direita|miniaturadaimagem| Na Völundarkviða, Wayland Smith e seus irmãos casam-se com valquírias que se vestem com peles de cisne. Em folclorística, chama-se de história de "donzela-cisne" ou mulher-cisne a três tipos de contos: aquelas em que uma das personagens é uma donzela-pássaro, nas quais ela pode aparecer tanto como pássaro quanto como mulher; aquelas em que um dos elementos da narrativa é o roubo do manto de penas de uma donzela-pássaro, embora não seja o tema mais importante da história; e finalmente o motivo mais comumente referido, e também o de origem mais arcaica: aquelas histórias em que o tema principal, entre vários motivos mistos, é o de um homem que encontra a donzela-pássaro tomando banho e rouba seu manto de penas, o que o leva a se casar com a donzela-pássaro. Mais tarde, a donzela recupera o manto e sai voando, retornando ao céu, e o homem pode buscá-la novamente.

É um dos motivos folclóricos mais amplamente difundidos no mundo, provavelmente tendo muitos milênios, e é a figura sobrenatural de esposa mais conhecida em narrativas. Conforme o catálogo de Berezkin, o motivo da esposa celeste foi encontrado em 497 tradições culturais, ocupando o segundo lugar na lista dos mais frequentes, atrás somente do motivo de um herói que recebe tarefas e enfrenta desafios."Berezkin's Motif List".

Também faz parte do motivo maior da "Esposa Mágica", pertencente à categoria de índice ATU 400, "O Homem em Busca de Sua Esposa Perdida", em que o homem faz um pacto (e posteriormente rompe um tabu) com uma criatura feminina sobrenatural, que mais tarde parte. Esta categoria é uma das mais interligadas e centralmente referidas entre todas as outras histórias, por exemplo tal qual o tema do Matador do Dragão. De forma mais geral, é também chamado de motivo da donzela-pássaro ou da donzela celeste, pois nem sempre elas são cisnes: as propriamente chamadas donzelas-cisnes aparecem nas histórias das regiões mais setentrionais, nas quais fazem parte de um grupo onde as donzelas-pássaros são aves migratórias, entre outras variantes, como o ganso, o pato, o grou e a garça. A donzela celeste também pode aparecer em outras histórias como pombas, aves não migratórias como abutres, e também como estrelas ou ninfas celestiais.

A personagem da donzela-cisne em particular, propriamente dita, é uma criatura mítica que se transmuta da forma humana para a forma de cisne.Bäcker, Jörg. "Schwanjungfrau". In: Enzyklopädie des Märchens Band 12: Schinden, Schinder – Sublimierung. Edited by Rudolf Wilhelm Brednich; Hermann Bausinger; Wolfgang Brückner; Daniel Drascek; Helge Gerndt; Ines Köhler-Zülch; Lutz Röhrich; Klaus Roth. De Gruyter, 2016 . p. 311. . A chave para a transformação geralmente é uma pele de cisne ou uma vestimenta com penas de cisne presas. Em contos populares desse tipo, o personagem masculino espia a donzela, normalmente perto de algum corpo d'água (geralmente tomando banho), e então arranca as vestes de penas (ou alguma outra peça de roupa), que a impede de voar (ou de nadar para longe, ou a torna indefesa de alguma outra maneira), forçando-a a se tornar sua esposa.

A mais antiga versão confirmada de um registro sobrevivente aos moldes da narrativa de donzela-cisne se encontra na obra chinesa de cerca do ano 300, Soushen Ji. Porém o conto védico de Urvaxi é considerado o mais antigo. Existem paralelos em todo o mundo, notadamente o Völundarkviða e no Conto de Fadas KHM 193 dos Grimms "O Tocador de Tambor". Existem também muitos paralelos envolvendo outras criaturas além dos cisnes.

Visão geral em folclorística Os mitos são adaptados com os elementos encontrados no contexto local de cada cultura, sofrendo frequentemente alterações sutis, preservando a maior parte da estrutura original ou dos principais elementos prototípicos. Assim, todas as versões em que a donzela celeste é uma ave migratória são encontradas principalmente nas regiões mais ao norte, enquanto mais ao sul, as mulheres do conto são mais comumente aves não migratórias, podendo também ser estrelas ou ninfas celestiais. Também nas regiões mais meridionais, diferentemente das do Norte, as histórias das donzelas do céu geralmente têm valor antropogônico ou etiológico, explicando a origem dos humanos, das culturas, dos deuses, dos fenômenos celestes. miniaturadaimagem|360x360px| Distribuição areal do motivo: o quadrado branco com ponto preto indica onde a donzela do céu aparece como aves migratórias (cisnes, gansos, patos, grous ou garças); o círculo preto com ponto branco, onde ela aparece como pomba; o círculo preenchido em azul escuro, onde a donzela do céu é uma ave não migratória, estrela ou ninfa do céu. O estudo areal do mito da Donzela-Cisne começou em 1894, com Hyacinthe de Charencey. A proposta de suas origens na Índia por Theodor Benfey e pela escola finlandesa já foi desacreditada há muito tempo.

Houve também na folclorística uma vertente de interpretação naturalista que considerava as figuras mitológicas como representando forças da natureza. Nela, a mulher-cisne foi vista como a personificação da névoa acima das águas e sua elevação às nuvens do céu, o que se assemelha a cisnes em voo. Isso foi afirmado, por exemplo, por Baring-Goulding. Segundo Miller, como pássaro aquático a donzela-cisne pode combinar tanto atributos de águas terrestres, quanto de águas celestes, tal como o dragão na mitologia chinesa, e representar um papel fecundador da água.

Bo Almqvist considera que houve um tempo no passado em que era onipresente a crença de que "certos seres zoomórficos ou semi-zoomórficos – quer sejam expressamente considerados humanos encantados ou não – são capazes de remover a sua pelagem animal e assumir a forma humana". Em uma análise de Almqvist da tese de 1919 de Helge Holmström sobre o tema da donzela-cisne, ele diz que: "a Lenda da Donzela-Cisne é apenas uma de todo um complexo de lendas migratórias relacionadas a casamentos com seres femininos sobrenaturais ou sobrenaturalmente transformados", e que um outro grupo inclui aquele de seres aquáticos, como as sereias; existem semelhanças entre as histórias de donzela do céu e de donzela do mar.

Arthur T. Hatto conecta a origem do motivo da donzela-pássaro com a migração e o acasalamento de aves aquáticas migratórias (incluindo cisnes) e concepções totêmicas e xamânicas locais, como as possíveis noções de mulheres estrangeiras (com a analogia do aves migratórias) sendo relacionadas à feitiçaria; o marido empreendendo trabalhos e desafios em sua jornada de busca; ou uma analogia para o voo da alma. Ele também sugere que, devido ao foco do conto sobre o feminino, é provável que a história era contada por mulheres. O motivo também poderia estar espelhando práticas de casamento locais, como o rapto de mulheres, retiradas de seu território por homens com o intuito de forçar uma união.

Em algumas versões da história da Europa, como na mais antiga registrada delas, a do Völundarkviða, ou em Serglige Con Culainn, nota-se que o personagem masculino se encontra incapacitado ou em estado passivo devido à partida das donzelas-cisnes, como aves migratórias, durante o inverno.Frog, Etunimetön (2010). Baldr and Lemminkäinen Approaching the Evolution of Mythological Narrative through the Activating Power of Expression. A Case Study in Germanic and Finno-Karelian Cultural Contact and Exchange. Londres: University College. O mito também pode ter sido atrelado à importância que a tecelagem ganhou há milênios, como em suas versões do Japão em que as roupas de penas possuem importância cósmica e sagrada, e também há um substrato asiático que indica que os pássaros eram associado ao feminino e ao sagrado, frequentemente relacionados a deusas, originadoras da vida e fundadoras.

Yuri Berezkin afirma que este motivo pode ter surgido primeiro na Ásia, difundindo-se no Novo Mundo, e que um novo ecótipo chegou mais tarde ao Norte da Eurásia e foi novamente trazido para a América do Norte, c. 5000 a.C. Julien d'Huy identificou a presença da história da donzela-pássaro também em seis grupos linguisticamente isolados: os ainus, os bascos, os buruchos, os coreanos, os cofãs, os haidas, os tlingites e os natchez. Com base na cladística dos mitemas, obteve evidências estatísticas que concordam com a proposta de Berezkin de que o motivo chegou às Américas em duas épocas distintas. Ele assim reconstruiu o protomito (com mais de 75% de chance) como aparecendo primeiro no Leste Asiático seguindo esta estrutura:"O herói, um jovem, um bom caçador, surpreende as mulheres que se banham em um lago. Elas mantiveram a aparência de imortais ou criaturas sobrenaturais. Eles se despem e seus corpos ou roupas estão cobertos de penas. O herói agarra as roupas ou a plumagem da mulher mais bonita, mas não as esconde. A mulher nua pede ao herói que lhe devolva a roupa. Ela promete [em troca] casar com ele. Eles primeiro vivem no mundo do herói. Um dia, a mulher veste sua antiga plumagem e, depois de viver na terra, retorna ao céu. O homem tenta encontrá-la. Ele realiza diversas tarefas difíceis e perigosas, e sua busca termina feliz, com um reencontro com sua esposa. Porém, no final da história, o herói vive sozinho ou volta para casa sozinho."Entre centenas de outras categorias de motivos, o motivo da donzela-pássaro pertence a um grupo que constitui um núcleo central em escala global (ATU 400); entre os motivos que apresentam ao mesmo tempo uma grande distância de distribuição global e alta centralidade, ele está atrás apenas do motivo de figuras no disco lunar. D'Huy afirma:"Os diferentes tipos, ou conjunto de tipos, parecem, portanto, ligados por um número muito pequeno de histórias intermediárias. Estas histórias parecem, portanto, mais importantes do que outras na economia da narração, provavelmente atuando para os contadores de histórias como um intermediário mental ou um “intercâmbio rodoviário” entre grupos distintos de tipos de histórias. O sucesso cultural e a área de difusão dos contos-tipo não parecem explicar a centralidade das histórias, mas todas partilham a propriedade de serem provavelmente extremamente antigas, como se a carne do nosso folclore tivesse crescido numa ossatura muito mais velha que isso."

Motivos folclóricos e tipos de contos A folclorística estabelecida não reconhece formalmente "Donzelas-cisnes" como um único tipo de conto de Aarne-Thompson. Em vez disso, deve-se falar de contos que exibem o índice dos motivos de Stith Thompson "D361.1. Donzela-cisne", ou "B652. Casamento com pássaro em forma humana" e outros relacionados, que podem ser classificado AT 400, 313, ou 465A. Agravado pelo fato de que esses tipos de contos têm "nada menos que dez outros motivos" atribuídos a eles, o sistema AT torna-se uma ferramenta incômoda para manter o controle de paralelos para esse motivo. Buscando um esquema alternativo, um investigador desenvolveu um sistema de cinco paradigmas da donzela-cisne, quatro deles agrupáveis como um cognato do conto de Grimm (KHM 193, 92, 93 e 113) e o restante categorizado como o paradigma "AT 400". Assim, para uma lista abrangente dos cognatos mais parecidos com os contos da Donzela dos Cisnes, basta consultar os Anmerkungen de Bolte e Polívka ao Conto de Grimm KHM 193, o paradigma mais importante do grupo.

Antiguidade e origem

Literatura Foi sugerido que o romance da apsará Urvasi e do rei Pururavas, da antiga literatura sânscrita, pode ser uma das formas mais antigas do conto da Donzela-Cisne.Tuzin, Donald F. The Cassowary's Revenge: The life and death of masculinity in a New Guinea society. Chicago: University of Chicago Press. 1997. pp. 71–72.Karel Horálek. "Folk Poetry: History And Typology". In: Linguistics and Adjacent Arts and Sciences. Current Trends in Linguistics Vol. 12, Part 2. Berlin, Boston: De Gruyter Mouton, 2019 . pp. 749-750. O motivo também se encontra em registros antigos da China e Japão.