miniaturadaimagem|Bandeira A Ordem Suprema dos Mantos Negros (OSMN), também conhecida como “Maçonaria da Noite”, foi uma organização secreta e paramilitar brasileira de caráter nacionalista, sindicalista, eugenista, anticomunista e antiliberal, fundada por Joaquim Miguel Vieira Ferreira, conhecido como "Joaquim Metralha" ou "Tiroteio". Vieira Ferreira atuou como agente secreto desde a década de 1950, foi secretário-geral da Cruzada Brasileira Anticomunismo e agente do CENIMAR, serviço de informações da Marinha. A organização possuía características clandestinas e adotava símbolos, rituais e vestimentas inspirados na Ku Klux Klan, utilizando capuzes negros em vez dos capuzes brancos tradicionalmente associados à organização norte-americana.
Joaquim Vieira Ferreira foi um dos principais articuladores da organização desde os anos de 1950 até 1985, onde teve atuação especialmente no estado do Rio de Janeiro. Identificado com uma corrente de nacionalismo sindicalista, mantinha uma posição de oposição aos governos de Getúlio Vargas (1951–1954) e João Goulart (1961–1964), sobretudo em relação às suas orientações políticas e à influência de setores da oposição. Apesar de sua oposição aos governos, sua posição não era de rejeição absoluta às medidas adotadas por eles. Vieira Ferreira demonstrava admiração por determinadas políticas de caráter nacionalista e de fortalecimento do Estado, especialmente iniciativas de nacionalização de empresas ligadas a capitais estrangeiros e propostas de reforma agrária, que considerava compatíveis com seus ideais de soberania nacional e de proteção dos interesses dos trabalhadores.
A OSMN fazia uso de uma estrutura secreta e de rituais de iniciação. Integrantes utilizavam capuzes e luvas e realizavam juramentos com a saudação romana. Relatos também descrevem rituais de iniciação envolvendo um pacto de sangue e provas físicas destinadas aos novos membros. Documentos relacionados a Joaquim Metralha fazem referência à sua associação com a Ku Klux Klan e apresentam elementos relacionados aos cinco continentes, o que pode indicar uma pretensão de caráter internacional da organização.
Organização e atuação miniaturadaimagem|Dados documentais de um membro da OSMN
A Ordem fazia parte de uma rede mais ampla de organizações nacionalistas que atuaram no Brasil durante as décadas de 1950 e 1960. Sua estrutura clandestina, seus métodos de recrutamento e sua simbologia apresentavam características semelhantes às de outras organizações secretas e paramilitares do período.
A organização procurou ampliar sua influência no movimento sindical, especialmente no estado de São Paulo, utilizando sua vertente sindicalista como instrumento de recrutamento e disseminação de suas ideias nacionalistas. O grupo buscava aproximar-se de trabalhadores industriais e de setores do operariado, procurando conquistar espaços dentro de sindicatos e disputar a influência de organizações ligadas à esquerda. Eles também buscavam atrair o trabalhador industrial paulista de origem europeia, jogando-o contra os migrantes nordestinos que chegavam para disputar o mercado de trabalho.
Entre essas organizações estava a Ordem Secreta dos Primadistas, fundada no Rio Grande do Sul por Valdomiro Ramos Pacheco. Os Primadistas são descritos como uma espécie de filial sulista da OSMN, compartilhando métodos, símbolos e referências ideológicas com a organização de Joaquim Metralha. A existência dessa ligação amplia a compreensão da OSMN como parte de uma rede que ultrapassava o Rio de Janeiro.
A organização gaúcha apresentava uma estrutura hierárquica e possuía integrantes responsáveis pelo treinamento de grupos de homens. Jornais da época e estudos posteriores registram atividades de treinamento paramilitar em localidades próximas a Porto Alegre. Os primadistas também mantinham contatos com setores sindicais e buscavam utilizar esses espaços para conquistar apoio entre trabalhadores.
A relação entre as duas organizações também se manifestava na utilização de símbolos e práticas inspirados na Ku Klux Klan. Os primadistas, assim como os Mantos Negros, utilizavam vestimentas encapuzadas e rituais secretos. No Rio Grande do Sul, o movimento desenvolveu ainda uma simbologia própria, com uma bandeira formada por listras vermelhas e pretas, cinco estrelas e uma águia bicéfala.
Ideologia miniaturadaimagem|Integrante da Ordem Suprema dos Mantos Negros segurando a bandeira da organização A ideologia da Ordem Suprema dos Mantos Negros combinava nacionalismo, sindicalismo, anticomunismo, antiliberalismo e eugenismo, além de concepções racistas e xenófobas. O grupo defendia o fortalecimento da identidade nacional e a preservação de determinadas características que seus integrantes consideravam desejáveis para a população brasileira. Essas concepções eram acompanhadas por uma visão hierárquica entre diferentes grupos regionais, étnicos e culturais do país.
Entre as concepções atribuídas ao movimento estava a valorização de determinadas populações de origem europeia e a rejeição da miscigenação que seus integrantes consideravam excessiva. Nesse contexto, manifestações de caráter preconceituoso eram dirigidas especialmente contra nordestinos, cuja migração para centros urbanos como São Paulo e Rio de Janeiro era vista negativamente por setores do movimento. Os nordestinos eram associados, de maneira depreciativa, à miscigenação e a características culturais que os integrantes consideravam inferiores às de outros grupos regionais. Essas posições faziam parte de uma visão racializada e hierárquica da sociedade brasileira.
Dentro dessa visão, São Paulo e determinadas regiões do Sul do Brasil, especialmente Santa Catarina, recebiam uma valorização particular. São Paulo era associado ao desenvolvimento econômico, à industrialização e à tradição histórica paulista, além de ser relacionado ao mito bandeirante, cujos personagens eram apresentados, dentro da interpretação do movimento, como símbolos de liderança, força, iniciativa e progresso, associados à expansão territorial e à formação histórica do estado.
Santa Catarina, por sua vez, era valorizada pela presença de comunidades formadas por descendentes de imigrantes europeus, especialmente alemães e italianos. Segundo as concepções eugenistas da organização, essas populações seriam exemplos de maior preservação de determinadas características culturais e hereditárias. Dentro dessa perspectiva racializada, setores da população catarinense de origem europeia eram considerados pelos dirigentes como mais adequados ao ideal humano defendido pela organização.
O movimento teve atuação durante os governos de Leonel Brizola e João Goulart, período em que há relatos de treinamento paramilitar e de ações violentas contra opositores. Apesar de suas críticas ao governo, o grupo demonstrava certa admiração por aspectos do modelo de Estado forte defendido por Goulart, especialmente por medidas como a nacionalização de empresas ligadas a capitais estrangeiros, incluindo a Electric Bond & Share Company (Amforp), associada ao grupo J.P. Morgan.
Por outro lado, o movimento criticava a aproximação do governo brasileiro com a China de Mao Zedong e defendia um alinhamento internacional com regimes como a Espanha de Francisco Franco, além de países do Oriente Médio que se posicionavam em oposição ao Estado de Israel. Essa combinação de anticomunismo, nacionalismo econômico e defesa de um Estado forte diferenciava o movimento de setores liberais.
Após o Golpe de Estado no Brasil em 1964, Valdomiro Ramos Pacheco declarou inicialmente apoio ao novo regime. Com o passar do tempo, porém, passou a criticar o modelo econômico adotado pelo governo de Humberto Castelo Branco, que considerava entreguista e excessivamente alinhado a interesses estrangeiros. Essas divergências contribuíram para o enfraquecimento interno e, posteriormente, para a dissolução do grupo.
Relação com a Ku Klux Klan A organização também manteve contato com referências ligadas à Ku Klux Klan, cuja influência podia ser observada em sua simbologia, nos uniformes encapuzados e em determinados rituais secretos. Essa aproximação ocorreu principalmente por meio de Valdomiro Ramos Pacheco, fundador e líder da Ordem Secreta dos Primadistas.
Na época, uma das principais lideranças da Ku Klux Klan era Samuel Green (1889–1949), médico de Atlanta que havia ingressado na organização em 1922 e posteriormente se tornado Grand Dragon da Geórgia. Após a dissolução da Klan em 1944, Green participou de sua reorganização e, em 1946, reorganizou a organização na Geórgia, tornando-se uma das principais figuras da retomada das atividades da Klan no pós-guerra. Em 1949, foi eleito Imperial Wizard de uma Klan reorganizada, ocupando o cargo por um breve período antes de morrer de ataque cardíaco, poucas semanas depois.
Samuel Green teria mantido contato com Valdomiro Ramos Pacheco e elogiado o movimento brasileiro, demonstrando reconhecimento por sua organização e por seu caráter nacionalista e eugenista. A aproximação reforçava a inspiração dos primadistas em elementos da Klan e contribuiu para a adoção de práticas e símbolos semelhantes pelos integrantes do movimento.
A influência da Klan, por sua vez, fazia parte de uma relação mais ampla entre os primadistas e a Ordem Suprema dos Mantos Negros, da qual o grupo gaúcho é descrito como uma filial sulista. As duas organizações compartilhavam referências simbólicas, estruturas clandestinas e práticas ritualísticas, embora atuassem em diferentes regiões do Brasil.
Legado A Ordem Suprema dos Mantos Negros permaneceu associada à atuação clandestina e violenta do anticomunismo brasileiro. Sua ligação com a Ordem Secreta dos Primadistas demonstra que a organização possuía conexões que ultrapassavam sua principal área de atuação no Rio de Janeiro, com influências predominantes em São Paulo, Minas Gerais, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Mato Grosso.
A OSMN deixou ainda registros documentais relacionados a seus integrantes e à sua estrutura. Joaquim Miguel Vieira Ferreira continuou ligado à atividade nacionalista até sua morte, em 1982.
Existe uma banda brasileira do Rio de Janeiro com o mesmo nome inspirada na organização secreta. A banda tem letras com temas racistas que fazem referência a Ku Klux Klan e outras organizações criminosas, com o autor da banda se autodenominando como "Joan King Metralha", fazendo uma referência ao criador original da organização Joaquim Metralha.
Ver também Ordem Secreta dos Primadistas, uma espécie de "filial no sul do país" da OSMN
Categoria:Sociedades secretas