Maués ou mawés é uma etnia indígena da Amazónia, também conhecida por sateré-maué, sateré-mawé, maooz, mabué, mangués, manguês, jaquezes, maguases, mahués, magnués, mauris, maraguá, mahué e magueses. Falam a língua sateré-maué, integrante única da família linguística de mesmo nome, pertencente ao tronco tupi.

Etimologia Segundo algumas fontes, o nome da etnia seria uma junção das palavras sateré, que significaria "lagarta de fogo", e mawé, que significaria "papagaio inteligente e curioso". Por outro lado, um estudo conduzido por professores da Universidade Federal do Amazonas indica que os indígenas reconhecem o nome "Sateré-Mawé", mas que o termo "Mawé" seria desconhecido por eles, e não significaria papagaio. Um indígena entrevistado afirmou que a palavra era usada pelos brancos que não gostavam dos indígenas, e derivaria de "mau é".

História É possível que, no século XVII, os Sateré-Mawé ocupassem vastos territórios do planalto e das margens do rio Tapajós. Com o avanço colonial, migraram na direção das cabeceiras dos rios Andirá, Araticum, Abacaxis e Urariá. Nos registros históricos, foram citados por Pedro Teixeira, em 1626; pelos jesuítas João Maria, em 1661, e Samuel Fritz, em 1691; e pelo beneditino João de São José, entre 1762 e 1763. Em 1669 os jesuítas instalaram a Missão Tupinambarana nos limites do território desse povo.

Os registros coloniais e provinciais também qualificam de sedentários os Sateré-Mawé, que se teriam aproveitado das terras pretas, solos férteis apropriados ao plantio, e, desde os primeiros anos do século XVIII, comercializado o guaraná com os portugueses, além de objetos como enfeites de plumas. Por seu vasto e estabelecido comércio do guaraná constam no célebre mapa do padre Samuel Fritz, em 1691, sendo identificados como "mabués".

Os Sateré-Mawé conseguiram sobreviver melhor ao processo colonial, conservando inclusive a sua língua, ao contrário dos outros vizinhos de predominâncias nômades e muito mais agressivos - entre eles os Mundurucu, os Pirahan ou Mura e os Cauahib ou Parintintin que estiveram próximos da extinção.

A partir do contato com os brancos, e mesmo antes disso, devido às guerras com os Munduruku e Parintintim, o território ancestral dos Sateré-Mawé foi sensivelmente reduzido. Em 1835, eclodiu a Cabanagem na Amazônia, principal insurreição nativista do Brasil. Os Munduruku e Mawé (dos rios Tapajós e Madeira) e os Mura (do rio Madeira), bem como grupos indígenas do rio Negro, aderiram aos cabanos e só se renderam em 1839. Epidemias e perseguição aos grupos indígenas que com eles combatiam, deslocaram esses grupos dos seus territórios tradicionais, reduzindo-os.

Relações com os colonizadores Os maués jamais se afeiçoaram aos portugueses. Comandaram às suas mulheres que não aprendessem a língua portuguesa. A principal prova dessa resistência a Carta Instrutiva que aos diretores das capitanias do Pará e do Rio Negro, datada de 3 de outubro de 1769, mandou o governador Fernando da Costa de Ataíde Teive, nesses resumidos termos:

"Ao cabo da canoa dará V. Mcê ordens em meu nome no acto da partida pa. o Sertão, de não entrar em rio aonde conste qe. se poderá encontrar com Índios da Nação Manguês, porq. tendo mostrado a experiência que esses miseráveis homens resistem as praticas que se lhe fizer, para caírem das trevas do paganismo, pela introdução das ferramentas, e outros gêneros que vão comerciar com elles; he necessário reduzi-los a necessidade, para delles tiremos os fructos de os descer, quando se virem preconizados, o q. ha de certamente vir a succeder, vendose destituídos do socorro que lhe aqui inconsideradamente lhes tem levado...".

Participaram ativamente da Cabanagem, de 1835 a 1840. Sob o comando do tuxaua Manuel Marques, atacaram Luzéa, matando os trinta soldados do destacamento militar e os moradores portugueses do lugarejo, transformando a vila em reduto cabano. O tuxaua Crispim Leão liderou os ataques a Andirá e Tupinambarana.

No começo do século XX, fomentados pelas expedições dos seringueiros de Itaituba, aderiram e colaboraram, irrestritamente, com as forças militares do Estado do Amazonas, em 1916, no conflito armado travado contra o Estado do Pará, por conta de velha questão de limites entre essas duas unidades da federação.

Mito de criação Dentre muitas narrativas de criação, o escritor e educador Yaguarê Yamã descreve a história de um ente sobrenatural feminino da floresta chamada Anhyã-muasawyp, que estava exilada de seu jardim, o Nusóken, por seus dois irmãos, por ter gerado seu filho Karahu'ê de uma cobrinha-macho. Uma vez, para provar da castanha que havia apenas no Nusóken, o filho de Anhyã-muasawyp entrou escondido no jardim e foi direto para a castanheira. Lá, porém, estava a cotia, que recebera ordens de matar o garoto caso ele aparecesse. Quando a cotia o viu, obedeceu às ordens e matou o garoto, decapitando-o. Quando Anhyã-muasawyp encontrou o filho, chorou alto, dizendo: Está bem meu filho, foram seus tios que o mandaram matar. Mas se eles pensam que, matando, irão acabar com sua existência, estão muito enganados; irão ver que a sua morte se transformará em bênção e pelo seu destino, um fraco não hás de ficar. A mãe voou com o corpo do filho para a região do rio Marau. Lá, arrancou o olho esquerdo do garoto e o plantou em terras amarelas, onde nasceu o waraná-hop, o falso guaraná, chamado também de caferana. Depois, arrancou o olho direito e o plantou em terras pretas, no oeste do Nusóken, e desse olho nasceu a planta do guaraná, chamado de waraná-sesé.

Depois disso, a mãe fez magia no corpo do filho antes de o sepultar. Por isso, da sepultura do filho saíram muitos animais, que se espalharam na floresta. Finalmente, saiu da sepultura o primeiro homem, renascido de Karahu'ê, chamado Mary-Aypók, que significa “homem verdadeiro”. Depois saiu outro menino, o Wasary-pót. O primeiro casou-se com um papagaio, e o segundo, com uma ararapiranga. Desses casamentos surgiram os mawés.

Percebe-se que a origem do fruto do guaraná oriundo dos olhos do ente sobrenatural possui uma relação clara de semelhança, já que o fruto do guaraná se assemelha a um globo ocular.

Na cosmologia mítica dos maués, assim como na de muitos outros povos indígenas, as fronteiras entre o divino, o animal, o vegetal e o humano são mínimas e se interpenetram, de tal modo que a identidade humana se dilui nesses outros seres. Não há uma diferença radical, essencial e, portanto, existencial entre a humanidade, o animal, o vegetal e o sobrenatural, afinal, “a transformação só é exequível porque há algo em comum entre o ser e o objeto, animal ou planta em que um ser será transformado”.

Produção de guaraná História Os maués foram os inventores da cultura do guaraná, chamado de waranã em seu idioma. Foram eles que transformaram a trepadeira silvestre em arbusto cultivado, com o plantio e o beneficiamento dos frutos. A primeira descrição do guaraná data de 1669, o mesmo ano em que houve o contato com o homem branco. O padre João Felipe Betendorf escreveu que "tem os Andirazes em seus matos uma frutinha que chamam guaraná, a qual secam e depois pisam, fazendo dela umas bolas, que estimam como os brancos o seu ouro, e desfeitas com uma pedrinha, com que as vão roçando, e em uma cuia de água bebida, dá tão grandes forças, que indo os índios à caça, um dia até o outro não têm fome, além do que faz urinar, tira febres e dores de cabeça e cãibras".

O uso desse fruto é considerado fonte de saúde e está ligado à terra cultivável, como é possível ver no discurso do tuxaua sateré-maué Manuel, em 1933: "O guaraná é bom para fazer chover, para proteger a roça, para curar doenças e prevenir outras, para vencer a guerra, no amor, quando dois rivais pretendem a mesma mulher".

O relato mítico da origem do guaraná, que possui diversas versões, explicita, fortemente, a relação com a terra cultivável como o melhor caminho para a cura das doenças:Onhiámuáçabe era dona do Noçoquém, um lugar encantado, onde plantara uma castanheira, e os irmãos não queriam que ela casasse porque conhecia os remédios para todas as doenças. Quando apareceu grávida, os irmãos ficaram furiosos e como vingança a expulsaram e tomaram-lhe o Noçoquém. Para garantir o castigo, ordenaram que a cutia impedisse a entrada dela. Desobedecendo as ordens, Onhiámuáçabe levou o filho para comer castanha no Noçoquém. O menino gostou e voltou lá muitas vezes. Os irmãos enfurecidos ordenaram que matassem a criança. Onhiámuáçabe, ao perceber a falta do filho, correu em direção ao Noçoquém e o encontrou decapitado. Chorando e falando com o filho como se estivesse vivo disse: tu serás a maior força da natureza, tu farás bem aos homens, tu curarás as doenças.miniaturadaimagem|399x399px|Plantação de guaraná.

Cultivo do guaraná O cultivo do guaraná se inicia entre novembro e dezembro, quando começa o tempo das chuvas, com o preparo das mudas (chamadas de "filhos de guaraná"). Os agricultores escolhem nas matas os "filhos de guaraná" que tenham no mínimo um ano e no máximo quatro e os transportam para perto de suas casas, onde os plantam em grupos de dois, cruzadas em X, permitindo que as mudas apoiem-se uma na outra durante a época de crescimento. Essas mudas só se tornarão produtivas de dois a três anos após o transplante. O trabalho de recolher os "filhos de guaraná" na floresta, preparar as mudas, derrubar e queimar a mata, e transplantar as mudas é essencialmente masculino.

A floração do guaraná se dá de julho a setembro; os guaranazais começam a frutificar três meses depois do início da floração e os frutos reagem bem à umidade. Em outubro/novembro tem início o fabrico, ciclo produtivo de processamento do guaraná, que tem como produto final os chamados pães de guaraná, que são bastões desidratados da fruta. As atividades mais simples do fabrico - que não dependem de tanta arte e experiência - são feitas por mãos de variadas idades. Mas, quando se trata de tarefas mais especializadas, apenas os adultos e os idosos lidam com o waraná.

Çapó O çapó, guaraná em bastão ralado na água, é a bebida cotidiana, ritual e religiosa, consumida por adultos e crianças em grandes quantidades. Fora das sessões cerimoniais de çapó, ele é utilizado nos resguardos das mulheres, durante a menstruação, a gravidez, o pós-parto e o luto. Os homens bebem çapó durante o regime que antecede a “Festa da Tucandeira”, bem como quando estão se recuperando deste ritual e quando acompanham suas esposas após o nascimento dos filhos.

O çapó é preparado pela mulher do anfitrião ou uma de suas filhas. Rala-se o guaraná numa pedra que cabe na palma da mão, ou, mais recentemente, numa língua de pirarucu. Esta operação é feita com a bola ou o bastão de guaraná molhados, em fricção com a superfície da pedra ou da língua de pirarucu, formando uma espécie de uma “lama” fina de guaraná que vai sendo dissolvida com água dentro de uma cuia. A cuia quando não está no colo da fazedora do çapó, ou quando não está passando de mão em mão, permanece apoiada em um suporte confeccionado com cipó chamado patawi.

Quando a mulher que está preparando o çapó verifica que chegou a quantidade correta de guaraná ralado diluído na água, passa a cuia para seu marido, que primeiramente se serve de um pouco do çapó, para então passar para os presentes, entregando a cuia em primeiro lugar para os mais velhos ou para visitantes ilustres. Daí em diante, a cuia passa de mão em mão, e quando esvaziada é entregue para o dono da casa, que por sua vez devolve à esposa que prepara uma nova rodada de çapó. As sessões de çapó têm várias rodadas, ou seja, a mulher do dono da casa irá preparar várias cuias de çapó conforme a disposição dos visitantes e familiares de tomarem çapó e conversarem.