas dos corpos, em grande parte irreconhecíveis, gerou comoção nacional e intenso debate público sobre os limites éticos do jornalismo. Duas décadas depois do acidente, elas ainda eram compartilhadas em páginas sensacionalistas.
Contexto
Em 2 de março de 1996, um sábado à noite, o jato executivo Learjet 25 que transportava a banda Mamonas Assassinas colidiu com a Serra da Cantareira, próximo ao Aeroporto Internacional de São Paulo-Guarulhos, resultando na morte de todos os integrantes da banda: Dinho, Bento Hinoto, Júlio Rasec, Samuel Reoli e Sérgio Reoli, além do piloto Jorge Luiz Martins, do copiloto Alberto Yoshiumi, do segurança Sérgio Saturnino Porto e do roadie Isaac Souto, primo de Dinho.
A banda retornava de um show realizado no estádio Mané Garrincha, em Brasília, quando a aeronave tentou pousar em Guarulhos, São Paulo, e fez o último contato com o aeroporto às 23h20. Após receber autorização para pouso, o avião arremeteu. Segundo investigações, uma manobra arriscada do piloto e o desrespeito a normas de segurança da aviação contribuíram para o acidente. O avião abriu uma clareira de cerca de 200 metros na vegetação, e destroços ficaram espalhados por uma extensão de 400 metros na mata. Uma das asas ficou pendurada em uma árvore.
As operações de resgate tiveram início à meia-noite de domingo, com cerca de 30 homens do Comando de Operações Especiais da PM (COE) e 20 bombeiros vasculhando a mata com lanternas. O primeiro corpo foi encontrado às 6h45, e os bombeiros chegaram a resgatar partes dos corpos num raio de cem metros. Os corpos foram içados por helicópteros entre 9h30 e 10h45, já que era impossível pousar no local. As vítimas ficaram, em sua maioria, irreconhecíveis: o vocalista Dinho, por exemplo, perdeu um braço e uma perna, e apenas um pedaço do maxilar permaneceu ligado ao tronco, o que permitiu seu reconhecimento por um tio. O enterro da banda, realizado em 5 de março em Guarulhos, reuniu 100 mil pessoas.
Os Mamonas Assassinas estavam no auge da popularidade. A banda havia estourado em 1995 com seu único álbum, que levava o nome do grupo e incluía sucessos como "Robocop Gay", "Vira-Vira" e "Pelados em Santos". À época do acidente, o disco já havia vendido mais de 1,75 milhão de cópias, tornando-se o recordista de vendas do ano, e o grupo começava a ganhar projeção internacional, com viagem marcada para Portugal. Parentes calcularam que cada integrante ainda ganharia 188 milhões de reais até os 65 anos, se mantivesse o ritmo de atividades dos últimos seis meses de vida. A banda que, em menos de um ano, tornara-se um fenômeno nacional, misturando escracho, virtuosismo musical e ironia, teve suas atividades encerradas abruptamente.
Produção O autor das fotografias é o fotógrafo Fernando Cavalcanti, que trabalhava no extinto jornal Notícias Populares (NP). Conforme seu relato em um artigo publicado no El País em 2018, na noite de 2 de março de 1996, um sábado, Cavalcanti era o fotógrafo plantonista da madrugada no NP, cobrindo uma folga do fotojornalista Zé Maria — sequer estava escalado para trabalhar naquela noite —, acompanhado do repórter Hélio Santos. Parte de seu trabalho consistia em monitorar a frequência do rádio da polícia para ir atrás de ocorrências que o jornal pudesse documentar. Nesse dia, ele e Santos ouviram, pela frequência de rádio da polícia, que o avião da banda Mamonas Assassinas havia caído. Eles então foram correndo para o local.
Ao chegar ao local, Cavalcanti encontrou outros jornalistas já postados, mas todos sem acesso à área onde seriam feitas as buscas por corpos. Devido à escuridão da noite, não foi possível encontrar os corpos, e as buscas foram retomadas pela manhã. Com o amanhecer, um helicóptero da TV Globo chegou e fez um acordo com a equipe de resgate: a emissora cederia a aeronave em troca de exclusividade no acesso às imagens do acidente. A polícia então começou a cercar os jornalistas em um canto, isolando a área.
Um grupo foi formado para acessar o local, momento em que Fernando Cavalcanti, que estava escondido no mato, tirou o colete que o identificava como fotógrafo e se infiltrou na equipe de resgate, indo atrás deles. Os profissionais do Notícias Populares usavam roupas escuras para passar despercebidos em favelas e cenas de crime. Cavalcanti conseguiu chegar perto do local exato do acidente sem que fosse notado, tornando-se o primeiro profissional da imprensa a chegar aos destroços e a fotografar a cena. Ninguém percebeu sua presença, já que a preocupação maior dos socorristas era com a tragédia. Cavalcanti levava apenas uma lente e, ao chegar ao local, descobriu que tinha somente um filme com 36 poses. O fotógrafo relatou o desespero ao se deparar com o primeiro corpo: "Não pelos corpos, mas por perceber que tinha só aquele filme. O resto tinha ficado na mala".
O que Cavalcanti documentou foram destroços do avião, equipamentos com o logotipo dos Mamonas Assassinas e os corpos em diferentes estados, encontrados a partir das 5h45. O vocalista Dinho, por exemplo, estava irreconhecível — apenas um pedaço do maxilar permanecia ligado ao tronco. Uma das imagens que o fotógrafo recorda é a dos corpos embalados sendo içados por helicópteros da polícia, já que era impossível pousar no local.
Após a Globo exercer seu direito de exclusividade, os demais jornalistas foram autorizados a trabalhar, mas permaneceram atrás de uma corda que isolava a região central do acidente. Nenhum outro fotógrafo conseguiu, portanto, imagens como as de Cavalcanti. Na época não era possível enviar fotografias digitalmente do local; um motoboy do jornal foi enviado para buscar os primeiros filmes e levá-los à redação. Mais tarde, Cavalcanti teve acesso a mais filmes.
O fotógrafo relata que, no momento da cobertura, não sentiu a dimensão do que fazia: "Na hora, você não sente que está fazendo uma cobertura importante, não pensa na importância das fotografias ou na relevância do acontecimento. Você simplesmente faz as fotos." O choque só veio horas depois, ao chegar para o almoço de domingo na casa dos pais e ver seus primos chorando diante da televisão: "A imagem dos meninos da banda começou a casar com a dos corpos que eu tinha fotografado". Foi nesse momento que também percebeu um detalhe: duas semanas antes, havia fotografado a banda em um show e ganhado uma camiseta preta com a inscrição "Mamonas". Naquela noite, sem notar, ele vestia a camiseta por baixo de outra blusa.
Cavalcanti trabalhava no Notícias Populares havia cerca de oito meses e já estava habituado a cenas de violência. "Vi mais mortos naqueles oito meses do que as pessoas veem numa vida. Quantos corpos você já viu? Uns dez?", perguntou. Ele explicou que o choque vendo imagens de cadáveres diminui com o tempo, e que a câmera funciona como uma mediação da realidade. Mesmo após o sucesso da cobertura, ele não foi contratado pelo jornal, saindo pouco depois, após o qual foi freelancer na Folha de S.Paulo. Menos de um ano depois, mudou-se para Londres.
Publicação
As fotografias produzidas por Fernando Cavalcanti no domingo foram publicadas na segunda-feira, 4 de março de 1996, dois dias após o acidente, pelo jornal Notícias Populares (NP), periódico ligado ao Grupo Folha que circulou entre 1963 e 2001. O jornal estampou em sua capa a manchete "Queda de avião mata a banda mais famosa do Brasil". A imagem de abertura mostrava o tronco do vocalista Dinho sendo arrastado por um bombeiro, e nas páginas internas vieram outras fotografias igualmente chocantes: um bombeiro segurando uma perna, fragmentos espalhados no mato, destroços confundidos com carne. O jornal publicou as imagens dos corpos mutilados sem qualquer censura. A editora à época, Eliane de Fátima da Silva Souza, revelou que havia fotografias ainda mais pesadas que poderiam ter sido publicadas e que parte da redação defendia essa linha — a lógica era simples e brutal: "se vende, imprime-se".
Após a publicação das imagens, o Notícias Populares bateu seu recorde de tiragem, imprimindo 250 mil exemplares. O jornal precisou rodar três ou quatro clichês e, na terça-feira, publicou um pedido de desculpas aos leitores — não pelo conteúdo, mas por não ter conseguido suprir a demanda. O jornal também organizou em sua redação uma exposição interna com as "melhores fotos" do acidente, que atraiu tantas pessoas que a segurança precisou suspender a visitação e impedir a entrada de mais interessados. O fotógrafo Fernando Cavalcanti conta que recebeu propostas de pessoas que queriam revender as fotos originais, mas recusou. Ele chegou a refletir dizendo que a cobertura do acidente teria mesclado "jornalismo, entretenimento e morbidez". No entanto, se isenta da responsabilidade editorial, afirmando que "a decisão de publicar isso ou aquilo nunca foi de nenhum fotógrafo, porque nunca nos deixaram influir na decisão do que publicar", e que "uma vez que você entrega as fotos para os editores do jornal, você não tem noção do que vai acontecer com elas".
Dias após o acidente, um homem apareceu na redação do Notícias Populares com uma mão em decomposição embrulhada num saco plástico. Ele havia ido "caçar souvenirs" do acidente e encontrado a mão no mato. Em vez de levar o membro à polícia, dirigiu-se ao jornal, tamanha a associação do NP com a cobertura da tragédia. O fotógrafo Rogerinho, da equipe do jornal, teve que registrar o material. O Notícias Populares faria ainda reportagens sensacionalistas como "Dinho morreu no banheiro do avião" e "Fã de Mamonas acha um braço na Cantareira", na qual consta que o membro foi trazido para a redação de ônibus, embrulhado numa edição do próprio jornal, que orientou o fã a entregá-lo ao Instituto Médico Legal. O braço foi reconhecido como sendo de Dinho e posteriormente enterrado com o vocalista.
Repercussão Reações A publicação das imagens dos corpos dos Mamonas Assassinas pelo Notícias Populares gerou comoção nacional e intenso debate público. A edição bateu recordes de tiragem, com 250 mil exemplares vendidos, mas também provocou revolta e ameaças. O fotógrafo Fernando Cavalcanti relata que duas décadas depois do acidente, quando alguém descobre que foi ele quem fez os registros, a reação é sempre a mesma: "Nossa, foi você?". Em sua reflexão, Cavalcanti contrastou o tratamento dado aos Mamonas com a cobertura cotidiana do jornal: "Publicávamos mortos todo dia. Quase sempre pobres. Às vezes havia denúncia. Outras vezes, as fotos só serviam para saciar a curiosidade mórbida dos leitores. E para vender mais jornal."